sábado, 24 de janeiro de 2026

OBRAS INCONCLUSAS

Sempre fui atraído por aquilo que é vencido, derrotado e inconcluso, o que talvez esclareça minha predileção pelas obras de autores como Franz Kafka, Fernando Pessoa e, obviamente, Karl Marx!


Lincoln Secco foi quem me chamou a atenção para o fato de que talvez a obra postumamente publicada ou ainda inédita do Mouro de Trier seja mais ampla e vasta do que aquela acabada e publicada em vida, algo que me parece consentâneo com o método científico do materialismo histórico e dialético.


Sem embargo, os livros segundo e terceiro de O Capital foram postumamente editados e publicados por Friedrich Engels e exibem material notoriamente controverso, tal como evidenciado pela crítica de Rosa Luxemburgo ao aludido livro segundo, bem assim o problema da transformação dos valores em preços de produção insculpido no livro terceiro respectivo.


O Velho Nick também legou em torno de mil páginas manuscritas sobre cálculo diferencial e integral, as quais estão sendo gradual e parcialmente publicadas e estudadas.


Esse material manuscrito imenso teria mesmo a autorização de Marx para ser publicado do jeito que está sendo feito?


Qual o grau de autoria assumido por Engels?


Pretendia Marx conferir um acabamento mais formalmente matemático para sua crítica da economia política?


São questões intrigantes!


Mas uma coisa é certa:


A vida não é só dura; ela também é muito curta!







Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira, historiador.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

UMA APORIA

No texto intitulado "Ludopédio", publicado neste portal eletrônico, radica uma aporia relativamente evidente, senão vejamos:

Ora, se assumo que as lutas de classes e as guerras entre nações são de certa forma resultado da competitividade intrínseca ao homo sapiens, qual o motivo para colimar o comunismo mundial vindouro, que abolirá as lutas de classes e as divisões geopolíticas?

Bem, estamos no âmbito das hipóteses, mas parece que as espécies biológicas evoluem e, se o capitalismo e as sociedades que o precederam reforçaram este aspecto da competitividade humana na evolução da espécie biológica respectiva, o comunismo poderá reverter tal tendência da evolução, engendrando uma sociedade mundial fundada na cooperação e fraternidade entre os indivíduos da espécie do homo sapiens. 

Destarte, creio que, no comunismo, a incidência de psicopatia entre os socialmente bem sucedidos será menor do que no capitalismo, e criminosos terão mais dificuldade de circular livremente entre os cidadãos honestos.






por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador.

A RUÍNA DO TRIPÉ

O tripé (Bretton Woods, 1944; ONU, 1945; OTAN, 1949) está ruindo.

O mundo resultante do final da Segunda Grande Guerra não existe mais. Pode demorar algum tempo para que esses estertores atinjam consequências práticas, mas nada altera o fato consumado.

O genocídio palestino na guerra de Gaza, tão cedo esquecido num mundo digitalizado, implodiu ao vivo a pouca autoridade que ainda restava à ONU. Se ela não desfrutava de exércitos, encerrava, ao menos até meados de 2025, certo prestígio, hoje reduzido a pilhéria e chiste.

A OTAN, aliança militar Europa/EUA está igualmente ruindo. A retirada gradual dos EUA, por vezes silenciosa (como na retirada de recursos humanos e bélicos, pouco noticiada) ou estrondosa (como as pretensões imperialistas na Groenlândia) demonstram com nitidez que o parceiro americano cansou de bancar a segurança do velho continente e, mais do que isso, tal patrocínio ficou inviável e pouco lucrativo economicamente. 

ONU e OTAN pressupõem gastos infligidos a um império que sofre com o maior déficit orçamentário do mundo, representando luxos que se sustentam sobre uma pilha de dólares sem lastro e que só existe por conta do acordo de Bretton Woods, esse tratado que também vai se esvaindo e cujo colapso, em definitivo, pode arruinar o império estadunidense.





por CARLOS CÉSAR FÉLIX VIEIRA, o "PUNK"

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

JACOB GORENDER, PRESENTE!

Jacob Gorender nasceu nesta data há 103 anos e faz muita falta!

Juntamente com Fernando Novais, este ainda em plena atividade, foi o maior historiador brasileiro do século passado, e suas obras são complementares para a elucidação e inteligência do período colonial no Brasil e da assim denominada acumulação primitiva de capital; e, nesse sentido, formam com a obra do próprio Karl Marx um conjunto inextricável de excelência científica. 

Este Núcleo de Estudos do Capital do Partido dos Trabalhadores ostenta a grata satisfação e honra de ter convivido e colaborado com Jacob Gorender de forma longeva e profícua. 

No início da década de 1990, com o antimarxismo em alta por conta do então recente colapso soviético, este núcleo partidário realizou um debate entre Jacob Gorender e outro grande e saudoso colaborador nosso, Paul Singer, na Câmara Municipal de São Paulo, que se constituiu em marco de nossas atividades partidárias e cuja transcrição foi publicada na já extinta revista marxista Práxis.

Nosso camarada e grande publicista e curador marxista, o professor e historiador Lincoln Secco, redigiu duas excelentes homenagens ao querido Jacob Gorender, uma no blog da editora Boitempo, em 21/10/2011, e outra publicada no periódico editado por este núcleo, a revista marxista Mouro, cuja leitura recomendo.

Eu em particular devo muito ao saudoso professor Gorender, que me presenteou com as obras completas de Vladimir Lênin, afora sua contribuição inestimável à historiografia mundial. 

JACOB GORENDER, PRESENTE!






por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador. 

domingo, 18 de janeiro de 2026

SANGUE E LAMA

O anarquista francês Pierre-Joseph Proudhon costumava asseverar que propriedade é roubo, enquanto o fundador do socialismo científico, Karl Marx, chegou a postular que "o capital nasce escorrendo sangue e lama por todos os poros da cabeça aos pés"

Sem embargo, no nascedouro do capitalismo, através da assim denominada acumulação primitiva, descortina-se o aspecto criminoso e violento do Estado burguês, que não só permitiu como patrocinou o grande movimento histórico de destituir os trabalhadores de seus meios de produção, seja mediante o antigo sistema colonial e escravista, seja através dos cercamentos, e hodiernamente este mesmo Estado mantém a propriedade privada burguesa dos meios de produção por intermédio do monopólio oficial da violência, consubstanciado nas forças públicas. 

Tal origem histórica, digamos, violenta e criminosa do capitalismo, que se perpetua no monopólio estatal da violência, encerra consequências nefastas, como certa permeabilidade e porosidade entre Estado burguês, crime organizado e capital, inclusive com infiltração de indivíduos criminosos no aparelho estatal e no capitalismo financeiro.

É por isso que as investigações das fraudes bilionárias do caso concreto atual do BANCO MASTER, que se situam apenas nos seus pródromos e já provocam celeuma em todas as áreas, atraem os holofotes e a atenção da opinião pública. 





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

PARA VINCENT VAN GOGH

Na fungibilidade das cores

Onde prevalece o amarelo do ouro

Cor do dinheiro

Radica a conversibilidade das figuras

E na dissociação entre cor e forma

Situa-se o artista limítrofe

Entre o figurativo e o abstrato

Entre os tempos antediluvianos e o capitalismo

Mas o gênio do universo pictórico

Não logrou êxito no amor

Nem converteu quadros no vil metal





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA 

RABISCOS D´OESTE: VERSOS LIVRES EM UM MUNDO CATIVO.

1. PARA CESÁRIA ÉVORA.

Mornas no mar

Singram o Atlântico

Com a flor do Lácio a lapidar

Idioma tão romântico

Diva descalça Cesária

Évora, seu nome lusitano

Com paixão atrabiliária 

Glória para o continente africano


2. PARA PINA BAUSCH.

A sensualidade exibe-se provável 

Em corpos chamuscados

Encerrados em mônadas

Sequiosas por solidão

pas de deux impõe-se

Onde imperava outrora

O solista virtuose

De quem emanava o inefável do indivíduo

Mas a dança

Arte do solipsismo

Agora expõe o desejo carnal 

Que do incomunicável mortal faz perene

Ao reproduzi-lo em sua prole

E a sociedade assim perpetua-se

Pela força do amor 


3. PARA JORGE LUIS BORGES.

A bibliofilia poliglota

Confinada em biblioteca

De uma vida que não foi

Mas viveu intensamente

Nos livros em que assimilou toda a História

O tesouro inteiro da literatura universal

E engendrou ficção elevada ao quadrado

Alinhavada em citações de obras imaginárias

Feitas de nostalgia daquilo que não aconteceu

E superou o próprio tempo 

Condensando-se no Aleph

Primeira letra do alfabeto 

Letra A de amor


4. PARA FERNANDO PESSOA.

Nestes versos livres versando sobre poesia

Está a suprema veleidade metalinguística

Mas tudo vale a pena

Quando se cuida dessa pessoa

Que não se perpetuou em prole

Mas multiplicou-se na heteronímia

Com desinibir todas as potencialidades 

Exaurindo todas as possibilidades

Da vida de um funcionário do comércio

Convertida em plenitude existencial

Em infinito universo inédito trancafiado em arca

Uma multidão escondida em um só

Pois à literatura cumpre precisamente isto

Deferir vida para além da vida

Histórias para além da história

Perenizar o mortal

E quão pequenos parecemos

Diante dessas pessoas  


5. PARA JOSÉ SARAMAGO.

Extensas digressões sardônicas

Enveredam por sendas imprevistas

E entrecortam o enredo alegórico

Destituído do silente ponto final

Mas pleno de vírgulas rumorosas

Que mantêm vibrante a música narrativa

E a melodia poética desse fôlego criativo

Com uma novela que contorce a tradição historiográfica

Enquanto outra fustiga as Escrituras Sagradas

Para que outra ainda ressuscite personagens literárias

De sorte que o conjunto da obra

Descortina-se uma única digressão

Que colima aquilo que poderia ser e que não é

Com divisar no porvir a utopia de um novo mundo 


6. PARA DAVID LYNCH.

Se a tela plana de uma pintura 

Carece de profundidade

E a cena em movimento de uma película 

Exibe apenas simulacro de tempo

Então o pintor natural de Málaga decompôs suas figuras em perfis

Enquanto este cineasta rompeu oniricamente

A identidade de suas personagens

Pois o roteiro cíclico de seus filmes

Ruma para o nada

Ausência de início e inexistente o fim

Em permanências movediças e princípios violados

Rostos e corpos convolam-se em outros tantos

E assim caminha a Humanidade que sonha

Nesse surrealismo cubista   


7. PARA EDWARD HOPPER.

Cenas banais e comezinhas

De realismo pictórico insidioso e enganador 

Engendram estranho desconforto 

Com paisagens urbanas desérticas

Em ambientes fantasmagoricamente desabitados

Como uma cidade devastada por hecatombe

Que aniquilara os habitantes

Mas poupara os edifícios 

Onde agora medram espectros e quimeras

Que aterrorizam o espectador

Pelo insuportável solipsismo 

Das personagens que remanesceram

Teratologicamente confinadas

Em sua assombrada incomunicabilidade


8. PARA ALBERTO GIACOMETTI.

Criação humana

A linha reta

Fruto do pensamento abstrato 

Dos antigos geômetras do universo plano

Desforra-se de seu criador

Que ora se exibe em sua humanidade

Precisamente como linha reta

Abstrata

Desenhada no papel

E os traços rabiscados pelo artista

Nos seus desenhos de figuras humanas

Auferem autonomia para suplantar o suporte plano

Cada linha traçada convolando-se em indivíduo

Pleno em sua essência

Como uma linha reta tridimensional

O homem agora é um rabisco

Em sua vida por um fio  






por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.