segunda-feira, 13 de abril de 2026

O tempo está fora dos eixos, ou Hamlet como precursor do Quadrilátero do Absurdo.

To be, or not to be, that is the question:

Whether 'tis nobler in the mind to suffer

the slings and arrows of outrageous fortune,

Or to take arms against a sea of troubles...

— William Shakespeare, Hamlet, Ato III, Cena I

Há uma pergunta que atravessa quatro séculos sem perder sua força de ruptura.

Não é uma pergunta retórica, nem poética — é uma pergunta existencial no sentido mais rigoroso do termo: vale a pena existir num mundo que perdeu seu sentido?

Shakespeare a formulou pela boca de Hamlet, e o século XX a encontrou novamente, com outras palavras e outros vocabulários, nas obras de Albert Camus, Viktor Frankl, Samuel Beckett e Lev Chestov. O que este ensaio propõe é que Hamlet não é apenas um precursor literário dessas filosofias — ele é seu personagem inaugural, o primeiro homem moderno a habitar, com plena consciência, o espaço que chamaremos de Quadrilátero do Absurdo.

I. A PERGUNTA QUE NÃO CESSA

O monólogo do Ato III não é uma meditação sobre suicídio no sentido clínico. É uma investigação filosófica sobre a legitimidade da existência diante do sofrimento sem sentido aparente. Hamlet sabe que seu pai foi assassinado, que a corte é corrupta, que o amor foi traído e que a justiça está comprometida. O mundo, ele dirá em outro momento, é "an unweeded garden" — um jardim abandonado, entregue à decomposição.

Mas o que paralisa Hamlet não é a fraqueza de caráter, como leituras rasas insistem em afirmar. É exatamente o oposto: é a lucidez. Hamlet vê demais. Ele não consegue agir porque compreende que qualquer ação exige uma fundação de sentido — e essa fundação ruiu. Ele está, avant la lettre, diante do absurdo.

II. OS QUATRO VÉRTICES RECONHECEM HAMLET

C A M U S — A REVOLTA  LÚCIDA

Camus diria que Hamlet percebe o absurdo com clareza rara, mas não dá o passo seguinte: a revolta. Em O Mito de Sísifo, Camus argumenta que a resposta ao absurdo não é o suicídio nem a fuga metafísica, mas o enfrentamento consciente. Hamlet hesita entre essas opções sem nunca assumir a terceira. Ele é o homem absurdo que ainda não encontrou sua própria afirmação.

F RA N K L — O VAZIO EXISTENCIAL

Para Viktor Frankl, o sofrimento é suportável quando dotado de sentido.

Hamlet perdeu, simultaneamente, todas as suas fontes de sentido: o pai (figura de ordem e identidade), a mãe (fidelidade e continuidade), Ofélia (o amor), a corte (a lealdade). O que resta é o vazio existencial em sua forma mais pura.

Frankl reconheceria em Hamlet não um covarde, mas um homem em crise de sentido — e diria que a saída estaria na escolha de uma resposta, mesmo diante da tragédia.

B E C K E T T — A ESPERA SEM RESOLUÇÃO

Beckett é o vértice estruturalmente mais próximo. Hamlet adia, posterga, encena uma peça dentro da peça, finge loucura, filosofa — e não age. Vladmir e Estragon fazem o mesmo: esperam Godot que nunca vem, conversam para não enlouquecer, permanecem sem partir. A diferença essencial é que Hamlet ainda acredita que há algo a fazer. Beckett remove até essa última ilusão. Hamlet é Beckett com esperança — o que o torna, talvez, mais trágico.

C H E S TOV — O SALTO PELA  FÉ

Lev Chestov, o menos conhecido dos quatro, propõe que diante do colapso da razão, resta apenas o salto pela fé — não a fé tranquila e ordenada, mas a fé desesperada, a fé de Jó que clama contra Deus sem abandoná-lo. Há um Hamlet chestoviano no momento em que ele entrega seu destino à Providência:

"There's a divinity that shapes our ends, rough-hew them how we will." É o momento em que a razão capitula e algo além dela assume o comando.

III. THE TIME IS OUT OF JOINT

A frase mais filosófica de Hamlet não é o celebrado monólogo do Ato III — é a que ele pronuncia logo após encontrar o fantasma do pai: "The time is out of joint. O cursed spite, that ever I was born to set it right." O tempo está fora dos eixos. E maldito seja o destino que me colocou aqui para consertá-lo.

Esta é a condição do homem absurdo antes de ter esse nome: ele percebe que o mundo perdeu sua ordem, sua coerência, seu sentido — e que recaiu sobre ele, incompreensivelmente, a responsabilidade de restaurá-lo. Não há por quê. Não há garantia de sucesso. Não há recompensa visível. E ainda assim, a consciência não o deixa abandonar a tarefa.

É nessa encruzilhada que Camus, Frankl, Beckett e Chestov divergem — e é por isso que Hamlet os precede a todos. Ele formula a questão sem resolvê-la, habita o espaço sem escolher um vértice, morre sem ter encontrado uma saída definitiva.

É a tragédia de quem viu o absurdo com demasiada clareza e não teve tempo — nem filosofia suficiente — para respondê-lo.

IV. O LEGADO DE UMA PERGUNTA ABERTA

O que Hamlet lega ao pensamento moderno não é uma resposta — é a qualidade da pergunta. Ele demonstra que a consciência humana, quando suficientemente desenvolvida, não pode simplesmente agir no mundo sem antes perguntar por quê.

E quando esse porquê desaparece, quando o fundamento se dissolve, a ação torna-se heroica não pela certeza que a sustenta, mas pela ausência dela.

Camus chamaria isso de revolta. Frankl chamaria de escolha de sentido. Beckett deixaria sem nome, apenas encenaria. Chestov chamaria de fé. Mas todos eles, ao abrirem suas obras, encontraram Hamlet já sentado no palco — perguntando, sozinho, no escuro.

"To be, or not to be" — a pergunta permanece.

O Quadrilátero do Absurdo é, talvez, a história das respostas que vieram depois.




por CARLOS OTÁVIO SANTIAGO. 

domingo, 12 de abril de 2026

O CORPO HUMANO: TRABALHO, VIOLÊNCIA E SOFRIMENTO.

Como vimos, a produção e reprodução da vida material humana bifurca-se em: reprodução sexuada, pela qual se obtém o máximo de prazer; e trabalho, do qual se extrai o máximo de sofrimento. 

No que pertine ao trabalho, sua realização depende de meios de produção, sendo certo que a apropriação de tais meios de produção pelos seres humanos efetiva-se mediante: o próprio trabalho e, outrossim, a violência, através da qual se evita a turbação da propriedade dos meios de produção (propriedade fundiária, inicialmente na história), ou há a subtração da propriedade de outrem para a própria imissão na posse respectiva.

Ulteriormente, trabalho e violência, a princípio unidos na formação da propriedade dos meios de produção, desenvolvem-se e separam-se dialeticamente no sentido da constituição de uma classe social que somente trabalha (escravos) e outra que vive da violência exercida sobre a primeira (senhores).

No que pertine a tal desenvolvimento das classes sociais, faz-se mister aduzir que o sofrimento do corpo humano cumpre papel axial, eis que a violência efetua-se sobre outrem (fazendo-o trabalhar para o senhor que exerce a violência) para evitar o sofrimento decorrente do próprio trabalho, enquanto o escravo submete-se ao senhor violento, trabalhando para este, para evitar precisamente o sofrimento ou a morte derivados da ameaça de violência ou da efetiva violência.

Tais hipóteses, ora sub judice, estão em consonância com o materialismo histórico.   



por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

TODOS OS LIVROS

O bibliotecário Luís Azevedo adentrara o estágio onírico de sono profundo quando começou a sonhar que dirigia a Biblioteca Central, um prédio enorme em forma de labirinto de estantes que continha todos os livros já publicados na história, em acervo de mais de meio bilhão de volumes mui bem cuidados, catalogados e organizados, mas rarissimamente frequentado, pois, a bem da verdade, os cidadãos quedavam intimidados e receosos com aquela estrutura labiríntica que, de certo modo, provocava vertigem e desorientação, mas, nada obstante, Luís Azevedo jamais cogitava em deixar o seu honroso posto laboral que, topograficamente considerado, restava bem no centro do edifício, e sua mesa de trabalho exibia-se invariavelmente abarrotada de obras de variegados assuntos, as quais ele devorava nas intermináveis horas vagas, em certo hábito de leitura que beirava a obsessão, com o maior deleite do mundo, pois acalentava a insana veleidade de algum dia adquirir todo o conhecimento haurido pela humanidade, tanto científico quanto artístico, malgrado ciente de que seu tempo de existência neste mundo não se mostraria suficiente para a empreitada, apesar da voracidade e determinação com que a ela se dedicava, pois sua pretensão era infinita, mas eis que ele se depara com uma bem acabada e ilustrada versão moderna do mito fáustico medieval, cujo enredo fascinou-o liminarmente, na medida em que nele divisava um estratagema para derrotar seus limites físicos e intelectuais, enfim, sua finitude, a saber, mediante celebração de acordo solene com o próprio Mefistófeles, em contrato que poderia estabelecer a alienação de sua alma ao capiroto, colimando atingir aquele seu obsessivo intento de se instruir com toda a sabedoria humana existente, de tal sorte que Luís Azevedo invocou-o e Mefistófeles lhe apareceu efetivamente, com findarem por estabelecer aquela mencionada cláusula contratual de transferência anímica, e então nosso orgulhoso bibliotecário encetou seu gigantesco plano de estudos, o qual, a certa altura, encontrou uma alentada obra, de autoria de um expoente mui afamado da filosofia, conhecido pelas alcunhas alternativas de Mouro de Trier ou Velho Nick, obra esta intitulada O Capital, em que tal filósofo expunha e descrevia minudentemente como o dinheiro dominara a produção da vida material humana em sociedade e exibia a vocação de acumular-se infinitamente, de tal maneira que Luís Azevedo percebeu, pelo escopo e dimensão desse livro inconcluso, que o Velho Nick também celebrara contrato com o Belzebu em circunstâncias mui semelhantes, sendo certo que o nosso herói sonhador saiu então em busca de uma biografia do Mouro de Trier, vindo a descobrir que ele, cuja vida fora, outrossim, despendida numa Biblioteca, rescindira o acordo com aquela aludida figura demoníaca, por razões desconhecidas, e não lograra concluir sua obra, mas Luís de Azevedo também ventilou a hipótese consoante a qual Mefistófeles não seria senão outro nome do próprio Capital, cabendo destacar que, nesse exato momento, o sonho do bibliotecário convolou-se em pesadelo e ele despertou em situação de grande estupefação e, incontinenti, passou a cultivar a ideia de apresentar uma tese acadêmica que encerraria como título: “Fausto e Capital, uma confluência entre as obras de Goethe e Marx”

 

 

Por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

MARIA (para minha mãe, para dona Ozória Secco e, in memoriam, para dona Maria Helena Santiago)

O resultado do exame Beta-hCG quantitativo desautorizava qualquer margem de dúvida, pois, em conjunto com as condições físicas exibidas no caso concreto em questão, a gravidez de Maria era inconteste, malgrado sem causa aparente, pois ela não se mostrava hábil a recordar-se de recente conjunção carnal, o que a deixou estupefata e profundamente comovida, eis que considerou aquela informação como uma dádiva celeste, dada a sua intensa religiosidade católica, e então decidiu que daria luz àquele inesperado rebento com toda a ternura que seria capaz de oferecer, conquanto suas condições materiais de operária de grande indústria e empedernida celibatária, vivendo sozinha em apartamento de quarenta metros quadrados na periferia da megalópole, talvez desfavorecessem tal veredito, mas o certo mesmo é que ela estava convicta de que fora efetivamente incumbida de uma missão divina, da qual não se esquivaria em nenhuma hipótese, custasse o que custasse, e a criança do sexo masculino então nasceu dolorosamente, em hospital público, mediante parto com auxílio de fórceps, mas veio a lume com excelente vigor físico, evidenciado pelo estridente choro que invariavelmente inaugura nossa aventura nesse mundo tão estranho quanto fascinante, e Maria também verteu lágrimas copiosas de legítima emoção, mas não de dor, pois isso não era do seu feitio, a saber, da sua índole corajosa que enfrentava com galhardia as intempéries da vida, nada obstante sua compleição corporal miúda e franzina, de um aspecto frágil que ocultava a gigante que habitava o seu espírito guerreiro, de tal sorte que, ao chegar em casa solitariamente com seu bebê após a alta hospitalar, uma alegria transbordante invadiu seu coração, pois estava ciente de que seu caminho seria doravante tortuoso, mas também que a maternidade lhe propiciaria momentos de absoluto enlevo e embevecimento, eis que já sentia afeto por aquele ser recém-nascido cujas primeiras manifestações vislumbravam energia vital quase inesgotável, ensejadora de noites insones tanto do Filho quanto da mãe, mas cujos luares prometiam inefável beleza no dia vindouro que estava para despertar.

A infância do Filho transcorreu sem grandes privações materiais, mas repleta do carinho amoroso dedicado por Maria a seu rebento, bem assim com o concurso de fiéis amigos do bairro periférico, com quem Filho jogava bola e se divertia a valer mediante outras formas lúdicas de brincadeiras, típicas de uma época em que ainda não exsurgira o computador pessoal, parecendo lícito ventilar a hipótese de que talvez Filho tenha despendido muito mais tempo e vitalidade a acalentar tais amizades do que propriamente aos estudos, considerando os pífios resultados que hauria na escola pública local, mas Maria não sancionava este insucesso acadêmico com penalidades muito rigorosas, pois entendia que o caráter de um homem forja-se não apenas no liceu, mas sobretudo no cotidiano do lar, do trabalho e das amizades, conquanto não descurasse da importância dos conhecimentos adquiridos fora do âmbito familiar, mas o certo é que, ao completar dezesseis anos, Filho logo obteve, com a ajuda de sua mãe, um emprego de operário na mesma fábrica em que Maria laborava, e esta comunhão de local de trabalho rendeu uma relação bastante inusitada e edificante entre mãe e filho, a qual exorbitou o mero enlace de sangue para atingir efetiva amizade e companheirismo de classe social, já que ambos também compartilhavam afinidades de esquerda no espectro político-partidário.

Sobreveio, então, uma época de notória turbulência social, com o movimento paredista, conduzido pelos sindicatos laborais, logrando mui organizadas e bem sucedidas paralizações e greves de trabalhadores, as quais provocavam engulhos de pavor na classe patronal e no governo, que a certa altura começou a reagir com violência mediante uso das forças públicas, e tal reação acabou por despertar uma contrapartida radical da classe operária, que conseguiu a exuberante proeza de obstar toda a nação, concomitantemente, numa greve geral de proporções inauditas e repercussão internacional, sendo certo que Maria e o Filho participaram ativamente dessa paralização estrondosa, mas um episódio pessoal marcaria profunda e perenemente a vida de ambos, pois Maria, ao testemunhar o Filho ser agredido por um agente das forças públicas, durante tal greve geral, empurrou-o com força tamanha que o policial caiu na rua e foi atropelado letalmente por uma viatura oficial da repressão que fazia a ronda no lugar, de tal sorte que essa mãe foi escoltada incontinenti para o cárcere central da cidade, onde ficou sob custódia, sob acusação de homicídio doloso, por dolo eventual, e chegou a ser barbaramente torturada durante semanas.

Na sequência de tais fatos, Filho, que se encontrava em estado de depressão e letargia profundas em razão da situação de sua mãe, foi informado de que ela suicidara-se por enforcamento na própria cela em que estava encarcerada, mas as circunstâncias extremamente duvidosas do ocorrido não o convenceram e sua condição piorou deveras, a ponto de se cogitar em sua internação hospitalar, mas os parentes mais próximos desaconselharam tal medida em vista do gravíssimo momento político, de tal sorte que, por prudência, e com o auxílio providencial de organizações da esquerda política, Filho foi retirado do país e encaminhado para um exílio parcialmente voluntário no exterior, onde sua trajetória vital adquiriu contornos inusitados, na medida em que, milagrosamente curado da doença anímica incapacitante, passou a se dedicar com afinco quase desumano aos estudos das ciências sociais e jurídicas, colimando, decerto, voltar algum dia à sua terra natal em busca de justiça para o lamentável e trágico caso de Maria.

Mas o Filho jamais retornou.

Em compensação, ele converteu-se, passado algum tempo, em axial ativista e engajado teórico da esquerda política, de importância reconhecidamente planetária, cujos manuscritos foram amplamente publicados nos mais variegados idiomas e veículos, e cujo destino foi bem mais ameno e suave quando cotejado com o de Maria, pois não chegou a sofrer violência física em razão de sua militância política, mas constituiu família e prole que foi educada de maneira mui solene na tradição progressista em homenagem a Maria, cabendo destacar que uma das netas, artista plástica de nomeada, erigiu uma estonteante e grandiloquente escultura, em bronze, da avó, com inspiração em fotografias respectivas, a qual foi honrosamente implantada em local público de importante circulação populacional.

 

Por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.

terça-feira, 7 de abril de 2026

LUDWIG

Para Renata e João Felipe, meus afilhados

 

Cuidava-se decerto de época revolucionária na vida material do homo sapiens, com registro oficial de importantes transformações, inversões e mesmo colapsos, parecendo lícito ventilar que o arquétipo fundante dos mitos de Prometeu, Fausto, Frankenstein e, de certo modo, da própria religião cristã, estava a ser encenado com pompa e circunstância na prosaica história dos seres humanos de carne e osso, que experimentavam destarte o abstrato converter-se em concreto e, este, convolar-se em abstrato, eis que o universo do dinheiro agora controlava a produção econômica no maquinário da grande indústria, enquanto os trabalhadores transfiguravam-se na mercadoria insípida da força de trabalho, precisamente como foi mais tarde descrito por um grandíloquo pensador nascido em terras germânicas, onde também veio a lume o nosso herói de alcunha Ludwig, o qual cresceu e se desinibiu em residência acanhada de um singelo professor de piano e respectiva esposa, uma dona de casa, mas o certo é que o rapazote, desde tenra idade, exibiu talento e sensibilidade musicais, os quais afloraram com mais intensidade a partir do momento em que foi conduzido por seus pais, para júbilo e regozijo de toda a família, a contemplar um concerto sinfônico no teatro central da cidade, quando sua alma foi integralmente absorta por irresistível epifania catártica ao ouvir uma peça composta por certo menino prodígio vindo de paragens austríacas, e então Ludwig quedou ciente da sua verdadeira natureza e identidade, pois doravante o mundo dos sons harmonicamente justapostos não o abandonaria em nenhuma hipótese, seja na alegria ou na tristeza, na saúde ou na doença, até que seu viço fosse completamente ceifado pelo óbito.

Sensível e irascível, o jovem Ludwig era, todavia, desprovido de traquejo social suficiente para lograr sucesso com as mulheres, malgrado seus dotes físicos invejáveis, e isto se refletiu no fato de raríssimas vezes ter consumado com êxito uma conjunção carnal e íntima, apesar das múltiplas e variegadas tentativas a propósito, de tal sorte que seu refúgio em relação àquele mundo hostil dos relacionamentos humanos consistia no universo plácido da composição musical, em que se sentia plenamente à vontade na solidão da criação da arte das musas, a música, a mais abstrata das vertentes estéticas engendradas pelo homo sapiens, a saber, a única arte desfrutada sem o concurso do sentido da visão, e Ludwig permanecia integralmente absorto e compenetrado, diante do piano, para conceber partituras de notável qualidade, tais como, já aos dezesseis anos de idade, um concerto para tal instrumento e uma alentada sinfonia, obras estas que foram executadas pelo próprio compositor com enorme repercussão positiva, tanto entre o público ouvinte quanto pela crítica especializada, com restar evidente, então, que se cuidava de outro prodígio precoce de idioma alemão, mas com a distinção concernente a certa grandiloquência criativa que remetia, muito provavelmente, ao aspecto revolucionário daquele período histórico de radicais mudanças no modo de existência dos seres humanos, tanto na orbe puramente material quanto no imaginário coletivo, cabendo destacar que a obra de Ludwig distinguia-se pela inspiração profunda que se consubstanciava em inovações de jaez tanto melódico quanto harmônico, como se aquela paixão carnal e mui concreta, que suas vísceras experimentavam, fosse sublimada num amor incondicional e impessoal por toda a humanidade, eis que nosso herói estava ciente de que compunha peças perenes para a posteridade, ainda que sua glória não fosse completamente convolada em dinheiro, este vil metal que nada significava para Ludwig, que se contentaria de bom grado com uma vida bem frugal, desde que tivesse absoluta certeza de que seus rebentos sonoros guardassem dimensão estética exuberante, pois era isso que alimentava seu élan vital nômade em busca incessante do som perfeito, uma verdadeira obsessão que o acompanharia por todo o sempre, e ele estava mesmo disposto a enfrentar qualquer intempérie para alcançar seus objetivos, ainda que isto ensejasse a perda da paz de espírito, sendo interessante notar que dos dois grandes eixos constitutivos da vida material humana em sociedade, a saber, o trabalho e a reprodução sexuada, Ludwig desincumbiu-se, àquela altura de sua juventude, somente do primeiro, mas tal concentração mui provavelmente tenha tornado exequível a inefável excelência haurida pelo nosso herói em seu ofício.

Mas, por evidente ironia do destino, a partir dos trinta anos de idade, já músico consagrado, Ludwig começou a apresentar os primeiros sinais de uma disacusia severa e progressiva, a qual em pouco tempo culminou em anacusia, situação que, conquanto ensejasse um maior isolamento social do nosso herói, com agravar seu caráter já ensimesmado e circunspecto, não prejudicou sua produção com notas musicais, pelo contrário, até intensificou sua dedicação à concepção artística, a qual, ao adquirir contornos mais soturnos e sorumbáticos, foi contemplada com maior qualidade estética, revelada no aprofundamento das experimentações harmônicas e melódicas, mas cai a lanço obtemperar que as peças sinfônicas de sua autoria tornaram-se mais longas e abstratas, na exata acepção de que abandonaram o tradicional desenvolvimento linear de um motivo primordial para agora exibir um emaranhado de temas que se interpenetravam e conduziam a resultados inesperados e mesmo surpreendentes, arrebatando os ouvintes com elevada carga de estupefação, sendo interessante notar que tal elaboração atingiu o apogeu com uma extensa obra lírica, a saber, uma ópera de seis horas de duração em quatro atos, intitulada Mefistófeles e inspirada no mito medieval do Fausto, a qual lhe custou quase dez anos de profunda imersão laborativa, tanto no libreto quanto na partitura, levando a certa exaustão que, no entanto, foi amplamente compensada pela sensação de ter concluído um trabalho de manifesta perfeição, cujos méritos foram efusivamente acolhidos pelas entusiasmadas plateias ao redor do mundo e pela sempre distímica crítica musical profissional.

Mas talvez o fato mais pitoresco atinente à história de Ludwig consista na recuperação repentina da sua audição logo após a encenação da ópera Mefistófeles na sua cidade natal, à qual ele compareceu solenemente para receber homenagem oficial do respectivo prefeito, episódio este que o atordoou de tal sorte que o fez abandonar peremptoriamente a carreira de compositor musical e, aos quarenta e cinco anos de idade, contrair núpcias e constituir família e lar na região rural daquelas plagas, onde passou a se dedicar integralmente ao plantio de hortaliças, à pintura de paisagens bucólicas, em telas que jamais foram convertidas no vil metal, e às perfeitas performances ao piano, exclusivamente para sua esposa e filhos.  

Por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA

domingo, 5 de abril de 2026

A DOBRA LITERÁRIA

O capital enquanto propriedade privada dos meios de produção e valorização de valor traduz-se na superfetação consistente na transformação de mais-valia em capital, isto é, na acumulação de capital, que pode ser representada na imagem da dobra barroca descrita por Gilles Deleuze na sua obra intitulada precisamente A Dobra.


A história da literatura ocidental parece desinibir-se também como uma dobra barroca, que começa colimando descrever objetivamente o real e termina numa metalinguagem em que o narrador toma consciência da sua subjetividade enquanto literato que exibe limites na apreensão do real objetivo.


Nesse diapasão, Cervantes enceta esse movimento de dobra literária com seu Dom Quixote, ao refletir sobre a literatura de cavalaria medieval dentro do próprio enredo do romance, mas o século passado atinge o paroxismo desse movimento, com o Ulisses de Joyce, essa paródia da Odisseia de Homero, já enunciando o fluxo de consciência que confunde narrador e personagem, enquanto a monumental obra de Proust destaca um narrador ensimesmado que não consegue romper a clausura de um tempo puramente subjetivo e impressionista, mas quando o narrador de Kafka colima a objetividade com linguagem cartorialmente neutra, o resultado é um enredo absurdo.


Enquanto não for rompida a crisálida do capital, a literatura remanescerá como pura subjetividade metalinguística ou absurdo objetivo.






Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira.

sábado, 4 de abril de 2026

JAM SESSION

“All the things you are” é uma canção composta na década de 1930 por Jerome Kern e Oscar Hammerstein II, e foi interpretada no álbum Standards, volume 1, lançado no ano de 1983, em execução primorosa e antológica de Keith Jarrett ao piano, Gary Peacock ao contrabaixo e Jack DeJohnette na percussão, cabendo destacar que a terna melodia do tema central é devidamente apresentada no início de tal interpretação e depois desenvolvida de forma a desfigurá-la completamente, com gradativo e paulatino acréscimo de velocidade do ritmo de execução em variações melódicas cada vez mais rápidas, culminando, ao final, na reapresentação do tema central, de tal sorte que poderíamos aventar que se cuida de uma tradução mimética da vida de um indivíduo humano, em que a memória fornece a sensação de identidade, malgrado o natural envelhecimento com o curso do tempo e as decorrentes transformações materiais e anímicas do respectivo corpo, sendo certo, outrossim, que o tempo parece decorrer com cada vez maior velocidade, eis que os fragmentos de tempo passado ficam cada vez menores proporcionalmente ao tempo total vivido, parecendo lícito ventilar ainda que a retomada do tema central ao final da música mostra a própria morte do indivíduo, cuja existência, enfim, pode ser considerada como sucessão de variações do mesmo ser.

 

 

 

 

 

Por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.