domingo, 26 de maio de 2024

CAPITAL E INFORMAÇÃO.

Anteriormente ao advento do capital, a burguesia mercantil antediluviana, restrita ao processo de circulação de mercadorias, extrai mais-valia dos produtores dessas mercadorias por meio do dinheiro, comprando barato e vendendo caro, com beneficiar-se da precariedade histórica das comunicações e da circulação de informações. 

Com o advento do capital, a saber, a inserção do dinheiro no processo de produção de mercadorias, a compra e venda da mercadoria consubstanciada na força de trabalho atribui um verniz de honestidade e normalidade que oculta a extração da mais-valia nesse processo de produção, mas a precariedade subsistente nas comunicações e circulação de informações, atrelada à propriedade privada dos meios de produção, determinam o caos no processo de circulação de capital, submetido a crises periódicas. 

A atual revolução digital, que, em curso, trouxe a circulação de informações e telecomunicações ao centro da produção capitalista, contém latente e embrionária a superação das crises econômicas periódicas aludidas acima, insertas no processo de circulação de capital. 

Resta, todavia, a abolição da propriedade privada dos meios de produção, latente no conflito entre capital e trabalho.




POR LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador.   

sexta-feira, 24 de maio de 2024

O FALACIOSO EMPIRISMO DO DINHEIRO.

 O universo da circulação de capital, do dinheiro e dos preços, é empírica e imediatamente acessível aos sentidos humanos, malgrado seja falacioso ao ocultar o universo da exploração da mais-valia na produção de capital.


Esse segundo universo foi descortinado pioneiramente por Karl Marx em sua obra prima insuperável consubstanciada nos três livros de O Capital.


A circulação simples de mercadorias, anterior ao capital, também foi objeto de investigação nessa obra monumental, em seu livro primeiro.


Todavia, Marx deixou de revelar a extração de mais-valia nesta circulação simples de mercadorias, latente no dinheiro:


Com efeito, os mercadores e comerciantes da burguesia mercantil compravam barato e vendiam caro, extraindo sobreproduto dos produtores de mercadorias mediante tal expediente fraudulento e encoberto pelo dinheiro e pela precariedade das informações e comunicações disponíveis historicamente.


Ao inserir-se no processo de produção, o capital enceta um verniz de normalidade e honestidade na compra e venda da mercadoria força de trabalho, que oculta empiricamente a extração de mais-valia.


O estudioso marxista deve considerar tal fraude empírica ínsita no dinheiro e nos preços, essa superfície da circulação de capital que encobre a realidade econômica da exploração da mais-valia.





Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira, historiador.

quinta-feira, 23 de maio de 2024

TRÊS FORMAS HISTÓRICAS BÁSICAS DO DINHEIRO.

1. Moeda metálica: forma correspondente aos modos de produção onde predomina o artesanato ou a manufatura, quando ainda não se verifica a subsunção real do trabalho no capital;

2. Moeda fiduciária: forma correspondente ao modo capitalista de produção já amadurecido, com subsunção real do trabalho no capital;

3. Moeda digital: forma ainda embrionária e incipiente, correspondente ao advento do trabalho assalarariado predominantemente intelectual na produção capitalista de software, que subverte a precedente divisão do trabalho entre capital (atividade eminentemente intelectual) e trabalho assalariado (eminentemente manual).

Dessume-se do acima exposto que quanto mais intelectual o trabalho assalariado, mais virtual a forma histórica da moeda que o dinheiro assume.       




POR LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador.  

quarta-feira, 22 de maio de 2024

PLATÃO E O DINHEIRO, OU HEDONISMO E ESTOICISMO.

Na oposição entre produção e circulação de mercadorias, latente no dinheiro, que historicamente desdobra-se  na oposição entre capital e trabalho, radica a oposição entre atividade eminentemente manual e atividade eminentemente intelectual, que deu origem às dicotomias platônicas entre corpo e mente, empírico e racional etc. 

A oposição entre hedonismo e estoicismo também participa de tal dualidade tipicamente platônica, de tal sorte que, grosso modo, o primeiro atrela-se aos prazeres do corpo e o outro às virtudes da mente.     




POR LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador. 

domingo, 19 de maio de 2024

EISENSTEIN E EINSTEIN: HIPÓTESES SOBRE O TEMPO DO CINEMA.

André Bazin defendia o plano-sequência para captar o real com mais fidelidade nas artes cinematográficas, colimando simular o tempo vivido pelo indivíduo. 

Mas esse tempo vivido pelo indivíduo corresponde ao tempo linear e abstrato do relógio, que não retrata a realidade fielmente, eis que resulta das limitações da experiência e da memória de uma vida humana, vale dizer, cuida-se de um tempo derivado do acúmulo das memórias empíricas do indivíduo, um tempo anterior ao advento da teoria da relatividade. 

Já o espaço-tempo da relatividade de Albert Einstein, decorrente do movimento relativo dos corpos, que transcende o tempo abstrato e linear decorrente da experiência empírica individual, exibe-se mais próximo da montagem dialética postulada por Sergei Eisenstein, com sua justaposição de imagens para compor uma ideia no cérebro do respectivo espectador.

A montagem de Eisenstein retrata melhor o espaço-tempo da teoria da relatividade, inacessível à experiência empírica de uma vida individual, e se mostra mais consentâneo também com a história marxista das relações de produção ou dos modos de produção, de longa duração e que suplanta a duração de uma vida individual. 



por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador.    

sábado, 18 de maio de 2024

DIAS PERFEITOS

O filme intitulado Dias Perfeitos, de Wim Wenders, trata basicamente da questão da dignidade do trabalho humano. 

Recordo-me que um professor da faculdade de direito que eu frequentei certa feita asseverou:

"Não importa se a pessoa é presidente do Tribunal de Justiça ou faxineiro do tribunal, importa que cada um exerça sua profissão com dignidade"

Conheci na Austrália um faxineiro de hospital que vive numa casa bem melhor do que a minha, eu que exerço trabalho intelectual no Brasil. 

O protagonista do filme em testilha é um faxineiro de banheiros públicos em Tokyo que vive dignamente sua profissão e sua vida. 

O Japão e a Austrália são dois países muito civilizados com alto índice de desenvolvimento humano, mas ainda são países capitalistas, onde há, portanto, exploração do trabalho alheio, dos proletários que precisam vender sua força de trabalho para viver, pelos proprietários dos meios de produção, os capitalistas. 

A verdadeira dignidade do trabalho humano advirá quando tal forma de exploração do ser humano pelo seu semelhante desaparecer numa sociedade sem fraturas de classes sociais. 



POR LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador. 

terça-feira, 14 de maio de 2024

CRIMES DO FUTURO (contém spoiler)

 A película Crimes do futuro apenas corrobora aquilo que eu já sabia: David Cronenberg, seu realizador, é um mestre incontestável da arte cinematográfica.


Sim, pois neste filme ele logra avanços significativos, sempre de maneira instigante e provocativa, em sua temática primordial, vale dizer, a relação entre natureza e sociedade, entre biologia e cultura.


Em Crimes do futuro, interessa este metabolismo particular entre seres humanos e a natureza por eles transformada, de extrema relevância em uma época de crise e catástrofe climática, de um lado, e consumo de alimentos ultraprocessados, de outro.


No enredo da película, Saul Tenser é o artista performático mutante capaz de digerir alimentos sintéticos, como plástico.


Entre outros temas relevantes, uma certa apologia da síntese evolutiva estendida, que recupera Lamarck contra Darwin ao postular a ingerência genética e evolutiva das caraterísticas adquiridas em vida.


Cronenberg é, definitivamente, um cineasta visceral que nos faz refletir sobre esse mundo misterioso e surpreendente.





Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira, historiador.

sábado, 11 de maio de 2024

ABRANGENTE OU PROFUNDO?

Quer me parecer que o estudo científico, em geral, pode se apresentar de duas maneiras básicas: abrangente ou profundo, sendo rara a combinação harmônica das duas formas em uma única investigação. 

O estudo abrangente é aquele erudito, geralmente caudaloso, que no mais das vezes abroquela uma vasta base da dados empíricos, mas que não consegue suplantar a superficialidade dos elementos imediatamente acessíveis aos sentidos humanos.

Já o estudo profundo é aquele incisivo, geralmente sintético, que, sem abroquelar uma base de dados empírica muito ampla e vasta, elege um único ou poucos elementos para deles extrair o máximo em leis gerais de funcionamento do respectivo objeto investigado.

Nas ciências econômicas, em particular, o estudo abrangente conta habitualmente com uma ampla base de dados de preços das mercadorias, enquanto o estudo profundo logra atingir as relações de produção que explicam os movimentos dos preços.    

Tal dicotomia reflete, obviamente, a dualidade entre empirismo e racionalismo epistemológicos derivados da tradição filosófica platônica. 




por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador.

domingo, 5 de maio de 2024

KARL MARX, PRESENTE!

Na publicação imediatamente precedente, postulei que uma biografia pode ser inútil para elucidar a obra de um grande cientista caso não abroquele o desenvolvimento histórico das relações de produção que a engendraram, nos termos do anti-humanismo teórico proposto por Louis Althusser. 

Ora, Karl Marx é um dos maiores, senão o maior, cientista social da história, podendo ser inserido em um panteão que abrange Isaac Newton, verbi gratia. 

Mas mesmo a obra de Newton foi em parte transcendida pela teoria da relatividade e pela mecânica quântica, o que não a desmerece em absolutamente nada. 

Sartre aduzia que o marxismo é insuperável, enquanto não forem superadas as condições que o engendraram. 

Ele estava correto, pois um dia a obra de Marx deverá ser ultrapassada, ainda que em  parte, por novas relações de produção que suplantarão as relações de produção capitalistas, objeto de sua investigação científica. 

A imponente figura de Karl Marx, todavia, jamais deixará de ser relevante, pois seu legado científico é atemporal.



POR LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.   

sexta-feira, 3 de maio de 2024

CIÊNCIA E HISTORICISMO

Neste exato momento, estou na posse de uma biografia de Isaac Newton elaborada por James Gleick, mas, dominado pela dúvida, reluto em iniciar a leitura, pois uma indagação comove-me: qual seria a importância de uma biografia para elucidar a obra de um grande cientista?

Questão deveras complexa, devo admitir. 

Certa vertente historicista alegaria que o contexto ou a conjuntura histórica exibe-se inafastável para a devida intelecção da obra de um cidadão que tem significativa contribuição para a humanidade, como é o caso do cientista em testilha. Inclino-me a discordar. 

Ora, se a contribuição é de fato relevante, ela ultrapassa, em muito, a conjuntura e o contexto histórico que produziram o indivíduo, seja ele artista, cientista, ou seja lá o que for.

Socorro-me, neste caso, do anti-humanismo teórico postulado por Louis Althusser: importa somente o desenvolvimento histórico das relações de produção, mas não a história dos seres humanos que estabelecem involuntariamente tais relações entre si. 

Nesse caso, as biografias seriam inúteis. 

Moral da história: lerei detidamente a biografia de Isaac Newton, mas para puro deleite de fim-de-semana, sem pretensão de elucidar sua obra atemporal. 

Agora, se se tratasse de uma obra marxista de história das relações de produção para explicar a teoria newtoniana da gravidade, poderíamos até mesmo elucidar o pioneirismo britânico na Revolução Industrial do século XVIII, quem sabe?





Por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA 

quinta-feira, 2 de maio de 2024

Divagação sobre capital fixo 4

 

CONJECTURA GEOMÉTRICA SOBRE CIRCULAÇÃO DE CAPITAL. 

A taxa de lucro do capital deve ser mensurada para cada rotação completa respectiva, pois as diferentes partes componentes do capital rotam com velocidades diferentes.

Destarte, numa conjectura geométrica, teríamos pelo menos três círculos concêntricos, de raios distintos, girando (circulando) com velocidades distintas, de tal sorte que:

1) O primeiro círculo, representando o capital circulante, gira com a maior velocidade;

2) O segundo círculo, representando o capital fixo de duração variável, gira com velocidade média;

3) O terceiro círculo, representando o capital fixo de duração constante, gira com a menor velocidade.

Por óbvio, tal conjectura geométrica deve ser matematicamente demonstrada e posta à prova.

por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA. 

Divagação sobre capital fixo 3

 

terça-feira, 7 de abril de 2015

ASPECTOS DA SEGUNDA LEI CONJECTURAL SOBRE CAPITAL FIXO. 

No que pertine à publicação precedente deste blog, concernente à segunda lei conjectural sobre capital fixo, esclareço que designo:

1) Capital fixo de duração variável;

2) Capital fixo de duração constante.

No caso de 1, a duração do capital fixo está relacionada com seu uso mais ou menos intenso, sendo certo que, quanto mais intenso o uso respectivo, menor sua duração, sendo certo também que tal capital está diretamente vinculado ao processo de produção de mercadorias, de tal sorte que, quanto mais intenso o seu uso, maior o número de mercadorias. Exemplo: máquinas, robôs, motores, etc.

No caso de 2, a duração do capital fixo não está relacionada ao seu uso mais ou menos intenso, exibindo-se constante, sendo certo também que tal capital não está diretamente associado ao processo de produção de mercadorias. Exemplo: prédios, iluminação, ar condicionado, etc.

No caso do capital fixo 2, quanto maior é a velocidade de rotação das demais partes componentes do capital, menor é o valor que tal capital transfere às mercadorias, pois sua duração é constante.

No caso do capital fixo 1, quanto maior é a velocidade de rotação do capital total (excluindo-se o capital 2), tanto maior é também o valor que ele transfere às mercadorias.

Tudo isto está a carecer de comprovação matemática e empírica.

POR LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.

Divagação sobre capital fixo 2

 

SEGUNDA LEI CONJECTURAL SOBRE CAPITAL FIXO.

Há que se distinguir, no âmbito do capital fixo: 1) o capital fixo que transfere seu valor às respectivas mercadorias de acordo com o desgaste provocado pelo uso, como é o caso das máquinas; 2) o capital fixo que transfere seu valor às respectivas mercadorias de acordo com a mera passagem do tempo, como é o caso dos prédios, instalações, etc.

No caso de 1, para efeito de variação da taxa de lucro, é indiferente o número de rotações do capital circulante em determinado lapso temporal, a saber, a velocidade de circulação do capital.

No caso de 2, ao contrário, quanto maior o número de rotações do capital circulante em determinado lapso temporal, a saber, quanto maior a velocidade de circulação do capital, maior a taxa de lucro.

Mister observar que o capital fixo 1 pode sofrer desgaste natural pela passagem do tempo sem ser utilizado, o que também afeta negativamente a taxa de lucro.

Tal conjectura está sujeita a comprovação empírica e teórico-matemática.

(POR LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA)

Divagação sobre capital fixo

 

LEI CONJECTURAL SOBRE CAPITAL FIXO.

Para que haja efetiva diminuição do valor individual da mercadoria mediante aumento da produtividade decorrente de investimento em capital fixo, o incremento da força produtiva do trabalho deve ser tal que compense o acréscimo de valor paulatinamente transferido aos produtos pela circulação de tal capital fixo. 

Tal lei consiste em conjectura sujeita a confirmação empírica e teórico-matemática.

Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira, historiador.