quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Bolsonarismo





Bolsonaro sabe que não vai implantar uma ditadura num golpe. Ele vai domesticar as instituições, depois desfibrar e esvaziar. Mas é um processo longo que passa pela vitória em 2022 numa eleição controlada pelo governo. Essa é a estratégia. Demanda logística, negociação internacional, propaganda ideológica etc.

Mas a nova cartada dele é a explosão social e ele se prepara para isso tática e operacionalmente. Sabe que a esquerda não dirige mais processos de massas nas ruas. Vide junho de 2013.

A esquerda se levanta localmente. Mesmo simultaneamente. Mas não centralizadamente. A direita disputa a direção onde pode e usa a violência onde também pode.

Bolsonaro conta com o imprevisível a seu favor, que é a revolta social. A esquerda não pode ser contra, mas não pode dirigi-la. Essa é uma inversão histórica. A direita (fascista) é revolucionária. A esquerda é "conservadora".
O que temos do nosso lado é um campo popular histórico, um líder que pode ser (im) previsível e a possibilidade de buscar no passado não a gestão da vida sob o capitalismo, mas a revolução social. Por isso a juventude se interessa por Marighela.

O fascismo tem mil caras. A principal diferença que vejo é a posição privatista. Mas nos anos 1930 toda a economia se deslocou para o consenso estatista.

Ainda assim naquele momento o fascismo nem sempre foi imperialista ou nacionalista salvo no discurso e em aventuras militares fracassadas como Itália e Espanha. Nem sempre foi altamente mobilizador (Portugal). Nem sempre uma ditadura aberta (Mussolini governou com os comunistas na oposição parlamentar até 1926). Quando a Alemanha anexou a Áustria fez da Itália um estado vassalo porque historicamente a razão de Estado italiana jamais permitiu ter uma fronteira com a Alemanha. Igualmente, a adoção de leis raciais não tinha nenhum sentido ideológico na Itália e deteriorou mais ainda o regime. Nem todo país fascista é soberano.

Bolsonaro é fascista. O seu regime ainda não é.
Claro que a história é indeterminada. Um acontecimento pode alterar a correlação de forças. A guerra comporta o acaso segundo Clausewitz. Mas o acaso só é aproveitado por quem se preparou para a guerra.

L. Secco

Relatório - Revista Mouro


Relatório Mouro - outubro de 2019

Às e aos militantes do NEC

Lincoln Secco


1. A atual editoria não tem responsabilidade por este relato. É meramente pessoal. A Revista Mouro atingiu seu número cabalístico 13 conforme era o objetivo inicial. Temos o número 14 pronto, mas ainda sem editoração. Temos uma nova editoria a partir do número 15 que acredito possa ainda ser ampliada. As e os novos membros vão com toda certeza melhorar muito a revista. Um novo ciclo se inicia e um velho deixa a cena depois do seu nítido esgotamento.

2. Sem o enorme esforço de Ciro e Lígia (que continuarão) a revista jamais seria publicada. Claro que cada companheira e companheiro do NEC ajudamos sempre que possível. Assim como pessoas de fora, como da ComArte e do Gmarx.

3. A revista tem muitos méritos: persistir foi o maior deles; adotou a capa dura, inovou no plano artístico graças ao Ciro e a artistas convidadas por ele; captou artigos de acadêmicos nacionais e internacionais; criou um ótimo conselho editorial; conquistou uma boa nota na Capes para uma revista militante; antecipou muitos debates no Brasil.

4. A revista publicou especialmente jovens estudantes. Algumas já estão hoje em posição dirigente em seus partidos ou terminando doutorado, publicando livros. Fizemos a melhor aposta ao não exigir titulação. Também tentamos equilibrar a publicação de homens e mulheres.

5. Pedimos que algumas companheiras fizessem um número exclusivo de artigos assinados por mulheres com temática livre para que não se restringissem ao “feminismo”. Também os desenhos foram só de mulheres. A revista foi muito elogiada à época. E criticada veladamente por homens marxistas. Evidentemente, essa foi uma iniciativa que hoje pode ser criticada por outros pontos de vista. As lutas e avaliações melhoram. Estávamos começando a compreender a questão e ainda hoje não conseguimos.

6. O Gmarx forneceu artigos de várixs jovens e auxiliou nas vendas. Doravante, o grupo não trabalhará mais com consignação. Deve comprar a preço de custo a revista com a ajuda financeira de receitas próprias ou de amigxs (nesse ano eu e Takao, por exemplo). Não haverá estoque na sala da USP.

7. Mas devemos reconhecer os fracassos também. Isso não é culpa individual de ninguém, já que todo mundo dedica um pouco do tempo que sobra após o trabalho para as tarefas da Mouro. A revista tem péssima distribuição, embora com um bom ponto de vendas no cine unibanco da Augusta.

8 Outro problema é o projeto editorial. Muita gente do meio acha que se tornou insuficiente. Foi doado por um companheiro militante de O Trabalho: Alexandrinho, salvo engano. Como não participei diretamente dessa escolha eu não me recordo se a Ligia atuou no projeto original e peço desculpas se estiver enganado. E cumpriu muito bem o seu papel. Estávamos começando e não sabíamos nada. Devemos ser gratos. Porém, ele pode ser agora modificado sem perder a base que já foi construída no passado. Podemos contratar alguém para renovar o projeto e a Ligia pode continuar fazendo os números seguintes.

9. Nunca conseguimos uniformizar os artigos segundo as normas editoriais. Elas poderiam ser revistas e poderíamos levar a sério essa cobrança sobre os e as autoras.

10. Erramos ao retirar a revista da internet. Foi uma cautela exagerada após a vitória do nazi fascismo. Mas não éramos só nós com essa avaliação. É hora de recolocar a revista no ar.

11. Sugiro que já nesse número 14 a gente mude a sistemática de revisão. Em vez de mandar um arquivo para cada pessoa, é melhor preparar o texto completo, editorar e, depois, submeter o arquivo à revisão da comissão editorial. Já houve casos de confusão de arquivos e cada pessoa que pedimos para ajudar revisa de um jeito diferente. Um problema a se pensar.

12. Ainda acredito que é necessário entregar uma coleção completa ao arquivo da Fundação Perseu Abramo. Eles aguardam há anos e a companheira Adriana do GMarx trabalha lá e pode garantir que será arquivado. Eu já falara sobre isso com a Luana que chefia algumas coisas por lá.

13. Mouro é dialeticamente um conjunto de erros de uma caminhada acertada. Difundimos o marxismo entre jovens de diversas correntes e dialogamos muito com todxs. Mas já publicamos nome de autor errado, nunca cumprimos prazo algum, esquecemos de publicar artigos de autores que entregavam no prazo certo, só temos déficit, já radicalizamos a linha editorial à revelia do núcleo durante um período (nesse caso por culpa minha e do Ciro: foi autoritarismo libertário), vetamos um artigo de algum desafeto e também ouvimos muito blá-blá-blá e fizemos ouvidos moucos. Há muitos outros. Mas entre um erro e outro, nós sonhamos.

Aquele abraço!