terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

LEIBNIZ E MARX

Uma das mais belas obras filosóficas contemporâneas intitula-se "A Dobra", de Gilles Deleuze, em que este autor trata das relações entre Leibniz e o barroco.

Leibniz inventou o cálculo matemático, simultaneamente com Newton, mas o que é o desenvolvimento histórico da matemática senão uma dobra barroca contínua das operações matemáticas sobre elas mesmas?

Sim, nesse diapasão, a soma, verbi gratia, converte-se em multiplicação que, por seu turno, convola-se em potência, e assim sucessivamente, de forma cada vez mais elevada, abstrata e distante da origem.

Nisso, a matemática simula o próprio capital em sua acumulação infinita, mediante a transformação da mais-valia em capital, isto é, o capital também constitui uma dobra barroca contínua. 

Talvez por tal razão Karl Marx tenha se debruçado com tanto afinco ao estudo da obra matemática de Leibniz. 

Hipóteses sub judice.






por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador.  

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

A METAMORFOSE, DE KAFKA A MARX.

A fragmentária e inconclusa obra literária de Franz Kafka exibe uma exceção, qual seja, a novela intitulada "A metamorfose", publicada ainda em vida e com a qual esse autor inescapável inaugura uma vertente artística que abroquela desde o teatro do absurdo até o realismo mágico.

Tal monumento literário encerra, ainda, conexões profundas com, pasmem, o socialismo científico, nos seguintes termos:

O dinheiro, aspecto abstrato e autonomizado da forma-mercadoria, guarda o condão de se metamorfosear, cotidiana e prosaicamente, em qualquer coisa, em qualquer valor de uso, da mesma forma como o caixeiro viajante Gregor Samsa transforma-se em um monstruoso inseto da forma mais prosaica e burocrática possível, totalmente sem rebuços.

Mas o milagre cotidiano da metamorfose do dinheiro em outras coisas encerra um paroxismo: a transformação do próprio ser humano em mercadoria, isto é, em força de trabalho, reduzindo-o assim a mero apêndice do capital, em suma, uma monstruosidade cotidiana que, todavia, não assusta nem deixa mais ninguém perplexo, dada a sua naturalidade no já vetusto modo capitalista de produção.

A monstruosidade da metamorfose de Kafka assemelha-se, assim, àquela de Karl Marx ao denunciar a exploração cotidiana do ser humano metamorfoseado na mercadoria consubstanciada na força de trabalho.

E da mesma forma como Kafka e Marx operam essa monstruosa metamorfose cotidiana e prosaica, assim também Alberto Giacometti metamorfoseia o ser humano em uma figura abstratamente esquálida e desprovida de textura existencial, como a força de trabalho, mas isso será oportunamente investigado. 





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador. 

domingo, 1 de fevereiro de 2026

ÓDIO DE CLASSE

Meu professor de matemática, um exímio e talentoso profissional da área de ciências exatas, sugeriu-me uma objeção ao socialismo científico veiculada por ninguém menos do que Bertrand Russell, em que ele desaprova o ódio entre classes sociais, suscitando destarte, no meu humilde modo de entender, uma questão complexa e tormentosa para o marxismo.

Louis Althusser, filósofo marxista francês, asseverava que os seres humanos são meros vetores de determinações estruturais do capital, o que se exibe infenso à noção jurídica de culpabilidade, bem assim contrário ao livre arbítrio dos seres humanos: isso também vem sendo muito bem investigado pelo neurocientista Robert Sapolsky, máxime em sua obra intitulada "Determinados".

Creio que a luta política entre classes sociais antagônicas mostra-se inevitável, mas o ódio subjetivo e pessoal que conduz a carnificinas históricas, e a verdadeiras hecatombes humanas, isso pode e deve ser evitado, talvez com indenizações como aquilo que venho denominando "renda do capital", vide meu texto intitulado "Ecologia", aqui publicado.

Todavia, a opinião acima, dirão, também é socialmente determinada pela minha condição pequeno burguesa. 

Enfim, um tema extremamente complexo.




por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador.