quinta-feira, 30 de abril de 2026

UM DOS MAIORES DE TODOS OS TEMPOS

Com imenso pesar e consternação, este NÚCLEO DE ESTUDOS DO CAPITAL DO PARTIDO DOS TRABALHADORES cumpre a dolorosa tarefa de informar e lamentar o óbito, na data de hoje, do historiador FERNANDO NOVAIS, um dos maiores de todos os tempos.

Sua notável obra, caudatária daquela de Caio Prado Júnior, ao desvendar o antigo sistema colonial em que se inseria o Brasil, representa um complemento inafastável da obra do próprio Karl Marx, com elucidar o mecanismo de acumulação primitiva de capital que deu origem ao modo de produção hodierno sob o pálio do qual estamos a viver. 

Incomensurável perda para as ciências sociais em geral e para a historiografia em particular. 

Ficam aqui registradas as nossas condolências à família, aos amigos e aos discípulos do professor Novais, com os nossos cordiais e fraternos abraços. 

quarta-feira, 29 de abril de 2026

APÊNDICE: BIPOLARIDADE E OBJETIVIDADE EM LOUIS ALTHUSSER.

Vimos que a objetividade nas ciências sociais decorre provavelmente dos fenômenos correlatos da alienação e da reificação das relações de produção ou de propriedade, radicados, por seu turno, na bifurcação ou duplicação inerentes à produção e reprodução da vida material humana. 

Ora, a realidade social objetiva pode ser em certa medida descrita, pois, como bipolar, a teor de dicotomias, que lhe são ínsitas, tais como as oposições entre trabalho e reprodução sexuada, entre valor de uso e valor de troca e, destacadamente, entre burguesia e proletariado enquanto classes sociais antagônicas. 

O transtorno afetivo bipolar, afecção mental outrora denominada como psicose maníaco-depressiva, parece fincar raízes profundas nessa realidade social objetiva, dicotômica e polarizada, e não raro temos notícia de personalidades afetadas por tal doença, dos meios científico e artístico, que deram grande contribuição em suas áreas de atuação.

Louis Althusser, o filósofo marxista, pode ter sido uma de tais personalidades, cuja obra demonstra notável vocação para a objetividade, a teor de seu anti-humanismo teórico de jaez estruturalista, em que o ser humano deixa de ocupar o centro das investigações sociais em benefício das relações de produção. 

Todavia, como lembra Lincoln Secco, é bem provável também que Althusser tenha exagerado no anti-humanismo, pois dificilmente se dessume da respectiva obra o caráter do homo sapiens como sujeito da própria história, capaz de, enquanto classe social e coletivamente, superar as mencionadas alienação e reificação, na qualidade de fenômenos sociais. 

Hipóteses sub judice.





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.  

A OBJETIVIDADE NAS CIÊNCIAS SOCIAIS

De proêmio, exoro licença para remeter meus eventuais leitores ao texto aqui publicado aos 31 de maio de 2023, intitulado "A Dobra", com supedâneo no qual teço as seguintes considerações e conjecturas.

Vimos que a produção e reprodução da vida material humana bifurca-se e duplica-se em reprodução sexuada e trabalho, de tal sorte que, quanto ao trabalho, os seres humanos contraem entre si relações de produção ou de propriedade heterônomas e alienadas, que governam esses seres humanos à sua revelia e mesmo contra eles, bem assim adquirem um jaez reificado nas formas das categorias históricas sucessivas da mercadoria, do dinheiro e do capital propriamente dito.

É precisamente esta duplicação ou bifurcação dos seres humanos que produz uma vida em sociedade alienada e reificada, uma verdadeira segunda natureza que se exibe aos indivíduos humanos como objeto externo que os governa e oprime, e mesmo os humilha, enfim, a sociedade apresenta-se objetivamente aos seres humanos como algo misterioso a ser investigado e compreendido a posteriori mediante o método científico.

Logo, a objetividade nas ciências sociais decorre exatamente desta reificação ou alienação na produção e reprodução da vida material humana pelo trabalho, sendo certo, ainda, que o cientista social desdobra-se simultaneamente como sujeito e objeto da respectiva investigação científica em razão de tal bifurcação ou duplicidade, em um movimento similar à descentração do indivíduo humano em direção ao pensamento operatório formal, devidamente descrito por Jean Piaget em sua epistemologia genética. 

Hipóteses sub judice. 





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA. 

terça-feira, 28 de abril de 2026

PLATÃO EM PARIS

É cediço que a mercadoria bifurca-se em valor de uso (seu aspecto concreto) e valor de troca (seu aspecto abstrato), bem assim que este último emancipa-se historicamente da mercadoria e se convola no dinheiro, mediante o qual se realiza a circulação de mercadorias, cabendo destacar que o dinheiro perde paulatinamente o seu suporte material no metal precioso e, passando pelo papel-moeda, converte-se nas hodiernas moedas digitais, parecendo lícito ventilar que tal desmaterialização progressiva ocorre paralelamente ao processo pelo qual o trabalho adquire caráter cada vez mais eminentemente intelectual e imaterial.

Mas interessa aqui observar que tal bifurcação da mercadoria reflete-se, no âmbito superestrutural da filosofia, na dicotomia platônica entre corpo e alma, cujo desdobramente epistemológico acaba por opor o empirismo ao racionalismo. 

Indo um pouco além, impõe-se obtemperar que até mesmo o socialismo científico sofreu influência de tais dicotomias platônicas, senão vejamos. 

Na França, verbi gratia, a tradição marxista dividiu-se entre o estruturalismo de Louis Althusser e o existencialismo de Jean-Paul Sartre, sendo certo que a obra deste último informou, em grande medida, a crítica corrosiva do historiador marxista britânico Edward Palmer Thompson à teoria de Althusser, em embate que se tornou famoso. 

Todavia, talvez se mostrasse mais produtivo e edificante um certo "meio termo" teórico entre o anti-humanismo estruturalista de Althusser e o humanismo existencialista de Sartre.

Sem embargo, à medida que a história aproxima as distintas sociedades de uma Humanidade real e concreta, e não apenas abstrata, a ser atingida no comunismo vindouro, de jaez universal e planetário (em que divisões entre Estados-nações e classes sociais antagônicas desaparecerão), o ser humano vai outrossim paulatinamente deixando de ser mero títere das relações de produção, ou mero vetor ou suporte de determinações da estrutura econômica, para tomar as rédeas do próprio destino, mas não como indivíduo, e sim como coletividade.

Hipóteses sub judice. 





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.     

A REVOLUÇÃO TARDA E O CAPITALISMO AGONIZA

Não por acaso, o materialismo histórico e dialético nasceu quase concomitantemente com o capitalismo industrial, durante o processo de subsunção real do trabalho no capital, historicamente introduzido pelo advento da maquinaria e grande indústria típicas da revolução industrial inglesa do século XVIII.

Sem embargo, o capitalismo e a respectiva extração de mais-valia funcionam melhor na produção industrial de jaez fabril, a saber, com o trabalho eminentemente manual e prático, porquanto mais difícil extrair a mais-valia do trabalho eminentemente intelectual dos programadores de software, malgrado a hodierna tentativa de controlar e acelerar o pensamento e o trabalho intelectual respectivo mediante algoritmos da denominada "inteligência artificial".

Portanto, o capitalismo exibe-se essencialmente prático e material, enquanto o socialismo será essencialmente intelectual, eis que a progressiva automatização da indústria fabril, que substitui o trabalho prático e manual dos seres humanos por máquinas e robôs, liberará, no socialismo, tempo para desinibição do trabalho eminentemente intelectual necessário à gigantesca tarefa da planificação econômica.

Mas o trabalho eminentemente intelectual avança, diante do trabalho eminentemente manual, ainda durante a vigência do capitalismo, o qual se depara, portanto, com dificuldades na extração de mais-valia, situação esta a demonstrar que a transição para o socialismo, que é eminentemente intelectual, já se mostra possível e exequível, ou mesmo tardia.

A experiência soviética, por seu turno, demonstra descompasso entre o nível de automação industrial e as relações de produção, isto é, relações de produção socialistas foram implantadas, na extinta União Soviética, em ambiente industrial ainda pouco automatizado e impróprio para o livre desenvolvimento do trabalho intelectual, que a planificação econômica socialista demanda e requer.

As atuais teorias do capitalismo cognitivo ou superindustrial, bem assim do tecnofeudalismo, consistem em sintomas precisamente do fato de que o trabalho intelectual eminentemente socialista já foi liberado pelo capitalismo, sem que tenha ainda  ocorrido, todavia, a transição socialista.

Sim, a revolução tarda enquanto o capitalismo já agoniza. 

Hipóteses sub judice.





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA. 

domingo, 26 de abril de 2026

O TEMPO E O EGO

Como diria Karl Marx, as robinsonadas do indivíduo isolado, abstrato, dissociado das sociedades presente e passada que o produzem, não passam de ideologia burguesa no seu mais puro estado, eis que se faz mister considerar os seres humanos de forma sincrônica e diacrônica. 

Nesse diapasão, sob prisma diacrônico, o indivíduo humano consiste em mero elo na cadeia do tempo que une passado e futuro, um fugaz presente que não pode suplantar a condição de passagem, na exata medida em que se exibe como mero instrumento da produção e reprodução da vida material humana em sociedade. 

Louis Althusser, portanto, estava parcialmente correto ao postular que o indivíduo, a saber, o ego humano é mero suporte ou vetor de determinações estruturais da economia, mas bastava-lhe introduzir aí o elemento do tempo histórico: o indivíduo humano é vetor e passagem de relações históricas de produção. 

Mas vejam: isto não representa qualquer demérito para o indivíduo humano, pois, ao contrário, emancipa sua condição histórica, enfatizando sua importância no curso do tempo, enfim, no devir, na ligação entre as gerações passadas e as gerações futuras.   




por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA. 

quarta-feira, 22 de abril de 2026

A POESIA CONCRETA, OU O ASPECTO SOCIAL COMO ASPECTO ABSTRATO.

Como vimos, a mercadoria bifurca-se em valor de uso (seu aspecto concreto) e valor de troca (seu aspecto abstrato), sendo certo que este último aspecto exibe-se eminentemente social, na exata medida em que as relações sociais, ou de produção, entre os seres humanos encerram um jaez tipicamente alienado e heterônomo, pois se originam e governam os indivíduos à revelia deles, e mesmo contra eles.

O aspecto abstrato da mercadoria, ou seu valor de troca é, portanto, seu aspecto eminentemente social, e o mesmo ocorre com a palavra escrita, senão vejamos.

Sem embargo, analogamente à mercadoria, a palavra escrita também se bifurca em aspecto abstrato ou social, a saber, seu significado; e seu aspecto concreto, isto é, o significante, que coincide com o próprio símbolo desenhado em papel ou virtualmente.

A poesia concreta exalta e emancipa precisamente esse aspecto concreto da palavra escrita, e nesse sentido encerra um jaez socialista ou progressista de esquerda, senão vejamos. 

Sem embargo, o dinheiro consiste na emancipação do valor de troca ou aspecto abstrato da mercadoria, que ulteriormente, ao se transformar em capital propriamente dito, apropria-se da produção econômica e material da vida humana na indústria fabril, dividindo os seres humanos nas classes sociais antagônicas da burguesia e do proletariado, sendo certo que este último guarda um jaez revolucionário, na medida em que tem o potencial de reunir e reunificar a humanidade numa sociedade comunista despojada da divisão em classes sociais.

Nesse modo comunista de produção, ainda vindouro, a mercadoria desaparecerá pela fusão entre seu valor de uso e seu valor de troca, prevalecendo o respectivo aspecto concreto dos produtos econômicos, dirigidos à efetiva satisfação das necessidades individuais também concretas.

Logo, a poesia concreta, ao exaltar o aspecto concreto da palavra escrita, divisa uma sociedade sem classes e sem mercadoria, em que a necessidade de acumulação capitalista será superada pelas necessidades humanas concretas.





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.