quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A VELEIDADE DE EISENSTEIN

O superlativo cineasta soviético Sergei Eisenstein chegou a cogitar, certa feita, em realizar uma versão cinematográfica da obra magna de Karl Marx, O Capital, numa pretensão bastante intrigante que, nada obstante, não saiu do papel.

Em seus manuscritos intitulados Grundrisse, Marx definiu seu método científico dialético como aquele que ascende do abstrato ao concreto, colimando haurir este último como síntese de múltiplas determinações, a saber, como unidade do diverso. 

Bem, o processo do conhecimento científico, estudado pela epistemologia e de extrema complexidade, ensina, todavia, que o concreto distingue-se do empírico, ao menos para o marxismo, eis que os dados empíricos exibem-se aos sentidos do homo sapiens de maneira direta e imediata, mas somente convolam-se em conhecimento científico pela mediação da lógica dialética, isto é, o concreto forma-se e é construído no âmbito do pensamento dito "abstrato", e não diretamente nos sentidos e sensações empíricos. 

Ora, como traduzir, inversamente, um pensamento "abstrato" em imagens em movimento, isto é, como converter o pensamento puro em arte cinematográfica, que se enquadra no mundo da empiria?

Eis uma questão que ainda me intriga!






por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.  

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

DIREITO PROCESSUAL E MECÂNICA QUÂNTICA (para GOFFREDO DA SILVA TELLES JÚNIOR, in memoriam)

A metodologia científica investiga, grosso modo, os procedimentos a adotar para obtenção de resultados objetivos e imparciais na pesquisa respectiva, e nas ciências jurídicas tal ramo do conhecimento é objeto, inclusive, de leis específicas voltadas à garantia de imparcialidade e objetividade judiciais na prolação da decisão oriunda do Poder Judiciário.

Todavia, o advento da mecânica quântica, especialmente através do princípio da incerteza, introduziu um problema metodológico bastante complexo, pertinente à interferência do observador no sistema quântico observado, que alguns estudos colimam minimizar mediante a denominada "interferência fraca".

Ouso, com a devida licença, ventilar a seguinte dúvida:

Em que medida o aparato judicial, por si só, independentemente das injunções sociológicas que interferem na conduta do magistrado enquanto indivíduo, podem prejudicar a objetividade e a imparcialidade das decisões prolatadas pelo Poder Judiciário?

Agradeço de antemão eventuais respostas e contribuições a propósito, inclusive pelo meu endereço eletrônico abaixo inserido:

luisfernando.jef@gmail.com






por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.  

domingo, 22 de fevereiro de 2026

DE BACH A BIRD

A história da mais científica das artes, a música, ou arte das musas, reflete, de forma bastante peculiar, a história científica e econômica da própria humanidade.  

Nesse diapasão, a obra de Bach (1685-1750), verbi gratia, é fruto legítimo do racionalismo típico do advento da razão burguesa ancorada no dinheiro e no capital propriamente dito. 

Destarte, observa-se em suas composições o uso sistemático de permutações temáticas; simetrias rigorosas; cânones por inversão e retrogradação; estruturas contrapontísticas que funcionam como equações musicais; enfim, a fuga ou o desenvolvimento temático é quase um experimento combinatório, onde um tema é exposto, invertido, transposto, expandido, em procedimento que lembra demonstrações matemáticas, nas quais um núcleo formal gera múltiplas derivações coerentes.

Muito distinta é a música de Charlie "Bird" Parker (1920-1955), que inventou o jazz moderno através do bebop, onde o desenvolvimento temático exibe-se completamente aleatório e caótico, em improvisos que não raro atingem a dissonância, desprovidos que são de qualquer coerência matemática.

Bach (razão) e Bird (caos) são, no entanto, tese e antítese flagrantes da ordem imperiosa do capital e suas implacáveis leis econômicas, que se contradizem diante da liberdade individual caótica e aleatória do liberalismo, o que também se reflete, grosso modo, na querela científica, por exemplo, entre a teoria da relatividade e a mecânica quântica. 

Hipóteses sub judice





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA. 

MÚSICA, A MATEMÁTICA CONCRETA.

No texto intitulado "Breve discurso das hipóstases", publicado no vertente portal eletrônico, suscitei a tese de que o número é o elemento mais abstrato das ciências, pois, conquanto possa referir-se a qualquer coisa, não exibe, em si, nenhuma característica concreta. 

Parece lícito ventilar certa analogia entre o número e a nota musical, que nada mais é do que uma frequência sonora medida em hertz, isto é, uma onda mecânica que se propaga segundo dada frequência, o que determina um som mais grave ou mais agudo consoante a medida de tal frequência. 

Distintamente do número, todavia, a nota musical, conquanto seja o menor elemento da música, exibe-se concreta e não abstrata, eis que pode ser captada pelo sentido da audição humana, comportando também a possibilidade de oferecer distintos timbres de acordo com o instrumento musical que a produz. 

Malgrado tal jaez concreto, a música, essa combinação sincrônica e diacrônica de notas musicais, é a mais abstrata das artes, porquanto a única que prescinde da visão humana para ser desfrutada, observando inclusive certos padrões e regras que a aproximam da matemática. 

Pode-se afirmar, portanto, que a música situa-se na confluência entre arte e ciência, cabendo aventar que ela conteria os componentes de uma matemática concreta.

O grande músico Johann Sebastian Bach, nesse sentido, foi também um exímio matemático.






por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

LÓGICA E INTUIÇÃO DIANTE DO RACIONALISMO E DO EMPIRISMO: UM SINGELO BOSQUEJO EPISTEMOLÓGICO.

A lógica e a intuição moldaram, no curso da história, o cérebro e o modo de pensar do homo sapiens, dotando-lhe de razão, tanto que a teoria da relatividade, verbi gratia, foi deduzida por Albert Einstein a partir de raciocínios independentes de experimentos empíricos exteriores ao pensamento. 

Pode-se aventar, portanto, que até o início da década de 1920, mais ou menos, o racionalismo predominou no âmbito da epistemologia e da ciência.

Mas o advento da mecânica quântica, há cem anos, trouxe um elemento desconcertante nesse panorama.

Sem embargo, se, no mundo macroscópico, a lógica e a intuição, portanto a razão funciona relativamente bem, o universo subatômico, fora do alcance dos sentidos do homo sapiens, parece ilógico e contraintuitivo, ou seja, irracional, de tal sorte que o racionalismo e a razão perderam seu predomínio em favor da necessidade de experimentação empírica externa ao pensamento, isto é, o empirismo voltou ao proscênio com toda a sua força em busca de evidências que escapam aos sentidos de que o homo sapiens é dotado. 

Logo, pode ser que o cérebro e o pensamento do homo sapiens demorem muito até que o mundo microscópico subatômico torne-se, como acontece atualmente com o universo macroscópico, lógica e intuitivamente apreensível pela razão, mas, como a realidade é, na verdade, uma só, talvez a assim denominada "teoria de tudo" não esteja assim tão distante do nosso alcance. 

Hipóteses sub judice.




por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.

DA MERCADORIA AO CAPITAL, OU TENTATIVA DE APREENSÃO DA LÓGICA SUBJACENTE AO LIVRO PRIMEIRO DE "O CAPITAL" DE KARL MARX.

De proêmio, a mercadoria encerra valor de uso (tese), mas, precisamente por isso, também encerra valor de troca (antítese), que é determinado pelo tempo de trabalho humano socialmente necessário à produção dessa mercadoria. 

Tal contradição entre valor de uso (tese) e valor de troca (antítese) produz uma síntese no dinheiro, que é o valor de troca autonomizado e concretizado como moeda em metal precioso, ou em ouro, para simplificar.

Mas o dinheiro também encerra a contradição entre seu valor de troca (tese, ou tempo de trabalho humano necessário à produção do ouro) e seu valor de uso (antítese, ou a capacidade de servir como equivalente geral na circulação de mercadorias).

A síntese da contradição ínsita ao dinheiro consiste precisamente no capital, que seria a generalização do equivalente geral, agora capaz de convolar o próprio trabalho humano, isto é, a própria fonte do valor, em mercadoria, a saber, a mercadoria consubstanciada na força de trabalho.

Hipóteses sub judice, a desenvolver e refinar. 






por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.  

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

O CAPITAL NO DIVÃ

Várias produções cinematográficas colimam humanizar o universo do crime organizado, tais como "O poderoso chefão", "Goodfellas", "Máfia no divã" e a estupenda série "Família Soprano", tentando encontrar o que há de humano na psicopatia, mas quem recruta psicopatas para trabalhar a seu favor é, sem dúvida, o capital, cuja promiscuidade com esse universo criminoso, no Brasil pelo menos, tem restado cada vez mais escancarada.

Mas a produção e reprodução da vida material humana encerra duas vertentes, a saber, o trabalho e a reprodução sexuada, sendo certo que, se esta última nos une como espécie biológica do homo sapiens, aquela nos divide em classes sociais antagônicas, bem assim nos aliena em relações de produção heterônomas, que nos governam à nossa revelia e culminam historicamente no capital.

A contradição básica entre estas duas vertentes acima deslindadas, que também divide a vida individual em duas partes antagônicas, é responsável pela maioria das psicopatologias: uma vida dividida entre o amor em família e, no limite, o ódio entre criminosos. 

A personagem "Tony Soprano", da série homônima, talvez seja o paroxismo dessa divisão do indivíduo hodierno em metades inconciliáveis.





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.