terça-feira, 28 de julho de 2026

SONHOS (uma estranha declaração de amor)

Parentes, amigos, namoradas, enfim, as pessoas em geral se afastam de mim por causa de meu comportamento esquisito, quase esquizóide, imerso e absorto que remanesço em meus delírios e sonhos, um mundo muito particular decorrente de minha afecção mental.

Mas alguns permanecem, e entre eles destacam-se os membros do Núcleo de Estudos do Capital do Partido dos Trabalhadores, camaradas que me acolhem com afeto, carinho e ternura há mais de trinta e cinco anos. 

Já disseram que somos, nós desse núcleo partidário, um mero grupo de gourmets!

Mas, como redarguiu o grande camarada Ciro Seiji Yoshiyasse, isso pode até ser verdade, mas entre um prato e outro, entre uma taça e outra, ainda não perdemos a capacidade de sonhar.    

Sim, sonhar com a revolução, com o comunismo, com um mundo melhor para todos viverem nele, enfim, a capacidade de sonhar parece ser um elemento que nos torna coesos como núcleo partidário!

Muito obrigado, camaradas do NEC-PT!





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA. 

segunda-feira, 27 de julho de 2026

MANIFESTO DE JUNHO - Partido da Refundação Comunista

Ampla unidade para derrotar os fascistas e traidores da Pátria



No processo eleitoral que se abre, destaca-se, para as pessoas de consciência democrática, progressista e patriótica, de esquerda ou não, membros de partidos ou não, militantes ou não, de qualquer idade, ocupação, classe social e condição econômica – para o povo brasileiro, enfim, com as demais camadas preocupadas com os riscos antepostos à Nação –, uma tarefa central. Trata-se de se unirem para derrotar os candidatos fascistas, confessadamente traidores da Pátria, e manter Lula e Alckmin na Presidência e na Vice, visando a garantir o regime democrático, defender a soberania do País, melhorar a composição dos parlamentos, seguir no desenvolvimento com progresso social e aprofundar reformas de interesse popular. Tais objetivos demandam foco, vontade, coragem, perseverança e discernimento, para se distinguir, entre as contradições, aquela principal, que define os campos em conflito e a tática. 


Essa disputa decisiva ocorre em uma situação extremamente complexa e grave, no País e no mundo. O capitalismo vive hoje, internacionalmente, o período estagnante do ciclo longo inaugurado logo após a Segunda Guerra Mundial. O fim da "Época de Ouro", instalado na primeira metade dos anos 1970, e a falência do “Consenso de Washington”, que agora se traduz na ruína da unipolaridade, escancararam os novos limites antepostos à sociabilidade burguesa. Ficou público e patente que a chamada globalização neoliberal entrou em crise e se esgotou. As suas promessas de abundância e liberdade em um Planeta utópico, sem história e sem lutas entre as classes, fracassaram em face da saturação tecnológica desregrada e da concentração econômica extrema, bem como da fusão entre os bens produtivos, comerciais e bancários na sua financeirização paroxísmica, reafirmando a baixa tendencial na taxa de lucros.


Nesse quadro, as frações mais reacionárias do capital monopolista-financeiro vêm ressuscitando o fascismo. Bancando saídas violentas para impor regimes políticos ditatoriais, tentam exterminar qualquer resistência e garantir a superexploração das multidões.  Ao desconstituir condições de sobrevivência popular, mediante a desestruturação do mundo laboral, o estrangulamento nos mercados internos e o arrocho aos pobres, pretendem converter o proletariado em massa miserável e sem direitos. Para tanto, semeiam o medo e manipulam ressentimentos psicossociais da pequena burguesia, especialmente suas frações desamparadas ou em fase de proletarização. Concomitantemente, valem-se da engrenagem que apropria o sobretrabalho no ciberespaço, com aplicativos e “inteligência artificial”, para elevar o controle sobre o ritmo laboral, rebaixar salários e exaurir os trabalhadores.


O resultado é a multidão global de "sobrantes": em 2026, a lacuna nos empregos atingiu 408 milhões de pessoas e, a informalidade, 2,1 bilhões. Nas metrópoles, a inflação dos alimentos e o colapso dos serviços públicos corroem o salário real, forçando multidões a empilharem ocupações precárias e sem garantias, na economia de plataformas virtuais e nos contratos PJ. O desalento dobra entre os jovens, que são empurrados ao isolamento e à criminalidade. O capital explora, também, as ondas migratórias das crises por si exportadas, metamorfoseando imigrantes no contemporâneo e degradado exército laboral de reserva. Fiel defensora dos magnatas que os patrocinam e não raro precedem, a extrema direita instrumentaliza tais fluxos ou diásporas por meio de vilanias e preconceitos, inclusive a xenofobia e o racismo, para culpar os “estrangeiros” pelo sucateamento público, dividir os povos e sabotar os sindicatos.


No oeste da Ásia, os EUA procuram camuflar e blindar o genocídio que atinge a Palestina, para transformar Gaza em protetorado. Violam, reiteradamente, os compromissos de cessar-fogo. Corroboram os ataques israelenses à nação iraniana, sob as ordens do Governo Netanyahu.


Pretendem, assim, apesar de revezes – como na guerra do Golfo Pérsico – controlar o fluxo de petróleo e deter a crescente resistência euroasiática. Com a degringolada e o declínio dos consensos imprescindíveis à sua hegemonia, seguidos pelo avanço da multipolaridade promovida e representada pelo BRICS, os EUA provocam guerras regionais, reativam a corrida armamentista e causam o risco de novo conflito global. Na Europa, os governos das grandes potências capitalistas e a OTAN, seu braço armado em aliança instável com Washington, nutrem a guerra contra o Estado russo. No leste da Ásia, o governo japonês eleva as tensões.


Sob o governo de Donald Trump, o imperialismo estadunidense resgata a caquética e antediluviana Doutrina Monroe, como se o Hemisfério Ocidental, especialmente o seu autoproclamado “quintal” americano, fosse a sua área de influência natural e incontestável. Assim, pratica o intervencionismo mais descarado, articula as forças reacionárias internas e patrocinam golpes ou ascensões nas brechas das instituições locais, que são sistematicamente manipuladas e, ao fim e ao cabo, convertidas em regimes autocráticos.


Embora contestada pelos povos e nações que mantêm governos soberanos e altivos, essa tutela, ansiada e praticada por Washington, consubstancia-se nos atos de agressão militar à Venezuela, no bloqueio à Cuba e nas sanções à Colômbia, bem como nas ingerências que facilitaram os assaltos extremo-direitistas às estruturas estatais de vários países do Cone Sul, da América Central e do Caribe.


No Brasil, os reacionários manipulam o sofrimento material gerado pelos seus próprios mecenas e o converte em ódio aos desafetos. O fascismo, como instrumento ideológico do capital financeiro em crise, alimenta-se de frustrações individuais, cresce na sociedade civil, disputa governos e tenta controlar instituições do Estado, para liquidar o regime democrático, implantar uma nova ditadura e superexplorar o trabalho, visando a concentrar mais ainda lucros e riquezas. Aproveitando-se da fragmentação que atinge a convivência no chão de fábrica, enfraquece a solidariedade ideológica de classe, favorece a cultura de autoisolamento e valoriza o “mérito individual”.


Apoia-se nos movimentos fundamentalistas e pânico moralista, inventando inimigos como "globalismo" e "marxismo cultural". Transforma redes sociais em arma de guerra com financiamento bilionário, difundindo mentira e desinformação em escala industrial.


A extrema direita, praticando a matriz entreguista sob a figura de “nacionalismo” miliciano e fantasiada como antissistêmica, utiliza o punitivismo e o culto à força bruta para canalizar o medo em face da crise na segurança pública. De modo eleitoreiro e desonesto, escolhe os partidos à esquerda e as entidades populares como alvos a serem aniquilados. Ademais, enquanto mantém intactos os monopólios econômicos, bajula o inquilino da Casa Branca. Põe-se, assim, sob o comando da política imperialista, fazendo-lhe coro na concentração de capital transnacional, na violência militar externa e no apego ao espaço vital em declínio, principalmente ligado a mercados e matérias-primas. O Brasil – com seus recursos estratégicos, mercado interno e parque industrial – é o foco prioritário do plano para sabotar a integração regional e interferir no processo eleitoral. Os candidatos bolsonaristas representam a sua obediente quinta-coluna.


Para realizar o seu papel nefasto, as forças fascistas encontram certos elementos favoráveis no terreno concreto. O social-liberalismo, em que pesem o seu progressismo e as suas conquistas iniciais, perdeu a potência inicial de cativar maiorias, diminuir a miséria e mobilizar grandes lutas. Suas políticas públicas viraram dogmas nas últimas décadas. Ao naturalizarem os imperativos de austeridade, gastos limitados a tetos e mera gestão da pobreza focalizada, engessaram o imaginário político. Setores à esquerda, integrados à burocracia institucional – no Estado e na sociedade civil –, repetem as receitas caducas. Mimetizados à lógica dos sucessivos arrochos e metas fiscais, esgotaram sua energia de responder às demandas populares. Aliás, trata-se de uma questão internacional, que desaba com maior brutalidade sobre os países dependentes: tais “ajustes” enfraquecem os direitos fundamentais e a infraestrutura pública.


Eis por que as iniciativas destinadas a mitigar os graves problemas da população, quando encaradas como um fim em si mesmas ou como elementos nucleares da estratégia transformadora, são incapazes de cativar o entusiasmo da juventude, organizar os setores avançados das classes trabalhadoras e colocar grandes massas em movimento. São, muito mais ainda, inaptas para criar uma força capaz de enfrentar o capital financeiro, os obstáculos econômicos estratégicos e às contradições fundamentais que sufocam o povo brasileiro. Em face de semelhante impasse, o grande nó a ser desatado é a unificação do campo democrático em defesa do atual governo, de suas medidas progressistas e das chapas identificadas com a frente ampla, mas promovendo, concomitantemente, a mobilização de massas pelas demandas imediatas do povo, articuladamente ao acúmulo de forças para novos e necessários avanços.


Por tudo isso, e pela ausência de um projeto em comum, o campo popular encontra-se paralisado por divisões internas e defensivismo tático.


Portanto, é urgente rejeitar tanto a acomodação nas estruturas estatais e governamentais, que aceita uma estabilidade institucional estéril, quanto as concepções típicas do esquerdismo sectário, cujas bolhas e discursos isolam a militância da realidade concreta. O fascismo encontra espaço e prolifera com desenvoltura entre o povo exatamente quando e onde os pioneiros sociais, as forças revolucionárias, os partidos políticos e os sindicatos representativos perdem a capacidade de organizar os trabalhadores e os “de baixo” nos locais de trabalho, moradia ou estudo, deixando o descontentamento legítimo com a democracia burguesa exposto à demagogia antipolítica dos hiperconservadores e autocratas.


A resposta mais consequente exige unidade e ações comuns. Os governos democráticos e soberanos do Continente devem erguer-se como polos fundamentais em defesa da paz e de solidariedade aos povos agredidos. Por seu turno, impõem-se a superação do reformismo burocrático, a disputa de cada insatisfação nas ruas, a reconstrução das organizações populares de massas e a reafirmação do papel central desempenhado pelo Estado brasileiro na aplicação de um projeto potente, que combine regime político democrático, soberania nacional e aspirações dos “de baixo”.


Consolidando-se o cenário em que se estreita o espaço das ditas terceiras vias, acentua-se a polarização entre os campos antagônicos e radicaliza-se o contencioso político, tornando óbvio que a reeleição de Lula é decisiva não só para o Brasil, mas também para a América Latina e os países dependentes ou ameaçados no mundo inteiro.


No País, o movimento bolsonarista é o núcleo da extrema direita. No combate à candidatura fascista, vassala do trumpismo, o apoio dos comunistas ao atual Governo Federal e à reeleição dos seus titulares traduz uma trilha combativa, nunca passiva. Jamais se deve assistir às contendas com braços cruzados. O objetivo do PRC é emparedar o ultraconservadorismo dentro e fora do processo eleitoral, mas com flexibilidade. Assim, a frente ampla deve tornar-se formalizada, orgânica e permanente, No seu interior, cabe aos partidos populares não apenas preservarem sua autonomia, mas serem o polo mais dinâmico, como representantes do Bloco Histórico encabeçado pelos trabalhadores urbanos e rurais. Para tanto, são imprescindíveis entendimentos que abarquem os dilemas cotidianos e sentidos da população, no apoio a candidaturas viáveis contra os reacionários, sem dogmatismo e sem puritanismo doutrinário.


Entre as bandeiras concretas estão: crescimento econômico com soberania e progresso social; controle da inflação sem a falaciosa “austeridade” ultraliberal; valorização real do salário-mínimo; alargamento e reforço do PAC; planejamento da Nova Indústria Brasil. Mas, em vez de meramente repisar conquistas passadas, são chaves a proposta e o discurso de avançar. Faz-se necessário atualizar o projeto para o futuro do Brasil, visando a: acumular forças; distribuir rendimentos; reduzir os tributos aos pobres, trabalhadores e empresários com salários ou proventos insuficientes; ampliar os direitos trabalhistas; promover a cultura nacional-popular; e radicalizar o regime democrático. Semelhante política somente será factível com abertura de um novo período conjuntural e com um largo arco de alianças que a defenda, promova ou sustente, assim como uma correlação de forças que retire as classes populares da defensiva.


Além dos majoritários, os postulantes proporcionais somam, e muito, na campanha para derrotar o principal candidato reacionário. Também desempenham relevante papel na luta para “mudar a cara” dos parlamentos – Congresso Nacional e assembleias estaduais –, fortalecendo as bancadas democráticas, progressistas e patrióticas nas instituições estatais que interferem nos rumos dos governos, da legislação e da política nacional. Eis porque os militantes, os ativistas, os lutadores populares, os apoiadores e eleitores da chapa Lula-Alckmin, precisam desenvolver iniciativas de ações próprias e multilaterais, desde já. De modo nenhum basta receber, “curtir” e falar pelas “redes sociais”, pois a internet e o ciberespaço, embora importantes, nunca substituem a vida ou as relações presenciais e pessoais, com contatos coletivos, individuais e diretos. O PRC apela, pois, às pessoas interessadas e engajadas no combate em curso.


Integrem-se à campanha eleitoral, imediatamente, conforme as fases definidas em lei. Vencer exige firmeza, organização e presença popular.


Trata-se de promover atividades coordenadas em cada bairro, fábrica e local de estudo, reunindo companheiros, colegas, conhecidos, amigos, familiares e vizinhos, convocando e fortalecendo encontros e atos, pequenos e grandes, nos vários e diversos espaços. O foco da carga é a extrema direita bolsonarista – o inimigo principal –, para desmascarar os agentes do imperialismo, isolá-los e preparar o triunfo. Nos estados-membros, é hora de apoiar candidaturas que reúnam maior número de forças, além de manter relações cordiais e contatos regulares com outros postulantes fora do campo extremo-direitista, bem como firmar pactos de não agressão, com vistas ao apoio incondicional ao político democrata que chegue ao segundo turno. O caminho da vitória é árduo, mas já está claro.



Brasil, 19-21 de junho de 2026



Comitê Central do PRC – Partido da Refundação Comunista


(originalmente publicado no sítio eletrônico "Vereda popular")


BREVÍSSIMO FRAGMENTO EM HOMENAGEM AO ETNÓLOGO CLAUDE LÉVI-STRAUSS.

A Humanidade ainda não existe como realidade concreta, mas somente enquanto conceito vago e abstrato, restando a espécie humana fragmentada  em classes sociais antagônicas e Estados nacionais beligerantes entre si, de tal sorte que a erradicação da propriedade privada dos meios de produção, em um vindouro modo comunista de produção em âmbito mundial, exibe-se como pressuposto básico para que tal conceito abstrato adquira concretude. 

Dito isto, é de rigor obtemperar que a etnologia encerra especial predileção pelo estudo de povos originários, como os indígenas do Brasil, que ainda vivem, de alguma forma, sob o pálio do modo de produção comunista dito "primitivo", que seria aquilo que mais se aproxima de sociedade despojada de propriedade privada dos meios de produção.

Mas vejam!

O assim denominado comunismo primitivo, que de certa forma se aproxima da realidade concreta da Humanidade, nos termos acima mencionados, não constitui propriedade coletiva MUNDIAL dos meios de produção, quedando ainda como certa "propriedade privada coletiva" de um determinado povo, e não propriedade coletiva de todos os seres humanos que habitam este planeta. 

Por tal motivo, a etnologia, como a de Lévi-Strauss, observou que os povos originários do Brasil submetem-se ainda a certas estruturas sociais que os governam de forma heterônoma e alienada, como uma razão externa que dita seus cânones aos habitantes da floresta, exatamente como nós, ditos "civilizados", ainda nos submetemos aos ditames do capital como estrutura social heterônoma e alienada, consoante nos lembrava Louis Althusser. 

No comunismo mundial vindouro, tais estruturas alienadas desaparecerão em nome do autogoverno da verdadeira Humanidade, que tomará de assalto as rédeas de sua própria história.

Hipóteses sub judice. 





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA. 

domingo, 26 de julho de 2026

"O SER HUMANO É UM BICHO CARINHOSO" (em memória do célebre dramaturgo PLÍNIO MARCOS)

Durante uma entrevista em Paris, há muito tempo, o preclaro e insigne Plínio Marcos prolatou a sentença em epígrafe, a qual encerra uma sabedoria de grande envergadura, senão vejamos.

É de rigor, a princípio, estabelecer uma clara, mas não estanque, distinção entre a antropologia humana e a história das relações de produção entre os membros da espécie do homo sapiens, e nesse diapasão podemos ventilar como hipótese de trabalho que a produção e reprodução da vida material humana bifurca-se em: 1. universo da reprodução sexuada, mediado pelo amor e pelo afeto, em que se forja o ser humano em sua integridade e potencialidades; 2. universo do trabalho, mediado pelo dinheiro e pelo capital propriamente dito, em que se engendra a força de trabalho que mutila o ser humano, tolhendo suas plenas potencialidades. 

O universo de 1 corresponde à instância familiar, plena de afetos, enquanto o universo de 2 refere-se ao mundo das lutas de classes, pleno de ódio, sendo certo que as relações de produção heterônomas e alienadas típicas de 2, que governam os seres humanos à sua revelia e contra os mesmos, abroquelam o potencial de serem suplantadas e substituídas por vindouras relações de produção comunistas que poderão erradicar as divisões entre classes sociais e Estados beligerantes, com instituir uma Humanidade concreta e real que superará a hodierna condição de conceito vago e abstrato, e em que o amor e o afeto vingarão nas relações sociais entre os seres humanos.

Logo, a sentença de Plínio Marcos, em comento, pode parecer relativa nos dias de hoje, mas corresponde, na verdade, a um projeto de Humanidade vindoura.    





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA. 

sexta-feira, 24 de julho de 2026

O ENIGMA (dedicado a CHICO BUARQUE)

O que há de atraente no enigma?

Para tentar responder a tal indagação, recorreremos a um singelo bosquejo de exame da bela canção de Chico Buarque intitulada "Terezinha"

Nesse diapasão, partiremos novamente da bifurcação da produção e reprodução da vida material humana em: 1. universo da reprodução sexuada, mediado pelo amor, em que se produz o ser humano em todas as suas potencialidades; e 2. universo do trabalho, mediado pelo dinheiro e correlata circulação de mercadorias, em que se mutila o ser humano para engendrar a força de trabalho. 

Pois bem, o primeiro que chega à Terezinha, na canção em comento, representa a relação de produção consubstanciada na mercadoria, pois vem do florista lhe trazendo um bicho de pelúcia, um broche de ametista, mostra o relógio e conta vantagens e viagens. 

O segundo é a personificação do dinheiro, representado na liquidez da aguardente que oferece a Terezinha, ou seja, é o aspecto abstrato da mercadoria, que não entrega nem vale, em si, nada, que a assusta. 

Logo, o primeiro e o segundo que chegam a Terezinha participam do universo de 2. 

Já o terceiro representa realmente o universo de 1, pois chega do nada e não lhe traz mercadoria ou dinheiro, mas verdadeiro amor, e atrai Terezinha enquanto ser humano em sua plenitude, com todas as verdadeiras e enigmáticas potencialidades que o membro da espécie do homo sapiens encerra.

O enigma atrai e encanta, provavelmente, por todos os misteriosos meandros pelos quais pode perpassar a personalidade humana que não é mutilada como força de trabalho. 





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Os Homens do Mar Somos Nós

Uma conversa sobre A Odisseia, de Christopher Nolan

Carlos Santiago (Doutor em Ciências Sociais - Unesp) 



Fui ao cinema ontem com meus sobrinhos e com a Amanda ver A Odisseia, de Christopher Nolan. As crianças saíram encantadas — e com razão, o filme tem espetáculo de sobra para isso. Eu também gostei, apesar de reconhecer, com um certo sorriso, a visão bem autoral do diretor sobre o material homérico. Mas o que ficou martelando na minha cabeça no caminho de volta, e que virou conversa boa depois, foi uma escolha dramática específica: a metáfora dos "homens do mar". 

Ao longo do filme, essa figura ronda o imaginário grego como uma ameaça sem rosto — vinda de fora, destruindo costumes antigos, mudando o mundo que os gregos conheciam. E então, perto do fim, há uma cena que sozinha vale o ingresso: Penélope, ainda sem saber que fala com o próprio marido disfarçado, pergunta ao estranho recém-chegado a Ítaca se ele e seus homens eram os "homens do mar". Odisseu responde que sim. E com essa única palavra, o filme reorganiza retroativamente tudo que veio antes. O inimigo que o mundo temia nunca foi um outro. Era o próprio grego, voltando para casa carregado da guerra que ele mesmo venceu. 

Vale dizer: isso é invenção de Nolan, não de Homero. Fui checar depois da sessão, e de fato não há qualquer menção aos "Povos do Mar" na Odisseia original. Essa é uma categoria da historiografia moderna, cunhada a partir de inscrições egípcias — as de Ramsés III em Medinet Habu, sobretudo — que descrevem confederações de invasores marítimos varrendo o Mediterrâneo oriental por volta de 1200 a.C. e contribuindo para o colapso de impérios inteiros. Homero é praticamente silencioso sobre isso. Mas a licença poética de Nolan não é gratuita: ele pega um enigma histórico real — quem eram essas pessoas, de onde vinham, por que o mundo antigo as temia tanto — e o transforma em metáfora para algo bem mais íntimo. A civilização não é destruída por uma força externa. É destruída pelos efeitos adiados da sua própria violência, disfarçados de ameaça alheia, porque é sempre mais suportável temer um inimigo do que reconhecer a própria autoria do desastre.

O temperamento heroico 

É aqui que entra minha referência preferida para pensar tragédia grega: Bernard Knox. Em The Heroic Temper, Knox descreve um tipo psicológico recorrente nos heróis sofoclianos — obstinado, isolado, incapaz de ceder mesmo quando ceder o salvaria. É o caso de Antígona, texto que conheço e exploro bastante: ela se recusa a dobrar-se ao edito de Creonte mesmo sabendo que isso a levará à morte, fiel a uma lei que ela sente como superior à lei da cidade. É o caso de Ájax, recusando viver desonrado. É o caso de Édipo, perseguindo a verdade mesmo sabendo que ela vai destruí-lo. Knox chama isso de heroísmo que se define pela recusa em parar — uma fidelidade absoluta a uma lógica interna que a comunidade ao redor já não consegue mais acompanhar, e que, exatamente por isso, produz catástrofe. 

O Odisseu de Nolan participa dessa mesma linhagem, ainda que de forma mais desgastada, menos nobre que uma Antígona. Ele não é o herói magnético e sedutor da tradição popular: é cansado, teimoso, às vezes cruel, obcecado pela necessidade de proteger todos ao seu redor mesmo quando essa proteção já não é mais possível. A astúcia que garantiu a vitória em Troia — o Cavalo, a manipulação, o engano como estratégia — não desaparece quando a guerra termina. Ela viaja com ele, vira método de sobrevivência, e é essa mesma inteligência manipuladora que, espalhada pelo Mediterrâneo através de seus homens dispersos, acaba gerando o pânico que os  gregos atribuem aos "homens do mar". O temperamento heroico de Knox não termina quando a guerra termina. Ele continua operando, agora como ameaça anônima, porque ninguém — nem os próprios gregos — quer admitir que o monstro é caseiro. 

A jornada invertida

Joseph Campbell descreveu a estrutura da jornada do herói como um ciclo de separação, iniciação e retorno: o herói parte, é transformado pela provação, e volta trazendo um dom para sua comunidade. A Odisseia de Homero é, para Campbell, o texto fundador desse modelo — Ulisses retorna a Ítaca restaurando a ordem, reafirmando o trono, o casamento, o lar. 

Nolan aceita a estrutura e inverte o conteúdo do retorno. O que Odisseu traz de volta não é um dom, mas a revelação de que ele próprio é a fonte do terror que sua comunidade vinha temendo havia anos. Não há restauração inocente ali — há reconhecimento. E é um reconhecimento duplamente irônico, porque acontece justamente no momento em que Penélope, símbolo ao longo de toda a tradição da fidelidade paciente que aguarda um retorno redentor, descobre, sem perceber de imediato, que aquilo que ela temia e aquilo que ela esperava eram a mesma pessoa. A jornada do herói, em Nolan, não termina em cura. Termina em confissão.

Impérios que geram seus próprios fantasmas 

Há algo maior por trás dessa escolha dramática, e talvez seja isso que explique por que ela ressoa tão bem hoje. Sociedades — antigas ou modernas — tendem a externalizar as consequências do próprio desenvolvimento, atribuindo a forças abstratas e estrangeiras aquilo que, na verdade, nasceu de dentro: guerras que geram crises, expansões que geram colapsos, vitórias que geram os inimigos da geração seguinte. Não é força demais reconhecer, em A Odisseia de Nolan, um comentário sobre como a própria civilização ocidental se constitui através desse ciclo — impérios que ruem e geram outros, violência que se relegitima como progresso ou heroísmo, e um mito fundador que esconde, na sua estrutura mais profunda, a história de um homem assombrado pelo que ele mesmo desencadeou. 

Não por acaso é um interesse que atravessa toda a obra recente de Nolan — de Amnésia a Dunkirk, de Oppenheimer até aqui: homens que reorganizam o passado para sobreviver a ele, cuja culpa histórica não é individual, mas coletiva, projetada, transferida para o mito. Os homens do mar não são um inimigo. São o espelho que os gregos — e nós — preferimos não reconhecer. E foi bom sair do cinema com essa pulga atrás da orelha, discutindo isso à mesa, entre uma lembrança da sessão e outra dos sobrinhos comentando as sereias.

HIPÓCRATES E MANUEL BANDEIRA

"A vida é breve, a arte é longa, a ocasião fugidia, a experiência enganosa, o julgamento difícil", asseverava o grandíloquo médico Hipócrates, aforismo este que eu ousaria parafrasear dizendo: a arte deve ser longa como a vida, a ciência deve ser breve como a morte.

Reiteradamente aduzimos aqui que a produção e reprodução da vida material humana bifurca-se em dua instâncias, a saber: 1. a reprodução sexuada, mediada pelo amor, que produz o ser humano integral; 2. o trabalho, mediado pelo dinheiro, que mutila o ser humano para engendrar a força de trabalho. 

Ora, a arte participa do universo de 1, sendo uma extensão da plenitude da vida humana, enquanto a ciência subsume-se no universo de 2, que por ora governa de forma heterônoma a vida humana enquanto as relações de produção alienadas, isto é, enquanto "toda a velha merda" (Marx) do mundo econômico não for superada pelo modo de produção comunista onde a abundância poderá ser regra e o trabalho mitigado.

Manuel Bandeira sintetizou essa mutilação de 1 por 2 cantando: "A vida inteira que podia ter sido e que não foi" 

Portanto reitero: arte longa como a vida, ciência breve como os aforismos de Hipócrates. 





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.