ATARAXIA E HEDONISMO
Por Luis Fernando Franco Martins Ferreira.
À toda evidência, a realidade exibe-se bem mais complexa e multifacetada do que pode supor nossa vã literatura, constatação esta que demonstra, em boa medida, minha ciência com relação aos riscos de rabiscar, nestas singelas folhas de papel, excertos da vida de duas personagens não tão fictícias assim, mas impende asseverar que muito provavelmente aquela doença insidiosa, nomeadamente o transtorno afetivo bipolar, a qual engendrou uma verdadeira endemia pestilenta naquela família brasileira, tenha sido importada da Alemanha para o estado de Minas Gerais, no Brasil, através da misteriosa figura de Bárbara Maria Eugênia, bisavó dos gêmeos, ainda no século XIX, cabendo destacar que a filha desta senhora germânica, de epíteto Margarida, veio a falecer abrupta e solitariamente, pasmem, no famoso manicômio do Juqueri no estado de São Paulo, por causa deste distúrbio anímico, mas o mais interessante desta história toda é que os próprios gêmeos acima aludidos parecem ter coexistido concretamente como polos opostos da mencionada afecção psíquica, dado o abismo que seus percursos vitais manifestaram, o que me conduz à conjectura de que não se cuidava de gêmeos univitelinos, malgrado a assombrosa semelhança física que os unia, ambos muito parecidos com o festejado escritor, também alemão, Günter Grass, mas sem qualquer parentesco conhecido com este nobre artista das letras teutônicas, de tal sorte que se faz mister agora, em prossecução do vertente relato, encetar a prova de minha hipótese de trabalho, o que faço na sequência desta narrativa.
Valtinho manifestara desde tenra idade um notável pendor para as artes e para as ciências exatas, tanto que na sua adolescência integrou, como membro destacado, um grupo de amigos de bairro que se autointitulavam Os Hienas, cujas reuniões, na década de 1960, eram dedicadas ao deleite do jazz e das artes plásticas, e cuja influência sobre sua personalidade introspectiva e circunspecta fez-se notável, tanto que Valtinho colecionou uma discoteca particular de dez mil discos de vinil, na sua esmagadora maioria versando sobre jazz, e esmerou-se também como pintor de quadros que retratavam, com meticuloso e fidedigno realismo figurativo, seus heróis daquela vertente musical de origem afro-americana, parecendo lícito aduzir ainda que sua figura grave e esguia de intelectual com vastos bigodes negros, mais inclinado às disciplinas clássicas do que às exatas, sempre acompanhada, na semipenumbra, por uma taça de vinho ou um copo de whisky, bem assim por cachimbo amiúde alimentado com fumo de odor de chocolate, tal figura contrastava manifestamente com o ofício que adotara por profissão, a saber, a de programador de computadores, conquanto jamais tenha haurido diploma universitário oficial em nenhuma disciplina, mas tenha logrado certo sucesso profissional na orbe da tecnologia da informação, como executivo de grandes empresas multinacionais, o que pode ser patenteado por seus serviços desenvolvidos, inclusive, no âmbito internacional, em países como Noruega, Suíça, Inglaterra e Venezuela.
Tal panorama flagrantemente promissor da vida material e intelectual de Valtinho, todavia, não durou muito tempo, pois seu segundo filho nasceu afetado por severíssimo autismo que obstava inclusive a dicção, e tal padecimento efetivamente consumiu uma parcela muito significativa de seu élan vital, tanto que, logo ao restar ciente do diagnóstico deste segundo filho, Valtinho interrompeu incontinenti uma das atividades que mais apreciava, vale dizer, a correspondência epistolar com seus amigos europeus e norte-americanos acerca de jazz, sob o doloroso argumento de que, agora, porção de extrema importância de sua energia e suas posses materiais voltar-se-ia aos cuidados do rebento autista, parecendo imperioso relatar que também foram liminarmente canceladas as outrora animadas festas periódicas em sua casa, destinadas à audição musical e jogos correlatos, especificamente para adivinhar a identidade do artista que tocava determinada faixa de um disco, cuja performance e autoria não eram reveladas, sendo certo que, malgrado tais limitações lancinantes de suas atividades edificantes e jubilosas, nosso herói jamais perdeu certa ataraxia estoica no comportamento, a qual se coadunava com determinado modo perenemente atrabiliário de conduta.
Tal solenidade e percuciência ensimesmadas de Valtinho contrapunham-se, de maneira antípoda, à opulência e exuberância da pessoa de Franco, seu irmão gêmeo, um legítimo desbravador de mundos, tanto que a mais remota e persistente reminiscência desse meu amado tio quedou guardada como um singelo regalo com que ele me presenteou quando eu ainda era um meninote imberbe, isto é, um romance de autoria de Jules Verne intitulado “A volta ao mundo em oitenta dias”, fato que decididamente inaugurou minha famosa bibliofilia e que de certa forma evidencia o jaez aventureiro de sua natureza inquieta, natureza esta que o conduziu na adolescência a frequentar, colimando tornar-se aviador, o festejado curso da escola preparatória de cadetes do ar em Barbacena, no mesmo estado de Minas Gerais, onde certa vez chegou a ser momentaneamente preso por pular o muro do estabelecimento para namorar durante a madrugada, mas o fato é que aquele período, destinado aos estudos aeronáuticos, mostrou-se simultaneamente fértil e problemático, dada certa inadequação entre seu caráter turbulento e a rigorosa disciplina de caserna, oposição esta que demarcaria profundamente seu espírito, tanto que decidiu por deixar a aviação militar para aventurar-se profissionalmente, de início, como piloto de aeronaves civis da empresa incumbida do transporte aéreo regional na bacia amazônica, nos estados do Pará e do Amazonas, no norte equatorial brasileiro, onde por vezes pousava o respectivo avião em pistas sem pavimentação no meio da gigantesca floresta tropical e era obrigado a aguardar, por dias a fio, o combustível chegar por barco para finalmente retornar à assim denominada civilização, cabendo destacar ainda que esse meu tio Franco relatou-me ter desfrutado de várias noites de Natal absolutamente sozinho e solitário, seja na capital, seja no interior da floresta, experiências estas que moldaram uma certa carapaça inescrutável da sua tormentosa personalidade.
Após tal profícua estadia profissional na região amazônica, Franco mudou-se para o Rio de Janeiro para servir como piloto de uma grande empresa aérea de voos internacionais, chegando a figurar como pioneiro de uma dada aeronave de grande porte e alcance intercontinental, a qual teve a honra de deslocar para o Brasil desde Seattle, nos Estados Unidos, cidade onde, naquela ocasião, veio a conhecer sua futura esposa, uma cidadã norte-americana de alcunha Diane, com espírito igualmente aventureiro, que vivera em terras brasileiras durante a adolescência e era fluente no idioma português, chegando a constituir com esta moça estrangeira uma família com mais dois filhos homens, mas o fato é que a natureza tumultuada de Franco conduziu-o a encetar graves altercações com um superior hierárquico, as quais lamentavelmente o fizeram desligar-se daquela notável empresa aérea, para então partir com Diane, que estava grávida, de volta para Seattle, onde estabeleceu-se como instrutor de aeronautas na formidável indústria de máquinas aladas da região, porém logo seu primogênito nasceu e meu tio, afortunadamente, hauriu uma oferta de emprego irrecusável para prestar serviços como aviador na distante Austrália, local em que seu segundo rebento veio à luz para completar a configuração de sua família, e onde prosperou como aeronauta e também como empresário do setor de alimentação e entretenimento, chegando a dirigir, enquanto proprietário, um restaurante bastante conhecido e bem frequentado no elegante litoral australiano, especializado em culinária brasileira e que patrocinava apresentações de dança e música da cultura do Brasil em suas dependências.
Tal quadro auspicioso, todavia, também começou a arruinar-se pela silenciosa e gradativa manifestação daquela traiçoeira enfermidade da alma, o transtorno afetivo bipolar, outrora designada como psicose maníaco-depressiva, que encetou a corroer insidiosamente o equilíbrio emocional, tão necessário ao exercício do ofício de comandante aeronáutico, de meu tio Franco, mas o fato é que, ironicamente, não foi exatamente tal afecção que o trouxe de volta à sua terra de origem, mas a ruína da própria empresa aérea australiana em que laborava como aviador, que veio a falir de inopino e conduziu a família deste meu parente para a cidade de Natal, no estado do Rio Grande do Norte, onde se estabeleceu, mediante as economias financeiras que amealhara na Oceania, como proprietário de imóveis nesta região nordeste do Brasil, vivendo de renda de tais propriedades, até que a degradação psíquica consumisse por completo sua vontade de existir, e então despediu-se deste mundo por complicações decorrentes de uma severa pneumonia, aos 58 anos de idade.
Meu outro e adorado tio, Valtinho, veio a óbito muito tempo depois, aos 81 anos de idade e em lamentável condição financeira, consumido pela enfermidade de seu segundo filho, que expirara um ano antes, fato que demonstra o carinho e a dedicação que devotara a este amado e problemático rebento assolado pelo autismo, pois Valtinho substituíra as potencialidades de seu brilhante intelecto pelos cuidados incondicionais direcionados a esse segundo filho, que se convolou em sua verdadeira razão de existir e erradicou qualquer traço de egoísmo de seu nobre caráter moral.
Despiciendo ventilar que muito aprendi com os exemplos perenes de Valtinho e Franco, meus adorados tios maternos, mas o equilíbrio entre ataraxia e hedonismo talvez seja um legado involuntário que os gêmeos antípodas me transmitiram, herança esta de que ainda não pude desfrutar em toda a sua plenitude.