sexta-feira, 14 de junho de 2024

POLÍTICA 2

 Uma Conjuntura Perigosa

(Texto para Discussão Interna)

Carlos Félix

Lincoln Secco

(Membros do NEC- PT)


“…uma pergunta não formulada nos acompanha, se soubermos ler, caderno por caderno, página por página: como isto foi possível; como isto poderá cessar?”.

(Palmiro Togliatti, sobre os Quaderni de Gramsci).


Vivemos no mundo uma nova etapa histórica: a do fascismo. No Brasil, os bolsonaristas perderam o poder executivo, mas têm a maioria das trincheiras da sociedade civil. A mídia se realinhou à direita e a simpatia eleitoral pelo governo caiu. O empresariado começou a romper com Lula. São movimentos ainda fragmentados, sem coordenação, mas que podem evoluir com rapidez a depender de como os inimigos enxergarão as oportunidades. 

O primeiro objetivo é impedir Galipolo no BC e trocar Haddad, malgrado suas promessas ao deus mercado, por alguém mais fundamentalista. Haddad é cristão novo. Apesar do arcabouço fiscal estar sob a lógica liberal, ele não é aceito pelo empresariado. Vejam-se as declarações do empresário Ometto e do presidente da CNI, confederação de proprietários de galpões num país desindustrializado. Para eles o arcabouço aumenta as despesas na medida em que a receita aumenta. O que deveria ser feito? Abater dívida e reduzir gasto público sempre.

Além disso, o arcabouço não é sustentável sem mexer nas metas de resultado primário do governo, aquele que exclui o pagamento de juros da conta. Na avaliação dos investidores, se Lula for reeleito, ele terá mais força para repactuar a disputa pelo orçamento público. Soma-se a isso o fato do governo eventualmente defender alguma política tributária progressiva.

O segundo objetivo da Direita, portanto, é derrotar Lula nas urnas. E para isso transforma retrocessos na legislação em derrotas do governo, quando na verdade são derrotas da civilização, inclusive de muitos liberais. Note-se o exemplo da maior criminalização do aborto, uma verdadeira armadilha eleitoral cujo objetivo é levar o governo a vetar, desagradando assim o eleitor conservador, ou sancionar com ressalvas virando as costas para os avanços civilizacionais.  

O terceiro, se não der certo o primeiro, é o impeachment. As instituições estão deslegitimadas e ninguém se importa com a democracia. O frágil pacto com os liberais para derrotar o bolsonarismo ruminante vai sendo substituído pela adesão desses ao bolsonarismo de garfo e faca. Claro que o governo pode piorar as coisas, atacando benefícios sociais e alterando o piso constitucional da saúde e educação, por exemplo, o que seria um erro porque isso depende de maioria qualificada no congresso e poderá vir de lá. Ao inviabilizar as propostas de tributação progressiva e fim de algumas desonerações, o Congresso joga o governo no canto do ringue para que ele tome a iniciativa de cortar gastos sociais ou deixe de fazer investimento gerando um ciclo virtuoso na economia.

Mas com todos os erros do governo, lamentamos informar que a esquerda não suportará outro golpe parlamentar, mesmo porque, diferente daquele, este seria abertamente um golpe de feição fascista. Lula não tem a mínima chance de aprovar nada no congresso, está cercado pela mídia, forças armadas, judiciário, casta política e metade ou mais dos eleitores. Lula, goste a esquerda ou não, é o único nome com capital eleitoral e popular. É o único muro de contenção do avanço da barbárie.

As futuras eleições para a Presidência da Câmara e as municipais agravam o quadro. Deslumbrado pelo poder sem limites que exerceu durante o governo anterior, Lira parece se agarrar à ideia de que é uma espécie de primeiro ministro e quer a qualquer custo impor um nome seu à presidência da câmara, talvez ele mesmo assumindo um cargo na mesa diretora. O Centrão existe fisiologicamente, porém se aproveita da ideologia fascista para cobrar mais caro os apoios pontuais ao governo. Como em política os vazos não são comunicantes, mas sim contaminantes, muitos deputados centristas vestiram a máscara do fascismo e ela não descola mais. Os que a retiram, são destruídos pela propaganda bolsonarista.

Se o PT passar pela tempestade, abre-se a oportunidade de criticá-lo no seu sexto mandato, lutar por avanços etc. Exigir isso agora é falar para ouvidos moucos. Não vai acontecer, pois o PT está convencido que precisa insistir nas alianças e na moderação. O outro caminho seria a mobilização popular contra o Congresso e o Banco Central. Todavia, a sociedade civil está desarticulada, sobrando apenas um governo em recuo como última trincheira. O projeto que criminaliza o aborto pode ser um estopim de mobilizações de rua. Assim esperamos.

A Esquerda, que sempre foi o front antissistema, precisa criar molecularmente novos valores, propor reformas com capacidade de aglutinar maiorias e gerar movimentos de massa nas ruas.

CURVA DE PHILLIPS

 A curva de Phillips, tão debatida, está correta, mas não pela velha ladainha econômica da oferta e demanda, ou pelo processo de circulação de capital.


Ela está correta como previsto por Marx ao descrever a lei do declínio tendencial da taxa de lucro do capital!


Sim, pois uma baixa taxa de desemprego obsta que o capital diminua salários para arrostar tal lei, restando a alternativa de aumentar os preços dos produtos, das mercadorias por ele produzidas, engendrando inflação!




Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira, historiador.

quinta-feira, 13 de junho de 2024

ROUSSEFF E TAVARES

 A taxa de desemprego no Brasil no primeiro trimestre deste ano ficou em 7,9%, menor índice em dez anos, quando ficou em 7,2% em 2014.


Foi esta baixa taxa de desemprego que derrubou a presidenta Dilma Rousseff, e não eventual suposto desarranjo fiscal como repete incessantemente a velha ladainha econômica!


Sim, pois o emprego em alta obsta que o capital arroste o declínio tendencial de sua taxa de lucro mediante diminuição salarial, restando o simples aumento de preços das mercadorias produzidas como alternativa, isto é, a inflação!


Estamos vivendo um momento histórico parecido com a década passada, cabendo destacar que os discursos golpistas da mídia burguesa brasileira contra o presidente Lula já começaram com força!


Definitivamente, o capitalismo não convive bem com a situação econômica favorável à classe trabalhadora, como bem demonstrou a já saudosa mestre Maria da Conceição Tavares, amiga de Dilma Rousseff, ao demonstrar que a desigualdade social anda de mãos atadas com o crescimento capitalista!


Um brinde a Rousseff e Tavares, mulheres gigantes do Brasil!







Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira, historiador.

IMPÉRIO ROMANO

 O esplendor das elites do Império Romano radicava no modo de produção escravista antigo, a saber, era sustentado por uma massa de trabalhadores escravos cujo padrão de vida era deplorável.


Houve um grande progresso com o advento do modo de produção feudal, em que os servos da gleba, a saber, os trabalhadores rurais exibiam uma liberdade maior e eram menos espoliados do que os escravos romanos, tanto que a elite medieval não ostentava o esplendor de seus homólogos antigos, mas essa liberdade dos servos criou a base material e econômica que originou o atual capitalismo, em que o esplendor das elites voltou com toda a intensidade, ao lado da penúria dos trabalhadores proletários.


Em geral, a ideologia dominante mede o progresso pelo esplendor das elites, obliterando a pobreza dos trabalhadores!


O progresso é relativo, portanto, mas o modo comunista de produção vindouro aniquilará tal relativismo, oferecendo o progresso a todos os cidadãos do planeta!





Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira, historiador.

quarta-feira, 12 de junho de 2024

ROSA LUXEMBURGO

 O aumento da composição orgânica do capital representa o ápice da alienação e da reificação ínsitas ao capitalismo, eis que a demanda do capital constante aumenta em maior velocidade que a demanda do capital variável, malgrado a produção econômica como um todo esteja voltada à satisfação de necessidades humanas, e não as necessidades dos meios de produção.


Todavia, o que move o capitalista a aumentar essa composição orgânica, se ela conduz ao declínio tendencial da taxa de lucro do capital?


Bem, o aumento da composição orgânica do capital geralmente vem acompanhado por um desenvolvimento dos valores de uso das mercadorias, criando novas necessidades humanas veiculadas por novos valores de uso, inéditos e caros!


Talvez, essa revolução constante nos valores de uso funcione como válvula de escape do capitalismo, ao lado do imperialismo descrito por Rosa Luxemburgo!





Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira, historiador.

GREYSTOKE

 Quando Fidel Castro afirmava que o capitalismo é uma selva, fazia um elogio ou uma crítica?


Uma criança da aristocracia britânica sofre um naufrágio e é criada por uma comunidade de macacos na selva africana; volta para a civilização mas, inadaptado, retorna para a selva para viver entre os macacos: eis o enredo do filme Greystoke, a lenda de Tarzan, o rei dos macacos, de 1984.


Belo filme que nos indaga a propósito da ideia de progresso, tão cara à denominada civilização ocidental!


Eu particularmente entendo que vivemos em barbárie no âmbito do capitalismo, um modo de produção injusto e ineficiente!


Progresso, mesmo, somente quando a humanidade alcançar o modo comunista de produção!


Detalhe: Fidel, por óbvio, criticava o capitalismo na afirmação acima!




Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira, historiador.

terça-feira, 11 de junho de 2024

LÓGICA APOFÂNTICA

 A lógica formal aristotélica considera o tempo, como na dissociação entre causa e efeito por ele separados, mas não o descreve, não o examina na sua essência e seu funcionamento.


A lógica dialética, ao subverter o princípio aristotélico da não contradição, hauriu a essência do tempo, pois o ser passou a conter sua negação, descrevendo o movimento histórico em seu âmago.


A lógica dialética seria mais consentânea com a teoria da relatividade, que subverteu o tempo linear e abstrato do relógio, próprio da experiência empírica individual?


Creio que sim, pois originou o materialismo histórico que, como Einstein, considera e descreve o movimento da matéria, dos corpos.






Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira, historiador.

segunda-feira, 10 de junho de 2024

FASCISMO, UM SÉCULO DEPOIS!

Le Pen, Meloni, AfD, Orbán, Trump, Bolsonaro, Milei, etc.

Um século depois, assistimos perplexos a uma nova onda internacional política associada ao fascismo e outros nacionalismos de extrema direita. 

Será que o capitalismo internacional está a demandar uma nova guerra mundial para corrigir seu rumo?

As grandes revoluções industriais do capitalismo foram de fato seguidas por períodos políticos bastante conturbados, a exemplo da grande Revolução Industrial inglesa do final do século XVIII, da segunda revolução industrial no final do século XIX, que foi depois acompanhada pelas duas grandes guerras mundiais na primeira metade do século passado, e agora esta nova onda nacionalista de direita política que está a seguir a revolução digital do final do século passado. 

Aventamos anteriormente nesta plataforma digital a hipótese de que as guerras podem atuar beneficamente na economia, mais ou menos como uma destruição criadora, na hipótese de Joseph Schumpeter. 

Um alerta, todavia:

Como lembrava Albert Einstein, a terceira guerra mundial não podemos exatamente saber como será disputada, mas a quarta será decerto com paus e pedras. 



por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador.   

domingo, 9 de junho de 2024

COMUNISMO: ALGUNS ESCLARECIMENTOS

Dessume-se do estudo detido de obras como A ideologia alemã e o Manifesto comunista, de Marx e Engels, que o comunismo somente será alcançado em escala mundial, com a superação de fraturas de classes sociais e também de Estados nacionais, inaugurando a verdadeira Humanidade despojada de tais divisões históricas. 

Cuida-se de modo de produção que decorre do movimento histórico, a saber, de uma tendência cientificamente observada na própria história, mas que não se exibe inevitável, eis que depende da ação humana informada pela respectiva teoria científica, cabendo destacar que ele sucede o modo de produção capitalista que, por seu turno, sucedeu o modo de produção feudal, o qual sucedeu o modo de produção escravista antigo, e assim sucessivamente. 

Não se trata, pois, de uma simples opção política derivada da mente de algum sábio, mas de uma tendência histórica cientificamente investigada.

O impropriamente denominado comunismo do século XX da União Soviética e dos países a ela vinculados, na verdade, foram experimentos históricos de socialismo, isto é, uma época de transição para o modo comunista de produção, o qual somente será atingido em escala mundial, restando evidente que ainda não houve experiência concreta de tal modo de produção na história. 

A propriedade dos meios de produção no comunismo será coletiva, pertencente a toda a humanidade unificada pela superação das classes sociais, sendo certo que, segundo este que humildemente vos dirige a palavra, a planificação da economia restará a cargo de uma forma de algoritmo central que coletará e processará os dados de produção e consumo de todos os habitantes do planeta, que enviarão tais dados pela rede mundial de computadores (atual internet) e observarão as ordens enviadas pelo algoritmo, em processo parecido com o centralismo democrático, sendo certo que a diretriz básica de tal algoritmo será: de cada um conforme sua potencialidade, a cada um conforme sua necessidade. 



por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador. 

sábado, 8 de junho de 2024

GUERRA: OUTRAS DIVAGAÇÕES

Encerraria a guerra o condão de acelerar a história?

É cediço que Marx asseverou em O Capital que a violência é a parteira de toda velha sociedade que está prenhe de uma nova. 

É também notório, até mesmo pela sua difusão nas artes cinematográficas, o papel da Segunda Guerra Mundial na célere desinibição da ciência da computação, provocada pela necessidade de decodificação dos códigos militares nazistas, em que o matemático britânico Alan Turing desempenhou função axial, malgrado a deselegância criminosa com que este cientista foi tratado pelo governo inglês, devido à sua ostensiva homossexualidade. 

A guerra civil conhecida como Revolução Puritana do século XVII, também em paragens britânicas, muito provavelmente acelerou o processo de derrocada feudal e constituição da primeira democracia burguesa da história, bem assim a revolução industrial do século seguinte na mesma Inglaterra.

Os exemplos históricos dessa aceleração, notadamente no âmbito capitalista, são inesgotáveis, de tal sorte que se nos antolha ocioso enumerá-los. 

Mas que dizer do longo feudalismo europeu, mil anos de guerras infindáveis que, malgrado esse fato, exibia letargia econômica também notória se comparada com o hodierno modo capitalista de produção?

Talvez, as guerras cumpram seu papel acelerador da história mais especificamente no capitalismo atual, ou na eclosão desse modo de produção onde ele ainda se encontra embrionário.



por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador.  

GUERRA: DIVAGAÇÕES

Qual o impacto das guerras na economia?

Estima-se que a economia da Rússia cresça 3,2% este ano de 2024, malgrado as sanções que lhe foram impostas pelo Ocidente, enquanto a economia israelense recupera-se velozmente após uma queda abrupta no início do conflito na Palestina. 

Poderíamos aventar a destruição criativa de Schumpeter para avaliar o impacto econômico dos conflitos bélicos? Bem, teríamos que levar em consideração a dimensão da destruição na Ucrânia e na Palestina, por exemplo, mas parece que a indústria de armamentos, que produz um impacto importante no desenvolvimento tecnológico, sempre beneficia-se com as guerras. 

Mas e os índices de desenvolvimento humano em países em conflito armado? A concentração de renda na população respectiva, como fica?

Países que arrostam uma guerra civil também crescem economicamente?

Enfim, parece-me uma questão deveras complexa, esta do impacto das guerras na economia, mas isto é importante, por exemplo, quanto à repercussão econômica de uma revolução política que envolve conflito armado. 

No caso de uma revolução socialista, por exemplo, seria mesmo interessante indenizar os capitalistas pela apropriação estatal dos seus meios de produção, em arranjo político apto a evitar uma guerra civil?  




por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador. 

DIREITO

O fenômeno jurídico é rigorosamente platônico, na exata medida em que veicula um mundo ideal despojado das contradições encontradiças no mundo real. 

Cuida-se, pois, de departamento essencialmente conservador, considerando que o motor da história radica precisamente nas contradições do real, como demonstraram os dialéticos influenciados por Hegel, Marx aí incluso. 

Todavia, o fenômeno jurídico encerra um potencial transformador se for engendrado por lentes invertidas, a saber, o mundo ideal não como mundo atual despojado de suas contradições, mas o mundo ideal futuro, vindouro, nomeadamente o modo comunista de produção que resolve as contradições capitalistas, mais ou menos consoante as proposições de uma constituição dirigente, nos moldes aventados por Gomes Canotilho, eminente jurista português.

Evidentemente, o modo comunista de produção encerrará outras formas de contradição, mas não aquelas ínsitas no capitalismo, de tal sorte que o direito antolha-se-nos, outrossim, fenômeno historicamente perene.





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador.

quinta-feira, 6 de junho de 2024

MEMORIAL

 FANTASIA BARROCA

 

Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira

 

Dedicado a ManinaMadu e, in memoriam, a Valtinho e Ci

 

 

1. Mogno e pedra sabão. 

 

Em sede preambular, exoro, aos eventuais leitores destas páginas de jaez memorialista, encarecidas escusas por encetar o vertente discurso mediante um singelo exercício de digressão metalinguística atinente à peculiar equivalência entre as artes da literatura e da ventriloquia, pois se esta última empresta a voz do ilusionista a seus bonecos articulados de mogno, não é menos verdadeiro que aquela beneficia-se da fértil imaginação do escritor para atribuir alma a suas personagens, de tal modo que se faz mister, com a máxima urgência, que os mais destacados literatos prestem suas contas e paguem devidamente seus emolumentos à decadente confraria dos ventríloquos, a qual, lamentavelmente, subsiste à míngua dos parcos contributos de seus raros associados hodiernos, e isto desde que o telefone celular e a famigerada rede internacional de computadores substituíram o mundo real e analógico das entidades de carne, osso e madeira pelas insípidas e insossas telas de imagens digitais. 

 

Isto posto, é hora de me identificar. 

 

Respondo pelo epíteto de Alcides e tive o grato privilégio da longevidade, eis que, entre os anos de 1909 e 2003 da era cristã, fui galardoado com a honra de desfrutar, com meus coetâneos, de noventa e quatro primaveras neste mundo caudaloso, sendo certo que exerci orgulhosamente o ofício de farmacêutico autodidata, mas me foi também concedida a façanha de poder despertar, como mágico ilusionista e ventríloquo diletante, variegados sorrisos e assombros em semblantes pueris, adolescentes, adultos, idosos e vetustos, veiculando por vezes conforto e esperança onde havia somente rasgos de melancolia. 

 

Ora, o leitor atento perceberá liminarmente que o presente relato não se mostraria exequível sem o concurso de outrem, já que prestei a prévia informação de minha extinção no ano de 2003, quando me despedi peremptoriamente desta vida, o que me obsta, jurídica e materialmente, de formular este memorial, razão pela qual desde logo apresento-lhes meu neto batizado como Luís Fernando, o qual aqui comparece, em consonância com nossa metalinguística precedente, na qualidade de ventríloquo cujo loquaz boneco sou eu mesmo, cabendo divulgar nesta ocasião que este meu fiel e mui amado descendente já veio ao mundo sob a égide, o pálio e as bênçãos de dois titãs da poesia lusitana e universal, a saber, Luís de Camões e Fernando Pessoa, cujos prenomes lhe foram egregiamente atribuídos no ato do registro civil das pessoas naturais, fato que, nada obstante, pouco se amolda ao temperamento deste querido parente, o qual na verdade inclinou-se de forma mais manifesta à prosa cartorial e labiríntica de um Franz Kafka, sendo certo, aliás, que Luís Fernando adotou por ofício a mesma função de causídico da orbe infortunística, tão cara ao exímio novelista de Praga.

 

Oportuno obtemperar que a arte da prestidigitação e do ilusionismo mágicos, que desempenhei com certa fidalguia por determinado tempo, antolha-se-nos em muito caudatária do mesmo espírito galhofeiro e sardônico que se divisa na obra de Kafka, cuja novela intitulada A Metamorfose rompeu inapelavelmente a crisálida da corrente literária vulgarmente denominada realismo fantástico, mas também conhecida como realismo mágico, parecendo lícito aventar que o abrupto advento, na narrativa desta corrente,  daquilo que escapa ao que normalmente acontece na realidade empiricamente observável, constitui traço compartilhado com a mágica dos ilusionistas e prestidigitadores, plena de varinhas que se metamorfoseiam em buquês de flores, de moedas metálicas que afloram de narizes e orelhas de infantes estupefatos e que caem estrepitosamente em baldes prateadosde copos que não descolam de cima de livros repentinamente virados para baixo, de pombos que obedecem aos comandos do mestre e que somem de um lugar para aparecer em outro, de outras varinhas rígidas que derretem ao simples toque de crianças incrédulas, de cartolas de onde emergem coelhos de dimensões incompatíveis com o tamanho do mencionado chapéu, de argolas de ferro desprovidas de lacunas ou furos mas que se interpenetram com grande estrondo para formar figuras geométricas similares à arte cinéticaenfim, de tudo aquilo que não soa natural nem corriqueiro, mas que engendra assombro, espanto, risos, gargalhadas, desconfiança e uma portentosa dose do mais puro, honesto, despretensioso e ingênuo entretenimento coroado por ovações que provocam inefável sensação de contentamento e júbilo no respectivo artista. 

 

Já devem ter colocado reparo que a imodéstia pode consistir, muito provavelmente, em certa falha de caráter daquele que vos dirige a palavra, mas humildemente devo esclarecer que, se a mágica detinha morada no mais recôndito âmago do meu átrio esquerdo, o fato é que a ventriloquia exibia o condão de usucapir meu corpo e minha mente da maneira mais avassaladora, completa regozijante, a ponto de ter sido considerado um dos melhores ventríloquos de minha época em meu país, conquanto tal ocupação tenha representado mero diletantismo em minha longa existência, eis que executava tal atividade amadora apenas nos finais de semanaem apresentações para animar festas familiares da elite da cidade de São Paulo, inclusive como forma de haurir um cabedal extraordinário, embora diminuto, para auxiliar um tantinho no orçamento doméstico de um farmacêutico autodidata cujos rendimentos mal cobriam as despesas decorrentes da manutenção de um lar composto por esposa e quatro filhos, sendo certo, portanto, que posso quedar subsumido na classe social do proletariado, a despeito de jamais ter abraçado com fervor qualquer causa política, seja de esquerda ou direita no espectro ideológico, absorto que estava em prover uma subsistência digna para minha relativamente numerosa família, e malgrado ter sido procurado por entidades político-partidárias e lojas maçônicas que se interessaram, sem lograr êxito, por minha adesão aos seus quadros permanentesinteresse este que talvez fosse decorrente de alguma exposição pública que minha atividade diletante de mágico e ventríloquo tivesse por pressuposto, mas isto não posso asseverar com a devida segurança, configurando mera conjectura carente de confirmação.

 

Demais disso, ainda no compartimento dedicado à minha identificação, devo observar que fui engendrado, concebidonascido e criado no logradouro assombrado e mítico conhecido pela alcunha de São João del Rei, na região encantada das cidades barrocas do estado de Minas Gerais, mas por uma ironia do destino não cheguei a travar conhecimento de meu próprio pai, que partiu deste mundo quando eu ainda ostentava idade demasiado tenra para fazer ideia de qualquer coisa, parecendo interessante notar que ele sucumbiu letalmente ao resvalar e cair de elevadíssimo desfiladeiro, em algum dos penhascos tão típicos do lugar, quando pastoreava um rebanho de ovelhas de propriedade de seu patrão, mas muito provavelmente tal acidente laboral deva ter remanescido sem ensejar qualquer forma de indenização à minha querida genitora, dada a precariedade das leis e instituições trabalhistas e previdenciárias na época, sendo certo que minha mãe contraiu segundas núpcias com um senhor muito distinto, conquanto também sem muitas posses, que me tratou como se seu próprio filho eu fosse, razão pela qual sempre o considerei carinhosamente como meu verdadeiro progenitor, pelo qual minha mãe nutria um amor sincero e honesto, malgrado ela padecesse de afecção dos nervos que se agravou com o curso do tempo, de tal sorte que deste segundo enlace matrimonial não resultaram outros descendentes, o que me conferiu a condição de filho único sobre os ombros de quem ulteriormente, com o passamento deste padrasto, ainda relativamente jovem, restou o encargo de cuidar da mãe doente, encargo este que jamais se convolaria em fardo e do qual me desincumbi com galhardia e airosamente, dados os estreitíssimos laços de afeto e ternura profundos que me atrelavam àquela que me trouxe a lume, de modo que discorrer sobre sua história exibe-se tarefa árida e dolorosa, uma dor lancinante que corrói a medula óssea e dilacera o cerne da alma

 

Cumpre anunciar, não obstante a chaga que isso me provoca, que minha saudosa mãe chamava-se Rosa Margarida, e recordo-me muito bem que seu cabelo preso em forma de coque consistia em evidência suficiente de que seu humor estava sob controle, pois, ao revés, quando ela amanhecia com os seus lisos e castanhos cabelos livres e soltos, decerto que o curso do dia seria aterrorizado e chancelado pela sua nefasta afecção nervosa, uma insanidade epidérmica que tempos mais tarde a conduziria ao confinamento em famoso nosocômio psiquiátrico no município de Franco da Rocha, onde ela, literalmente, viria a falecer e ser inumada, eis que morreu na véspera do feriado da Independência e o telegrama que informava o acontecimento não me chegou a tempo em São Paulo, de sorte que quando visitei o dito manicômio, no dia seguinte, revelaram-me o ocorrido com a notável impassibilidade típica dos que cuidam daqueles que não sabem o que fazem aqui na Terra, o que provocou em minha esposa, que me acompanhava na ocasião e estava grávida de minha primeira filha mulherum surto de risos copiosos e estridentes em um amálgama de incredulidade, nervosismo, tristeza e mesmo alívio, ao passo que eu mesmo fui jogado, estarrecido, em estado de paralisia transitória por um considerável lapso temporal.

 

Mas tratemos agora de assuntos mais edificantes.

 

Epifania catártica, eis a locução invariavelmente evocada pela reminiscência da primeira ocasião em que experimentei, aos dez anos de idade aproximadamente, o universo maravilhoso dos circos, um episódio que lograria escavar sulcos profundos e indeléveis na tábua argilosa de minha então incipiente personalidade, cabendo destacar que se tratava de um circo relativamente singelo, montado na periferia da cidade mineira onde nascimas com suas extensas lonas de coloração azul e vermelha, bem assim seu carrossel de cavalinhos nas cercanias da respectiva entrada, e com apresentar, como algumas de suas principais atrações, acrobatas, equilibristas, trapezistas, anões, domadores de leões, elefantes adestrados, palhaços, globo da morte, homens bala e, naturalmente, um formidável mágico ilusionista e ventríloquo, atração esta que arrebatou minhas entranhas viscerais de plano, e desde então eu soube que também seria capaz de reproduzir aqueles números de transformações inusitadas, manifestações e desaparecimentos inexplicáveis, pessoas se esquivando de situações de aprisionamento aparentemente inescapável, enfim, tudo o que arrostava acintosamente o comportamento habitual daquilo que se convencionou designar por realidade, mas o maior encanto, obviamente, exsurgiu quando um boneco articulado de madeira de lei começou a se movimentar e a proferir anedotas no colo daquele mágico, isso foi demais para mim, sabe-se lá por que motivo, mas receio que aquele embrião dos vindouros autômatos exercia fascínio por mimetizar os humanos, malgrado ser fabricado por eles com material inflexível e rígido, portanto impermeável à penetração da alma em seu âmago.

 

Poucos dias depois, sobreveio-me outra epifania catártica, agora por ocasião de uma visita, com meus pais, ao santuário de Bom Jesus de Matosinhos, na localidade de Congonhas do Campo, alguns quilômetros distante de São João del Rei, onde o conspícuo escultor barroco Antônio Francisco da Costa Lisboa, vulgo Aleijadinho, concebeu um proscênio guarnecido por doze estátuas de pedra sabão de grandes dimensões que representam profetas bíblicos, uma obra prima da arte universal declarada patrimônio da humanidade pela UNESCO no ano de 1985, de tal sorte que a visão daquele conjunto ensejou-me uma comoção tal que talvez tenha sido o maior êxtase de minha vida, pois, meninote que era, jamais atinara que se pudesse extrair tamanha beleza de pedra bruta, máxime na estátua do profeta Daniel afagando um leão em seu entorno, que me evocou os domadores de feras do circo de dias antes, e eu comecei a elucubrar que, naquele logradouro sagrado, Deus poderia conceder alma àquela escultura magnífica, malgrado ter sido lapidada em mineral duro e mais impermeável à penetração do sopro divino, portanto, do que a madeira de que eram feitos os bonecos de ventriloquia, mas eis que repentinamente o profeta Daniel de pedra sabão encetou a falar e conversar comigo em voz aveludada de barítono, enquanto meus pais estavam distraídos diante de outras estátuas e não perceberam o que ocorria.

 

“Menino Alcides, guardo comigo o apanágio de vaticinar sobre o seu destino, pois ambos somos rebentos, como o mestre artesão que me lapidou e me dotou de animação e de fala mediante o sopro que faz viver a pedra, das montanhas destas paragens, por isso você conferirá vida ao mogno, com duas figuras mitológicas das Minas Gerais, um menino de corpo inteiro e olhos esbugalhados com lábios proeminentes, bem assim uma cabeça, desprovida de corpo, de europeu em provecta idade, esta confinada em caixa preta que abre na parte frontal para exibir o pálido e vetusto semblante respectivo, e você portará o milagre de transfigurar, com tais bonecos de mogno loquaz, a tristeza em alegria, a dor em prazer, a velhice em infância, a morte em vida”ponderou-me o profeta Daniel esculpido em pedra sabão.

 

2. Parentes por afinidade. 

 

Em rompante de sinceridade de minha parte, cabe revelar que Honorato, meu sogro, encerrava o condão de me deflagrar um irrefreável ímpeto invejoso, pois, ao menos aparentemente, as crianças em geral nutriam por ele mais apreço e afeto do que pela minha própria pessoa, malgrado todo o esforço que despendi para atualizar o vaticínio do profeta Daniel de Aleijadinho, fato que talvez seja devido ao temperamento perenemente jovial e brejeiro do pai de minha esposa, que nunca deixou de se comportar como adolescente gracejador, mas suspeito que o verdadeiro motivo seja o posto que orgulhosamente ele ocupava na maior fábrica de brinquedos do país, o que lhe conferia o privilégio de poder levar as crianças, invariavelmente nos meses de dezembro, em visita ao galpão de tal fábrica onde se situava o mostruário de todos os produtos da empresa, ou seja, uma constelação de bonecas de todos os tipos e roupas possíveis, bem assim de carrinhos de todas as cores e modelos, um embevecimento inigualável para esses infantes, que não economizavam nas demonstrações de sincera gratidão a Honorato, ainda que, na maior parte das vezes, seus pais não tivessem condições financeiras de adquirir para seus rebentos esses objetos produtores de enlevo, apesar dos descontos nos seus preços que se conseguia obter pela ocupação desse meu parente.   

 

Cumpre anunciar que meu sogro exercia o ofício de simples vigilante noturno da festejada fábrica de brinquedos, o que não removia de forma alguma o regozijo dos meses de dezembro para essas crianças, muito pelo contrário, atribuía ao velhinho Honorato certa aura mítica de encantador de imberbes, e suspeito também que meu querido sogro tenha escolhido tal emprego para satisfazer a seu jovial caráter de infante de cabelos grisalhos. 

 

Recordo-me ainda de um tio de minha esposa, o Tio Bié, cujo verdadeiro nome era Gabriel, um próspero aristocrata e abastado fazendeiro da região de Ribeirão Preto, que chegou a estudar agronomia na Bélgica, ou na França, não sei bem ao certo, e cujas colegas europeias certa feita passaram uma temporada em sua propriedade rural, mas não tomaram banho de banheira no lugar, do que dão testemunho e notícia as empregadas do Tio Bié que, conquanto providenciassem água quente para tal finalidade todos os dias, sempre encontravam, debaixo da janela do lado de fora do quarto das mencionadas moças, consideráveis montantes de algodão que exalavam perfume de água de colônia francesa, confirmando certo mito muito propagado entre nós brasileiros sobre a higiene dos europeus, mas o interessante mesmo consiste na história segundo a qual todas as noites, após o jantar, Tio Bié sentava-se, com seus longos bigodes e botas negras de couro com cano alto, em sua cadeira de balanço na varanda da casa da fazenda para fatiar um queijo inteiro, colimando dar de comer aos sapos que compareciam, enormes, às dezenas nesta varanda, cabendo observar que, de acordo com difundida lenda agrária da região, Gabriel chamava cada sapoindividualmente considerado, pelo respectivo nome, sendo certo ainda que, determinada noite, um irmão de minha esposa, Dirceu, com seus quatro ou cinco anos de idade, entrou na sala de estar dessa casa portando em seus braços um desses anfíbiosque apresentava um porte maior do que o dele próprio, causando celeuma entre os presentes, salvo no fleumático Tio Bié, que logo foi ordenando a soltura do sapo Godofredo pelo pequeno Dirceu.   

 

Minha memória registra ainda outra figura marcante, a tia de minha esposa, Tia Lourdes, freira católica e notável educadora montessoriana da irmandade das ursulinas, cujo pseudônimo religioso era Madre Helena, e que também encerrava o condão de me provocar sentimento de inveja, eis que permaneceu entre nós por cento e três verões, desfrutando daquilo que denominava matrimônio com Deus, um amor abstrato e platônico sem dúvida, mas que talvez constitua o segredo de sua longevidade, e o fato é que se cuidava decerto de uma noviça bem rebelde, que visitava os parentes com certa frequência e adorava a companhia das águas oceânicas, chegando a vestir até mesmo trajes de banho, pasmem, quando se encontrava no litoral, e certa feita, em Caxias do Sul, pulou os portões trancados do convento para nele adentrar, já tarde da noite, ao voltar de um passeio, iniciado depois do pôr do sol, com minha filha Manina pelas ruas da cidadede tal sorte que, percebe-se de plano, as núpcias divinas e o celibato terreno não lhe removeram de todo um certo apreço pelo mundo concreto, malgrado ter sido digna de muito respeito tanto como religiosa quanto como educadora, e sua obra nesta última vertente pode ser hodierna e airosamente conferida no colégio das ursulinas na já aludida cidade interiorana de Ribeirão Preto, cujo prédio, de considerável magnitude, conta até mesmo com um campo de futebol de dimensões oficiais.

 

3. Cambuci.

 

Aos dezessete anos de idade, logo em seguida ao falecimento de meu padrasto, desembarquei com minha mãe em São Paulo para me estabelecer em caráter definitivo, trazendo na bagagem três objetos de grande importância, a saber, dois bonecos para ventriloquia, de nomes Peleco e Nicolau, respectivamente o menino de olhos esbugalhados e a cabeça sem corpo de um velhinho de barbas grisalhas confinado em caixa preta, exatamente como vaticinados pelo profeta Daniel de Aleijadinho, bem assim um inspirado e denso manual de medicina popular intitulado por metonímia como Chernoviz, sobrenome de seu autor, datado da época do Império, e logo fui contratado pelo senhor Jaime como empregado em uma farmácia situada no bairro do Belenzinho, mais precisamente na praça da igreja principal desse distrito urbano, onde permaneci por alguns anos até me transferir para o bairro do Cambuci, já que não me acostumara com as idiossincrasias do Belenzinho, razão pela qual compus um singelo sambinha com o refrão “não me dou bem, não me dou bem com as meninas do Belém, não fico aqui, não fico aqui, vou-me embora, vou morar no Cambuci”

 

Com efeito, foi neste último bairro que eu vim a conhecer Dirce, minha esposa, cujo largo sorriso fazia-me ferver o sangue em êxtase de paixão, e com quem engendrei quatro descendentes que respondiam pelos epítetos de Valtinho, ManinaCi e Madu, cabendo notar que no Cambuci, reduto historicamente vinculado ao movimento operário em geral e anarquista em particular, finquei morada e raízes em uma ruela, que denominávamos “vila”, composta por treze casinhas térreas geminadas, de aproximadamente oitenta metros quadrados de área construída cada, divididas em sala, dois quartos, cozinha e banheiro situado em um quintal onde, em nosso caso, acalentávamos uma frondosa goiabeira e onde chegamos a criar vários animais domésticos e não tão domésticos, tais como cachorros, gatos, galinhas, gansos, tartarugas, saguis, macacos, pombos, papagaios etc., vila esta que constituía um verdadeiro microcosmo da imigração na cidade de São Paulo, com cidadãos originários da Espanha, Itália, Portugal e Líbano, parecendo lícito aventar que os diversos idiomas respectivos amalgamavam-se com o português em um divertido dialeto que somente a grande família de habitantes da vila saberia compreender.   

 

De fato, os moradores da vila formavam uma grande família que organizava, por exemplo, animadíssimas festas juninas na ruela, ocasiões em que os meninos soltavam balões, as meninas dançavam quadrilhas, os pais queimavam fogos de artifício e as mães preparavam as guloseimas típicas da época, tais como pipoca, quentão, bolo de fubá, paçoca, canjica, arroz doce etc, e eu particularmente providenciava a música ambiente com minha vitrola que tocava discos de vinil bem adequados à atmosfera festiva, parecendo imperioso ainda destacar os trajes característicos constituídos por chapéus de palha, lenços coloridos no pescoço, calças de brim remendadas, camisas de tecido xadrez e vestidos de chita floridos, com rendas e fitas.           

 

Recordo-me ainda que todos os dias dirigia-me, na hora do almoço, até uma conhecida loja de material fotográfico e lentes oftalmológicas situada na avenida São João, já nas proximidades do vale do Anhangabaú, em cujo proprietário, o distintíssimo senhor Floriano, aplicava injeções para controle de determinada comorbidade de que ele padecia, cumprindo ressaltar que provavelmente eu me desincumbisse de tal tarefa com certa excelência, pois este senhor chegou a me oferecer como regalo, no início dos anos 1950, um aparelho televisor da marca Crosley, isso nos pródromos dessa nova tecnologia, ainda dotada de imagens em preto e branco, uma verdadeira maravilha do engenho humano, e eu exibia com orgulho tal aparelho aos demais moradores da mencionada vila do Cambuci, mantendo aberta a minha janela da sala onde ficava tal objeto em pleno funcionamentojanela esta com acesso direto à rua, com provocadestarte considerável aglomeração de curiosos transeuntes em frente à minha casa, nos quais se notavam traços de manifesta estupefação, entusiasmo e arrebatamento causados por aquele pequeno instrumento apto a exibir o mundo em movimento e ao vivo, o que logo me despertou uma singela dose de desconfiança, máxime quando, certa feita, a televisão passou subitamente a mostrar em sua tela a figura de um exímio ventríloquo em ação, cujo nome, salvo ledo engano, era Don Trujillo, e então eu percebi que a disputa entre aquele aparelho milagroso e minha atividade diletantemente artesanal de ilusionista conduziria ao gradativo estiolamento dos meus ganhos de mágico amador, e pronuncio o vocábulo “ganhos” não somente na acepção financeira, mas sobretudo no seu significado mais nobre, consistente na alegria despertada pelosorrisos e pelas ovações das crianças. 

 

Impõe-se anotar ainda que a vila também desvelava suas assombrações noturnas, cabendo recordar que por diversas vezes os luares do lugar foram estigmatizados por um ébrio contumaz, de nome Joaquim, que frequentemente chegava deveras alcoolizado, já tarde da noite, e deambulava madrugada adentro pela ruela a entoar cantilenas lúgubres com sua voz dissonante e avolumada, fazendo-se escutar por todos os moradores e metendo um temor inafastável nas minhas crianças, particularmente na Manina, que corria para a cama dos pais em busca de proteção, ela que, tempos depois, em determinada noite, foi recebida, ao chegar do trabalho, pelo irmão Valtinho no ponto de ônibus onde costumava desembarcar na avenida mais próxima, ocasião em que, já perplexa pelo inusitado dessa recepção, lhe foi revelada uma vultosa aglomeração de policiais decorrente de um bizarro e trágico homicídio ocorrido na vila, a saber, uma jovem moradora local, com seus dez ou doze anos de idade, fora atingida letalmente bem na fronte, entre os dois olhos, por uma bala de revólver disparada por seu pretendente, também adolescente, que apontou jocosamente essa arma de fogo, de propriedade do respectivo pai, em direção a sua amada quando ela exibiu a palma da mão com o nome dele nela estampado, sendo certo, todavia, que esse galanteador não tinha ciência de que o tambor do armamento estava carregado e apertou o gatilho por engano, fato que não o poupou de ser punido com medida de segurança, nem tampouco do remorso que o acompanharia pelo resto de seus dias, mas anos depois ele viria a contrair núpcias com a irmã da falecida. 

 

Bizarra também foi a noite em que uma senhora, bastante obesa, caiu, não se sabe ao certo por qual motivo, da janela de um prédio, contíguo ao fundo do quintal da minha casae foi parar no chão deste pátio, vindo a sofrer lesões graveseis que a altura da queda não fora desprezível, fato este que ensejou outro comparecimento maciço de policiais na vila e especialmente dentro do meu próprio lar, causando-nos aborrecimento e desconforto por um bom interregno, pátio este que também foi palco de outro episódio pitoresco e excêntrico quando meu primogênito Valtinho, sempre gaiato e quiçá zombeteiro, malgrado ainda imberbe, lá apareceu subitamente com um avantajado cavalo pangaré que encontrara naquelas paragens, aparentemente abandonado, conquanto ainda portando montaria, com provocar certa perplexidade temperada por gargalhadas incontidas, mas o certo é que tal primogênito não logrou êxito no manifesto desejo de possuir tal equídeo com o objetivo de brincar de cowboy com seus amigos da vila, sendo certo que tal exercício lúdico de mocinhos contra bandidos com seus colegas de infância rendeu-lhe certa feita sérios hematomas no nariz proeminente, pois fora amarrado em um poste de luz pelos pés e pelas mãos ao desempenhar o papel de bandido, mas conseguiu desvencilhar-se tão somente das amarras das mãos, o que o desequilibrou e fez cair com o rosto no chão e, se é certo que Valtinho sempre encerrou de fato um espírito deveras galhofeiro, o mesmo acontecia com meu outro filho varão, Valdecir, de alcunha Ci, mas nesse último caso o temperamento também era contaminado por certa irascibilidade à flor da pele, do que dá notícia seu costume de, sempre furtivamente, chutar a lata de lixo de uma das vizinhas da ruela, com quem não simpatizava por ter sido denunciado perante minha esposa por causa de alguma de suas traquinagens.

 

Nosso lar na vila do Cambuci também foi palco de animadas reuniões de vários integrantes do Clube Mágico Paulista, cuja verdadeira sede instalava-se no prédio do colégio Sagrado Coração de Jesussituado nos Campos Elíseos e atualmente sob lamentável ameaça de desaparecimento, e era composto de figuras bastante excêntricas, peculiaridade, ao que parece, de incidência endêmica entre ilusionistas, prestidigitadores e ventríloquos, o que não me impediu de estabeleceduradouros laços de sincera amizade com boa parte deles, tais como o carioca Bakito, cujo filho veio a falecer prematuramente em razão de uma bola de futebol que lhe fora disparada contra a cabeça numa partida de várzea, o russo Makarade, cujas histórias de congelamento de orelhas, narizes e demais extremidades corporais pelo clima extremo da Sibéria, combatido com altas doses de vodka engolidas abruptamente, estimulavam a imaginação de todos, o querido Bruno, com seus cabelos ruivos, que morava em cubículo no centro da cidade, o altivo Morgado, vocacionado comerciante que administrava uma rede de vendas de material para mágicos, algo plenamente incompatível com hodierna era digital, o invulgar Raful de Raful, que colecionava automóveis antigos, o talentoso Sandro, notável pela destreza com as cartas de baralho, entre tantas outras figuras extravagantes desse universo encantado. 

 

Se, consoante adiantado, meu fiel amigo Morgado encerrava vocação para o comércio, o mesmo não sucedia comigo, pois cheguei, por um período razoável de tempo, a ser proprietário de um estabelecimento de natureza farmacêutica em nosso bairro, inicialmente instalado na rua Mesquita e posteriormente transferido para a avenida Lins de Vasconcelos, via arterial do logradouro, mas, movido por uma noção um tanto rara de honestidade imbricada com altruísmo, comprava à vista e vendia fiado, o que logo me conduziu a vender o negócio, ainda que a contragosto, com revelar, talvez, uma certa incompatibilidade entre o espírito comercial e a administração da saúde, parecendo lícito aventar que o mesmo não acontece com o ramo dos negócios de mobília, eis que, na sobreloja dessa farmácia, um simpático senhor de nome Samuel prosperou fabricando e vendendo móveis, ele que invariavelmente se dirigia à minha filha Manina com a carinhosa denominação de “turquinha”, provavelmente em razão de suas delicadas feições típicas de uma certa região do Oriente Médio, e facilitava a troca do nosso mobiliário anualmente com preços subavaliados, sendo certo ainda que, no interregno em que logrei relativo êxito como empresário, pude adquirir uma casa de veraneio no então distante e rural distrito de M’Boi Mirim, nas extremidades da zona sul do município paulistano, para onde nos dirigíamos nas férias por meio de táxi, pois eu nunca me interessei em obter habilitação de motorista de automóvel, ou éramos conduzidos por meu cunhado Eloy, que possuía um carro de grandes dimensões em cujo porta-malas, com a respectiva porta aberta, a criançada ficava e se divertia no trajeto, malgrado a necessidade de descerem deste porta-malas para que a viatura pudesse vencer o Morro do Índio no caminho, sendo de interesse notar que a casa de veraneio contava com quarto e sala bem amplos, cozinha dotada de um delicioso fogão à lenha, bem assim um largo pátio com poço artesanal, banheiro e as instalações da governanta que cuidava do lugar.

 

Quando me afastei definitivamente dos negócios de comércio de medicamentosfui reconduzido ao estado de empregado, agora em um laboratório também de jaez farmacêutico, vindo a perceber que, no frigir dos ovos, o universo proletáritambém guardava suas delícias, nada obstante certa deterioração do conforto material, o que obrigou Valtinho e Manina, os filhos mais velhos, a se submeterem outrossim ao mercado de trabalho, mas a existência permaneceu animadora e emocionante, como na época em que eu adquiria arenque defumado na Mercearia Godinho, na rua Líbero Badaró, e me refestelava com minha família em casa, onde chegava sempre tarde da noite, de ônibus, carregando pedaços de pizza e chocolates “sonhos de valsa”os quais fazia minhas crianças apreciarem, quase dormindo, mas já na cama.  

 

4. À guisa de conclusão. 

 

A música, arte das musas, sempre exerceu sobre minha alma barroca e católica um poderoso fascínio, talvez pelo fato de se cuidar da mais abstrata das artes, a única que dispensa o sentido da visão para o seu deleite, conquanto compartilhe com a literatura o condão de estimular a criatividade, seja do intérprete da respectiva partitura, seja do leitor da obra impressa, e creio que seria vantajoso para todos se fosse exequível dotar a prosa literária de sons musicais, ou seja, se os livros fossem aquinhoados com músicas neles acopladas, de tal sorte que o leitor pudesse ouvir melodias e acordes no ato da leitura, notas musicais cuidadosamente escolhidas pelo escritor para enfatizar a narrativa, quiçá em futuro próximo os livros digitais o façam, mas, por ora, como sou um cidadão do século passado, cingir-me-ei a sugerir uma sonata incidental para aquilo que narrarei em seguida, uma peça sonora que o eventual leitor pode colocar para tocar em seu dispositivo apto para tanto, e nesse sentido ouso recomendar o primeiro movimento da sonata Ao Luar de Beethoven, um movimento marcado com adagio sostenuto pelo compositoralgumas das páginas mais solenes e misteriosas do repertório clássico, bastante adequada ao estado de espírito com que, em certa ocasião, retornei, já idoso, a Congonhas do Campo colimando estabelecer novo colóquio com o profeta Daniel de pedra sabão engendrado pelo mestre Aleijadinho, numa fria noite de junho cuja lua cheia insinuava-se intermitente através da bruma espessa que caíra no lugar, e eu efetuei uma genuflexão para suplicar àquela escultura magnífica que conversasse comigo, como fizera outrora. 

 

Mas ela nunca mais me respondeu.