Persona, de Ingmar Bergman, e Paris Texas, de Wim Wenders, são duas películas cinematográficas que tratam de alguma forma, entre outras camadas semânticas, da incomunicabilidade, da dificuldade extrema de romper a mônada e comunicar-se com outrem.
Tal mônada consiste em verdade na tradução filosófica do indivíduo abstrato, fruto ou causa da propriedade privada dos meios de produção e da correspondente família nuclear, isto é, dos universos, respectivamente, do trabalho e da reprodução sexuada, pelos quais se efetiva a produção e reprodução da vida material humana, universos distintos mas não estanques.
Ora, tanto Elisabet, em Persona, quanto Travis, em Paris Texas, perdem a capacidade de comunicação e vivem um vazio de sentido, um deserto semântico apesar de constituirem família e se reproduzirem sexualmente, engendrando prole, o que não garante em absoluto um significado para suas existências individuais, ao contrário, causa afasia.
Quero crer que, superada a propriedade privada dos meios de produção e a correspondente família nuclear, a existência individual adquira pleno significado, porquanto cada um contribuirá e cooperará com todos os demais na continuação da espécie humana, de forma efetivamente coletiva e plena de sentido.
Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira.