terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Avaliação do processo eleitoral e os desafios para o PT

 





Núcleo de Estudos d'O Capital - PT/SP


1)      As últimas eleições municipais receberam dois tipos de análise: uma da mídia corporativa, decretando a derrota do bolsonarismo e do PT, tentando equipará-los e louvando uma “volta da política”, com a vitória de legendas típicas de direita (como o DEM), chamadas agora de “centro”; outra da burocracia do PT, tentando minimizar a derrota representada pela ausência de prefeituras petistas nas capitais dos estados;

2)      A primeira erra, ou omite deliberadamente informações, pois a conquista de eleitoral este ano do chamado Centrão fortalece a base de apoio bolsonarista no Congresso Nacional, ainda que pessoalmente Bolsonaro teve colhido algumas derrotas em cidades importantes como o Rio de Janeiro. Também esconde o fato de que a vitória do Centrão levou a um encolhimento expressivo do PSDB em nível nacional, o partido preferido da Faria Lima e da mídia corporativa, que ganhou São Paulo (cidade importante) mas recuou em outros tantos municípios pelo Brasil;

3)      Ainda nessa avaliação à direita, procuram construir uma narrativa de equivalência entre extrema-direita e PT para tentar vender uma “saída Biden”, ou seja, apresentar um candidato do grande capital como uma opção moderada, ainda que a esquerda e centro-esquerda não tenham nenhum traço do tão propalado radicalismo;

4)      A segunda avaliação, da burocracia petista, procura argumentar que não recuamos em relação ao pleito de 2016, e até teríamos voltado a ter prefeituras no embrião do partido, o ABC paulista, com as vitórias em Diadema e Mauá. Mesmo que numericamente seja razoável, esta avaliação desconsidera as dificuldades de renovação das lideranças do partido (basta ver o continuísmo na eleição para vereadores em São Paulo) e de apresentação de um discurso anti-hegemônico que combata tanto o antipetismo quanto o neoliberalismo, em doses diferentes no bolsonarismo e no Centrão;

5)      Os analistas políticos, petistas inclusive, insistem em apontar a singularidade local das eleições municipais, e que elas não permitem aferir a correlação de forças para a disputa nacional. Neste ano, havia um motivo para federalizar as eleições: a pandemia. Contudo, em quase todas as cidades, os temas locais continuaram falando mais alto. Pensando em 2022, os resultados das últimas eleições talvez tenham pouco peso, mas o retrato cru e frio aponta para a falta de renovação nos quadros petistas;

6)      O partido em São Paulo não conseguiu apresentar um nome competitivo, o que não seria problema em outros tempos, dada a sua capacidade de mobilizar a base militante. Mas a forma como ocorreram as prévias e a indicação de Jilmar Tatto como candidato levaram ao boicote dissimulado de parte das lideranças e dos candidatos a vereador, que escondiam o candidato majoritário em seus materiais. Muitos acabaram votando em Guilherme Boulos já no 1.o turno, e Jilmar ficou abaixo dos 10% de votos, atrás de um candidato de extrema-direita agora em litígio com o bolsonarismo, Artur do Val;

7)      O fenômeno eleitoral de Boulos deve ser analisado tendo em vista essa peculiaridade: foi favorecido pela ausência de um nome conhecido do PT, como Eduardo Suplicy ou Fernando Haddad, e acabou conquistando parte do eleitorado petista, contando ainda com a memória da gestão petista de Luiza Erundina, sua vice na chapa. Boulos teve uma vitória pessoal, que não pode ser creditada a algum crescimento exponencial do PSOL. Pois, apesar de ter obtido 200 mil votos a mais nas eleições proporcionais, não foi capaz de uma maior penetração nas periferias. Continua forte apenas em alguns nichos de classe média, como o meio acadêmico e artístico;

8)      Dito isso, precisamos olhar o quadro geral do pós-eleição 2020: Bolsonaro está diante de um dilema, que é assumir um programa econômico fascista típico, com forte presença estatal, ou continuar com uma agenda de austeridade fiscal que poderá ser fatal para sua reeleição, dada a situação econômica do país. Se conseguir se livrar da Agenda Guedes, será um candidato difícil de ser batido em 2022;

9)      A direita neoliberal tenta viabilizar nomes para ser um pretenso “centro democrático”, de Luciano Huck a João Dória, mas terá dificuldades de conquistar não só o voto conservador (fiel a Bolsonaro), como também apresentar algo que não seja o pacote econômico derrotado em 4 eleições seguidas, e que ficou invisível em 2018 devido à excepcionalidade daquela campanha;

10)   Ciro Gomes, que se desespera ao ver a resiliência eleitoral do PT, vai dando sinais de desembarcar de uma possível frente de esquerda e acena vigorosamente para o DEM de Rodrigo Maia e ACM Neto. A questão para ele é como conciliar suas propostas, que pressupõem um papel ativo do Estado na condução econômica, com o neoliberalismo puro sangue do grande capital, vocalizado pelo DEM. Corre o risco de perder votos tanto à esquerda quanto à direita;

11)   O PT é o único partido de esquerda estruturado nacionalmente, com uma bancada expressiva de parlamentares no Congresso Nacional e nas casas legislativas estaduais e municipais. Nenhuma alternativa progressista pode passar ao largo das forças petistas, ao contrário do que prega os Ferreira Gomes. Mas a dificuldade em analisar a grande derrota do impeachment 2016, iniciada em 2013 e coroada em 2018, impede por enquanto o partido de apresentar uma proposta convincente;

12)   Além disso, é preciso reconhecer que o nascimento e a construção do PT foram fruto de uma conjunção de fatores que não existem mais, como um operariado numeroso nos centros urbanos e a capilaridade das comunidades eclesiais de base católicas nas periferias. Consegue ainda resultados eleitorais razoáveis, mas encontra cada vez mais dificuldades em falar com os novos perfis da classe trabalhadora, pulverizada na informalidade e capturada pelo conservadorismo pentecostal. E ainda encontra um desafio inexistente nos anos 1980: o crime organizado em grande escala, em especial as milícias;

13)   O quadro econômico brasileiro é muito delicado, desde antes da pandemia e ainda mais após sua eclosão. Se Bolsonaro insistir numa agenda neoliberal de austeridade, dificultará sobremaneira sua reeleição. A esquerda em geral, e o PT em particular, devem calibrar uma narrativa que apresente alternativas progressistas no campo econômico, ao mesmo tempo que precisa tomar do bolsonarismo o discurso anti-sistêmico, porque nele é falso. Apenas uma agenda clássica de esquerda, de proteção ao trabalho, somada a temas ascendentes no século XXI (como meio ambiente, gênero e etnia), poderá ter chances contra a extrema-direita. Mas, para isso, terá que saber conciliar o melhor de sua tradição – materializada na figura de Lula – com a necessidade de romper com a mera lógica eleitoreira. E isso passa necessariamente pela renovação dos quadros partidários e do abandono de práticas viciadas ainda em voga. Mais do que nunca, o Brasil precisa de um PT forte e renovado. 


segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

HIPÓTESES ALEATÓRIAS E INCIPIENTES SOBRE PLANIFICAÇÃO ECONÔMICA

1. Consoante atesta o professor de história da Universidade de São Paulo, Lincoln Secco, em sua obra "História da União Soviética" (São Paulo, Maria Antônia Edições, 2020), página 115: "Apesar de subidas e descidas bruscas em virtude de guerras, a União Soviética teve altas taxas de crescimento até 1978. Desde o ano seguinte, a renda nacional teve aumento medíocre. A economia desacelerou pouco a pouco nos anos 1980. Sob Brejnev, a taxa média de crescimento nos anos 1970-1975 foi de 5,5%, e na segunda metade daquele decênio, foi de 4,3%. Em 1981-1985, às vésperas da Perestroika, foi de 3,2%. Os países capitalistas passaram pela mesma desaceleração econômica a partir da década de 1970"

2. Destarte, verifica-se coincidência bastante significativa no ano de 1978: no mesmo momento histórico em que o crescimento econômico da antiga URSS começa a declinar, a China, sob o novo comando de Deng Xiaoping, enceta reformas que, poucos anos depois, hauriram taxas de crescimento econômico estratosféricas, as quais lograram posicionar, hodiernamente, esse gigante asiático em emulação com os Estados Unidos da América pela supremacia econômica mundial.

3. Os acontecimentos de 2 parecem estar imbricados, ainda, com os pródromos da revolução microeletrônica e digital da década de 1980 no Ocidente capitalista. 

4. No livro primeiro de sua obra máxima "O Capital", Karl Marx descreve os fenômenos correlatos de concentração e centralização de capital, típicos da acumulação capitalista, parecendo pertinente aventar que tal acumulação pressupõe também a tendência à concentração e centralização de dados econômicos sobre produção e consumo. 

5. Tal tendência à concentração e centralização de dados econômicos, suposta em 4, parece confirmar a procedência e a viabilidade teóricas da planificação econômica centralizada nos moldes soviéticos. 

6. Sucede, todavia, que o crescimento econômico aumenta a quantidade e qualidade de dados sobre produção e consumo submetidas à planificação centralizada, o que incrementa também, se não estiverem disponíveis sistemas microeletrônicos de armazenamento e processamento digitais de tais dados, a burocracia estatal economicamente improdutiva empregada na planificação centralizada, o que ocorreu, ao que parece, na antiga URSS, que não passou pela revolução digital e microeletrônica observada no Ocidente capitalista, vindo a desmoronar, por isso, em 1991. 

7. O Partido Comunista Chinês, ao contrário do seu congênere soviético, encetou reformas bem sucedidas para atingir tal revolução digital em seu país, conquanto em detrimento tanto da planificação econômica centralizada quanto da abolição da propriedade privada dos meios de produção. 

8. A China hodierna, prestes a obter a total independência no campo microeletrônico em relação ao Ocidente capitalista, poderia teoricamente adotar um modelo de planificação econômica centralizada, porém descentralizadamente alimentada e atualizada pelos próprios produtores e consumidores via internet, de tal sorte que todos os dados desses produtores e consumidores (pressuposta a estatização dos meios de produção) alimentariam contínua e atualizadamente um algoritmo digital e central de planificação econômica apto a coadunar, assim, oferta e demanda econômicas.

9. Evidentemente, o modelo teórico de planificação econômica em 8 seria otimizado se aplicado em âmbito mundial. 

10. São singelas hipóteses para incentivar o debate. 


(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador)                                           

    

terça-feira, 17 de novembro de 2020

COMPANHEIRO CLOVES CASTRO, PRESENTE!

 


 


Por CIRO SEIJI, do Núcleo de Estudos d´O Capital do Partido dos Trabalhadores 

 

Hoje fui ver a despedida do Cloves.  Foi velado numa fábrica no bairro Serraria em Diadema, nem me pergunte como algo tão adequando encontrou seu caminho. Era quase uma multidão que convergiu para aquela quebrada para cantar a Internacional, e jovens e velhos militantes se revezaram para tecer uma impressionante colcha de retalhos, cada pedaço com uma riqueza de cor e textura, como preciosas frestas da história classe operária, só que por ela mesma; ouro puro: ...Ele quase escapou antes de ser baleado! Dizia um, ...prometi naquela tarde no Anhangabaú que não desistiria!, dizia uma companheira lembrando companheiros presos, ...meu pai ficou furioso comigo porque coloquei a faixa do Boulos no muro de casa.. dizia  Thiago não contendo as lágrimas.” Era um militante disciplinado! cumpria as tarefas! no PCB, na ALN, na Oposição Sindical, no PT, na AE...” disse Adriano Diogo tentando pescar lacunas na memória. O gigante  negro Miltão Barbosa eu nem ouvi, começou rindo e terminou chorando debaixo de por um monte de outros abraços negros. E vinham mais outros retalhos desta história mililtante : sobrinha acolhida como filha, filhos companheiros, companheiros irmão de luta, e não dava para escutar a todos porque de vez em quando passava um caminhão com caçambas de cavaco – vocês nem sabem o que é isto... quem acha que a classe operária acabou não viu aquelas fábricas  e favelas se espalhando dali até o pé da serra do mar, onde a água da represa conteve este formigueiro de gente e cimento. E ao fundo ainda a cadência das prensas Shuller  tremendo o chão, sério, não é poesia não -  é um baque surdo... a gente sente no coração. Valter Pomar termina a homenagem tão forte quanto afetuosamente: “viveu e morreu como um proletário”. E ainda desafiou a nossa burocracia que rifou a militância do combate do dia 15, e disse que a vida do Cloves serve para lembrar como é lutar sem se perder pelo caminho. Fui embora pensando na minha morte solitária. Fui embora pensando na minha morte provavelmente solitária,  e que inveja poder morrer abraçado por tantos!





segunda-feira, 14 de setembro de 2020

ESQUEMAS DA COMÉDIA DA HISTÓRIA

 




Na dinâmica edipiana, parece cediço que o garoto desenvolve precocemente, por impulso reprodutivo, um desejo erótico pela própria mãe, mas a concretização de tal desejo é obstada pela figura paterna, fisicamente superior, sendo certo que é na contraposição ao próprio pai que se desinibe o ego violento do filho, desejoso de aniquilar fisicamente tal figura paterna para possuir a própria mãe.

O malogro da concretização do desejo erótico do filho pela própria mãe contribui para a introjeção neste da autoridade paterna e a obediência difusa pela autoridade em geral, com a formação do superego que, entre outras funções, inibe a pulsão mórbida e violenta do ego.

Destarte, podemos aventar que a proibição do incesto, neste caso, contribui não apenas para a construção do superego, mas também, de forma não volitiva, mas inconsciente, para fins de eugenia e evolução da espécie, por intermédio de uma maior diversificação genética. 

Com a garota acontece, simetricamente e grosso modo, o mesmo que sucede ao garoto quanto à introjeção do superego. Ainda simetricamente, no plano social, temos que o impulso reprodutivo do grupo comunista primitivo compele-o, pelo trabalho, a apropriar-se de um conjunto de meios de produção naturais, máxime da terra, sendo certo que o ego violento do grupo, a saber, seu egoísmo ínsito, por seu turno, impede pela violência que outros grupos ou indivíduos perturbem essa sua propriedade fundiária privada grupal.

Tal propriedade fundiária privada grupal do comunismo primitivo encerra como alicerces, portanto, o trabalho e a violência, ou seja, os impulsos reprodutivo do id e destrutivo do ego, sendo certo que, através da guerra entre grupos, o trabalho e a violência bifurcam-se em duas classes sociais distintas, de modo que agora uma classe escrava trabalha e a outra, proprietária fundiária, exerce a violência sobre a primeira, extraindo-lhe os meios de sobrevivência: assim constituem-se os primeiros Estados antigos, ainda ontologicamente coincidentes com a classe proprietária fundiária, a qual, por intermédio da violência, impõe a obediência servil à classe dos produtores escravos.

Remeto meus eventuais leitores, agora, ao texto de minha autoria intitulado “O legado londrino”, onde exponho esquematicamente como o Estado, antes ontologicamente coincidente com a classe proprietária fundiária, destaca-se de tal classe e passa a sobrepairar diante da sociedade civil formada pelas classes antagônicas correspondentes ao capital e ao trabalho assalariado, de tal sorte que tal Estado constitui, por assim dizer, um grande e difuso superego burocrático-militar diante do ego capitalista e do id operário.

A superação histórica desta sociedade ou modo de produção capitalista, tripartido em trabalho, capital e Estado, pressupõe a etapa de constituição de um Estado operário mundial detentor de uma inteligência artificial capaz de, mediante recolhimento e compilação de dados de todos os produtores e consumidores (aqui presumida a propriedade estatal dos meios de produção), coadunar oferta e demanda mundialmente consideradas.

A tal Estado operário mundial caberá ainda a tarefa de introjetar um superego dominante nos indivíduos, mediante inibição da constituição de um ego violento decorrente do complexo edipiano derivado da dinâmica familiar, de tal sorte que deverá prevalecer a reprodução da espécie por inseminação artificial e separação entre mãe e criança logo após o parto, ficando esta aos cuidados do Estado, sendo conveniente observar que tais procedimentos servirão concomitantemente à causa da eugenia da espécie humana.


(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador)



segunda-feira, 27 de julho de 2020

TOMEMOS O EMPIRISMO "CUM GRANO SALIS"

De proêmio, exoro licença aos meus eventuais leitores para remetê-los ao singelo texto de minha autoria intitulado "O sujeito cognoscente como ser social, ou brevíssimas considerações sobre epistemologia materialista", publicado neste blog aos 16 de julho de 2019. 

Nesse diapasão, é mister observar com muito cuidado que o empirismo está hodiernamente em voga na produção científica, parecendo lícito ventilar, contudo, que esta tendência exacerbada de entronizar o material empírico pode ser uma forma de ideologia individualista típica de nossa época de hegemonia neoliberal. 

Sim, porquanto tomar o empírico pelo concreto constitui inversão característica das ideologias: ora, o material empírico, vale dizer, aquilo que se apresenta aos cinco sentidos do indivíduo não passa de mera abstração se não for mediada pelo pensamento. 

Destarte, o empírico puro, imediato, que se apresenta ao indivíduo singular, antolha-se-nos abstrato, eis que o concreto consiste no empírico pensado, mediado pelo pensamento, mas este pensamento deve ser capaz de apreender o concreto como síntese de múltiplas determinações, unidade do diverso, como já preconizava o velho Karl Marx.

Assim, a categoria da "mercadoria", verbi gratia, é a unidade que abroquela uma miríade de valores-de-uso empiricamente constatados, a síntese concreta de uma diversidade empírica que somente fica acessível ao conhecimento por mediação do pensamento.   

Todavia, o pensamento somente apreende tal unidade ou síntese se estiverem dadas as condições históricas para tanto: por isso que apenas tardiamente na história da humanidade restou acessível à ciência a intelecção da lógica dialética que comanda o evolver do tempo histórico, primeiramente de forma idealista com Hegel e, depois, de forma materialista e concreta com Marx e Engels. 

Tomemos, então, o empirismo cum grano salis, pois ele é uma etapa necessária, mas não suficiente para a apreensão do concreto pelo pensamento e, portanto, pelo conhecimento científico. 

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador formado pela USP) 

   

    

terça-feira, 7 de julho de 2020

IMPROVISO SOBRE A VOCAÇÃO HISTÓRICA DA FORMA-MERCADORIA

1. A vocação histórica da forma-mercadoria consiste na extração do máximo de excedente econômico dos produtores, comprimindo-lhes o respectivo consumo, mediante o mínimo de trabalho improdutivo, seja ele militar ou civil. 

2. Nesse diapasão, temos que, no escravismo antigo, sobretudo no Império Romano, observa-se uma máxima compressão do consumo dos produtores escravizados, mas o excedente econômico assim haurido é completamente consumido na atividade bélica improdutiva das forças armadas latinas, restando relativamente pouco excedente econômico convolado em consumo suntuário da classe dominante dos proprietários fundiários, com resultar em comércio bastante estiolado nas fímbrias do sistema, o que obsta o pleno desenvolvimento da forma-mercadoria. 

3. Já no medievo ocidental, o consumo dos produtores em condição de servidão exibe-se maior do que o dos escravos antigos, inclusive com desinibição de excedente econômico apropriado por tais servos da gleba, excedente este que fomenta um comércio marginal mais desenvolvido que no escravismo antigo.

4. Tal comércio desenvolve-se muito na época moderna dos Estados absolutistas mercantilistas, cabendo destacar que a forma-mercadoria desinibe-se exponencialmente como produto exótico de ultramar, de tal sorte que a burguesia mercantil apropria-se do excedente econômico literalmente "comprando barato e vendendo caro", comprimindo ao máximo o consumo dos produtores diretos europeus e ultramarinos.   

5. Ainda na época mercantilista, cabe destacar que o aparato militar mantenedor do sistema ainda exibe-se relativamente muito oneroso, obstando um maior consumo suntuário das classes dominantes e assim dificultando, contraditoriamente, a própria expansão e pleno desenvolvimento da forma-mercadoria. 

6. Esta forma-mercadoria realiza-se de maneira plena somente quando apropria-se do próprio processo produtivo, com a conversão da força de trabalho e dos meios de produção em mercadorias, bem assim com a redução relativa do aparato militar mantenedor do sistema, que se torna difuso, o que permite uma maior desinibição do consumo suntuário da burguesia industrial e uma acumulação acelerada de capital.

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador)

segunda-feira, 22 de junho de 2020

WALTER BENJAMIN NA CALIFÓRNIA: LIGEIRAS IMPRESSÕES

O objeto de investigação de Walter Benjamin em seu opúsculo A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, concebido em 1935/36, corresponde primordialmente ao cinema e sua capacidade de massificação do consumo da produção audiovisual, notadamente em uma época de patente ascensão do fascismo e decadência da democracia na Europa e outras plagas, parecendo lícito aventar que tal autor preocupa-se sobretudo com as tendências de jaez político e cultural desse fenômeno de massas. 

É cediço que Hollywood encerra a mais acabada expressão do fenômeno cinematográfico em âmbito mundial, e não por acaso foi também na Califórnia, nomeadamente no Vale do Silício, que se desinibiu com maior intensidade o processo de ampliação e aprofundamento da tendência histórica de reprodutibilidade técnica e massificação do consumo da produção audiovisual, evidente com a eclosão da assim designada revolução digital ou microeletrônica.

Ex positis, faz-se mister investigar, na esteira dos estudos de Walter Benjamin na década de 1930, alguns aspectos da atual era de revolução digital, a saber:

1. A relação possível entre tal revolução técnica e a emergência de movimentos políticos de matiz neofascista, com a correlata crise da democracia em âmbito global. 

2. As tendências econômicas de tal fenômeno, especialmente quanto à criação de novos valores-de-uso e novas necessidades humanas, com a massificação do respectivo consumo, máxime no que pertine à sua influência no hodierno ciclo do capitalismo, sem olvidar a hipótese de que tal revolução digital e consectários possam ter ingerência sobre os problemas da demanda efetiva e queda tendencial das taxas de lucro.       

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador)