quarta-feira, 29 de maio de 2024

AXIOMA

 O dinheiro consiste na forma autônoma do aspecto abstrato do trabalho humano subsumido no capital.


Quanto mais abstrato tal trabalho, em decorrência do aprofundamento da divisão do trabalho, mais independente de um suporte material exibe-se o dinheiro, que de moeda metálica passou, historicamente, à atual moeda digital.





Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira, historiador.

ACADEMIA

Alguns sustentam que a universidade reproduz o modelo medieval das corporações de ofício, com a divisão entre mestres e aprendizes nos programas de pesquisa científica. 

Na verdade, o modelo universitário remonta à academia platônica, sendo mais antigo portanto, com sua divisão entre projeto de pesquisa (hipótese) e pesquisa propriamente dita (tese), que por seu turno reflete a divisão social do trabalho entre atividade eminentemente intelectual (o dinheiro ou a circulação de mercadorias e, posteriormente, o capital) e atividade eminentemente manual (produção de mercadorias ou trabalho assalariado), a qual responde pelas dicotomias platônicas entre corpo e mente, empirismo e racionalismo etc.

Henri Poincaré aduzia que a descoberta científica pela intuição precede a demonstração científica pela lógica, cabendo destacar que tal precedência decorre precisamente da subsunção econômica do trabalho manual no trabalho intelectual, típica do capital e, anteriormente, da circulação simples de mercadorias no dinheiro. 

Mas a hodierna revolução digital, com sua produção capitalista de software, está a subverter a divisão social do trabalho acima aludida, eis que agora temos trabalho assalariado eminentemente intelectual, que poderá revolucionar a sociedade capitalista pela vindoura subsunção do capital no trabalho, ensejando o socialismo e, posteriormente, o comunismo mundial. 



POR LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador.    

terça-feira, 28 de maio de 2024

A revolução industrial na União Soviética

 A Revolução Industrial na União Soviética

Lincoln Secco

Os comentários que se seguem foram feitos a partir da leitura de Farm to Factory: a Reinterpretation of the Soviet Industrial Revolution (Princeton, 2003). Mas não é uma resenha, pois não abordo a maioria dos temas da obra, tais como demografia, história populacional, desenvolvimento, história da Rússia anterior à Revolução etc. Além disso, faço comentários baseados em outros livros que li para escrever minha obra História da União Soviética (Maria Antônia, 2 ed, 2023).

Forma Socialista

Em outubro de 2017 os bolcheviques tinham vários desafios, dentre eles havia dois que nos interessam aqui: assumir o comando das fábricas e dos serviços públicos urbanos; e socializar a propriedade rural.

No primeiro caso, dois obstáculos se interpunham: a propriedade privada e o controle operário da produção. As empresas foram rapidamente estatizadas em 1918. Já os operários que assumiram o controle de algumas empresas opuseram uma resistência que só foi superada pela designação de gestores do partido. Segundo Robert Allen o decreto de 27 novembro 1917 deu aos conselhos de fábrica o controle das empresas, mas durante uma Guerra Civil a planificação era incompatível com a democracia de base. Em Junho de 1918 havia 487 firmas nacionalizadas e em setembro eram 4 mil.

Pode-se dizer, portanto, que exteriormente a forma socialista se estabeleceu, visto que o Estado era dirigido pelos comunistas; mas no interior da fábrica persistiu a divisão do trabalho e o despotismo da gerência. De acordo com Engels em seu texto “Da Autoridade” e também de acordo com as concepções de Lenin, a autogestão era incompatível com a planificação econômica, embora as ferrovias, por exemplo, tivessem sido autogeridas até março de 1918.

O Debate Econômico

Depois da Guerra Civil (1919-1921) o Partido lançou uma Nova Política Econômica que estabilizou o rublo, segundo Lenina Pomeranz em seu excelente livro Do Socialismo Soviético ao Capitalismo Russo (Ateliê, 2 ed, 2023).

Todavia, o debate estava aberto. A indústria estava socializada, mas a agricultura e grande parte do comércio eram privados e isso tinha repercussões no regime de classes sociais. Camponeses médios e ricos não tinham sido hostis ao processo revolucionário em grande medida porque haviam feito sua própria revolução no campo, redistribuindo propriedades e ignorando apelos à coletivização. Diante de tarefas mais urgentes os bolchheviques não tentaram coletivizar a terra. Na Guerra Civil os víveres foram obtidos mediante exação forçada, mas isso não podia continuar. Depois de 1921 o Exército Vermelho estava exausto e diminuiu seus efetivos. Soluções no interior da ecoomia de mercado foram testadas.

De acordo com Allen (pp. 54-5) o Estado soviético tinha grande poder de mercado, uma vez que era o principal fornecedor de bens de consumo produzidos em fábricas e um comprador de grãos. Era quase um oligopsônio. Preobajensky propôs que se aumentasse o preço dos bens de consumo e se diminuísse o preço pago pelos grãos, a fim de extrair o excedente agrícola e pagar o investimento industrial.

Bukharin defendeu o inverso. Estimular o campo aumentaria sua demanda por bens industriais. Medidas para aumento da produtividade rural seriam tomadas. Por exemplo: remover proibições ao uso de mão de obra contratada na agricultura para incentivar o investimento dos camponeses ricos. Sua palavra de ordem foi a de Guizot: “Enriquecei-vos”. Cooperativas seriam estimuladas em competição pacífica com o “agronegócio”.

Citando outros modelos explicativos Allen (p. 60) considerou que havia a possibilidade de uso da poupança camponesa. Ele distinguiu camponeses produtivos e improdutivos (primos, irmãos,


sobrinhos) que aumentavam o autoconumo das unidades agrícolas. Sem os improdutivos a poupança potencial se tornaria efetiva. A mão de obra liberada se tornaria produtiva em construção civil, irrigação, drenagens, fábricas etc.

Stalinismo

Stalin, depois de se aliar a Bukharin, adotou o programa da Esquerda do partido, obviamente com métodos coercitivos. Mas há que se indagar se o abandono da perspectiva de Bukharin podia ser feito de outro modo, pois quem escolhe os fins, escolhe os meios. O stalinismo produziu milhões de presos e 826 mil execuções. A fome foi produzida pela luta entre camponeses e Estado provocada pela verdadeira guerra civil do Partido contra o campo. Os camponeses abateram o gado em vez de entregá-lo ao Estado e diminuíram as plantações. No entanto, o Estado continuou a requisitar grãos para exportar (p. 136).

Allen (p. 186), no entanto, diz que a vantagem que a coletivização, especialmente a coletivização forçada, tinha sobre outras políticas era que maximizava a taxa de migração rural-urbana. Todavia, a NEP também era um sistema viável para o desenvolvimento econômico.

Em 1922 imposto único agricola foi instituído. Em 1926 a produção industrial voltou ao nível de 1913. A fonte de financiamento da industrialização proveio de uma série de fatores: troca desigual entre campo e cidade e eficiência do campo mediante máquinas agrícolas. A diminuição da mão de obra na agricultura mitigou o autoconsumo médio. Também houve maiores ganhos de produtividade na indústria e serviços com a maior disponibilidade de operários recém chegados às cidades. Mas ainda assim o padrão de vida urbano melhorou e os salários aumentaram, embora a jornada de trabalho tivesse aumentado também.

Há um debate sobre o cálculo da produtividade e das taxas de crescimento do PIB. O autor discute os índices Laspeyres e Paasche de preços e prefere o índice de Fisher (média geométrica dos outros dois). Esses índices estabelecem um ano base e permitem calcular a evolução real de preços, salários, padrão de consumo etc. O Índice de Laspeyres é uma média ponderada.

De qualquer ponto de vista ou com qualquer método estatístico, é bastante evidente que a União Soviética realizou uma Revolução Industrial no decênio de 1930 e que depois da II Guerra Mundial, o país atingiu níveis de vida inferiores aos padrões ocidentais, porém muito superiores aos países subdesenvolvidos. O consumo real per capita cresceu 3% ao ano entre 1950 e 1980. O número de máquinas de lavar por 100 lares ascendeu de 21 em 1965 a 75 em 1990. Apenas dois exemplos.

Base Social

Trabalhadores qualificados e com maior nível educacional propiciado pela Revolução foram a base de apoio do regime. Stalin usou o inverso de um teto de gastos, promovendo um limite orçamentário móvel. Assim, permitiu gastos com setores que não eram “eficientes”. Mas Allen é taxativo ao dizer que as “bárbaras políticas do stalinismo acrescentaram pouco à produção industrial” (p.171).

Mas neste caso recorre-se a uma regressão linear. Para a história concreta nem sempre é o melhor e pode levar a uma perspectiva contrafactual metafísica que pouco acrescenta ao debate. E se prevalecesse a política de Bukharin? Haveria crescimento mais lento, porém o resultado seria muito próximo dos índices stalinistas? Talvez. Mas esse raciocínio abstrai o que seria o regime de classes sociais sem coletivização, os efeitos políticos, o armamento para a Guerra etc. Impossível saber como seria a sociedade soviética.

O problema da Era Stalin é histórico e político. Era certo promover a industrialização ao custo da coletivização forçada? Repressão de milhões de pessoas, eliminação dos dirigentes da própria Revolução etc, como justificar isso? Por outro lado, e isso é do domínio da História, a União Soviética se industrializou, venceu o nazismo de maneira épica, tornou-se uma potência militar, aumentou o padrão de vida de sua população e infuenciou a constituição do Welfare State, as lutas anticoloniais e a industrialização da periferia mundial. O desafio soviético moderou o imperialismo. Isso foi obra de sua classe trabalhadora, mas grande parte dela também ofereceu apoio racional aos seus dirigentes, o que é algo desconcertante para muitos analistas.


Em outras notas para este blog pretendo tratar da posição de Trotsky e Lange sobre o debate econômico soviético.

domingo, 26 de maio de 2024

CAPITAL E INFORMAÇÃO.

Anteriormente ao advento do capital, a burguesia mercantil antediluviana, restrita ao processo de circulação de mercadorias, extrai mais-valia dos produtores dessas mercadorias por meio do dinheiro, comprando barato e vendendo caro, com beneficiar-se da precariedade histórica das comunicações e da circulação de informações. 

Com o advento do capital, a saber, a inserção do dinheiro no processo de produção de mercadorias, a compra e venda da mercadoria consubstanciada na força de trabalho atribui um verniz de honestidade e normalidade que oculta a extração da mais-valia nesse processo de produção, mas a precariedade subsistente nas comunicações e circulação de informações, atrelada à propriedade privada dos meios de produção, determinam o caos no processo de circulação de capital, submetido a crises periódicas. 

A atual revolução digital, que, em curso, trouxe a circulação de informações e telecomunicações ao centro da produção capitalista, contém latente e embrionária a superação das crises econômicas periódicas aludidas acima, insertas no processo de circulação de capital. 

Resta, todavia, a abolição da propriedade privada dos meios de produção, latente no conflito entre capital e trabalho.




POR LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador.   

sexta-feira, 24 de maio de 2024

O FALACIOSO EMPIRISMO DO DINHEIRO.

 O universo da circulação de capital, do dinheiro e dos preços, é empírica e imediatamente acessível aos sentidos humanos, malgrado seja falacioso ao ocultar o universo da exploração da mais-valia na produção de capital.


Esse segundo universo foi descortinado pioneiramente por Karl Marx em sua obra prima insuperável consubstanciada nos três livros de O Capital.


A circulação simples de mercadorias, anterior ao capital, também foi objeto de investigação nessa obra monumental, em seu livro primeiro.


Todavia, Marx deixou de revelar a extração de mais-valia nesta circulação simples de mercadorias, latente no dinheiro:


Com efeito, os mercadores e comerciantes da burguesia mercantil compravam barato e vendiam caro, extraindo sobreproduto dos produtores de mercadorias mediante tal expediente fraudulento e encoberto pelo dinheiro e pela precariedade das informações e comunicações disponíveis historicamente.


Ao inserir-se no processo de produção, o capital enceta um verniz de normalidade e honestidade na compra e venda da mercadoria força de trabalho, que oculta empiricamente a extração de mais-valia.


O estudioso marxista deve considerar tal fraude empírica ínsita no dinheiro e nos preços, essa superfície da circulação de capital que encobre a realidade econômica da exploração da mais-valia.





Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira, historiador.

quinta-feira, 23 de maio de 2024

TRÊS FORMAS HISTÓRICAS BÁSICAS DO DINHEIRO.

1. Moeda metálica: forma correspondente aos modos de produção onde predomina o artesanato ou a manufatura, quando ainda não se verifica a subsunção real do trabalho no capital;

2. Moeda fiduciária: forma correspondente ao modo capitalista de produção já amadurecido, com subsunção real do trabalho no capital;

3. Moeda digital: forma ainda embrionária e incipiente, correspondente ao advento do trabalho assalarariado predominantemente intelectual na produção capitalista de software, que subverte a precedente divisão do trabalho entre capital (atividade eminentemente intelectual) e trabalho assalariado (eminentemente manual).

Dessume-se do acima exposto que quanto mais intelectual o trabalho assalariado, mais virtual a forma histórica da moeda que o dinheiro assume.       




POR LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador.  

quarta-feira, 22 de maio de 2024

PLATÃO E O DINHEIRO, OU HEDONISMO E ESTOICISMO.

Na oposição entre produção e circulação de mercadorias, latente no dinheiro, que historicamente desdobra-se  na oposição entre capital e trabalho, radica a oposição entre atividade eminentemente manual e atividade eminentemente intelectual, que deu origem às dicotomias platônicas entre corpo e mente, empírico e racional etc. 

A oposição entre hedonismo e estoicismo também participa de tal dualidade tipicamente platônica, de tal sorte que, grosso modo, o primeiro atrela-se aos prazeres do corpo e o outro às virtudes da mente.     




POR LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador.