sábado, 20 de julho de 2019

SEIS DIVAGAÇÕES SOBRE HISTÓRIA COMPARADA


SEIS DIVAGAÇÕES SOBRE HISTÓRIA COMPARADA

  1. De proêmio, tanto na Antiguidade como no Medievo, temos uma classe aristocrático-militar que não trabalha e que nutre sua existência material mediante extorsão de uma parcela da produção social realizada pelos trabalhadores rurais (um “excedente econômico”, por assim dizer) mediante a violência.
  2. No entanto, os escravos antigos são mais espoliados que os servos medievais, o que se observa na maior opulência material da classe aristocrático-militar da Antiguidade ocidental, máxime do Império Romano, indício de que o consumo improdutivo de tal classe improdutiva antiga era comparativamente maior do que o consumo improdutivo da classe nobre medieval.
  3. Nesse diapasão, à classe servil medieval era factível investir produtivamente certo excedente econômico que lhe restava após o desconto da corveia, de que resultou o advento de um comércio e uma produção artesanal que puderam prosperar comparativamente mais do que o comércio e o artesanato antigos, fomentando as bases materiais do ulterior modo de produção capitalista.
  4. Cabe aduzir que a região onde os servos da gleba exibiam maior liberdade econômica em relação à nobreza medieval, no atual Reino Unido, tais bases materiais cresceram mais rapidamente do que no restante da Europa, favorecendo portanto a eclosão da Revolução Industrial do século XVIII naquelas plagas.
  5. Com o advento do modo de produção capitalista, exsurge uma classe burguesa industrial que, sem produzir diretamente, administra, porém, por meio de sua propriedade privada e posse direta dos meios de produção, o trabalho da classe produtora operária, dela extorquindo um excedente econômico, a mais-valia, que é em parte consumido produtivamente, enquanto outra parte é incorporada ao consumo improdutivo tanto dessa burguesia industrial quanto da classe integrante de um novo estamento improdutivo que constitui o Estado burocrático-militar capitalista, sendo certo que esta parte do consumo improdutivo estatal identifica-se com o novo arcabouço tributário mantenedor de tal classe burocrático-militar.
  6. Um exemplo histórico peculiar de como o excedente econômico produtivamente reinvestido proporciona uma desinibição mais célere das forças produtivas seria o caso observado na Guerra Civil do século XIX, nos atuais Estados Unidos da América: o sul escravista, em que praticamente todo o excedente econômico era improdutivamente consumido pela aristocracia rural, não foi capaz de derrotar militarmente o norte da pequena propriedade privada dos meios de produção, onde o excedente econômico era reinvestido produtivamente por tais pequenos proprietários livres de obrigações servis ou escravistas, de que resultou uma atividade industrial pujante que mais tarde se firmaria como a maior potência econômica no mundo. (por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador)

terça-feira, 16 de julho de 2019

O SUJEITO COGNOSCENTE COMO SER SOCIAL, OU BREVÍSSIMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE EPISTEMOLOGIA MATERIALISTA.

O proletariado exsurge na história como a classe social por excelência, porquanto completamente despojada da propriedade dos meios de produção, o que lhe confere um caráter internacional e universal. 

Seus membros, bem assim seus intelectuais orgânicos (na acepção de Gramsci), são potencialmente capazes de alcançar uma consciência de classe que ultrapassa a consciência individual dos detentores de propriedade privada de meios de produção, como a burguesia e quejandos. 

Tal consciência de classe interfere no campo do conhecimento, eis que, superando a perspectiva individual, o proletariado e seus intelectuais orgânicos podem apreender uma duração que também suplanta a duração de uma vida individual, atingindo assim a história não apenas dos indivíduos, mas das classes sociais. 

Dessa forma, Marx e Engels, intelectuais orgânicos do proletariado, foram os pioneiros a descortinar a história das classes sociais e suas lutas respectivas, bem assim a história dos diversos modos de produção ao longo do tempo, cuja dinâmica revelaram na contradição entre as forças produtivas e as relações de produção. 

Nesse mesmo passo, restaram superadas, no âmbito da epistemologia, as perspectivas empirista e racionalista, vinculadas ao indivíduo como sujeito cognoscente, na medida em que o materialismo erigiu o ser social (ou a classe social) como ponto de partida para aquisição de conhecimento. 

(por Luis Fernando Franco Martins Ferreira, historiador). 

domingo, 2 de junho de 2019

Eu não preciso ler a biografia do Zé Dirceu










Ciro Saurius


- Pode contar aí, são 71 anos de prisão anistiados! Gritou Zé Dirceu dentro da delegacia da Mooca.


Depois de uma panfletagem contra a perseguição de alunos na Universidade São Judas houve uma grande mobilização de estudantes. Desceram as escadarias às centenas e cercaram as viaturas que levavam o diretor da UNE, algemado. Acho que isso aconteceu numa noite fria de 1987. Diante do impasse negociaram-se as algemas: Rogério Fagundes iria para a delegacia registrar uma queixa contra a PM, mostrou os pulsos livres de pé em cima do capô do camburão, discursou, os estudantes abriram caminho para a saída da polícia. Nunca mais vi isso acontecer.

Na delegacia chegamos como testemunhas e viramos suspeitos – lembro-me estar sentado no chão, com o deputado Lucas Buzato e o vereador Adriano Diogo (que encontrei de novo em outras noites tirando jovens da cadeia em 2013). A sala estava cheia de policiais com suas pistolas emounhadas – a posição de prontidão para o tiro; parece que lhes dá uma satisfação, entre tensão e tesão, o peitoral enche tanto que parece que vai explodir.

Muita coisa aconteceu naquela madrugada. Os estudantes fizeram tudo errado para variar: desacatamos, ficamos brincando com os ânimos dos policiais, eles sentiam que a democracia tinha chegado para ficar. As coisas iam mudar, nós achávamos que éramos a mudança e eles sabiam que eles eram "as coisas". Hoje isso tudo virou.

Madrugada adentro o delegado puxou a ficha do Zé. A impressora gritava estridente na sala de luzes fluorescentes, o papel se desenrolou pelo chão, a escrivã e policiais trocavam murmúrios impressionados com a ficha corrida do Zé.  Ficou muito claro. O delegado ameaçou, o Zé devolveu acusando-o de dar voz de prisão para um Deputado – sucedeu-se uma gritaria imensa, mas a voz do Zé se elevava. Dali em diante só cresceu a tensão, levantamo-nos e, surpreendentemente, o Zé com a maior calma do mundo “avisou” o delegado que os estudantes presos iriam fazer uma reunião com ele.

Não me lembro o que foi dito na sala reservada, escura. Lembro-me da sua voz calma, de quem tinha tudo calculado, inclusive o risco de dar tudo errado.

Pela manhã saímos xingando a TV Globo que aguardava lá fora. Acho que o delegado foi afastado.

Poucos meses depois, milhares de estudantes de escolas privadas em passeatas em todo o país derrubaram pela primeira vez um decreto lei, o da "liberdade vigiada". A Paulista encheu de estudantes das escolas particulares. Acho que o Lula deve ter aprendido algo naqueles dias: um estudante trabalhador não é só um filho de trabalhador: ele é o trabalhador. E quem trabalha de dia precisa estudar à noite. Ele não poderia frequentar o ensino público, em geral diurno. Mas a classe trabalhadora estudantil entrava em cena naquele ano e voltaria muitos anos depois, pela política educacional do governo do Partido dos Trabalhadores, que possibilitou o acesso dos jovens trabalhadores  ao ensino privado. "os pais dos jovens querem que ele estude perto de casa" teria dito Lula.

Sempre haverá quem diga sobre os nossos erros e sobre tudo o que poderia ter sido feito e não fizemos. É como que se carregássemos todos nós culpas e mágoas, e se nos veem sorrindo, parece- lhes ofensivo. Mas a esta hora nem me vem à cabeça pedir desculpas por existir,  perdoo fácil defeitos meus e os dos meus, porque eu estava lá. Eu, não você, nem ele. Eu, os meus, e o Zé.

O Zé Dirceu é tido como um dos grandes  arquitetos deste milagre que é o Partido dos Trabalhadores, porque na urbe, o encontro é um milagre. Juntar gente e mudar a história não era para acontecer, não... A história é uma sucessão de desastres silenciosos que soterram coisas boas e as substituem por réplicas, assim temos saudades de tempos bons que nem eram assim tão bons e a vida segue canalha.
Mas estavam errados sobre o Zé. Na verdade, ele é só um sujeito quase comum... não fosse por um detalhe: as pessoas não conseguem pensar por causa do Medo, ele as paralisa e nos faz correr para dentro e protegermos tudo o que nos é caro. Ali, o Medo captura, aterroriza e nos faz reféns... Mas o Zé não tem medo. Os cretinos vão saber disso.

Três bolas de fogo
incendiaram o mar
Acordei e eu não era eu
senti meu olho secando
eu era um pouco Dirceu


quinta-feira, 23 de maio de 2019

De novo às ruas ???????









 John Kennedy Ferreira*
 "E justamente quando parecem estar empenhados em transformar a si mesmos e as coisas, em criar algo nunca antes visto, exatamente nessas épocas de crise revolucionária, eles conjuram temerosamente a ajuda dos espíritos do passado, tomam emprestados os seus nomes, as suas palavras de ordem, o seu figurino, a fim de representar, com essa venerável roupagem tradicional e essa linguagem tomada de empréstimo, as novas cenas da história mundial” 18 Brumários, K Marx.


1) O governo Bolsonaro se apresentou à sociedade brasileira como um intervalo entre o Estado de Direito e uma Ditadura, incorporado por uma liderança de ultradireita, abriu uma luta contra a cultura e a qualquer crítica que possa ser formulada na sociedade. Tudo isso é parte de uma articulação ultraconservadora que visa no plano econômico o máximo de liberdade econômica (assessorada pelo o Estado), e de outro lado, o máximo de controle individual.
2)  No aspecto controle individual a luta contra a emancipação política das mulheres, dos LGBT, negros, índios... É fundamental para manter o controle social e ampliar ao máximo de exploração sobre as classes trabalhadoras.
3)  Foi dessa forma que, ancorado nas teses políticas do Escola Sem Partido, Bolsonaro e seus aliados se instalaram no governo. Desde o primeiro momento o alvo foi a educação (e a cultura). Não foi apresentado nenhum plano de governo, só discursos sobre a necessidade de cortes e ideias obscurantistas como a de obrigar os alun@s a cantarem hino nacional, militarização das escolas, redução do conteúdo à linguagem, à matemática e à bíblia como base do saber.  Concepções que levou à queda do primeiro ministro Vélez e sua substituição pelo ministro Abraham Weintraub.
4)  Weintraub declarou guerra ao ensino cortando cerca de 25% da educação básica e 30% da educação universitária. Os cortes na educação básica afetam capacitação profissional (25%), Educação de Jovens e Adultos (35%), programas de educação infantil (15,7%), manutenção e estrutura de creches e escolas (30%). Todos os cortes foram justificados em nome da Lei de Responsabilidade Fiscal, que exige o pagamento dos juros ao sistema financeiro e aponta os cortes nas áreas sociais como equilíbrio econômico.
5) Na educação universitária os cortes estão na casa de 30% (dependendo da instituição). O mesmo vale para os Institutos Federais, com cortes que podem ir além de 40%. Igualmente as bolsas e cursos de pós-graduação passaram a ser profundamente atacados pelas políticas de Bolsonaro. Trata-se antes de tudo, de uma política ideológica contra a educação, contra o conhecimento e a ciência brasileira, responsabilizadas por um suposto "marxismo cultural", por balbúrdias e atitudes ilícitas, porém atrás dessas críticas há os interesses das empresas privadas de educação.
6) O alvo de propaganda são as áreas de humanas, notoriamente a sociologia e a filosofia, mas os cortes se dão com maior profundidade nas áreas ligadas à saúde e exatas, afetando a produção de vacinas, tratamento de câncer, paralisando obras de construção  de hospitais, pesquisas sobre energias, agriculturas etc.
7) Durante as últimas 4 semanas tivemos uma intensa campanha de propaganda e de fake news, com imagens descontextualizadas, fotos de outros países etc. Tudo no sentido de construir um consenso sobre o papel negativo das universidades e da educação pública e sua necessária privatização. A surpresa foi a reação dos professores, funcionários, pais, população e principalmente estudantes que correram escolas, bairros distantes, fizeram cartazes, panfletos e construíram uma imensa mobilização em “15M”, que alcançou mais de 220 cidades e contabilizou mais de 2 milhões de participantes.
8) 15 de Maio foi o primeiro grande ato popular contra o Governo Bolsonaro!!!!
9) Deve-se salientar que o Governo vem sofrendo desgaste e está perdendo a confiança de sua base eleitoral. A incapacidade de chegar a um acordo com o Centrão sobre o tamanho do Estado, a (contra) reforma da previdência, o pacote de (anti) crime do ministro Moro, o desgaste com os militares protagonizado nas mensagens de Twitter do guru astrólogo Olavo de Carvalho, o enfrentamento com o STF e a desmoralização da imagem do país no estrangeiro dão o tom das trapalhadas do governo Bolsonaro.  Igualmente o Brasil perdeu mercado estrangeiro na China, UE, Rússia, Argentina e Oriente médio, causando prejuízos à setores que o apoiaram e fazendo com que boa parte da população se pergunte: afinal quando ele começará a governar?
10) Avesso a qualquer discussão democrática a opção do governo Bolsonaro foi rápida, imediatamente convocou suas bases ao confronto no dia 26/05.  A mobilização tem como mote a denúncia "da ingovernabilidade do país por conta dos grupos corruptos que infectam o parlamento e o necessário impeachment de membros do STF" e contará com apoio de setores conservadores, reacionários e, pelo menos, boa parte das igrejas evangélicas neopentecostais. 
11) Ao menos por enquanto o governo mantém-se fechado a qualquer diálogo com os setores opositores. A PEC 95 (a da Morte) colocou o Estado numa situação de ingovernabilidade especialmente agora que se aproxima uma nova recessão econômica mundial. A situação econômica é totalmente refém da lei de responsabilidade fiscal. Essa armadilha que o governo aceitou apresenta-se como o principal problema para a negociação, pois se resolver suspender os cortes na educação, terá que tirar verbas das forças armadas.
12) O fato é que o Bolsonaro conhece uma perda de credibilidade e pode conhecer nos próximos dias uma imensa derrota popular. A quebra de sigilo bancário de seu filho, o Senador Flávio Bolsonaro e de seu assessor Fabrício Queiroz e o envolvimento do senador com os milicianos e com a morte da Marielle Franco é visto como contundentes.  Tal fato pode inclusive chegar à presidência da República, já que a esposa do presidente Michele Bolsonaro, também terá suas movimentações bancárias investigadas.
13) O movimento de Bolsonaro apresenta-se como uma cartada definitiva apontando para o fechamento do congresso e do STF e visa aprofundar o golpe de 2016. Dois cenários emergem daí: se forem vitoriosos, teremos uma ditadura; se forem derrotados, o governo marcha para seu fim o que possibilita  a renúncia negociada impedindo o prosseguimento das investigações criminais.
14) Do lado da oposição de esquerda, as manifestações de 15 Maio deram alento e revigoraram as vontades. Aparentemente a tática do governo foi crer que os cortes mobilizariam apenas a chamada educação de elite (universidades e os institutos federais), mas a força dos sindicatos dos professores em maior grau e a mobilização da estudantada possibilitou que o movimento paralisasse a maioria das escolas de ensino médio e fundamental das grandes cidades. Vale dizer, que a derrota do governo não significa a derrota do neoliberalismo e de sua agenda e pode-se tirar o atual presidente e ter-se outro neoliberal por mais 8 anos como ocorreu na queda de Collor de Melo.
15) O movimento pode crescer e tem terreno para isso, mas precisa alcançar e mobilizar a juventude da periferia que não tem clareza do que significam os cortes e de que forma eles podem afetar desde o acesso ao livro básico à refeição, emprego e futuro. As entidades estudantis têm fundamental importância nesse processo mobilizatório, mas para tanto precisam rever a situação elitista em que se encontram e o seu apartamento dos problemas cotidianos das escolas e faculdades.
16) O Núcleo do avanço das manifestações deve estar nas relações sociais concretas como a questão do combate ao desemprego, a questão da previdência, o aumento de salário, da soberania nacional e da estima nacional e a reorganização do país. São os fatores concretos que mostram a possibilidade de aproximação com o povo. Será o concreto casando uma mobilização efetiva tendo como centro   a Greve Geral de 14/06 que possibilitará a passagem do cenário de defensiva.
17) Igualmente a questão da reorganização constitucional brasileira e da soberania está em pauta, a Libertação de Lula e de outros presos políticos é tarefa fundamental na atualidade, a superação do golpe e da agenda passa pela revogação da desnacionalização, passa por novas eleições presidenciais, inclusive com Lula podendo se candidatar ao cargo.
21/05/2019

* Doutor em História Econômica (USP), Professor de Sociologia da UFMA

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Junho pelo Avesso






Lincoln Secco






As manifestações deste 15 de maio de 2019 podem ser o início de uma virada na correlação de forças sociais.
Note bem: o início! Ou seja: o primeiro passo de uma longa caminhada.
Ainda assim é animador que a esquerda retome grandes manifestações de massas.



De Junho a Maio



A volta às ruas se frustrou em junho de 2013. Ali um protesto autonomista e de esquerda se ampliou inesperadamente e foi capturado pela direita com uma pauta propositadamente difusa. Até 2016 ela se unificou na campanha do golpe.
Lentamente, a esquerda retornou às ruas em defesa da legalidade e depois no combate às reformas trabalhista e da previdência no governo Temer.
Depois da vitória de bolsonaro era esperado que os partidos, coletivos e sindicatos ficassem em compasso de espera.



Reação em Cadeia?

A sucessão de barbaridades do governo, no entanto, acelerou a resistência. A entrevista de Lula, a organização da greve geral, a destruição da imagem internacional do país, o desemprego e as críticas ao governo na própria imprensa burguesa e na direita não bolsonarista traduzem a queda acentuada da popularidade do presidente.
Nesse contexto, a defesa da universidade pública contra os ataques do governo pode desencadear uma resistência maior. Professores e alunos podem funcionar como catalisadores.
Quais os resultados possíveis?



Resultados

1. O primeiro e inevitável é maior desgaste do governo. O bolsonarismo é uma modalidade neofascista de mobilização de um movimento de massa. Não é majoritário, mas diferentemente de governos anteriores tem força social ativa. Essa força vai permanecer, porém é possível começar a minar a confiança que ele tem na sua base social passiva.
2. É preciso dizer que esse é um governo que não apenas reproduz a violência estatal habitual contra protestos, ele é um espírito que anima o recalque e o ódio acumulado dos agentes da repressão. É preciso estar preparado para isso. O governo não constrói hegemonia e terá que apelar cada vez mais para uma violência generalizada. Quanto maior o número de manifestantes melhor para a esquerda. Cabe ampliar alianças sociais, especialmente com setores refratários da própria universidade. Não só é possível como já está acontecendo com manifestações de estudantes de medicina e cientistas da área de ciências biológicas de forma localizada. De maneira mais veloz que esperávamos porque o corte linear de 30% penaliza muito mais as áreas que recebem mais recursos obviamente.
3 Um junho invertido finalmente. Dessa vez a retomada da luta social, quando se massificar precisa unificar a pauta, ter um programa mínimo, uma direção de uma frente política e social e derrotar o governo.
A extrema direita não usa argumentos, viola as massas corrompendo os seus afetos. De tal maneira que não é possível argumentar sem uma força social real.



A Força das Ideias

Sua derrota terá que ser nas ruas antes de tudo. Sem ilusões de que haverá vitória fácil e rápida. Ao contrário, pode ser difícil e demorada e depender da própria experiência de sofrimento da população com a escolha que fez. Mas ela acontecerá porque o neofascismo liberal destrói as bases econômicas e civilizacionais do país. Não pode manter um estado nacional, apenas um monstro histórico, um principado governado por puro banditismo, como diria Maquiavel.
 À esquerda cabe criar a forma pela qual essa contradição será superada. A de uma nova Revolução democrática.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

ALGUMAS ANTINOMIAS BURGUESAS

É cediço que a tradição do arcabouço teórico legado por Karl Marx, de matriz dialético-materialista, compreende a intelecção do devir temporal através das contradições histórico-concretas, que se exibem de maneira cristalina nas lutas de classes: uma tradição teórica que já guarda quase dois séculos de existência.

Consoante tal tradição, a superestrutura jurídico-política da sociedade civil burguesa finca raízes nas contradições das relações de produção da infraestrutura econômica, de que resulta o caráter ideológico de tal superestrutura.

Ora, a contradição, portanto, é uma velha conhecida do materialismo histórico, e pode-se suscitar que no âmago da própria superestrutura ideológica da sociedade civil burguesa exibem-se ínsitas antinomias que descortinam tal jaez ideológico. 

O ordenamento jurídico, verbi gratia, encerra elemento nitidamente utópico, irrealizável, mercê do contínuo afrontamento entre ele e a prolixa casuística jurídica, eis que seu caráter abstrato exibe-se pouco afeto à realidade concreta, de que resulta esta prolixidade. Os juristas conhecem perfeitamente quão ingrata é a tarefa de subsumir o fato concreto na norma jurídica, quão caudalosa, verborrágica e sinuosa exibe-se a jurisprudência na tentativa de conferir efetividade ao Direito positivo.       

No âmbito político, por seu turno, observa-se que a democracia encerra elemento nitidamente aporético, mercê da necessidade de abroquelar qualquer programa partidário, inclusive os programas antidemocráticos: uma aporia inerente ao princípio democrático que se exibe cristalina. 

Na própria orbe econômica as antinomias medram, bastando destacar o elemento aporético da ideologia liberal: ora, a livre concorrência econômica pressupõe um guardião estatal das regras do jogo, como o CADE no Brasil, por exemplo, restando patente que o Estado não pode ser suprimido no próprio âmago da ideologia liberal. 

E assim por diante...

Logo, verifica-se que as antinomias não estão apenas nas contradições entre as relações de produção e as forças produtivas ou nas lutas de classes, elas radicam outrossim ínsitas na própria superestrutura ideológica da sociedade civil burguesa. 

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador e membro do NEC-PT)    
          

                 

                 

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

CONJECTURAS SOBRE A EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA MAIS-VALIA

Faz-se mister e urgente corrigir alguns equívocos constantes do meu artigo intitulado “Sobre valor e preço” (Revista Mouro n. 8, dezembro de 2013), notadamente no que pertine à postulação de inexistência da mais-valia absoluta: nesse diapasão, impõe-se aduzir que a mais-valia absoluta existiu historicamente como forma dominante no período da manufatura e do mercantilismo, sendo superada pela forma da mais-valia relativa após o advento da maquinaria e grande indústria e seu respectivo liberalismo econômico, inaugurados pela Revolução industrial do século XVIII. Após tal revolução, a mais-valia absoluta passou a existir apenas como forma residual e complementar ou subsidiária da mais-valia relativa.


Senão, vejamos.

Com efeito, o período da manufatura e do Estado mercantilista marca o incipiente desenvolvimento da forma mercadoria e, por conseguinte, da forma capital, conquanto já se observe bastante evoluído o trabalho assalariado, como consectário da separação histórica entre trabalho e meios de produção.

A manufatura exibe o período de subsunção meramente formal do trabalho no capital, quando a restrita base técnica exige a extorsão da mais-valia mediante o aumento forçado da jornada de trabalho, ou seja, um verdadeiro “roubo” de parte da jornada de trabalho do assalariado, roubo esse que, por si só, representa o incipiente desenvolvimento da forma mercadoria: cuida-se da mais-valia absoluta.

Simetricamente, a acumulação de metais preciosos pelo Estado mercantilista opera-se por meio de medidas protecionistas infensas ao pleno desenvolvimento da forma mercadoria, pelo “roubo” sistemático inerente ao antigo colonialismo e pelos estratagemas característicos desse tipo de política econômica, que engendra um estado de permanente guerra comercial e militar entre os países centrais em nome da consecução de vantagens no também incipiente comércio internacional.

Como existe um limite natural e fisiológico da expansão da jornada do trabalho assalariado, eclode em determinado momento histórico a subsunção real do trabalho no capital pelo advento da maquinaria e grande indústria típicos da primeira revolução industrial, no século XVIII, quando então exsurge a mais-valia relativa como descrita no meu texto supracitado, que foi inspirado, por seu turno, no capítulo X do livro primeiro de “O Capital” de Marx.

Aqui já estamos em período de pleno desenvolvimento das formas mercadoria e capital, restando a mais-valia absoluta como forma meramente residual e subsidiária da mais-valia relativa. Simetricamente, o Estado liberal soterra o mercantilismo em nome do livre comércio, condição necessária a esse novo patamar de desenvolvimento histórico da forma mercadoria e da forma capital.

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador pela USP e membro de NEC-PT)