domingo, 26 de abril de 2026

O TEMPO E O EGO

Como diria Karl Marx, as robinsonadas do indivíduo isolado, abstrato, dissociado das sociedades presente e passada que o produzem, não passam de ideologia burguesa no seu mais puro estado, eis que se faz mister considerar os seres humanos de forma sincrônica e diacrônica. 

Nesse diapasão, sob prisma diacrônico, o indivíduo humano consiste em mero elo na cadeia do tempo que une passado e futuro, um fugaz presente que não pode suplantar a condição de passagem, na exata medida em que se exibe como mero instrumento da produção e reprodução da vida material humana em sociedade. 

Louis Althusser, portanto, estava parcialmente correto ao postular que o indivíduo, a saber, o ego humano é mero suporte ou vetor de determinações estruturais da economia, mas bastava-lhe introduzir aí o elemento do tempo histórico: o indivíduo humano é vetor e passagem de relações históricas de produção. 

Mas vejam: isto não representa qualquer demérito para o indivíduo humano, pois, ao contrário, emancipa sua condição histórica, enfatizando sua importância no curso do tempo, enfim, no devir, na ligação entre as gerações passadas e as gerações futuras.   




por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA. 

quarta-feira, 22 de abril de 2026

A POESIA CONCRETA, OU O ASPECTO SOCIAL COMO ASPECTO ABSTRATO.

Como vimos, a mercadoria bifurca-se em valor de uso (seu aspecto concreto) e valor de troca (seu aspecto abstrato), sendo certo que este último aspecto exibe-se eminentemente social, na exata medida em que as relações sociais, ou de produção, entre os seres humanos encerram um jaez tipicamente alienado e heterônomo, pois se originam e governam os indivíduos à revelia deles, e mesmo contra eles.

O aspecto abstrato da mercadoria, ou seu valor de troca é, portanto, seu aspecto eminentemente social, e o mesmo ocorre com a palavra escrita, senão vejamos.

Sem embargo, analogamente à mercadoria, a palavra escrita também se bifurca em aspecto abstrato ou social, a saber, seu significado; e seu aspecto concreto, isto é, o significante, que coincide com o próprio símbolo desenhado em papel ou virtualmente.

A poesia concreta exalta e emancipa precisamente esse aspecto concreto da palavra escrita, e nesse sentido encerra um jaez socialista ou progressista de esquerda, senão vejamos. 

Sem embargo, o dinheiro consiste na emancipação do valor de troca ou aspecto abstrato da mercadoria, que ulteriormente, ao se transformar em capital propriamente dito, apropria-se da produção econômica e material da vida humana na indústria fabril, dividindo os seres humanos nas classes sociais antagônicas da burguesia e do proletariado, sendo certo que este último guarda um jaez revolucionário, na medida em que tem o potencial de reunir e reunificar a humanidade numa sociedade comunista despojada da divisão em classes sociais.

Nesse modo comunista de produção, ainda vindouro, a mercadoria desaparecerá pela fusão entre seu valor de uso e seu valor de troca, prevalecendo o respectivo aspecto concreto dos produtos econômicos, dirigidos à efetiva satisfação das necessidades individuais também concretas.

Logo, a poesia concreta, ao exaltar o aspecto concreto da palavra escrita, divisa uma sociedade sem classes e sem mercadoria, em que a necessidade de acumulação capitalista será superada pelas necessidades humanas concretas.





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA. 

segunda-feira, 20 de abril de 2026

MOZART

Venho de assistir ao registro de uma execução assombrosamente sobrenatural, ocorrida em 2003 no mosteiro dos Jerônimos em Lisboa, com a Orquesta Filarmônica de Berlim sob a batuta do mítico condutor francês Pierre Boulez, juntamente com a exímia pianista portuguesa Maria João Pires, do vigésimo concerto para piano e orquesta de autoria do insofismável Johannes Chrysostomus Wolfgangus Theophilus Mozart.

Cuida-se de umas das mais belas páginas musicais de todos os tempos, do maior de todos os compositores da história, cujo enlevo proporcionado parece-nos similar ao de uma epifania de jaez religioso.

Mozart estava muito à frente de seu tempo e, provavelmente, não pensava somente em si quando compunha, mas divisava sobretudo as gerações vindouras, máxime porquanto sua música parecia extremamente complexa e de difícil execução para aquela época, mas o fato é que, efetivamente, tais gerações vindouras souberam atribuir o devido valor a tal obra extraordinária, cuja admiração só faz crescer. 

Enfim, um músico que, sem exageros, transcendeu sua própria individualidade e inscreveu perenemente seu nome no panteão dos maiores artistas de todos os tempos. 






por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA. 

sábado, 18 de abril de 2026

DESAFINADO

Não, não tratarei aqui da bela canção de Tom Jobim e Newton Mendonça interpretada por João Gilberto, mas sim de um músico muito festejado e de nomeada, o qual, todavia, na minha humilde opinião, talvez ainda remanesça subavaliado, dada a importância de sua contribuição para a música em geral e, especialmente, para esse estilo comumente denominado "jazz".

Chet Baker é seu nome.

Sim, há uma certa homologia entre a atormentada existência desse artista e sua música, senão vejamos. 

Se Charlie Parker praticamente inventou o bebop, introduzindo o que chamei de "liberdade vigiada", isto é, variações melódicas de improviso, confinadas, no entanto, em um mesmo esqueleto harmônico, Chet Baker pode ter aprofundado tal invenção e ampliado tal liberdade.     

Sem embargo, afora conseguir tocar seu trompete sem a estridência habitual desse instrumento, alcançando tons baixos de difícil execução, Chet Baker não raro exibia em suas performances vocais uma característica inusitada: a desafinação, a saber, sua voz não raro deixava de atingir a frequência exata da nota musical, provocando um desvio tonal de desagradável, porém cálida dissonância.

Enfim, uma execução imperfeita para uma existência idem, profundamente marcada por romances turbulentos, vício em drogas e prisões, que teve seu derradeiro momento em overdose determinante de queda letal desde uma janela de hotel em Amsterdam. 

Mas se a arte de Charlie "Bird" Parker denota provavelmente o jazz proletário dos descendentes dos escravos da América do Norte, aquela de Chet Baker representa com efeito um certo individualismo romântico decadente do West Coast Jazz de matriz pequeno burguesa: dois monstros sagrados da música, sem embargo.





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA. 

A MERCADORIA E AS CLASSES SOCIAIS

Na seminal distinção entre valor de uso (aspecto concreto) e valor de troca (aspecto abstrato) da mercadoria, encetada no capítulo inaugural de O Capital, Karl Marx já inscreve a dissociação entre, respectivamente, o processo de circulação de capital (que tanto encanta economistas neoclássicos, keynesianos e até mesmo marxistas, como Kalecki) e o processo de produção de capital, que, por seu turno, reflete-se no antagonismo entre a classe social que consome muito sem trabalhar produtivamente (a burguesia) e a classe social que consome pouco e tudo produz (o proletariado).

Mas aludido reflexo é, de proêmio, mediado historicamente pelo surgimento do dinheiro ou circulação de mercadorias, pelo qual o valor de troca, ou aspecto abstrato da mercadoria, aufere autonomia e, posteriormente, convola-se em capital propriamente dito, ao apropriar-se do processo de produção da vida material humana, inaugurando a grande indústria fabril na revolução industrial inglesa do século XVIII.

Hipoteses sub judice. 




por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

GILBERTO FREYRE

A obra de Gilberto Freyre foi, como é notório, duramente criticada por importante parte da esquerda política brasileira, sendo certo que Clóvis Moura, verbi gratia, aduzia que Freyre caracterizou a escravidão brasileira como um certo idílio composto por senhores bons e escravos submissos. 

Muito provavelmente, tal ideia de idílio configure um exagero, mas, de outro bordo, tampouco parece crível que nossa escravidão tenha sido um inferno absoluto, pelas razões puramente racionais e econômicas que passo a expor e sugerir. 

Como vimos, o sofrimento físico do corpo humano determina tanto a violência do senhor, que ao escravizar esquiva-se da dor provocada pelo trabalho, quanto a obediência do próprio escravo, o qual, ao ser submetido pelo senhor, evita o sofrimento da violência, pior que o do trabalho, ou da morte pura e simples.

Ora, se o trabalho, e a vida em geral, fosse absolutamente insuportável para o escravo, restar-lhe-ia o suicídio, o que tornaria a instituição da escravidão (ou do modo escravista de produção) insustentável. 

Mas a história também registra a rebelião escrava no Brasil, que seria uma forma coletiva e organizada de escapar tanto da morte quanto do trabalho e da violência, ou seja, do sofrimento.

Enfim, o tema exibe-se bastante complexo, mas a escravidão no Brasil situa-se em algum lugar entre o idílio e o inferno: um logradouro de difícil acesso.      

Tais hipóteses, talvez bastante controversas, quedam sub judice.




por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.  

segunda-feira, 13 de abril de 2026

TÍTERES DO CAPITAL

Consoante aduzido por Karl Marx, "a anatomia do homem é a chave da anatomia do macaco", logo toda acumulação de capital significa uma acumulação primitiva para uma fase histórica ulterior e superior do modo capitalista de produção, ainda que os seres humanos não tenham ciência disto, pois, segundo preconizava corretamente Louis Althusser, somos meros títeres dos desígnios ocultos do verdadeiro sujeito da história, a saber, o capital. 

Nesse diapasão, acalento por hipótese que acumulação primitiva, antigo sistema colonial, mercantilismo e formação da classe operária consistem em distintas facetas ou manifestações do nascimento do capitalismo enquanto modo de produção definido pela mercadoria consubstanciada na força de trabalho, de tal sorte que a acumulação de riqueza em poder do Estado absolutista moderno colimava fornecer-lhe os meios materiais e recursos humanos para a violenta expropriação da propriedade dos meios de produção do campesinato de matriz medieval, para que a nova classe dominante, a burguesia, recuperasse o nível de exploração extremo da classe trabalhadora no modo de produção escravista, perdido durante o feudalismo, mas agora com meios de produção não apenas fundiários, mas já  industriais.

Hipóteses sub judice.






por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.