segunda-feira, 14 de setembro de 2020

ESQUEMAS DA COMÉDIA DA HISTÓRIA

 




Na dinâmica edipiana, parece cediço que o garoto desenvolve precocemente, por impulso reprodutivo, um desejo erótico pela própria mãe, mas a concretização de tal desejo é obstada pela figura paterna, fisicamente superior, sendo certo que é na contraposição ao próprio pai que se desinibe o ego violento do filho, desejoso de aniquilar fisicamente tal figura paterna para possuir a própria mãe.

O malogro da concretização do desejo erótico do filho pela própria mãe contribui para a introjeção neste da autoridade paterna e a obediência difusa pela autoridade em geral, com a formação do superego que, entre outras funções, inibe a pulsão mórbida e violenta do ego.

Destarte, podemos aventar que a proibição do incesto, neste caso, contribui não apenas para a construção do superego, mas também, de forma não volitiva, mas inconsciente, para fins de eugenia e evolução da espécie, por intermédio de uma maior diversificação genética. 

Com a garota acontece, simetricamente e grosso modo, o mesmo que sucede ao garoto quanto à introjeção do superego. Ainda simetricamente, no plano social, temos que o impulso reprodutivo do grupo comunista primitivo compele-o, pelo trabalho, a apropriar-se de um conjunto de meios de produção naturais, máxime da terra, sendo certo que o ego violento do grupo, a saber, seu egoísmo ínsito, por seu turno, impede pela violência que outros grupos ou indivíduos perturbem essa sua propriedade fundiária privada grupal.

Tal propriedade fundiária privada grupal do comunismo primitivo encerra como alicerces, portanto, o trabalho e a violência, ou seja, os impulsos reprodutivo do id e destrutivo do ego, sendo certo que, através da guerra entre grupos, o trabalho e a violência bifurcam-se em duas classes sociais distintas, de modo que agora uma classe escrava trabalha e a outra, proprietária fundiária, exerce a violência sobre a primeira, extraindo-lhe os meios de sobrevivência: assim constituem-se os primeiros Estados antigos, ainda ontologicamente coincidentes com a classe proprietária fundiária, a qual, por intermédio da violência, impõe a obediência servil à classe dos produtores escravos.

Remeto meus eventuais leitores, agora, ao texto de minha autoria intitulado “O legado londrino”, onde exponho esquematicamente como o Estado, antes ontologicamente coincidente com a classe proprietária fundiária, destaca-se de tal classe e passa a sobrepairar diante da sociedade civil formada pelas classes antagônicas correspondentes ao capital e ao trabalho assalariado, de tal sorte que tal Estado constitui, por assim dizer, um grande e difuso superego burocrático-militar diante do ego capitalista e do id operário.

A superação histórica desta sociedade ou modo de produção capitalista, tripartido em trabalho, capital e Estado, pressupõe a etapa de constituição de um Estado operário mundial detentor de uma inteligência artificial capaz de, mediante recolhimento e compilação de dados de todos os produtores e consumidores (aqui presumida a propriedade estatal dos meios de produção), coadunar oferta e demanda mundialmente consideradas.

A tal Estado operário mundial caberá ainda a tarefa de introjetar um superego dominante nos indivíduos, mediante inibição da constituição de um ego violento decorrente do complexo edipiano derivado da dinâmica familiar, de tal sorte que deverá prevalecer a reprodução da espécie por inseminação artificial e separação entre mãe e criança logo após o parto, ficando esta aos cuidados do Estado, sendo conveniente observar que tais procedimentos servirão concomitantemente à causa da eugenia da espécie humana.


(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador)



segunda-feira, 27 de julho de 2020

TOMEMOS O EMPIRISMO "CUM GRANO SALIS"

De proêmio, exoro licença aos meus eventuais leitores para remetê-los ao singelo texto de minha autoria intitulado "O sujeito cognoscente como ser social, ou brevíssimas considerações sobre epistemologia materialista", publicado neste blog aos 16 de julho de 2019. 

Nesse diapasão, é mister observar com muito cuidado que o empirismo está hodiernamente em voga na produção científica, parecendo lícito ventilar, contudo, que esta tendência exacerbada de entronizar o material empírico pode ser uma forma de ideologia individualista típica de nossa época de hegemonia neoliberal. 

Sim, porquanto tomar o empírico pelo concreto constitui inversão característica das ideologias: ora, o material empírico, vale dizer, aquilo que se apresenta aos cinco sentidos do indivíduo não passa de mera abstração se não for mediada pelo pensamento. 

Destarte, o empírico puro, imediato, que se apresenta ao indivíduo singular, antolha-se-nos abstrato, eis que o concreto consiste no empírico pensado, mediado pelo pensamento, mas este pensamento deve ser capaz de apreender o concreto como síntese de múltiplas determinações, unidade do diverso, como já preconizava o velho Karl Marx.

Assim, a categoria da "mercadoria", verbi gratia, é a unidade que abroquela uma miríade de valores-de-uso empiricamente constatados, a síntese concreta de uma diversidade empírica que somente fica acessível ao conhecimento por mediação do pensamento.   

Todavia, o pensamento somente apreende tal unidade ou síntese se estiverem dadas as condições históricas para tanto: por isso que apenas tardiamente na história da humanidade restou acessível à ciência a intelecção da lógica dialética que comanda o evolver do tempo histórico, primeiramente de forma idealista com Hegel e, depois, de forma materialista e concreta com Marx e Engels. 

Tomemos, então, o empirismo cum grano salis, pois ele é uma etapa necessária, mas não suficiente para a apreensão do concreto pelo pensamento e, portanto, pelo conhecimento científico. 

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador formado pela USP) 

   

    

terça-feira, 7 de julho de 2020

IMPROVISO SOBRE A VOCAÇÃO HISTÓRICA DA FORMA-MERCADORIA

1. A vocação histórica da forma-mercadoria consiste na extração do máximo de excedente econômico dos produtores, comprimindo-lhes o respectivo consumo, mediante o mínimo de trabalho improdutivo, seja ele militar ou civil. 

2. Nesse diapasão, temos que, no escravismo antigo, sobretudo no Império Romano, observa-se uma máxima compressão do consumo dos produtores escravizados, mas o excedente econômico assim haurido é completamente consumido na atividade bélica improdutiva das forças armadas latinas, restando relativamente pouco excedente econômico convolado em consumo suntuário da classe dominante dos proprietários fundiários, com resultar em comércio bastante estiolado nas fímbrias do sistema, o que obsta o pleno desenvolvimento da forma-mercadoria. 

3. Já no medievo ocidental, o consumo dos produtores em condição de servidão exibe-se maior do que o dos escravos antigos, inclusive com desinibição de excedente econômico apropriado por tais servos da gleba, excedente este que fomenta um comércio marginal mais desenvolvido que no escravismo antigo.

4. Tal comércio desenvolve-se muito na época moderna dos Estados absolutistas mercantilistas, cabendo destacar que a forma-mercadoria desinibe-se exponencialmente como produto exótico de ultramar, de tal sorte que a burguesia mercantil apropria-se do excedente econômico literalmente "comprando barato e vendendo caro", comprimindo ao máximo o consumo dos produtores diretos europeus e ultramarinos.   

5. Ainda na época mercantilista, cabe destacar que o aparato militar mantenedor do sistema ainda exibe-se relativamente muito oneroso, obstando um maior consumo suntuário das classes dominantes e assim dificultando, contraditoriamente, a própria expansão e pleno desenvolvimento da forma-mercadoria. 

6. Esta forma-mercadoria realiza-se de maneira plena somente quando apropria-se do próprio processo produtivo, com a conversão da força de trabalho e dos meios de produção em mercadorias, bem assim com a redução relativa do aparato militar mantenedor do sistema, que se torna difuso, o que permite uma maior desinibição do consumo suntuário da burguesia industrial e uma acumulação acelerada de capital.

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador)

segunda-feira, 22 de junho de 2020

WALTER BENJAMIN NA CALIFÓRNIA: LIGEIRAS IMPRESSÕES

O objeto de investigação de Walter Benjamin em seu opúsculo A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, concebido em 1935/36, corresponde primordialmente ao cinema e sua capacidade de massificação do consumo da produção audiovisual, notadamente em uma época de patente ascensão do fascismo e decadência da democracia na Europa e outras plagas, parecendo lícito aventar que tal autor preocupa-se sobretudo com as tendências de jaez político e cultural desse fenômeno de massas. 

É cediço que Hollywood encerra a mais acabada expressão do fenômeno cinematográfico em âmbito mundial, e não por acaso foi também na Califórnia, nomeadamente no Vale do Silício, que se desinibiu com maior intensidade o processo de ampliação e aprofundamento da tendência histórica de reprodutibilidade técnica e massificação do consumo da produção audiovisual, evidente com a eclosão da assim designada revolução digital ou microeletrônica.

Ex positis, faz-se mister investigar, na esteira dos estudos de Walter Benjamin na década de 1930, alguns aspectos da atual era de revolução digital, a saber:

1. A relação possível entre tal revolução técnica e a emergência de movimentos políticos de matiz neofascista, com a correlata crise da democracia em âmbito global. 

2. As tendências econômicas de tal fenômeno, especialmente quanto à criação de novos valores-de-uso e novas necessidades humanas, com a massificação do respectivo consumo, máxime no que pertine à sua influência no hodierno ciclo do capitalismo, sem olvidar a hipótese de que tal revolução digital e consectários possam ter ingerência sobre os problemas da demanda efetiva e queda tendencial das taxas de lucro.       

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador)
       

quinta-feira, 18 de junho de 2020

RAPSÓDIA DA MERCADORIA

1. Vimos que, historicamente, a forma-mercadoria enceta por convolar os valores-de-uso em depósitos de valores-de-troca, engendrando a contradição primordial entre esses dois aspectos dos produtos do trabalho humano. 

2. Posteriormente, com a acumulação primitiva de capital, a própria força de trabalho é convolada em mercadoria, engendrando a contradição entre capital e trabalho e as classes sociais respectivas. 

3. A contradição entre valor-de-uso e valor-de-troca, ínsita à mercadoria, precede historicamente, portanto, a contradição entre capital e trabalho. 

4. O socialismo consiste no modo de produção que supera a contradição entre capital e trabalho mediante erradicação da propriedade privada dos meios de produção. 

5. O comunismo consiste no modo de produção que supera a contradição entre valor-de-uso e valor-de-troca, ínsita à mercadoria, mediante a instituição da relação imediata entre produtores e consumidores através das formas digitais de comunicação, abolindo portanto a forma-mercadoria. 

6. O socialismo precede historicamente o comunismo.

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador)

quarta-feira, 10 de junho de 2020

SINGELOS PRELÚDIOS À ANTIMERCADORIA

1. A forma-mercadoria enceta por transformar os valores-de-uso, a saber, os produtos do trabalho humano concreto em meros repositórios de valor-de-troca, vale dizer, em "gelatina" de trabalho humano abstrato.

2. Em 1, portanto, o conteúdo (valor-de-uso) subsume-se na forma (valor-de-troca).

3. Com a acumulação primitiva de capital, quando os produtores de mercadorias são destituídos de seus meios de produção, o próprio trabalhador subsume-se na forma-mercadoria, transformando-se em alienador, vendedor de sua força de trabalho como mercadoria. 

4. Em 3, portanto, o conteúdo (ser humano concreto) subsume-se na forma (força de trabalho).

5. Ainda em 3, temos que a força de trabalho, todavia, não é produto do trabalho humano abstrato, logo não exibe valor e, sob prisma meramente lógico-formal, não poderia funcionar como mercadoria. 

6. A aparente contradição ou aporia dimanada de 5 é resolvida pela lógica dialética, porquanto a força de trabalho exibe-se como negação dialética da forma-mercadoria. 

7. A resolução histórico-concreta, não meramente lógica, mas prática de tal contradição ou aporia, isto é, a negação da negação, supera completamente a forma-mercadoria, devolvendo a subsunção da forma no conteúdo, de tal sorte que o valor-de-uso (2) e o ser humano concreto (4) derrotam as formas abstratas, respectivamente, do valor-de-troca e da força de trabalho. 

8. Eis o movimento dialético e diacrônico que ascende historicamente do abstrato ao concreto. 


( por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador) 
        


         

terça-feira, 12 de maio de 2020

Companheiro Geraldinho, Presente!









Geraldo José da Costa, o Geraldinho do Butantã, nos deixou hoje. Foi servidor público na Universidade de São Paulo, militante do Sindicato dos Trabalhadores da USP e do Partido dos Trabalhadores, no Diretório Zonal do Butantã. 
Abaixo, uma singela homenagem de Ciro Seiji, do Núcleo de Estudos d’O Capital, ao saudoso companheiro. Geraldinho: presente!

“Geraldinho calcula o tempo final da intervenção, passeia a esmo com as mãos para trás, do fundo da Quadra do Sindicato dos Bancários, e segue pelo centro da plenária do IV Congresso dos Diretórios Zonais “Paulo Freire”, em junho de 2019. Eu quero acreditar que as quadras de esportes no Brasil foram feitas para comportarem jogos de vôlei com saques muito altos, do tipo “jornada nas estrelas” do Bernard, por isso a acústica torna as intervenções cansativas porque se misturam com o eco atrasado, microfonia, conversas se misturam e reverberam nas paredes do amplo ginásio localizado na Tabatinguera, bem perto da antiga sede-biblioteca do Núcleo de Estudos d’O Capital, por acaso em frente ao Diretório Nacional, ali colado à Praça da Sé.

Geraldinho tinha calculado e chega no tempo exato em que uma companheira termina a fala, toma o microfone e sai aos gritos denunciando a direção, a burocracia, os acordos e sei lá mais o quê, porque a mesa, do alto do palco da quadra dos bancários, corta o microfone.
A plenária cheia de militantes veteranos em idade e tempo de luta acorda pela primeira vez, a mesa protesta, mais magoada do que surpresa, porque é esperado que Geraldinho fizesse algo: “- Pôxa,companheiro Geraldinho!!!” ...

Geraldinho volta calmamente com um sorriso enorme no rosto, vai para o fundo do plenário, onde estava a banquinha do Núcleo de Estudos D’O Capital, cujos militantes (eu, Edu
e Agnaldo) estão no chão gritando e gargalhando. O ginásio não reverberou muito a voz dele, mas a única coisa que se ouvia éramos nós rindo muito.

Naturalmente não vendemos uma única Revista Mouro naquele dia.

Não me lembro, mas sei que naquele trecho entre a banquinha e o microfone que ele tomou de assalto, ele ia sorrindo e como sempre cumprimentando os companheiros, fazendo troça disso ou daquilo que lhe ocorria ou via. Era simpático e alegre, multidões, plenárias, passeatas, assembleias, mutirões eram o seu lugar. Gente era a sua substância.

Geraldinho não foi feito para viver enfurnado e acossado por qualquer que seja o maldito vírus ou o verme fascista. Deve ter partido porque este tipo de espécime só vive ao ar livre, nada de teto baixo.

Um grande abraço camarada,
Ciro”