domingo, 5 de julho de 2026

A FAMÍLIA PRODUZ O SER HUMANO E O ESTADO PRODUZ A FORÇA DE TRABALHO

Sem embargo, a reprodução sexuada e os cuidados dedicados à infância e à adolescência dos indivíduos, no âmbito familiar, produzem o ser humano em sua totalidade, ao passo que a dissociação entre trabalhador e meios de produção, diariamente reproduzida pelas forças públicas estatais, mutila este ser humano, reduzindo-o a força de trabalho.

Logo, a força de trabalho, nos pródromos do modo capitalista de produção, não exibe valor, mas apenas custo, eis que os cuidados familiares e a atuação das forças armadas não podem ser consideradas como trabalho, no sentido estrito da produção de valor. 

Somente no capitalismo avançado é que a produção da força de trabalho, engajada no trabalho eminentemente intelectual para elaboração de software, demanda o trabalho de professores no sistema educacional, de tal sorte que, portanto, nesse capitalismo avançado a força de trabalho adquire efetivo valor econômico.

A educação, no entanto, encerra o potencial de produzir não somente força de trabalho, mas ser humano apto a adquirir consciência de classe e atuar contra o status quo.

Hipóteses sub judice. 







por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.  

ESQUETE SOBRE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

A divisão social do trabalho e a circulação de mercadorias determinam a mediação das relações entre os seres humanos pelo dinheiro, o qual, por seu turno, constitui destarte uma razão heterônoma e alienada que governa tais seres humanos à sua revelia, e mesmo contra os mesmos, na incessante busca pelo lucro.

Tal razão heterônoma e alienada adquiriu hodiernamente contornos concretos e materiais com o advento da assim denominada inteligência artificial, cujo potencial para dominar e aniquilar a espécie do homo sapiens está dado, precisamente, pelo seu caráter heterônomo e alienado em relação aos seres humanos, isto é, sob o pálio do dinheiro e do capital, ela pode de fato tornar-se hostil à sobrevivência de nossa espécie biológica. 

Portanto, é de rigor que a classe trabalhadora mundial, unida, tome o controle dessa força produtiva, juntamente com os meios de produção, colimando adotá-la para fins humanos na consecução da planificação econômica de jaez socialista. 






por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA. 

sábado, 4 de julho de 2026

MÁRIO SCHENBERG

 112 anos de uma vida entre a física e o combate político


Carlos Santiago — Doutor em Ciências Sociais, UNESP/Marília


Em 2 de julho de 2026 completam-se 112 anos do nascimento de Mário Schenberg (Recife, 1914 — São Paulo, 1990), o maior físico teórico brasileiro do século XX. Celebrar sua obra científica exige, também, lembrar que Schenberg jamais separou a pesquisa da ação política — e que essa indissociação lhe custou caro. Filiado ao Partido Comunista Brasileiro, Schenberg elegeu-se deputado estadual constituinte em São Paulo em 1946. Na Assembleia, integrou a bancada comunista liderada por Caio Prado Júnior, com quem articulou a aprovação do Artigo 123 da Constituição paulista de 1947 — dispositivo que reservava parcela da receita estadual ao fomento da pesquisa científica. Essa semente, amadurecida ao longo de treze anos de disputa política, germinaria em 1960 na fundação da FAPESP, uma das maiores agências de fomento científico da América Latina. É difícil imaginar homenagem mais concreta ao papel de cientista-cidadão que Schenberg cultivou. O preço dessa militância veio rápido: em 1948, com a cassação do PCB, toda a bancada comunista — Schenberg incluído — perdeu o mandato, e o físico foi preso. Reeleito em 1962, já pelo PTB, em acordo com um PCB na clandestinidade, sequer chegou a ser diplomado, impedido pela Justiça Eleitoral. Com o golpe de 1964, foi novamente detido, permanecendo cerca de cinquenta dias em condições degradantes nas dependências do DOPS, até que a pressão de físicos internacionais — entre eles Werner Heisenberg e Hideki Yukawa — contribuísse para sua libertação. Anos depois, sob o Ato Institucional, seria afastado da universidade. Nesses momentos de cerco, a solidariedade também veio de dentro do círculo mais próximo de Schenberg. O pai de Alberto Luiz da Rocha Barros — que seria, mais tarde, discípulo direto do físico no Instituto de Física da USP — atuou como advogado em sua defesa, gesto que testemunha como a perseguição ao cientista mobilizou também os laços de amizade e confiança construídos ao longo de sua trajetória acadêmica. Marcar esta data não é apenas lembrar o político perseguido, mas reafirmar o compromisso com o legado científico que ele deixou inacabado em tantas frentes. É nesse espírito que venho me dedicando à edição crítica de sua tese de cátedra de 1944, Princípios da Mecânica — trabalho que busca não apenas preservar, mas também iluminar, à luz da física contemporânea, a originalidade de um pensamento que a perseguição política jamais conseguiu silenciar.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

STOCKHAUSEN

Equivocou-se quem imaginou que este singelo discurso versaria sobre o compositor Karlheinz Stockhausen, malgrado trate de música, de alguma forma.

Não, definitivamente cuido aqui, de maneira muito breve, da Balada número 1 de Chopin, que foi dedicada pelo músico polonês, radicado na França, ao senhor Barão de Stockhausen, embaixador de Hannover em Paris no curso do século XIX, cuja figura, a julgar pelo monumento musical com que foi homenageado, deve ter impressionado seus coetâneos pela sobriedade, austeridade, circunspecção e gravidade.            

Mencionada peça artística enceta-se com a apresentação do primeiro tema, que é sucedida por uma das mais belas passagens da história da música ocidental: uma seção com sequências repetidas de um tema melódico de oito notas, cuja execução vai-se  acelerando até culminar numa apoteose dilacerantemente deslumbrante, que mimetiza a aceleração da história da humanidade, ou a percepção individual da aceleração ilusória do tempo com o envelhecimento, cujo ápice seria uma evento apocalíptico. 

Não há mais palavras para descrever a epifania catártica decorrente da audição correspondente, somente pranto inexorável e copioso.





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.  

segunda-feira, 29 de junho de 2026

INFÂNCIA

Reiteradamente, preconizamos aqui que a produção e reprodução da vida material humana bifurca-se em:

1. Universo da reprodução sexuada, mediado pelo amor, em que se forja o ser humano;

2. Universo do trabalho, mediado pelo dinheiro, em que se forja a força de trabalho. 

Malgrado o capitalismo, em seus pródromos, tenha adotado massivamente a infância como fonte de trabalho na nascente indústria fabril durante o período da Revolução Industrial inglesa do século XVIII, o fato é que hodiernamente procura-se, de forma relativa, afastar as crianças e adolescentes do universo do trabalho, em que a produção e reprodução da separação entre trabalhadores e meios de produção pressupõe uma violência estatal difusa e mutiladora das plenas potencialidades humanas. 

Nossa infância, pois, envolta pelo amor da família que produz o ser humano, constitui em geral nosso período de vida mais feliz e edificante, anterior à nossa inserção no mundo do trabalho.

Por isso o grande escritor Gabriel García Márquez aduzia, com muita precisão e perspicácia, que "é muito difícil competir com a infância"






por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA. 

sexta-feira, 26 de junho de 2026

O DINHEIRO E O FETICHISMO DA MERCADORIA

No capítulo inaugural de sua obra magna, O Capital, Karl Marx aduz que o fetichismo intrínseco à mercadoria produz a ilusão consistente no fato de que as relações entre os seres humanos aparecem-lhes como se fossem relações entre coisas. 

Mas acontece que o aspecto abstrato da mercadoria, a saber, seu valor de troca acaba por emancipar-se como dinheiro, que proporciona a circulação das mercadorias e a primeira forma histórica da mais-valia, aquela decorrente das diferenças de preços, o que aprofunda o mencionado fetichismo.

A princípio como moeda metálica, vale dizer, como ouro ou prata, o dinheiro, todavia, vai progressivamente perdendo sua materialidade, passando pela forma de papel-moeda e chegando às hodiernas moedas digitais virtuais. 

Isso significa que o aludido fetichismo, a princípio consubstanciado em algo bem concreto como a mercadoria, vai paulatinamente perdendo concretude e se desvanecendo em formas cada vez mais abstratas, até perder totalmente seu suporte material no vindouro modo de produção comunista, quando as relações entre os seres humanos perderão a mediação por coisas e serão descortinadas como efetivas relações entre representantes da espécie do homo sapiens. 

Logo, quanto mais próximos historicamente estivermos do fim do capitalismo e dos pródromos do comunismo, mais imaterial será o dinheiro. 

As hodiernas moedas digitais denotam, portanto, uma efetiva fase histórica dos estertores do modo de produção capitalista. 

Hipóteses sub judice.





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.  

quarta-feira, 17 de junho de 2026

"O MEU REINO NÃO É DESTE MUNDO" (dedicado ao Padre Júlio Lancellotti)

Provavelmente, o reino a que se refere Jesus Cristo esteja em uma sociedade vindoura, onde o amor substitua o dinheiro como mediação das relações entre os seres humanos. 

Consoante já aqui aventado de forma reiterada, a produção e reprodução da vida material humana bifurca-se em: reprodução sexuada, mediada pelo amor; e trabalho, mediado pelo dinheiro.

Ora, quando o dinheiro for substituído pelo amor na mediação das relações sociais determinadas pelo trabalho, então teremos o verdadeiro reino a que se refere Jesus Cristo, que ainda não é deste mundo atual. 

Há duas vias para alcançar esse novo reino: a política e o exemplo, mas essa primeira via é muito contaminada ainda pelo dinheiro, então a via do exemplo, adotada pelo próprio Cristo, também é muito válida. 

Pelo exemplo, colima-se despertar, no âmago dos seres humanos, o que ainda lhes resta de amor e fraternidade pelo próximo, esse sentimento de que dependemos uns dos outros para a preservação da espécie do homo sapiens.

Se todos seguirem o exemplo, o reino a que se refere Jesus Cristo não tardará. 







por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.