sábado, 18 de abril de 2026

DESAFINADO

Não, não tratarei aqui da bela canção de Tom Jobim e Newton Mendonça interpretada por João Gilberto, mas sim de um músico muito festejado e de nomeada, o qual, todavia, na minha humilde opinião, talvez ainda remanesça subavaliado, dada a importância de sua contribuição para a música em geral e, especialmente, para esse estilo comumente denominado "jazz".

Chet Baker é seu nome.

Sim, há uma certa homologia entre a atormentada existência desse artista e sua música, senão vejamos. 

Se Charlie Parker praticamente inventou o bebop, introduzindo o que chamei de "liberdade vigiada", isto é, variações melódicas de improviso, confinadas, no entanto, em um mesmo esqueleto harmônico, Chet Baker pode ter aprofundado tal invenção e ampliado tal liberdade.     

Sem embargo, afora conseguir tocar seu trompete sem a estridência habitual desse instrumento, alcançando tons baixos de difícil execução, Chet Baker não raro exibia em suas performances vocais uma característica inusitada: a desafinação, a saber, sua voz não raro deixava de atingir a frequência exata da nota musical, provocando um desvio tonal de desagradável, porém cálida dissonância.

Enfim, uma execução imperfeita para uma existência idem, profundamente marcada por romances turbulentos, vício em drogas e prisões, que teve seu derradeiro momento em overdose determinante de queda letal desde uma janela de hotel em Amsterdam. 

Mas se a arte de Charlie "Bird" Parker denota provavelmente o jazz proletário dos descendentes dos escravos da América do Norte, aquela de Chet Baker representa com efeito um certo individualismo romântico decadente do West Coast Jazz de matriz pequeno burguesa: dois monstros sagrados da música, sem embargo.





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA. 

A MERCADORIA E AS CLASSES SOCIAIS

Na seminal distinção entre valor de uso (aspecto concreto) e valor de troca (aspecto abstrato) da mercadoria, encetada no capítulo inaugural de O Capital, Karl Marx já inscreve a dissociação entre, respectivamente, o processo de circulação de capital (que tanto encanta economistas neoclássicos, keynesianos e até mesmo marxistas, como Kalecki) e o processo de produção de capital, que, por seu turno, reflete-se no antagonismo entre a classe social que consome muito sem trabalhar produtivamente (a burguesia) e a classe social que consome pouco e tudo produz (o proletariado).

Mas aludido reflexo é, de proêmio, mediado historicamente pelo surgimento do dinheiro ou circulação de mercadorias, pelo qual o valor de troca, ou aspecto abstrato da mercadoria, aufere autonomia e, posteriormente, convola-se em capital propriamente dito, ao apropriar-se do processo de produção da vida material humana, inaugurando a grande indústria fabril na revolução industrial inglesa do século XVIII.

Hipoteses sub judice. 




por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

GILBERTO FREYRE

A obra de Gilberto Freyre foi, como é notório, duramente criticada por importante parte da esquerda política brasileira, sendo certo que Clóvis Moura, verbi gratia, aduzia que Freyre caracterizou a escravidão brasileira como um certo idílio composto por senhores bons e escravos submissos. 

Muito provavelmente, tal ideia de idílio configure um exagero, mas, de outro bordo, tampouco parece crível que nossa escravidão tenha sido um inferno absoluto, pelas razões puramente racionais e econômicas que passo a expor e sugerir. 

Como vimos, o sofrimento físico do corpo humano determina tanto a violência do senhor, que ao escravizar esquiva-se da dor provocada pelo trabalho, quanto a obediência do próprio escravo, o qual, ao ser submetido pelo senhor, evita o sofrimento da violência, pior que o do trabalho, ou da morte pura e simples.

Ora, se o trabalho, e a vida em geral, fosse absolutamente insuportável para o escravo, restar-lhe-ia o suicídio, o que tornaria a instituição da escravidão (ou do modo escravista de produção) insustentável. 

Mas a história também registra a rebelião escrava no Brasil, que seria uma forma coletiva e organizada de escapar tanto da morte quanto do trabalho e da violência, ou seja, do sofrimento.

Enfim, o tema exibe-se bastante complexo, mas a escravidão no Brasil situa-se em algum lugar entre o idílio e o inferno: um logradouro de difícil acesso.      

Tais hipóteses, talvez bastante controversas, quedam sub judice.




por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.  

segunda-feira, 13 de abril de 2026

TÍTERES DO CAPITAL

Consoante aduzido por Karl Marx, "a anatomia do homem é a chave da anatomia do macaco", logo toda acumulação de capital significa uma acumulação primitiva para uma fase histórica ulterior e superior do modo capitalista de produção, ainda que os seres humanos não tenham ciência disto, pois, segundo preconizava corretamente Louis Althusser, somos meros títeres dos desígnios ocultos do verdadeiro sujeito da história, a saber, o capital. 

Nesse diapasão, acalento por hipótese que acumulação primitiva, antigo sistema colonial, mercantilismo e formação da classe operária consistem em distintas facetas ou manifestações do nascimento do capitalismo enquanto modo de produção definido pela mercadoria consubstanciada na força de trabalho, de tal sorte que a acumulação de riqueza em poder do Estado absolutista moderno colimava fornecer-lhe os meios materiais e recursos humanos para a violenta expropriação da propriedade dos meios de produção do campesinato de matriz medieval, para que a nova classe dominante, a burguesia, recuperasse o nível de exploração extremo da classe trabalhadora no modo de produção escravista, perdido durante o feudalismo, mas agora com meios de produção não apenas fundiários, mas já  industriais.

Hipóteses sub judice.






por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.      

O tempo está fora dos eixos, ou Hamlet como precursor do Quadrilátero do Absurdo.

To be, or not to be, that is the question:

Whether 'tis nobler in the mind to suffer

the slings and arrows of outrageous fortune,

Or to take arms against a sea of troubles...

— William Shakespeare, Hamlet, Ato III, Cena I

Há uma pergunta que atravessa quatro séculos sem perder sua força de ruptura.

Não é uma pergunta retórica, nem poética — é uma pergunta existencial no sentido mais rigoroso do termo: vale a pena existir num mundo que perdeu seu sentido?

Shakespeare a formulou pela boca de Hamlet, e o século XX a encontrou novamente, com outras palavras e outros vocabulários, nas obras de Albert Camus, Viktor Frankl, Samuel Beckett e Lev Chestov. O que este ensaio propõe é que Hamlet não é apenas um precursor literário dessas filosofias — ele é seu personagem inaugural, o primeiro homem moderno a habitar, com plena consciência, o espaço que chamaremos de Quadrilátero do Absurdo.

I. A PERGUNTA QUE NÃO CESSA

O monólogo do Ato III não é uma meditação sobre suicídio no sentido clínico. É uma investigação filosófica sobre a legitimidade da existência diante do sofrimento sem sentido aparente. Hamlet sabe que seu pai foi assassinado, que a corte é corrupta, que o amor foi traído e que a justiça está comprometida. O mundo, ele dirá em outro momento, é "an unweeded garden" — um jardim abandonado, entregue à decomposição.

Mas o que paralisa Hamlet não é a fraqueza de caráter, como leituras rasas insistem em afirmar. É exatamente o oposto: é a lucidez. Hamlet vê demais. Ele não consegue agir porque compreende que qualquer ação exige uma fundação de sentido — e essa fundação ruiu. Ele está, avant la lettre, diante do absurdo.

II. OS QUATRO VÉRTICES RECONHECEM HAMLET

C A M U S — A REVOLTA  LÚCIDA

Camus diria que Hamlet percebe o absurdo com clareza rara, mas não dá o passo seguinte: a revolta. Em O Mito de Sísifo, Camus argumenta que a resposta ao absurdo não é o suicídio nem a fuga metafísica, mas o enfrentamento consciente. Hamlet hesita entre essas opções sem nunca assumir a terceira. Ele é o homem absurdo que ainda não encontrou sua própria afirmação.

F RA N K L — O VAZIO EXISTENCIAL

Para Viktor Frankl, o sofrimento é suportável quando dotado de sentido.

Hamlet perdeu, simultaneamente, todas as suas fontes de sentido: o pai (figura de ordem e identidade), a mãe (fidelidade e continuidade), Ofélia (o amor), a corte (a lealdade). O que resta é o vazio existencial em sua forma mais pura.

Frankl reconheceria em Hamlet não um covarde, mas um homem em crise de sentido — e diria que a saída estaria na escolha de uma resposta, mesmo diante da tragédia.

B E C K E T T — A ESPERA SEM RESOLUÇÃO

Beckett é o vértice estruturalmente mais próximo. Hamlet adia, posterga, encena uma peça dentro da peça, finge loucura, filosofa — e não age. Vladmir e Estragon fazem o mesmo: esperam Godot que nunca vem, conversam para não enlouquecer, permanecem sem partir. A diferença essencial é que Hamlet ainda acredita que há algo a fazer. Beckett remove até essa última ilusão. Hamlet é Beckett com esperança — o que o torna, talvez, mais trágico.

C H E S TOV — O SALTO PELA  FÉ

Lev Chestov, o menos conhecido dos quatro, propõe que diante do colapso da razão, resta apenas o salto pela fé — não a fé tranquila e ordenada, mas a fé desesperada, a fé de Jó que clama contra Deus sem abandoná-lo. Há um Hamlet chestoviano no momento em que ele entrega seu destino à Providência:

"There's a divinity that shapes our ends, rough-hew them how we will." É o momento em que a razão capitula e algo além dela assume o comando.

III. THE TIME IS OUT OF JOINT

A frase mais filosófica de Hamlet não é o celebrado monólogo do Ato III — é a que ele pronuncia logo após encontrar o fantasma do pai: "The time is out of joint. O cursed spite, that ever I was born to set it right." O tempo está fora dos eixos. E maldito seja o destino que me colocou aqui para consertá-lo.

Esta é a condição do homem absurdo antes de ter esse nome: ele percebe que o mundo perdeu sua ordem, sua coerência, seu sentido — e que recaiu sobre ele, incompreensivelmente, a responsabilidade de restaurá-lo. Não há por quê. Não há garantia de sucesso. Não há recompensa visível. E ainda assim, a consciência não o deixa abandonar a tarefa.

É nessa encruzilhada que Camus, Frankl, Beckett e Chestov divergem — e é por isso que Hamlet os precede a todos. Ele formula a questão sem resolvê-la, habita o espaço sem escolher um vértice, morre sem ter encontrado uma saída definitiva.

É a tragédia de quem viu o absurdo com demasiada clareza e não teve tempo — nem filosofia suficiente — para respondê-lo.

IV. O LEGADO DE UMA PERGUNTA ABERTA

O que Hamlet lega ao pensamento moderno não é uma resposta — é a qualidade da pergunta. Ele demonstra que a consciência humana, quando suficientemente desenvolvida, não pode simplesmente agir no mundo sem antes perguntar por quê.

E quando esse porquê desaparece, quando o fundamento se dissolve, a ação torna-se heroica não pela certeza que a sustenta, mas pela ausência dela.

Camus chamaria isso de revolta. Frankl chamaria de escolha de sentido. Beckett deixaria sem nome, apenas encenaria. Chestov chamaria de fé. Mas todos eles, ao abrirem suas obras, encontraram Hamlet já sentado no palco — perguntando, sozinho, no escuro.

"To be, or not to be" — a pergunta permanece.

O Quadrilátero do Absurdo é, talvez, a história das respostas que vieram depois.




por CARLOS OTÁVIO SANTIAGO. 

domingo, 12 de abril de 2026

O CORPO HUMANO: TRABALHO, VIOLÊNCIA E SOFRIMENTO.

Como vimos, a produção e reprodução da vida material humana bifurca-se em: reprodução sexuada, pela qual se obtém o máximo de prazer; e trabalho, do qual se extrai o máximo de sofrimento. 

No que pertine ao trabalho, sua realização depende de meios de produção, sendo certo que a apropriação de tais meios de produção pelos seres humanos efetiva-se mediante: o próprio trabalho e, outrossim, a violência, através da qual se evita a turbação da propriedade dos meios de produção (propriedade fundiária, inicialmente na história), ou há a subtração da propriedade de outrem para a própria imissão na posse respectiva.

Ulteriormente, trabalho e violência, a princípio unidos na formação da propriedade dos meios de produção, desenvolvem-se e separam-se dialeticamente no sentido da constituição de uma classe social que somente trabalha (escravos) e outra que vive da violência exercida sobre a primeira (senhores).

No que pertine a tal desenvolvimento das classes sociais, faz-se mister aduzir que o sofrimento do corpo humano cumpre papel axial, eis que a violência efetua-se sobre outrem (fazendo-o trabalhar para o senhor que exerce a violência) para evitar o sofrimento decorrente do próprio trabalho, enquanto o escravo submete-se ao senhor violento, trabalhando para este, para evitar precisamente o sofrimento ou a morte derivados da ameaça de violência ou da efetiva violência.

Tais hipóteses, ora sub judice, estão em consonância com o materialismo histórico.   



por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

TODOS OS LIVROS

O bibliotecário Luís Azevedo adentrara o estágio onírico de sono profundo quando começou a sonhar que dirigia a Biblioteca Central, um prédio enorme em forma de labirinto de estantes que continha todos os livros já publicados na história, em acervo de mais de meio bilhão de volumes mui bem cuidados, catalogados e organizados, mas rarissimamente frequentado, pois, a bem da verdade, os cidadãos quedavam intimidados e receosos com aquela estrutura labiríntica que, de certo modo, provocava vertigem e desorientação, mas, nada obstante, Luís Azevedo jamais cogitava em deixar o seu honroso posto laboral que, topograficamente considerado, restava bem no centro do edifício, e sua mesa de trabalho exibia-se invariavelmente abarrotada de obras de variegados assuntos, as quais ele devorava nas intermináveis horas vagas, em certo hábito de leitura que beirava a obsessão, com o maior deleite do mundo, pois acalentava a insana veleidade de algum dia adquirir todo o conhecimento haurido pela humanidade, tanto científico quanto artístico, malgrado ciente de que seu tempo de existência neste mundo não se mostraria suficiente para a empreitada, apesar da voracidade e determinação com que a ela se dedicava, pois sua pretensão era infinita, mas eis que ele se depara com uma bem acabada e ilustrada versão moderna do mito fáustico medieval, cujo enredo fascinou-o liminarmente, na medida em que nele divisava um estratagema para derrotar seus limites físicos e intelectuais, enfim, sua finitude, a saber, mediante celebração de acordo solene com o próprio Mefistófeles, em contrato que poderia estabelecer a alienação de sua alma ao capiroto, colimando atingir aquele seu obsessivo intento de se instruir com toda a sabedoria humana existente, de tal sorte que Luís Azevedo invocou-o e Mefistófeles lhe apareceu efetivamente, com findarem por estabelecer aquela mencionada cláusula contratual de transferência anímica, e então nosso orgulhoso bibliotecário encetou seu gigantesco plano de estudos, o qual, a certa altura, encontrou uma alentada obra, de autoria de um expoente mui afamado da filosofia, conhecido pelas alcunhas alternativas de Mouro de Trier ou Velho Nick, obra esta intitulada O Capital, em que tal filósofo expunha e descrevia minudentemente como o dinheiro dominara a produção da vida material humana em sociedade e exibia a vocação de acumular-se infinitamente, de tal maneira que Luís Azevedo percebeu, pelo escopo e dimensão desse livro inconcluso, que o Velho Nick também celebrara contrato com o Belzebu em circunstâncias mui semelhantes, sendo certo que o nosso herói sonhador saiu então em busca de uma biografia do Mouro de Trier, vindo a descobrir que ele, cuja vida fora, outrossim, despendida numa Biblioteca, rescindira o acordo com aquela aludida figura demoníaca, por razões desconhecidas, e não lograra concluir sua obra, mas Luís de Azevedo também ventilou a hipótese consoante a qual Mefistófeles não seria senão outro nome do próprio Capital, cabendo destacar que, nesse exato momento, o sonho do bibliotecário convolou-se em pesadelo e ele despertou em situação de grande estupefação e, incontinenti, passou a cultivar a ideia de apresentar uma tese acadêmica que encerraria como título: “Fausto e Capital, uma confluência entre as obras de Goethe e Marx”

 

 

Por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.