quarta-feira, 14 de outubro de 2026

A REVOLTA DO VALOR DE USO

 Certa feita, durante uma palestra de Robert Kurz na faculdade onde estudei, uma professora preconizou algo como a “revolta do valor de uso” contra o capitalismo, o que gerou grande perplexidade, já que ninguém poderia compreender exatamente o significado de uma revolta de uma categoria abstrata.


Mas aludida professora, hoje eu vejo, encerrava boa dose de razão, senão vejamos.


A contradição ínsita à categoria econômica da mercadoria consiste na oposição entre seu valor de uso e seu valor de troca, sendo certo que tal contradição resolve-se em favor deste último aspecto no dinheiro, que é o valor de troca emancipado e concretamente autônomo que se manifesta nas moedas e na circulação de mercadorias.


O capital, por seu turno, nada mais é do que o dinheiro que se apoderou do processo de produção de mercadorias, exibindo em seu âmago a velha contradição entre valor de uso e valor de troca, isto é, entre produzir artigos que satisfazem a necessidades humanas concretas e valorizar-se indefinidamente, com predomínio deste último aspecto.


Tal contradição básica do capital resulta no seu evolver permanentemente crítico e flutuante, decorrente precisamente no predomínio da valorização abstrata sobre a satisfação de necessidades humanas concretas.


Ora, a vindoura planificação econômica socialista considerará, mediante informações digitalmente colhidas e tratadas sobre produção e consumo de todos os agentes econômicos envolvidos, precisamente a satisfação das necessidades humanas concretas em detrimento da valorização abstrata típica do capital, de tal sorte que o valor de uso das mercadorias prevalecerá sobre seu valor de troca.


Nisso pode consistir a mencionada “revolta do valor de uso”







Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira.

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL DA DOBRA CAPITALISTA

Até a primeira metade do século passado, as revoluções industriais que sacudiram o modo capitalista de produção atingiram primordialmente o processo de produção de capital, deixando quase incólume o processo de circulação de capital.

A hodierna revolução digital, todavia, atinge precisamente tal processo de circulação de capital, com aumentar a velocidade de rotação de capital e diminuir, destarte, os faux frais da circulação, o que pode incrementar a taxa de lucro, cuja tendência é naturalmente declinante. 

Destarte, tal revolução digital pode ser considerada como uma dobra do capitalismo sobre si próprio, na medida em que se cuida de progresso técnico que atinge apenas indiretamente o processo de produção de capital, acelerando-o. 

Mas as dificuldades teóricas começam quando se faz mister discernir o trabalho envolvido em tal revolução digital, ou seja, quando se indaga a propósito de seu jaez produtivo ou improdutivo. 

Nesse diapasão, é de rigor estabelecer distinção entre produção e uso (ou manejo) dos programas de computador ou software, de tal sorte que poderíamos considerar o trabalho envolvido no primeiro caso como produtivo e, no segundo, como improdutivo, sendo certo que, ao lado da produção de software, há também o trabalho produtivo de fabricação de dispositivos digitais, como computadores e telefones celulares.

Entretando, o trabalho produtivo de software e dispositivos digitais queda subsumido nas necessidades e injunções econômicas impostas pelo processo de circulação de capital em sentido mais clássico, de tal sorte que poderíamos aventar a hipótese de que se cuida de trabalho produtivo de segunda categoria ou geração, já que tal processo de circulação de capital exibe-se majoritariamente improdutivo.

São hipóteses sub judice, a lapidar e desinibir. 





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA. 

EXTREMA DIREITA E REVOLUÇÃO DIGITAL

A revolução digital hodierna subverteu a clássica oposição entre capital e trabalho assalariado quanto à divisão social do trabalho, de tal sorte que, agora, uma parcela cada vez mais importante do proletariado está envolvida com trabalho eminentemente intelectual atrelado ao processo de circulação de capital na produção e manejo de programas de computadores ou software.


Ora, na divisão social do trabalho clássica, tal trabalho eminentemente intelectual era reservado aos integrantes da classe capitalista e acessórios, enquanto ao proletariado industrial cabia o trabalho eminentemente manual.


Com a revolução digital, observa-se, pois, uma cisão profunda na classe trabalhadora, pois sua parcela envolvida com software e trabalho eminentemente intelectual identifica-se mais com a classe capitalista burguesa do que com o proletariado de que faz parte, já que também é assalariada e produz mais-valia apropriada pelo capital.


Temos por hipótese que tal cisão social no âmago da classe trabalhadora está na raiz da ascensão da extrema direita política em todo o mundo.


Cabe aos partidos políticos proletários promover a reunificação da classe trabalhadora contra a extrema direita política ora ascendente, defendendo os reais interesses socioeconômicos da parcela intelectual dessa classe.


Para tanto, o socialismo científico deve escrutinar as formas atuais pelas quais se manifesta a extração de mais-valia típica da era da revolução digital.


Hipóteses sub judice.





Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira.

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

RUAS E REDES

O Partido dos Trabalhadores nasceu do processo de industrialização clássica no Brasil, vale dizer, da indústria fabril de transformação, e Lula derrubou a ditadura militar de extrema direita neste país mediante greves que paralisaram  essa indústria nacional, supedâneo da economia pátria.


Hoje vivemos no âmago da desindustrialização e da revolução digital, em que a indústria fabril de transformação perde fôlego diante da economia de circulação de capital ancorada na internet, nas redes sociais e nos algoritmos.


Não há a possibilidade de greves paralisarem essa revolução digital em curso, em razão de seu modus operandi, bem assim porque seu epicentro decisório e motriz está no exterior, no centro imperialista do capitalismo moderno.


Por isso é tão difícil combater a extrema direita hodierna apoiada pelo imperialismo central e nas big techs da revolução digital.


Devemos, neste momento político crítico, combater a extrema direita em seu campo de atuação, a saber, na internet e nas redes sociais, pois é ali que ela alimenta o seu discurso e sua influência política.


Todavia, a circulação de capital da internet não substitui a economia fabril real enquanto provedora de necessidades humanas, então as tradicionais formas de luta política ainda são importantes, inclusive as greves e o embate tête a tête, presencial.


Vamos, pois, tomar as ruas e redes sociais, para garantir a derrota da extrema direita e evitar o colapso da democracia.


RUAS E REDES, eis a palavra de ordem.






Pelo coletivo do Núcleo de Estudos do Capital do Partido dos Trabalhadores.

domingo, 27 de setembro de 2026

O CICLO DO CONHECIMENTO

No âmbito epistemológico, a contradição de jaez platônico entre racionalismo e empirismo somente foi completamente superada pelo materialismo histórico e dialético, mais especificamente com a segunda tese contra Feuerbach de autoria de Karl Marx, consoante a qual o critério de validade do conhecimento reside não na apreensão do correspondente objeto pelo pensamento, mas na sua transformação pela praxis.


Destarte, o ciclo do conhecimento somente se completa, precisamente, com a transformação prática do respectivo objeto, de tal sorte que sua apreensão pelo pensamento subjetivo, pela comprovação da hipótese por evidências empíricas, consiste apenas em uma etapa inaugural, sendo a transformação desse objeto pela praxis a etapa conclusiva e arrematadora do ciclo do conhecimento.


É de rigor destacar, portanto, a diferença axial entre empiria e praxis, frequentemente confundidas: a primeira é um dado apriorístico e passado, colhido na investigação e pesquisa científica, enquanto a praxis é um dado a posteriori e vindouro que transforma o objeto do conhecimento.


Hipóteses sub judice.







Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

SINGELOS ELEMENTOS PARA UMA HISTÓRIA DA RAZÃO

Muito provavelmente, o apogeu da noção filosófica de indivíduo resida no racionalismo cartesiano, que atingiu o solipsismo no adágio "penso, logo existo", em que razão e indivíduo estão inextricavelmente imbricados. 

A crítica de tal individualismo exacerbado veio inicialmente na forma de um racionalismo absoluto com a obra de Hegel, para quem os indivíduos agem em consonância com suas paixões imediatas que, na verdade, ocultam desígnios mais elevados e nobres da astúcia da razão, no âmago do desenvolvimento diacrônico do Espírito.

Marx, discípulo de Hegel, substituiu a astúcia da razão pela astúcia do dinheiro, mostrando que o desenvolvimento histórico das categorias econômicas, e correspondentes relações de produção, independem das razões e paixões individuais, com transcendê-las, o que removeu, em grande medida, o jaez sobrenatural inscrito na obra precursora do mestre Hegel. 

Sigmund Freud, ao desvendar o insconsciente, demonstrou que as próprias paixões individuais exibem um caráter que suplanta a vontade e a razão do indivíduo, e escapam ao respectivo controle, corroborando toda a história filosófica da crítica do individualismo solipsista do racionalismo cartesiano. 

Somente acrescentaria que tal história da crítica da razão individual, na verdade, reflete uma gradativa e paulatina tomada de consciência no sentido da reconquista das rédeas da  história humana pelos próprios seres humanos que, ao adquirirem ciência do aspecto social de tal história, deram um enorme passo em direção ao controle do próprio destino em um vindouro modo comunista de produção, com a livre associação de indivíduos regendo autonomamente suas próprias vidas. 

Hipóteses sub judice. 





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.  

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

CONJECTURAS SOBRE MARXISMO E PSICANÁLISE

Consoante nossa premissa fundamental, a produção e reprodução da vida material humana bifurca-se em: 1. reprodução sexuada, mediada pelo afeto e pelo amor, pela qual se engendram os próprios seres humanos; e 2. trabalho, pelo qual se engendram as relações sociais de propriedade dos meios de produção, ou relações de produção. 

Quanto à dinâmica edipiana descrita por Sigmund Freud, aventaríamos que a figura materna inscreve-se em 1, a saber, na possibilidade de amor e reprodução sexuada, enquanto a figura paterna representa a autoridade social de 2, que proíbe o incesto mas, outrossim, inibe e reprime a libido para coaduná-la, ainda que de modo grosseiro, às condições e possibilidades sócio-econômicas.

Cabe destacar que esta adequação entre libido e condições sócio-econômicas, em um ambiente de planficação econômica comunista vindoura, será desempenhada pelo controle de natalidade acoplado a tal planificação, que tornará 1 e 2 consentâneos e harmoniosos. 

Hipóteses sub judice. 





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.