SINFONIA FANTASMA
Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira
Celibatário austero, Hélio vinha de concluir airosamente, aos trinta e cinco anos de idade, seu doutorado em composição musical summa cum laude, em mui prestigiada instituição acadêmica, motivo de intenso regozijo apenas suplantado pelo júbilo de ouvir a execução do concerto para piano e orquestra, em três movimentos, com o qual haurira tal diplomação, verdadeiro corolário de uma existência integralmente dedicada à arte das musas, a música, dedicação esta que se inaugurara na década de 1980, em decorrência de uma afamada coleção de discos em vinil de autores clássicos que seu pai lhe adquirira despretensiosamente, mas que constituíra um verdadeiro divisor de águas em sua ainda breve experiência de vida, pois um desses discos veiculava uma obra de Johannes Brahms, notadamente o segundo concerto para piano e orquestra, sendo seguro que tal composição impressionou-o de maneira profunda e indelével, tanto que suas investigações no aludido doutorado colimavam sobretudo a crítica favorável de Arnold Schönberg ao trabalho de Brahms, em que quedou demonstrada a acurácia e vanguardismo harmônicos oferecidos pelo compositor hamburguês, malgrado a conhecida querela com os adeptos de Richard Wagner, entre os quais se inseria ninguém menos que Friedrich Nietzsche, o qual fora ignominiosamente cruel ao avaliar Brahms, mas o certo é que a pretensão e a veleidade afetavam deveras o ânimo de Hélio, o qual planejava compor, como efetivamente comporia, uma sinfonia em movimento único apta a abroquelar praticamente todas as fases e estilos históricos da música dita erudita, em desenvolvimento que seria encetado com o contraponto barroco e se desinibiria sucessivamente com o rigor clássico, a exuberância romântica, o cromatismo wagneriano, o impressionismo francês, o caótico atonalismo e finalmente o contemporâneo dodecafonismo, culminando, então, com a música eletroacústica, uma obra sinfônica de fôlego colossal, com duração de mais de três horas, e que consumiu dez anos de intensa elaboração do nosso protagonista, que decerto deixou de experimentar outros aspectos da vida para dedicar-se integralmente à edificação de tal monumento sonoro que alguém, algures, diria cuidar-se de sonho louco de perfeição, e realmente Hélio apostou tudo o que tinha, e até o que não tinha, em tal trabalho, mas o fato é que o próprio processo de criação rendeu-lhe satisfação e prazer de magnitude inaudita, pois em determinado episódio de tal epopeia criativa, sentado ao piano, ele concebeu uma nota musical que o conduziu incontinenti a estado de puro êxtase e transe, eis que a beleza da passagem comoveu-o até à epifania e à catarse, o que, curiosamente, demonstrava que a arte não pertence de forma absoluta ao correspondente criador, mas pode quiçá ter matriz divina, sendo certo, todavia, que tal momento sobrenatural já lhe valeria, assim o pensava, como sucedâneo de uma vida inteira de aventuras eróticas e heroísmo revolucionário, tamanha foi a intensidade e profundidade da sensação experimentada, de tal sorte que a conclusão de seu tresloucado projeto faraônico deixou-o em condição de exaustão invencível, mas era de rigor, agora, procurar alguma forma de execução orquestral da obra, e Hélio sabia que seria bastante árduo o labor de encontrar um condutor e uma orquestra dispostos a mergulhar no estudo e concretização daquele titã de notas musicais, então nosso protagonista procurou de proêmio uma maestro amigo seu para entregar-lhe solenemente aquelas páginas em que o respectivo intérprete poderia perder-se como se explorasse uma floresta encantada em Baden-Württemberg, e qual não foi a decepção de Hélio ao ficar ciente de que seu amigo considerou, após semanas nela debruçado, a tal peça sinfônica como inexequível, mas o correspondente compositor não se abateu nem desistiu, e cogitou então submeter seu rebento a um maestro europeu de nomeada, o que de fato foi efetuado, mas a resposta, meses depois, encerrou a mesma decepção que experimentara previamente, e assim sucessivamente, por demasiado tempo, nosso artista tentou com persistência encontrar alguém que acolhesse sua suposta obra-prima, até que um condutor asiático quedou entusiasmado com aquelas complexas partituras, o que o levou imediatamente ao país do extremo oriente em que restava sediado mencionado maestro, colimando conversar e decidir a propósito da concretização daquele desatino onírico sonoro, mas Hélio não teve o privilégio de presenciar tal execução orquestral, eis que faleceu alguns meses antes disso, aos 47 anos de idade, de infarto agudo do miocárdio, mas a estreia mundial de sua sinfonia, despojada de sua presença, foi recebida pela plateia respectiva com bastante impassibilidade, com mais apupos do que aplausos ao final, após uma interpretação que nosso protagonista desaprovaria liminarmente.