To be, or not to be, that is the question:
Whether 'tis nobler in the mind to suffer
the slings and arrows of outrageous fortune,
Or to take arms against a sea of troubles...
— William Shakespeare, Hamlet, Ato III, Cena I
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Há uma pergunta que atravessa quatro séculos sem perder sua força de ruptura.
Não é uma pergunta retórica, nem poética — é uma pergunta existencial no sentido mais rigoroso do termo: vale a pena existir num mundo que perdeu seu sentido?
Shakespeare a formulou pela boca de Hamlet, e o século XX a encontrou novamente, com outras palavras e outros vocabulários, nas obras de Albert Camus, Viktor Frankl, Samuel Beckett e Lev Chestov. O que este ensaio propõe é que Hamlet não é apenas um precursor literário dessas filosofias — ele é seu personagem inaugural, o primeiro homem moderno a habitar, com plena consciência, o espaço que chamaremos de Quadrilátero do Absurdo.
I. A PERGUNTA QUE NÃO CESSA
O monólogo do Ato III não é uma meditação sobre suicídio no sentido clínico. É uma investigação filosófica sobre a legitimidade da existência diante do sofrimento sem sentido aparente. Hamlet sabe que seu pai foi assassinado, que a corte é corrupta, que o amor foi traído e que a justiça está comprometida. O mundo, ele dirá em outro momento, é "an unweeded garden" — um jardim abandonado, entregue à decomposição.
Mas o que paralisa Hamlet não é a fraqueza de caráter, como leituras rasas insistem em afirmar. É exatamente o oposto: é a lucidez. Hamlet vê demais. Ele não consegue agir porque compreende que qualquer ação exige uma fundação de sentido — e essa fundação ruiu. Ele está, avant la lettre, diante do absurdo.
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II. OS QUATRO VÉRTICES RECONHECEM HAMLET
C A M U S — A REVOLTA LÚCIDA
Camus diria que Hamlet percebe o absurdo com clareza rara, mas não dá o passo seguinte: a revolta. Em O Mito de Sísifo, Camus argumenta que a resposta ao absurdo não é o suicídio nem a fuga metafísica, mas o enfrentamento consciente. Hamlet hesita entre essas opções sem nunca assumir a terceira. Ele é o homem absurdo que ainda não encontrou sua própria afirmação.
F RA N K L — O VAZIO EXISTENCIAL
Para Viktor Frankl, o sofrimento é suportável quando dotado de sentido.
Hamlet perdeu, simultaneamente, todas as suas fontes de sentido: o pai (figura de ordem e identidade), a mãe (fidelidade e continuidade), Ofélia (o amor), a corte (a lealdade). O que resta é o vazio existencial em sua forma mais pura.
Frankl reconheceria em Hamlet não um covarde, mas um homem em crise de sentido — e diria que a saída estaria na escolha de uma resposta, mesmo diante da tragédia.
B E C K E T T — A ESPERA SEM RESOLUÇÃO
Beckett é o vértice estruturalmente mais próximo. Hamlet adia, posterga, encena uma peça dentro da peça, finge loucura, filosofa — e não age. Vladmir e Estragon fazem o mesmo: esperam Godot que nunca vem, conversam para não enlouquecer, permanecem sem partir. A diferença essencial é que Hamlet ainda acredita que há algo a fazer. Beckett remove até essa última ilusão. Hamlet é Beckett com esperança — o que o torna, talvez, mais trágico.
C H E S TOV — O SALTO PELA FÉ
Lev Chestov, o menos conhecido dos quatro, propõe que diante do colapso da razão, resta apenas o salto pela fé — não a fé tranquila e ordenada, mas a fé desesperada, a fé de Jó que clama contra Deus sem abandoná-lo. Há um Hamlet chestoviano no momento em que ele entrega seu destino à Providência:
"There's a divinity that shapes our ends, rough-hew them how we will." É o momento em que a razão capitula e algo além dela assume o comando.
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III. THE TIME IS OUT OF JOINT
A frase mais filosófica de Hamlet não é o celebrado monólogo do Ato III — é a que ele pronuncia logo após encontrar o fantasma do pai: "The time is out of joint. O cursed spite, that ever I was born to set it right." O tempo está fora dos eixos. E maldito seja o destino que me colocou aqui para consertá-lo.
Esta é a condição do homem absurdo antes de ter esse nome: ele percebe que o mundo perdeu sua ordem, sua coerência, seu sentido — e que recaiu sobre ele, incompreensivelmente, a responsabilidade de restaurá-lo. Não há por quê. Não há garantia de sucesso. Não há recompensa visível. E ainda assim, a consciência não o deixa abandonar a tarefa.
É nessa encruzilhada que Camus, Frankl, Beckett e Chestov divergem — e é por isso que Hamlet os precede a todos. Ele formula a questão sem resolvê-la, habita o espaço sem escolher um vértice, morre sem ter encontrado uma saída definitiva.
É a tragédia de quem viu o absurdo com demasiada clareza e não teve tempo — nem filosofia suficiente — para respondê-lo.
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IV. O LEGADO DE UMA PERGUNTA ABERTA
O que Hamlet lega ao pensamento moderno não é uma resposta — é a qualidade da pergunta. Ele demonstra que a consciência humana, quando suficientemente desenvolvida, não pode simplesmente agir no mundo sem antes perguntar por quê.
E quando esse porquê desaparece, quando o fundamento se dissolve, a ação torna-se heroica não pela certeza que a sustenta, mas pela ausência dela.
Camus chamaria isso de revolta. Frankl chamaria de escolha de sentido. Beckett deixaria sem nome, apenas encenaria. Chestov chamaria de fé. Mas todos eles, ao abrirem suas obras, encontraram Hamlet já sentado no palco — perguntando, sozinho, no escuro.
"To be, or not to be" — a pergunta permanece.
O Quadrilátero do Absurdo é, talvez, a história das respostas que vieram depois.
por CARLOS OTÁVIO SANTIAGO.