Certa feita, durante uma palestra de Robert Kurz na faculdade onde estudei, uma professora preconizou algo como a “revolta do valor de uso” contra o capitalismo, o que gerou grande perplexidade, já que ninguém poderia compreender exatamente o significado de uma revolta de uma categoria abstrata.
Mas aludida professora, hoje eu vejo, encerrava boa dose de razão, senão vejamos.
A contradição ínsita à categoria econômica da mercadoria consiste na oposição entre seu valor de uso e seu valor de troca, sendo certo que tal contradição resolve-se em favor deste último aspecto no dinheiro, que é o valor de troca emancipado e concretamente autônomo que se manifesta nas moedas e na circulação de mercadorias.
O capital, por seu turno, nada mais é do que o dinheiro que se apoderou do processo de produção de mercadorias, exibindo em seu âmago a velha contradição entre valor de uso e valor de troca, isto é, entre produzir artigos que satisfazem a necessidades humanas concretas e valorizar-se indefinidamente, com predomínio deste último aspecto.
Tal contradição básica do capital resulta no seu evolver permanentemente crítico e flutuante, decorrente precisamente no predomínio da valorização abstrata sobre a satisfação de necessidades humanas concretas.
Ora, a vindoura planificação econômica socialista considerará, mediante informações digitalmente colhidas e tratadas sobre produção e consumo de todos os agentes econômicos envolvidos, precisamente a satisfação das necessidades humanas concretas em detrimento da valorização abstrata típica do capital, de tal sorte que o valor de uso das mercadorias prevalecerá sobre seu valor de troca.
Nisso pode consistir a mencionada “revolta do valor de uso”
Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira.