terça-feira, 28 de abril de 2026

PLATÃO EM PARIS

É cediço que a mercadoria bifurca-se em valor de uso (seu aspecto concreto) e valor de troca (seu aspecto abstrato), bem assim que este último emancipa-se historicamente da mercadoria e se convola no dinheiro, mediante o qual se realiza a circulação de mercadorias, cabendo destacar que o dinheiro perde paulatinamente o seu suporte material no metal precioso e, passando pelo papel-moeda, converte-se nas hodiernas moedas digitais, parecendo lícito ventilar que tal desmaterialização progressiva ocorre paralelamente ao processo pelo qual o trabalho adquire caráter cada vez mais eminentemente intelectual e imaterial.

Mas interessa aqui observar que tal bifurcação da mercadoria reflete-se, no âmbito superestrutural da filosofia, na dicotomia platônica entre corpo e alma, cujo desdobramente epistemológico acaba por opor o empirismo ao racionalismo. 

Indo um pouco além, impõe-se obtemperar que até mesmo o socialismo científico sofreu influência de tais dicotomias platônicas, senão vejamos. 

Na França, verbi gratia, a tradição marxista dividiu-se entre o estruturalismo de Louis Althusser e o existencialismo de Jean-Paul Sartre, sendo certo que a obra deste último informou, em grande medida, a crítica corrosiva do historiador marxista britânico Edward Palmer Thompson à teoria de Althusser, em embate que se tornou famoso. 

Todavia, talvez se mostrasse mais produtivo e edificante um certo "meio termo" teórico entre o anti-humanismo estruturalista de Althusser e o humanismo existencialista de Sartre.

Sem embargo, à medida que a história aproxima as distintas sociedades de uma Humanidade real e concreta, e não apenas abstrata, a ser atingida no comunismo vindouro, de jaez universal e planetário (em que divisões entre Estados-nações e classes sociais antagônicas desaparecerão), o ser humano vai outrossim paulatinamente deixando de ser mero títere das relações de produção, ou mero vetor ou suporte de determinações da estrutura econômica, para tomar as rédeas do próprio destino, mas não como indivíduo, e sim como coletividade.

Hipóteses sub judice. 





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.     

A REVOLUÇÃO TARDA E O CAPITALISMO AGONIZA

Não por acaso, o materialismo histórico e dialético nasceu quase concomitantemente com o capitalismo industrial, durante o processo de subsunção real do trabalho no capital, historicamente introduzido pelo advento da maquinaria e grande indústria típicas da revolução industrial inglesa do século XVIII.

Sem embargo, o capitalismo e a respectiva extração de mais-valia funcionam melhor na produção industrial de jaez fabril, a saber, com o trabalho eminentemente manual e prático, porquanto mais difícil extrair a mais-valia do trabalho eminentemente intelectual dos programadores de software, malgrado a hodierna tentativa de controlar e acelerar o pensamento e o trabalho intelectual respectivo mediante algoritmos da denominada "inteligência artificial".

Portanto, o capitalismo exibe-se essencialmente prático e material, enquanto o socialismo será essencialmente intelectual, eis que a progressiva automatização da indústria fabril, que substitui o trabalho prático e manual dos seres humanos por máquinas e robôs, liberará, no socialismo, tempo para desinibição do trabalho eminentemente intelectual necessário à gigantesca tarefa da planificação econômica.

Mas o trabalho eminentemente intelectual avança, diante do trabalho eminentemente manual, ainda durante a vigência do capitalismo, o qual se depara, portanto, com dificuldades na extração de mais-valia, situação esta a demonstrar que a transição para o socialismo, que é eminentemente intelectual, já se mostra possível e exequível, ou mesmo tardia.

A experiência soviética, por seu turno, demonstra descompasso entre o nível de automação industrial e as relações de produção, isto é, relações de produção socialistas foram implantadas, na extinta União Soviética, em ambiente industrial ainda pouco automatizado e impróprio para o livre desenvolvimento do trabalho intelectual, que a planificação econômica socialista demanda e requer.

As atuais teorias do capitalismo cognitivo ou superindustrial, bem assim do tecnofeudalismo, consistem em sintomas precisamente do fato de que o trabalho intelectual eminentemente socialista já foi liberado pelo capitalismo, sem que tenha ainda  ocorrido, todavia, a transição socialista.

Sim, a revolução tarda enquanto o capitalismo já agoniza. 

Hipóteses sub judice.





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA. 

domingo, 26 de abril de 2026

O TEMPO E O EGO

Como diria Karl Marx, as robinsonadas do indivíduo isolado, abstrato, dissociado das sociedades presente e passada que o produzem, não passam de ideologia burguesa no seu mais puro estado, eis que se faz mister considerar os seres humanos de forma sincrônica e diacrônica. 

Nesse diapasão, sob prisma diacrônico, o indivíduo humano consiste em mero elo na cadeia do tempo que une passado e futuro, um fugaz presente que não pode suplantar a condição de passagem, na exata medida em que se exibe como mero instrumento da produção e reprodução da vida material humana em sociedade. 

Louis Althusser, portanto, estava parcialmente correto ao postular que o indivíduo, a saber, o ego humano é mero suporte ou vetor de determinações estruturais da economia, mas bastava-lhe introduzir aí o elemento do tempo histórico: o indivíduo humano é vetor e passagem de relações históricas de produção. 

Mas vejam: isto não representa qualquer demérito para o indivíduo humano, pois, ao contrário, emancipa sua condição histórica, enfatizando sua importância no curso do tempo, enfim, no devir, na ligação entre as gerações passadas e as gerações futuras.   




por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA. 

quarta-feira, 22 de abril de 2026

A POESIA CONCRETA, OU O ASPECTO SOCIAL COMO ASPECTO ABSTRATO.

Como vimos, a mercadoria bifurca-se em valor de uso (seu aspecto concreto) e valor de troca (seu aspecto abstrato), sendo certo que este último aspecto exibe-se eminentemente social, na exata medida em que as relações sociais, ou de produção, entre os seres humanos encerram um jaez tipicamente alienado e heterônomo, pois se originam e governam os indivíduos à revelia deles, e mesmo contra eles.

O aspecto abstrato da mercadoria, ou seu valor de troca é, portanto, seu aspecto eminentemente social, e o mesmo ocorre com a palavra escrita, senão vejamos.

Sem embargo, analogamente à mercadoria, a palavra escrita também se bifurca em aspecto abstrato ou social, a saber, seu significado; e seu aspecto concreto, isto é, o significante, que coincide com o próprio símbolo desenhado em papel ou virtualmente.

A poesia concreta exalta e emancipa precisamente esse aspecto concreto da palavra escrita, e nesse sentido encerra um jaez socialista ou progressista de esquerda, senão vejamos. 

Sem embargo, o dinheiro consiste na emancipação do valor de troca ou aspecto abstrato da mercadoria, que ulteriormente, ao se transformar em capital propriamente dito, apropria-se da produção econômica e material da vida humana na indústria fabril, dividindo os seres humanos nas classes sociais antagônicas da burguesia e do proletariado, sendo certo que este último guarda um jaez revolucionário, na medida em que tem o potencial de reunir e reunificar a humanidade numa sociedade comunista despojada da divisão em classes sociais.

Nesse modo comunista de produção, ainda vindouro, a mercadoria desaparecerá pela fusão entre seu valor de uso e seu valor de troca, prevalecendo o respectivo aspecto concreto dos produtos econômicos, dirigidos à efetiva satisfação das necessidades individuais também concretas.

Logo, a poesia concreta, ao exaltar o aspecto concreto da palavra escrita, divisa uma sociedade sem classes e sem mercadoria, em que a necessidade de acumulação capitalista será superada pelas necessidades humanas concretas.





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA. 

segunda-feira, 20 de abril de 2026

MOZART

Venho de assistir ao registro de uma execução assombrosamente sobrenatural, ocorrida em 2003 no mosteiro dos Jerônimos em Lisboa, com a Orquesta Filarmônica de Berlim sob a batuta do mítico condutor francês Pierre Boulez, juntamente com a exímia pianista portuguesa Maria João Pires, do vigésimo concerto para piano e orquesta de autoria do insofismável Johannes Chrysostomus Wolfgangus Theophilus Mozart.

Cuida-se de umas das mais belas páginas musicais de todos os tempos, do maior de todos os compositores da história, cujo enlevo proporcionado parece-nos similar ao de uma epifania de jaez religioso.

Mozart estava muito à frente de seu tempo e, provavelmente, não pensava somente em si quando compunha, mas divisava sobretudo as gerações vindouras, máxime porquanto sua música parecia extremamente complexa e de difícil execução para aquela época, mas o fato é que, efetivamente, tais gerações vindouras souberam atribuir o devido valor a tal obra extraordinária, cuja admiração só faz crescer. 

Enfim, um músico que, sem exageros, transcendeu sua própria individualidade e inscreveu perenemente seu nome no panteão dos maiores artistas de todos os tempos. 






por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA. 

sábado, 18 de abril de 2026

DESAFINADO

Não, não tratarei aqui da bela canção de Tom Jobim e Newton Mendonça interpretada por João Gilberto, mas sim de um músico muito festejado e de nomeada, o qual, todavia, na minha humilde opinião, talvez ainda remanesça subavaliado, dada a importância de sua contribuição para a música em geral e, especialmente, para esse estilo comumente denominado "jazz".

Chet Baker é seu nome.

Sim, há uma certa homologia entre a atormentada existência desse artista e sua música, senão vejamos. 

Se Charlie Parker praticamente inventou o bebop, introduzindo o que chamei de "liberdade vigiada", isto é, variações melódicas de improviso, confinadas, no entanto, em um mesmo esqueleto harmônico, Chet Baker pode ter aprofundado tal invenção e ampliado tal liberdade.     

Sem embargo, afora conseguir tocar seu trompete sem a estridência habitual desse instrumento, alcançando tons baixos de difícil execução, Chet Baker não raro exibia em suas performances vocais uma característica inusitada: a desafinação, a saber, sua voz não raro deixava de atingir a frequência exata da nota musical, provocando um desvio tonal de desagradável, porém cálida dissonância.

Enfim, uma execução imperfeita para uma existência idem, profundamente marcada por romances turbulentos, vício em drogas e prisões, que teve seu derradeiro momento em overdose determinante de queda letal desde uma janela de hotel em Amsterdam. 

Mas se a arte de Charlie "Bird" Parker denota provavelmente o jazz proletário dos descendentes dos escravos da América do Norte, aquela de Chet Baker representa com efeito um certo individualismo romântico decadente do West Coast Jazz de matriz pequeno burguesa: dois monstros sagrados da música, sem embargo.





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA. 

A MERCADORIA E AS CLASSES SOCIAIS

Na seminal distinção entre valor de uso (aspecto concreto) e valor de troca (aspecto abstrato) da mercadoria, encetada no capítulo inaugural de O Capital, Karl Marx já inscreve a dissociação entre, respectivamente, o processo de circulação de capital (que tanto encanta economistas neoclássicos, keynesianos e até mesmo marxistas, como Kalecki) e o processo de produção de capital, que, por seu turno, reflete-se no antagonismo entre a classe social que consome muito sem trabalhar produtivamente (a burguesia) e a classe social que consome pouco e tudo produz (o proletariado).

Mas aludido reflexo é, de proêmio, mediado historicamente pelo surgimento do dinheiro ou circulação de mercadorias, pelo qual o valor de troca, ou aspecto abstrato da mercadoria, aufere autonomia e, posteriormente, convola-se em capital propriamente dito, ao apropriar-se do processo de produção da vida material humana, inaugurando a grande indústria fabril na revolução industrial inglesa do século XVIII.

Hipoteses sub judice. 




por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.