O superlativo cineasta soviético Sergei Eisenstein chegou a cogitar, certa feita, em realizar uma versão cinematográfica da obra magna de Karl Marx, O Capital, numa pretensão bastante intrigante que, nada obstante, não saiu do papel.
Em seus manuscritos intitulados Grundrisse, Marx definiu seu método científico dialético como aquele que ascende do abstrato ao concreto, colimando haurir este último como síntese de múltiplas determinações, a saber, como unidade do diverso.
Bem, o processo do conhecimento científico, estudado pela epistemologia e de extrema complexidade, ensina, todavia, que o concreto distingue-se do empírico, ao menos para o marxismo, eis que os dados empíricos exibem-se aos sentidos do homo sapiens de maneira direta e imediata, mas somente convolam-se em conhecimento científico pela mediação da lógica dialética, isto é, o concreto forma-se e é construído no âmbito do pensamento dito "abstrato", e não diretamente nos sentidos e sensações empíricos.
Ora, como traduzir, inversamente, um pensamento "abstrato" em imagens em movimento, isto é, como converter o pensamento puro em arte cinematográfica, que se enquadra no mundo da empiria?
Eis uma questão que ainda me intriga!
por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.