A fragmentária e inconclusa obra literária de Franz Kafka exibe uma exceção, qual seja, a novela intitulada "A metamorfose", publicada ainda em vida e com a qual esse autor inescapável inaugura uma vertente artística que abroquela desde o teatro do absurdo até o realismo mágico.
Tal monumento literário encerra, ainda, conexões profundas com, pasmem, o socialismo científico, nos seguintes termos:
O dinheiro, aspecto abstrato e autonomizado da forma-mercadoria, guarda o condão de se metamorfosear, cotidiana e prosaicamente, em qualquer coisa, em qualquer valor de uso, da mesma forma como o caixeiro viajante Gregor Samsa transforma-se em um monstruoso inseto da forma mais prosaica e burocrática possível, totalmente sem rebuços.
Mas o milagre cotidiano da metamorfose do dinheiro em outras coisas encerra um paroxismo: a transformação do próprio ser humano em mercadoria, isto é, em força de trabalho, reduzindo-o assim a mero apêndice do capital, em suma, uma monstruosidade cotidiana que, todavia, não assusta nem deixa mais ninguém perplexo, dada a sua naturalidade no já vetusto modo capitalista de produção.
A monstruosidade da metamorfose de Kafka assemelha-se, assim, àquela de Karl Marx ao denunciar a exploração cotidiana do ser humano metamorfoseado na mercadoria consubstanciada na força de trabalho.
E da mesma forma como Kafka e Marx operam essa monstruosa metamorfose cotidiana e prosaica, assim também Alberto Giacometti metamorfoseia o ser humano em uma figura abstratamente esquálida e desprovida de textura existencial, como a força de trabalho, mas isso será oportunamente investigado.
por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador.
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