sexta-feira, 13 de março de 2026

UM ENCONTRO ENTRE A TEORIA E A PRÁTICA

O socialismo científico ensina que a veracidade de um pensamento reside na prática, e, nesse sentido, o gigantesco estadista Lula pode ser considerado como um dos grandes socialistas de nossa época. 

Suspeito que Lula jamais se encontrou pessoalmente com outro gigante, o filósofo marxista francês Louis Althusser, o qual preconizava o determinismo econômico, isto é, o pejorativamente denominado "economicismo",  de maneira bastante enfática. 

Mas Lula provou que Althusser estava correto em seu postulado economicista, especialmente ao levar uma das mais importantes ditaduras militares capitalistas do mundo ao colapso, mediante um movimento paredista que castigou o supedâneo industrial de tal regime autoritário até o seu completo sufocamento, demonstrando na prática que a guerrilha urbana, conduzida por parte da esquerda política da época, exibia-se pouco efetiva se comparada às greves cirurgicamente direcionadas contra o pólo econômico de sustentação ditatorial, no assim designado ABC paulista. 

Dirão, talvez, que o economicismo de Lula conduziu-o a certo reformismo político: será?

O que seria do capitalismo mundial se uma greve geral, no melhor estilo teórico de Rosa Luxemburgo, atingisse o hodierno pólo industrial chinês, por exemplo?

Ainda não podemos saber, mas o poder econômico que os trabalhadores encerram em sua mãos faz tremer os tiranos imperialistas, ora em situação de ataque quase suicida.





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA. 

quarta-feira, 11 de março de 2026

PROUST E KAFKA

Já postulamos aqui, ad nauseam, que a produção e reprodução da vida material humana em sociedade bifurca-se em:

1. Universo da reprodução sexuada, em que os seres humanos contraem entre si relações subjetivas e afetivas, vinculadas às emoções e aos sentimentos, parecendo lícito ventilar que a obra de Marcel Proust situa-se mais próxima de tal universo, eis que sua narrativa não colima ou divisa a verossimilhança objetiva em relação ao tempo linear e absoluto, mas resulta fragmentária, introspectiva e dispersa como a mente e a memória humanas;

2. O universo do trabalho, mediante o qual os seres humanos contraem entre si relações de produção ou de propriedade objetivas, mais vinculadas à razão do que às emoções, cabendo destacar que a obra de Franz Kafka subsume-se melhor neste universo, eis que sua narrativa divisa e colima precisamente uma verossimilhança realista e objetiva em relação ao tempo linear e absoluto, exibindo até mesmo um jaez burocrático e cartorial do tipo weberiano.

O resultado disso, todavia, é que a obra de Proust exibe-se muito mais realista, objetiva e verossímil do que a prosa absurda e fantástica de Kafka.

Hipóteses sub judice.





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA. 

SINGELA NOTA SOBRE O FANTÁSTICO E O ABSURDO

Permitam-me exercer um pouco da faculdade de elucubração para tecer um singelo comentário:  


Os obras fantásticas de Edgar Allan Poe e Robert W. Chambers exerceram uma influência indireta sobre a literatura de Franz Kafka, máxime em A Metamorfose!


Sim, se Poe e Chambers inserem as fantasias e bizarrices no âmbito sobrenatural, Kafka as transpõe para o mundo natural e cotidiano com naturalidade burocrática, numa linguagem cartorial que remove todo o assombro daquilo que nos parece absurdo!


Kafka, portanto, é herdeiro de Poe e Chambers, de certa forma, e precursor do teatro 🎭 do absurdo de Samuel Beckett e Eugene Ionesco!





Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira 

segunda-feira, 9 de março de 2026

TENTATIVA DE CORREÇÃO DE UM EQUÍVOCO DE RELATIVA GRAVIDADE.

Faz-se mister corrigir o texto imediatamente precedente publicado neste portal eletrônico, pois não é a propriedade privada dos meios de produção que caracteriza o capital, mas o seu contrário, a saber, a força de trabalho.

Destarte, o proprietário capitalista ainda encerra relação com a sua propriedade dos meios de produção, restando determinado por tal relação, enquanto o trabalhador despojado de propriedade dos meios de produção resta indeterminado, carecedor desta relação determinante, o que favorece a acepção abstrata do indivíduo indeterminado e sem origem no tempo e no espaço, isto é, a acepção daquela mônada diacrônica e sincrônica mencionada.

Bem, tal mônada está no nascedouro da matemática mais plena, eis que favorece a noção do número como elemento despojado de qualquer concretude e determinação, e que, portanto, pode referir-se a qualquer coisa, como acontece também com o dinheiro. 

Hipóteses sub judice.




por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.

MATEMÁTICA E IDENTIDADE

Assim como o número pode referir-se a qualquer coisa, também o dinheiro pode convolar-se em qualquer coisa, pois ambos, número e dinheiro, são, na verdade, resultantes da abstração consistente na acepção do indivíduo humano enquanto mônada sincrônica e diacrônica, isto é, um elemento ou unidade desprovida de suas origens no tempo e no espaço. 

Por isso, a matemática exibe-se, em grande parte das vezes, como identidade, equivalência ou equação, vale dizer, a capacidade de alguma coisa converter-se em outra sem perder a própria natureza ou essência, como ocorre com o dinheiro e com o número.

Mas nota bene.

A acepção do indivíduo humano abstrato somente adquire plenitude com o advento da propriedade privada dos meios de produção, ou seja, com o capital, que é pura matemática.

Hipóteses sub judice. 






por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.  

quinta-feira, 5 de março de 2026

TEMPO E IDENTIDADE

Tempo e identidade são inconciliáveis, contraditórios. Explico. 

A noção de tempo absoluto e linear, subvertida completamente pelo espaço-tempo da teoria da relatividade de Albert Einstein, decorre de um defeito de percepção ínsito ao cérebro do homo sapiens. 

Sem embargo, parece-nos que, apesar das mudanças em nosso corpo decorrentes do processo de envelhecimento, nossa identidade remanesce, isto é, parece que somos sempre os mesmos, malgrado as transformações por que passamos, o que engendra a noção de tempo linear e absoluto que escoa independentemente das mudanças e movimentos dos corpos, noção essa que na verdade é uma falácia, uma dissociação indevida entre espaço e tempo.

Logo, a noção de identidade (que constitui, na verdade, uma tautologia lógica), muito comum na matemática, verbi gratia, é incompatível com o movimento e a mudança, isto é, com as transformações, eis que se exibe estática e não dinâmica, em confronto direto com o real em si, sempre mutante e fluido, a começar pelo fato de que o próprio universo expande-se incessantemente.

São singelas notas sub judice. 





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.  

ANTÓNIO LOBO ANTUNES

Hoje lamentamos profundamente a perda de António Lobo Antunes, que se despediu deste mundo aos 83 anos de idade, legando uma obra literária de importante extensão e envergadura artística, com se destacar como herdeiro legítimo de uma tradição que remonta, provavelmente, a Marcel Proust, caracterizada, em grande medida, pela perda gradativa da onisciência do narrador, que se torna, destarte, mais introspectivo e menos propenso à objetividade da narrativa. 

Sem embargo, o início do século passado, quando Proust engendra sua obra, viu florescerem novas formas de percepção do real em si, tanto nas artes quanto na ciência, de tal sorte que a subjetividade do artista ou do cientista tradicionais subverte-se em favor de um profundo questionamento dos limites e capacidades do sujeito cognoscente ou criativo. 

No âmbito científico, verbi gratia, a noção de tempo absoluto e linear, decorrente da sensação individual de permanência da identidade do indivíduo apesar do envelhecimento, foi completamente subvertida pela teoria da relatividade de Albert Einstein, enquanto a objetividade do próprio conhecimento científico foi posta à prova pela mecânica quântica, máxime pelo princípio da incerteza formulado por Werner Heisenberg, que demonstrou a interferência do sujeito sobre o objeto investigado durante o processo de observação empírica.

Ora, a obra de Lobo Antunes inscreve-se precisamente nessa nova percepção do real, pois seu narrador jamais divisa ou colima a objetividade, mas sua narrativa é fragmentária e não linear, com um tempo idem, de sorte a mimetizar o jaez hesitante e dúbio da memória  individual, sendo certo que a possibilidade de apreender a verossimilhança do objeto narrado exibe-se sempre duvidosa. 

Enfim, hoje um grande mestre das artes partiu lamentável e definitivamente, mas sua obra remanesce. 






por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.