segunda-feira, 9 de março de 2026

TENTATIVA DE CORREÇÃO DE UM EQUÍVOCO DE RELATIVA GRAVIDADE.

Faz-se mister corrigir o texto imediatamente precedente publicado neste portal eletrônico, pois não é a propriedade privada dos meios de produção que caracteriza o capital, mas o seu contrário, a saber, a força de trabalho.

Destarte, o proprietário capitalista ainda encerra relação com a sua propriedade dos meios de produção, restando determinado por tal relação, enquanto o trabalhador despojado de propriedade dos meios de produção resta indeterminado, carecedor desta relação determinante, o que favorece a acepção abstrata do indivíduo indeterminado e sem origem no tempo e no espaço, isto é, a acepção daquela mônada diacrônica e sincrônica mencionada.

Bem, tal mônada está no nascedouro da matemática mais plena, eis que favorece a noção do número como elemento despojado de qualquer concretude e determinação, e que, portanto, pode referir-se a qualquer coisa, como acontece também com o dinheiro. 

Hipóteses sub judice.




por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.

MATEMÁTICA E IDENTIDADE

Assim como o número pode referir-se a qualquer coisa, também o dinheiro pode convolar-se em qualquer coisa, pois ambos, número e dinheiro, são, na verdade, resultantes da abstração consistente na acepção do indivíduo humano enquanto mônada sincrônica e diacrônica, isto é, um elemento ou unidade desprovida de suas origens no tempo e no espaço. 

Por isso, a matemática exibe-se, em grande parte das vezes, como identidade, equivalência ou equação, vale dizer, a capacidade de alguma coisa converter-se em outra sem perder a própria natureza ou essência, como ocorre com o dinheiro e com o número.

Mas nota bene.

A acepção do indivíduo humano abstrato somente adquire plenitude com o advento da propriedade privada dos meios de produção, ou seja, com o capital, que é pura matemática.

Hipóteses sub judice. 






por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.  

quinta-feira, 5 de março de 2026

TEMPO E IDENTIDADE

Tempo e identidade são inconciliáveis, contraditórios. Explico. 

A noção de tempo absoluto e linear, subvertida completamente pelo espaço-tempo da teoria da relatividade de Albert Einstein, decorre de um defeito de percepção ínsito ao cérebro do homo sapiens. 

Sem embargo, parece-nos que, apesar das mudanças em nosso corpo decorrentes do processo de envelhecimento, nossa identidade remanesce, isto é, parece que somos sempre os mesmos, malgrado as transformações por que passamos, o que engendra a noção de tempo linear e absoluto que escoa independentemente das mudanças e movimentos dos corpos, noção essa que na verdade é uma falácia, uma dissociação indevida entre espaço e tempo.

Logo, a noção de identidade (que constitui, na verdade, uma tautologia lógica), muito comum na matemática, verbi gratia, é incompatível com o movimento e a mudança, isto é, com as transformações, eis que se exibe estática e não dinâmica, em confronto direto com o real em si, sempre mutante e fluido, a começar pelo fato de que o próprio universo expande-se incessantemente.

São singelas notas sub judice. 





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.  

ANTÓNIO LOBO ANTUNES

Hoje lamentamos profundamente a perda de António Lobo Antunes, que se despediu deste mundo aos 83 anos de idade, legando uma obra literária de importante extensão e envergadura artística, com se destacar como herdeiro legítimo de uma tradição que remonta, provavelmente, a Marcel Proust, caracterizada, em grande medida, pela perda gradativa da onisciência do narrador, que se torna, destarte, mais introspectivo e menos propenso à objetividade da narrativa. 

Sem embargo, o início do século passado, quando Proust engendra sua obra, viu florescerem novas formas de percepção do real em si, tanto nas artes quanto na ciência, de tal sorte que a subjetividade do artista ou do cientista tradicionais subverte-se em favor de um profundo questionamento dos limites e capacidades do sujeito cognoscente ou criativo. 

No âmbito científico, verbi gratia, a noção de tempo absoluto e linear, decorrente da sensação individual de permanência da identidade do indivíduo apesar do envelhecimento, foi completamente subvertida pela teoria da relatividade de Albert Einstein, enquanto a objetividade do próprio conhecimento científico foi posta à prova pela mecânica quântica, máxime pelo princípio da incerteza formulado por Werner Heisenberg, que demonstrou a interferência do sujeito sobre o objeto investigado durante o processo de observação empírica.

Ora, a obra de Lobo Antunes inscreve-se precisamente nessa nova percepção do real, pois seu narrador jamais divisa ou colima a objetividade, mas sua narrativa é fragmentária e não linear, com um tempo idem, de sorte a mimetizar o jaez hesitante e dúbio da memória  individual, sendo certo que a possibilidade de apreender a verossimilhança do objeto narrado exibe-se sempre duvidosa. 

Enfim, hoje um grande mestre das artes partiu lamentável e definitivamente, mas sua obra remanesce. 






por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.   

quarta-feira, 4 de março de 2026

AINDA SOBRE HEGEL, OU NOVA TENTATIVA DE ENSAIO EPISTEMOLÓGICO.

O empirismo é necessariamente individualista, mas não o racionalismo. Explico.

Dados sensíveis são capturados necessariamente por sentidos e sensações vinculados ao corpo do indivíduo da espécie biológica do homo sapiens, e a razão também pode estar atrelada a um órgão específico do ser humano enquanto indivíduo, o cérebro, razão pela qual tanto o empirista John Locke quanto o racionalista René Descartes consideravam como fundamento de seus arrazoados epistemológicos o indivíduo humano. 

Todavia, o advento da filosofia de Georg Wilhelm Friedrich Hegel trouxe um elemento de complexidade nesse panorama, pois a razão, para tal expoente, deixou de vincular-se ao cérebro individual e adquiriu autonomia em relação aos seres humanos concretos, na medida em que se desenvolve à revelia destes humanos, na história, e encerra como epítome o Estado burguês, como se os indivíduos fossem meros vetores ou títeres dessa razão autônoma, tanto que Hegel denominou Napoleão Bonaparte de "razão a cavalo".

Karl Marx também considera a razão sob prisma hegeliano ou, digamos, supraindividual, mas de forma materialista, de tal sorte que a epítome da história ainda será alcançada no futuro, com a razão concreta e materializada em um algoritmo de inteligência artificial incumbido de realizar a planificação econômica mundial no comunismo vindouro.

Hipóteses sub judice. 






por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

RELAÇÕES DE PRODUÇÃO E CATEGORIAS ECONÔMICAS: BREVÍSSIMO ENSAIO OU TENTATIVA EPISTEMOLÓGICA.

Em O Capital, obra magna de Karl Marx, observamos a sucessão histórica das categorias econômicas, numa escalada diacrônica que vai da mercadoria ao capital, passando pelo dinheiro, sempre obedecendo rigorosamente a um esquema lógico-dialético em que cada categoria é derivada dialeticamente da precedente, o que demonstra o processo pelo qual o pensamento puro ou abstrato captura a realidade em si, isto é, a realidade concreta, e não apenas suas aparências ou manifestações empíricas ou sensíveis, que se apresentam imediata e diretamente aos sentidos e sensações do homo sapiens. 

Mas tais categorias econômicas correspondem empiricamente, vale dizer, no universo da empiria, a relações de produção ou de propriedade, de tal sorte que a categoria econômica do capital, verbi gratia, corresponde empiricamente à propriedade privada dos meios de produção.  

As relações de produção, portanto, podem servir à história econômica ou à sociologia econômica, mas delas não se dessumem leis científicas de economia como, por exemplo, a lei da queda tendencial da taxa de lucro, derivada matematicamente dos pressupostos das categorias econômicas, e não das relações de produção.

Por isso, Karl Marx, no fim da vida, estudou matemática, ou mais especificamente cálculo diferencial e integral, a partir da obra de Wilhelm Leibniz, e não história ou sociologia. 

Logo, o universo empírico constitui uma etapa necessária, mas não suficiente, do movimento de apreensão do real em si, ou concreto, pelo pensamento puro ou abstrato, movimento este que configura a essência do processo do conhecimento científico. 





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.  

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

FREUD BEM QUE TENTOU (cuidado, contém revelações sobre o filme "Valor Sentimental")

O complexo edipiano descrito por Sigmund Freud explica muita coisa, mas não tudo, evidentemente, como mostra Joachim Trier em seu filme intitulado Valor Sentimental.

Nessa película cinematográfica, o "sumiço" do pai, progenitor ausente, causa sequelas relativamente graves na filha, que não consegue elaborar a contento seu complexo de Édipo e tem dificuldades com relacionamentos pessoais; mas o pai sofreu também com o desaparecimento da respectiva mãe, na tenra idade dele, por suicídio, de tal sorte que tampouco consegue estabelecer laços pessoais de forma conveniente.

Até aqui, tudo mais ou menos bem inteligível, mas a coisa se complica pela informação de que tal suicídio ocorreu provavelmente por causa de sequelas decorrentes de tortura por agentes nazistas.

Ora, como já vimos ad nauseam neste blog, a produção e reprodução da vida material humana em sociedade ocorre em duas frentes: a reprodução sexuada, que nos une como espécie biológica; e o trabalho, que nos divide socialmente em classes sociais antagônicas.   

Freud investigou a primeira frente acima deslindada, e Karl Marx a segunda, que interfere na primeira, evidentemente, e isso aparece no filme em comento na forma da política, nomeadamente nas torturas perpetradas pelo nazismo. 

Em suma, a vida é bem complexa, mas a sétima arte se presta melhor a exibir a vertente investigada por Freud, eis que a vertente estudada por Marx parece mais abstrata e distante, mas ambas se interpenetram, por óbvio.

Efusivos cumprimentos a JOACHIM TRIER pelo filme em comento!!!





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.