sexta-feira, 10 de abril de 2026

TODOS OS LIVROS

O bibliotecário Luís Azevedo adentrara o estágio onírico de sono profundo quando começou a sonhar que dirigia a Biblioteca Central, um prédio enorme em forma de labirinto de estantes que continha todos os livros já publicados na história, em acervo de mais de meio bilhão de volumes mui bem cuidados, catalogados e organizados, mas rarissimamente frequentado, pois, a bem da verdade, os cidadãos quedavam intimidados e receosos com aquela estrutura labiríntica que, de certo modo, provocava vertigem e desorientação, mas, nada obstante, Luís Azevedo jamais cogitava em deixar o seu honroso posto laboral que, topograficamente considerado, restava bem no centro do edifício, e sua mesa de trabalho exibia-se invariavelmente abarrotada de obras de variegados assuntos, as quais ele devorava nas intermináveis horas vagas, em certo hábito de leitura que beirava a obsessão, com o maior deleite do mundo, pois acalentava a insana veleidade de algum dia adquirir todo o conhecimento haurido pela humanidade, tanto científico quanto artístico, malgrado ciente de que seu tempo de existência neste mundo não se mostraria suficiente para a empreitada, apesar da voracidade e determinação com que a ela se dedicava, pois sua pretensão era infinita, mas eis que ele se depara com uma bem acabada e ilustrada versão moderna do mito fáustico medieval, cujo enredo fascinou-o liminarmente, na medida em que nele divisava um estratagema para derrotar seus limites físicos e intelectuais, enfim, sua finitude, a saber, mediante celebração de acordo solene com o próprio Mefistófeles, em contrato que poderia estabelecer a alienação de sua alma ao capiroto, colimando atingir aquele seu obsessivo intento de se instruir com toda a sabedoria humana existente, de tal sorte que Luís Azevedo invocou-o e Mefistófeles lhe apareceu efetivamente, com findarem por estabelecer aquela mencionada cláusula contratual de transferência anímica, e então nosso orgulhoso bibliotecário encetou seu gigantesco plano de estudos, o qual, a certa altura, encontrou uma alentada obra, de autoria de um expoente mui afamado da filosofia, conhecido pelas alcunhas alternativas de Mouro de Trier ou Velho Nick, obra esta intitulada O Capital, em que tal filósofo expunha e descrevia minudentemente como o dinheiro dominara a produção da vida material humana em sociedade e exibia a vocação de acumular-se infinitamente, de tal maneira que Luís Azevedo percebeu, pelo escopo e dimensão desse livro inconcluso, que o Velho Nick também celebrara contrato com o Belzebu em circunstâncias mui semelhantes, sendo certo que o nosso herói sonhador saiu então em busca de uma biografia do Mouro de Trier, vindo a descobrir que ele, cuja vida fora, outrossim, despendida numa Biblioteca, rescindira o acordo com aquela aludida figura demoníaca, por razões desconhecidas, e não lograra concluir sua obra, mas Luís de Azevedo também ventilou a hipótese consoante a qual Mefistófeles não seria senão outro nome do próprio Capital, cabendo destacar que, nesse exato momento, o sonho do bibliotecário convolou-se em pesadelo e ele despertou em situação de grande estupefação e, incontinenti, passou a cultivar a ideia de apresentar uma tese acadêmica que encerraria como título: “Fausto e Capital, uma confluência entre as obras de Goethe e Marx”

 

 

Por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

MARIA (para minha mãe, para dona Ozória Secco e, in memoriam, para dona Maria Helena Santiago)

O resultado do exame Beta-hCG quantitativo desautorizava qualquer margem de dúvida, pois, em conjunto com as condições físicas exibidas no caso concreto em questão, a gravidez de Maria era inconteste, malgrado sem causa aparente, pois ela não se mostrava hábil a recordar-se de recente conjunção carnal, o que a deixou estupefata e profundamente comovida, eis que considerou aquela informação como uma dádiva celeste, dada a sua intensa religiosidade católica, e então decidiu que daria luz àquele inesperado rebento com toda a ternura que seria capaz de oferecer, conquanto suas condições materiais de operária de grande indústria e empedernida celibatária, vivendo sozinha em apartamento de quarenta metros quadrados na periferia da megalópole, talvez desfavorecessem tal veredito, mas o certo mesmo é que ela estava convicta de que fora efetivamente incumbida de uma missão divina, da qual não se esquivaria em nenhuma hipótese, custasse o que custasse, e a criança do sexo masculino então nasceu dolorosamente, em hospital público, mediante parto com auxílio de fórceps, mas veio a lume com excelente vigor físico, evidenciado pelo estridente choro que invariavelmente inaugura nossa aventura nesse mundo tão estranho quanto fascinante, e Maria também verteu lágrimas copiosas de legítima emoção, mas não de dor, pois isso não era do seu feitio, a saber, da sua índole corajosa que enfrentava com galhardia as intempéries da vida, nada obstante sua compleição corporal miúda e franzina, de um aspecto frágil que ocultava a gigante que habitava o seu espírito guerreiro, de tal sorte que, ao chegar em casa solitariamente com seu bebê após a alta hospitalar, uma alegria transbordante invadiu seu coração, pois estava ciente de que seu caminho seria doravante tortuoso, mas também que a maternidade lhe propiciaria momentos de absoluto enlevo e embevecimento, eis que já sentia afeto por aquele ser recém-nascido cujas primeiras manifestações vislumbravam energia vital quase inesgotável, ensejadora de noites insones tanto do Filho quanto da mãe, mas cujos luares prometiam inefável beleza no dia vindouro que estava para despertar.

A infância do Filho transcorreu sem grandes privações materiais, mas repleta do carinho amoroso dedicado por Maria a seu rebento, bem assim com o concurso de fiéis amigos do bairro periférico, com quem Filho jogava bola e se divertia a valer mediante outras formas lúdicas de brincadeiras, típicas de uma época em que ainda não exsurgira o computador pessoal, parecendo lícito ventilar a hipótese de que talvez Filho tenha despendido muito mais tempo e vitalidade a acalentar tais amizades do que propriamente aos estudos, considerando os pífios resultados que hauria na escola pública local, mas Maria não sancionava este insucesso acadêmico com penalidades muito rigorosas, pois entendia que o caráter de um homem forja-se não apenas no liceu, mas sobretudo no cotidiano do lar, do trabalho e das amizades, conquanto não descurasse da importância dos conhecimentos adquiridos fora do âmbito familiar, mas o certo é que, ao completar dezesseis anos, Filho logo obteve, com a ajuda de sua mãe, um emprego de operário na mesma fábrica em que Maria laborava, e esta comunhão de local de trabalho rendeu uma relação bastante inusitada e edificante entre mãe e filho, a qual exorbitou o mero enlace de sangue para atingir efetiva amizade e companheirismo de classe social, já que ambos também compartilhavam afinidades de esquerda no espectro político-partidário.

Sobreveio, então, uma época de notória turbulência social, com o movimento paredista, conduzido pelos sindicatos laborais, logrando mui organizadas e bem sucedidas paralizações e greves de trabalhadores, as quais provocavam engulhos de pavor na classe patronal e no governo, que a certa altura começou a reagir com violência mediante uso das forças públicas, e tal reação acabou por despertar uma contrapartida radical da classe operária, que conseguiu a exuberante proeza de obstar toda a nação, concomitantemente, numa greve geral de proporções inauditas e repercussão internacional, sendo certo que Maria e o Filho participaram ativamente dessa paralização estrondosa, mas um episódio pessoal marcaria profunda e perenemente a vida de ambos, pois Maria, ao testemunhar o Filho ser agredido por um agente das forças públicas, durante tal greve geral, empurrou-o com força tamanha que o policial caiu na rua e foi atropelado letalmente por uma viatura oficial da repressão que fazia a ronda no lugar, de tal sorte que essa mãe foi escoltada incontinenti para o cárcere central da cidade, onde ficou sob custódia, sob acusação de homicídio doloso, por dolo eventual, e chegou a ser barbaramente torturada durante semanas.

Na sequência de tais fatos, Filho, que se encontrava em estado de depressão e letargia profundas em razão da situação de sua mãe, foi informado de que ela suicidara-se por enforcamento na própria cela em que estava encarcerada, mas as circunstâncias extremamente duvidosas do ocorrido não o convenceram e sua condição piorou deveras, a ponto de se cogitar em sua internação hospitalar, mas os parentes mais próximos desaconselharam tal medida em vista do gravíssimo momento político, de tal sorte que, por prudência, e com o auxílio providencial de organizações da esquerda política, Filho foi retirado do país e encaminhado para um exílio parcialmente voluntário no exterior, onde sua trajetória vital adquiriu contornos inusitados, na medida em que, milagrosamente curado da doença anímica incapacitante, passou a se dedicar com afinco quase desumano aos estudos das ciências sociais e jurídicas, colimando, decerto, voltar algum dia à sua terra natal em busca de justiça para o lamentável e trágico caso de Maria.

Mas o Filho jamais retornou.

Em compensação, ele converteu-se, passado algum tempo, em axial ativista e engajado teórico da esquerda política, de importância reconhecidamente planetária, cujos manuscritos foram amplamente publicados nos mais variegados idiomas e veículos, e cujo destino foi bem mais ameno e suave quando cotejado com o de Maria, pois não chegou a sofrer violência física em razão de sua militância política, mas constituiu família e prole que foi educada de maneira mui solene na tradição progressista em homenagem a Maria, cabendo destacar que uma das netas, artista plástica de nomeada, erigiu uma estonteante e grandiloquente escultura, em bronze, da avó, com inspiração em fotografias respectivas, a qual foi honrosamente implantada em local público de importante circulação populacional.

 

Por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.

terça-feira, 7 de abril de 2026

LUDWIG

Para Renata e João Felipe, meus afilhados

 

Cuidava-se decerto de época revolucionária na vida material do homo sapiens, com registro oficial de importantes transformações, inversões e mesmo colapsos, parecendo lícito ventilar que o arquétipo fundante dos mitos de Prometeu, Fausto, Frankenstein e, de certo modo, da própria religião cristã, estava a ser encenado com pompa e circunstância na prosaica história dos seres humanos de carne e osso, que experimentavam destarte o abstrato converter-se em concreto e, este, convolar-se em abstrato, eis que o universo do dinheiro agora controlava a produção econômica no maquinário da grande indústria, enquanto os trabalhadores transfiguravam-se na mercadoria insípida da força de trabalho, precisamente como foi mais tarde descrito por um grandíloquo pensador nascido em terras germânicas, onde também veio a lume o nosso herói de alcunha Ludwig, o qual cresceu e se desinibiu em residência acanhada de um singelo professor de piano e respectiva esposa, uma dona de casa, mas o certo é que o rapazote, desde tenra idade, exibiu talento e sensibilidade musicais, os quais afloraram com mais intensidade a partir do momento em que foi conduzido por seus pais, para júbilo e regozijo de toda a família, a contemplar um concerto sinfônico no teatro central da cidade, quando sua alma foi integralmente absorta por irresistível epifania catártica ao ouvir uma peça composta por certo menino prodígio vindo de paragens austríacas, e então Ludwig quedou ciente da sua verdadeira natureza e identidade, pois doravante o mundo dos sons harmonicamente justapostos não o abandonaria em nenhuma hipótese, seja na alegria ou na tristeza, na saúde ou na doença, até que seu viço fosse completamente ceifado pelo óbito.

Sensível e irascível, o jovem Ludwig era, todavia, desprovido de traquejo social suficiente para lograr sucesso com as mulheres, malgrado seus dotes físicos invejáveis, e isto se refletiu no fato de raríssimas vezes ter consumado com êxito uma conjunção carnal e íntima, apesar das múltiplas e variegadas tentativas a propósito, de tal sorte que seu refúgio em relação àquele mundo hostil dos relacionamentos humanos consistia no universo plácido da composição musical, em que se sentia plenamente à vontade na solidão da criação da arte das musas, a música, a mais abstrata das vertentes estéticas engendradas pelo homo sapiens, a saber, a única arte desfrutada sem o concurso do sentido da visão, e Ludwig permanecia integralmente absorto e compenetrado, diante do piano, para conceber partituras de notável qualidade, tais como, já aos dezesseis anos de idade, um concerto para tal instrumento e uma alentada sinfonia, obras estas que foram executadas pelo próprio compositor com enorme repercussão positiva, tanto entre o público ouvinte quanto pela crítica especializada, com restar evidente, então, que se cuidava de outro prodígio precoce de idioma alemão, mas com a distinção concernente a certa grandiloquência criativa que remetia, muito provavelmente, ao aspecto revolucionário daquele período histórico de radicais mudanças no modo de existência dos seres humanos, tanto na orbe puramente material quanto no imaginário coletivo, cabendo destacar que a obra de Ludwig distinguia-se pela inspiração profunda que se consubstanciava em inovações de jaez tanto melódico quanto harmônico, como se aquela paixão carnal e mui concreta, que suas vísceras experimentavam, fosse sublimada num amor incondicional e impessoal por toda a humanidade, eis que nosso herói estava ciente de que compunha peças perenes para a posteridade, ainda que sua glória não fosse completamente convolada em dinheiro, este vil metal que nada significava para Ludwig, que se contentaria de bom grado com uma vida bem frugal, desde que tivesse absoluta certeza de que seus rebentos sonoros guardassem dimensão estética exuberante, pois era isso que alimentava seu élan vital nômade em busca incessante do som perfeito, uma verdadeira obsessão que o acompanharia por todo o sempre, e ele estava mesmo disposto a enfrentar qualquer intempérie para alcançar seus objetivos, ainda que isto ensejasse a perda da paz de espírito, sendo interessante notar que dos dois grandes eixos constitutivos da vida material humana em sociedade, a saber, o trabalho e a reprodução sexuada, Ludwig desincumbiu-se, àquela altura de sua juventude, somente do primeiro, mas tal concentração mui provavelmente tenha tornado exequível a inefável excelência haurida pelo nosso herói em seu ofício.

Mas, por evidente ironia do destino, a partir dos trinta anos de idade, já músico consagrado, Ludwig começou a apresentar os primeiros sinais de uma disacusia severa e progressiva, a qual em pouco tempo culminou em anacusia, situação que, conquanto ensejasse um maior isolamento social do nosso herói, com agravar seu caráter já ensimesmado e circunspecto, não prejudicou sua produção com notas musicais, pelo contrário, até intensificou sua dedicação à concepção artística, a qual, ao adquirir contornos mais soturnos e sorumbáticos, foi contemplada com maior qualidade estética, revelada no aprofundamento das experimentações harmônicas e melódicas, mas cai a lanço obtemperar que as peças sinfônicas de sua autoria tornaram-se mais longas e abstratas, na exata acepção de que abandonaram o tradicional desenvolvimento linear de um motivo primordial para agora exibir um emaranhado de temas que se interpenetravam e conduziam a resultados inesperados e mesmo surpreendentes, arrebatando os ouvintes com elevada carga de estupefação, sendo interessante notar que tal elaboração atingiu o apogeu com uma extensa obra lírica, a saber, uma ópera de seis horas de duração em quatro atos, intitulada Mefistófeles e inspirada no mito medieval do Fausto, a qual lhe custou quase dez anos de profunda imersão laborativa, tanto no libreto quanto na partitura, levando a certa exaustão que, no entanto, foi amplamente compensada pela sensação de ter concluído um trabalho de manifesta perfeição, cujos méritos foram efusivamente acolhidos pelas entusiasmadas plateias ao redor do mundo e pela sempre distímica crítica musical profissional.

Mas talvez o fato mais pitoresco atinente à história de Ludwig consista na recuperação repentina da sua audição logo após a encenação da ópera Mefistófeles na sua cidade natal, à qual ele compareceu solenemente para receber homenagem oficial do respectivo prefeito, episódio este que o atordoou de tal sorte que o fez abandonar peremptoriamente a carreira de compositor musical e, aos quarenta e cinco anos de idade, contrair núpcias e constituir família e lar na região rural daquelas plagas, onde passou a se dedicar integralmente ao plantio de hortaliças, à pintura de paisagens bucólicas, em telas que jamais foram convertidas no vil metal, e às perfeitas performances ao piano, exclusivamente para sua esposa e filhos.  

Por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA

domingo, 5 de abril de 2026

A DOBRA LITERÁRIA

O capital enquanto propriedade privada dos meios de produção e valorização de valor traduz-se na superfetação consistente na transformação de mais-valia em capital, isto é, na acumulação de capital, que pode ser representada na imagem da dobra barroca descrita por Gilles Deleuze na sua obra intitulada precisamente A Dobra.


A história da literatura ocidental parece desinibir-se também como uma dobra barroca, que começa colimando descrever objetivamente o real e termina numa metalinguagem em que o narrador toma consciência da sua subjetividade enquanto literato que exibe limites na apreensão do real objetivo.


Nesse diapasão, Cervantes enceta esse movimento de dobra literária com seu Dom Quixote, ao refletir sobre a literatura de cavalaria medieval dentro do próprio enredo do romance, mas o século passado atinge o paroxismo desse movimento, com o Ulisses de Joyce, essa paródia da Odisseia de Homero, já enunciando o fluxo de consciência que confunde narrador e personagem, enquanto a monumental obra de Proust destaca um narrador ensimesmado que não consegue romper a clausura de um tempo puramente subjetivo e impressionista, mas quando o narrador de Kafka colima a objetividade com linguagem cartorialmente neutra, o resultado é um enredo absurdo.


Enquanto não for rompida a crisálida do capital, a literatura remanescerá como pura subjetividade metalinguística ou absurdo objetivo.






Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira.

sábado, 4 de abril de 2026

JAM SESSION

“All the things you are” é uma canção composta na década de 1930 por Jerome Kern e Oscar Hammerstein II, e foi interpretada no álbum Standards, volume 1, lançado no ano de 1983, em execução primorosa e antológica de Keith Jarrett ao piano, Gary Peacock ao contrabaixo e Jack DeJohnette na percussão, cabendo destacar que a terna melodia do tema central é devidamente apresentada no início de tal interpretação e depois desenvolvida de forma a desfigurá-la completamente, com gradativo e paulatino acréscimo de velocidade do ritmo de execução em variações melódicas cada vez mais rápidas, culminando, ao final, na reapresentação do tema central, de tal sorte que poderíamos aventar que se cuida de uma tradução mimética da vida de um indivíduo humano, em que a memória fornece a sensação de identidade, malgrado o natural envelhecimento com o curso do tempo e as decorrentes transformações materiais e anímicas do respectivo corpo, sendo certo, outrossim, que o tempo parece decorrer com cada vez maior velocidade, eis que os fragmentos de tempo passado ficam cada vez menores proporcionalmente ao tempo total vivido, parecendo lícito ventilar ainda que a retomada do tema central ao final da música mostra a própria morte do indivíduo, cuja existência, enfim, pode ser considerada como sucessão de variações do mesmo ser.

 

 

 

 

 

Por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

LUÍS E LUIZ

A impressão resultante da leitura detida daquele opúsculo era de pura vertigem, pois o tenente do Exército, de alcunha Luís, jamais imaginara que a história humana pudesse ser regida por uma lógica implacável, considerando a noção corrente, de matriz liberal, de que seria a liberdade individual de heróis notáveis a verdadeira mestra de tal disciplina, o que contrastava de forma antípoda com a exposição poderosamente sucinta e teoricamente bem encadeada de toda a trajetória da humanidade até o capitalismo, explanada por intermédio da acepção axial de lutas de classes, contida no singelo livro em seu poder naquele exato momento, intitulado Manifesto Comunista, uma obra quase tão famosa quanto as Sagradas Escrituras da tradição judaico-cristã, e que lhe pareceu liminarmente luminosa de forma resplandecente, eis que, desde o princípio do conflito bélico com o pequeno país fronteiriço, Luís percebera algo de ininteligível na conduta das tropas sob sua égide, mas agora o segredo de tal estranhamento fora revelado, já que se cuidava na verdade de condição que suplantava em muito o tão alardeado patriotismo, na medida em que se divisava e vislumbrava agora uma luta de classes no próprio âmago da corporação militar, em que os oficiais de alta patente patrocinavam os interesses materiais das elites econômicas da nação, enquanto os soldados aniquilados nas trincheiras representavam a classe trabalhadora que produzia, sem dela desfrutar, a riqueza daquele território nacional, cabendo destacar que tal compreensão cintilante da situação hodierna transfigurou por completo o estado de espírito de Luís, inoculando nas suas mais recônditas entranhas viscerais um sentimento de revolta contra a injustiça que lhe fora exibida por aquele opúsculo supracitado, e naquele instante ocorreu-lhe o subversivo pensamento de que poderia canalizar o descontentamento dos batalhões e insufla-lo contra aquele governo de títeres do imperialismo yankee, o qual conduzia a nação à tão arriscada quanto tresloucada empreitada de invadir o pobre país vizinho para destruir sua indústria nutrida pela pirataria da tecnologia norte-americana, parecendo lícito ventilar que Luís encetou tratativas efetivas com outros tenentes para colocar seu pensamento e suas ideias em prática, por mais ousado que isso pudesse se lhe antolhar.

A mil quilômetros dali, nesse mesmo território nacional e simultaneamente, mas longe das trincheiras fronteiriças com o país supostamente inimigo, Luiz, um operário fabril especializado no torno mecânico, quedava absolutamente deslumbrado e absorto nos estudos de outra obra comunista, intitulada O Capital, de cuja leitura tentaram dissuadi-lo em razão de suposta dificuldade quanto à respectiva inteligibilidade, mas o nosso proletário industrial não desistiu da prossecução de sua curiosidade extrema e levou adiante suas investigações na seara econômica, ou, mais apropriadamente falando, na orbe da crítica da economia política, consoante a denominação do autor daquele livro monumental, vindo a perceber que a indústria representava a medula espinhal da produção da riqueza de uma nação e, portanto, os trabalhadores fabris detinham em suas mãos um poder inaudito e despercebido, eis que a paralização generalizada dos expedientes operários encerraria teoricamente o condão de colapsar o país e derrubar o governo de celerados que impunham um desumano esforço de guerra à população sob seu pálio, e então Luiz passou a cogitar com afinco em maneiras de organizar aqueles proletários para encetar uma greve geral hábil a subverter o status quo amplamente desfavorável àqueles que carregavam a nação sobre os ombros.

Não se exibia trivial passar da cogitação à prática, mas o que unia, a princípio, as causas de Luís e Luiz consistia no anseio pela paz e contra toda a sangria de vidas humanas e de meios materiais provocada pela guerra, sendo certo, todavia, que os dois sujeitos sequer tinham ciência prévia da existência um do outro, mas suas práticas entrelaçaram-se de algum modo, pois a reação do governo contra a paralização geral, tanto de soldados quanto de operários, foi nada menos do que brutal, com adoção das atividades das polícias políticas em larga escala, o que, no entanto, surtiu efeito contrário, pois logrou reunir efetivamente os dois movimentos paredistas paralelos, inclusive com encontro pessoal e solene de Luís e Luiz, que estabeleceram um pacto de estratégia comum a ser adotada na derrubada dos títeres dos imperialistas do norte, cabendo destacar que, pouco tempo após o início das greves militar e civil, o governo veio realmente a entrar em colapso, pressuposta certa violência e mortes de ambos os lados da contenda, mas o fato é que os celerados no poder foram presos e substituídos por uma junta civil-militar, sob a arguta liderança de Luís e Luiz, que passou a administrar a nação e, após a celebração de acordo de paz com o país vizinho agredido, impôs nova ordem social no território sob seu comando, estatizando todas as terras aráveis e meios de produção industriais e adotando um sistema de planificação econômica computacional que se assemelhava com o projeto CYBERSYN tentado no Chile de Allende, mas com o auxílio de notáveis melhorias decorrentes da utilização da rede mundial de computadores, ou internet, parecendo lícito ventilar, no entanto, que os imperialistas yankees procuraram golpear de forma intensa a administração do tenente e do operário, e dispensaram muito dinheiro e espionagem no intuito de provocar uma guerra civil naquele novo país, mas a perfídia dos norte-americanos foi liminarmente naufragada pela densidade daquele pacto entre soldados e trabalhadores, que evitou a ingerência estrangeira na política interna com grande galhardia e mesmo airosamente.

Destarte, a vida material da população daquele país, no geral, melhorou, mas o mesmo não se pode afirmar categoricamente sobre a vida, digamos, anímica do povo, pois o homo sapiens é uma espécie biológica de extrema complexidade, e conflitos de outro jaez exsurgiram no socialismo que adquiria contornos cada vez mais bem definidos, mas aquela experiência pioneira trouxe também variegados percalços, a começar da planificação econômica por computadores, que atuava, por assim dizer, como um corpo estranho introduzido no novo tecido social e demandava um esforço concentrado gigantesco em termos de ciência e tecnologia, sem olvidar o dispêndio energético que impactava ainda o ambiente, nada obstante uma eficiência econômica geral superior quando comparada ao vetusto capitalismo.

Como diria um exímio pensador francês, cuidava-se, a rigor, de uma hipótese sendo experimentada, mas que experimento fascinante!





Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira.

terça-feira, 31 de março de 2026

ÍCARO

Os raios solares incidiam perpendicularmente sobre o templo católico de São Francisco de Assis, na cidade mineira de São João del-Rei, no sudeste brasileiro, enquanto abutres americanos, vulgarmente conhecidos naquelas plagas pela alcunha tupi de urubus, sobrevoavam aquele santuário barroco, antevisto e erigido por Aleijadinho, em circunvoluções coreografadas com seus vastos membros alados, recobertos por penagem de intensa coloração negra, simultaneamente à celebração do sacramento de batismo de uma criança masculina, mui bem nascida em berço aristocrático de linhagem que remontava genealogicamente à nobreza lusitana, a quem atribuíram o prenome de Ícaro, cujos olhos de intenso anil claro contrastavam em certa medida com os escassos cabelos cacheados de cor castanha escura, e que remanescia placidamente sereno enquanto o sacerdote lhe infligia um célere mergulho na pia batismal, na presença de pais que mal ocultavam a sensação de extremo júbilo e contentamento pela solene inserção do respectivo rebento na mais respeitável tradição religiosa romana de seu afamado clã local, dono de extensas e altamente produtivas propriedades fundiárias naquelas paragens do sul das Minas Gerais, mas o certo é que tal celebração espiritual teve continuidade mundana no charmoso e amplo solar setecentista da família, incrustado bem no centro histórico daquela tão singela quanto pitoresca aglomeração urbana, fundada sob o pálio da extração de minerais preciosos, nomeadamente num opulento coquetel festivo que foi oferecido pelos progenitores do imberbe, com o notável concurso da nata social da região, tanto eclesiástica quanto econômica e burocrática, para não deixar passar in albis o memorável evento de iniciação religiosa do legítimo herdeiro e vindouro legatário de todo aquele império de pastos e lavouras de sempre crescente lucratividade, cabendo inclusive destacar que tanto o caráter quanto o conhecimento de tal criança foram ulteriormente lapidados e moldados de forma doméstica pelos mais festejados mestres do logradouro, os quais se deslocavam até a elegante residência familiar para ensinar bons modos e também artes e ciências, com ênfase nos mistérios da matemática, eis que àquele formidável rebento tinha sido previamente destinado o ofício de engenheiro, profissão então em falta entre os membros do clã, mas o mais interessante talvez tenha sido a educação que lhe foi incutida pela frágil genitora, de relativamente delicada higidez física e moralmente hipocondríaca, a qual exagerava, de certo modo, nos ensinamentos de higiene ao garoto, que era obrigado a se banhar ao menos duas vezes por dia, bem assim lavar as respectivas mãos com frequência assombrosa, pois era mister evitar os germes microscópicos que exibiriam o condão até mesmo de devorar as dobras do cérebro humano, algo que provocava no menino o mais estruturado terror mórbido e que, por conseguinte, reforçava sua inclinação para a profilaxia sempre atuante e mesmo, digamos, ubíqua, tanto que lhe era liminarmente interditado jogar aquele desporto inglês com bola, juntamente com a animada criançada das cercanias, colimando preservar incondicionalmente a candura e a alvura do rapazote, parecendo lícito ventilar que talvez essa redoma de vidro profilática, por assim dizer, a que foi submetido desde tenra idade, não tenha exatamente surtido os efeitos aguardados, a teor, verbi gratia, da bronquite asmática de etiologia certamente histamínica que o acometeu desde a primeira infância e o acompanhou por muito tempo após essa época, para profundo desgosto e pavor maternos, sendo certo, todavia, que Ícaro desde logo demonstrou relevante apreço e interesse pela arte da observação ornitológica, e mostrou-se também desde cedo grande desenhista de aves das mais variegadas espécies, acumulando no curso do tempo uma quantidade bastante importante de cadernos ilustrados com quase todos os mais importantes pássaros regionais, com evidente destaque para os variados tipos de abutres e urubus que habitavam tanto a topografia local quanto o imaginário fértil de Ícaro.

Com seu pendor para os concentrados estudos e vocação para lidar com números e seres alados, Ícaro, aos quinze anos de idade, logrou a façanha de ser aprovado na famosa escola preparatória dos cadetes do ar, situada na cidade também mineira de Barbacena, nas adjacências de São João del-Rei, onde foi preparado para uma carreira militar de oficial aviador das forças armadas, mas, ao concluir o triênio do curso de cadetes, seu destacado intelecto matemático naturalmente conduziu-o a ser admitido com galhardia e airosamente no mundialmente prestigiado instituto tecnológico da aeronáutica, em São José dos Campos, no vale do rio Paraíba, interior do Estado de São Paulo, ocasião em que, aos dezoito anos de idade, foi acometido por severo surto psicótico de teor religioso, talvez por ser agora obrigado a substituir São João por São José, mas isto constitui somente uma arriscada pilhéria, pois a verdade é que tinha absoluta certeza de quedar sob domínio de alguma entidade demoníaca, considerando os estranhos pensamentos que lhe ocorriam, tais como confundir a imaculada Maria, mãe de Jesus, com a supostamente pervertida Maria Madalena bíblica, bem assim, pasme, acreditar piamente que a água benta, terna e carinhosamente oferecida como cura por sua própria mãe, seria na verdade veneno letal, mas tal episódio soturno de sua existência não obstou, no entanto, que encetasse o curso de engenharia aeronáutica no vale do Paraíba, com desinibir-se até mesmo com certo destaque acadêmico entre os colegas epígonos do instituto, dado o talento matemático que sempre acalentara e que lhe auxiliava sobremodo na elaboração de projetos de asas de aeronaves movidas a propulsão a jato, asas estas sempre inspiradas nos membros alados dos seus abutres favoritos da infância e adolescência, cabendo aventar que ao final de tal curso, os pais de Ícaro o enviaram, com os meios financeiros de que dispunham em razão dos lucros agropecuários, aos Estados Unidos da América do Norte, no intuito de aperfeiçoar seus conhecimentos sobre projetos de aviões em investigações de doutoramento em universidade de nomeada, talvez a melhor do mundo na especialidade eleita, o que lhe capacitou a ser empregado profissionalmente, logo após a conclusão do doutorado, em uma grande indústria yankee de aeronaves de jaez militar, localizada no noroeste daquele país de inclinação imperialista.

Ícaro envidou todos os esforços e sabedoria sobre asas para lograr sucesso profissional naquelas terras estrangeiras, pois encerrava, no âmago recôndito de suas pretensões, a veleidade um tanto ingênua de um dia retornar a seu país natal como herói nacional, e nessa dedicação hercúlea, e mesmo insana, ao êxito industrial logrou desenvolver um ousado e pioneiro projeto de aeronave militar capaz de remanescer incólume e oculta aos radares inimigos, apta portanto a penetrar qualquer território de maneira insuspeita e furtiva, projeto este que foi denominado no idioma anglo-saxão como stealth bomber, sendo certo que tal aeronave foi efetivamente produzida em larga escala pelo país do sonho americano e obteve enorme sucesso comercial e operacional.

Todavia, pouco tempo depois, Ícaro retornou ao seu amado país natal, mas não como herói nacional, e sim dentro de um féretro hermeticamente lacrado, pois atentara de forma bem sucedida, mas sob circunstâncias extremamente suspeitas, contra a própria vida, no noroeste dos Estados Unidos, após restar ciente de que hospitais e escolas civis, de uma distante e paupérrima nação oriental inimiga dos imperialistas, tinham sido atingidos letalmente por bombas lançadas pela aeronave bombardeira furtiva que idealizara.




Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira.