domingo, 24 de agosto de 2025

O ELEVADOR

Pedro e Carla compunham um belíssimo e bem-sucedido casal paulistano, cada qual com seus trinta e poucos anos de idade, mas mesmo depois de dez anos de casamento ainda não tinham engendrado prole.


Eles habitavam um prédio de alto padrão no bairro nobre de Higienópolis, no centro da cidade de São Paulo, sendo certo que o seu requintado apartamento de duzentos metros quadrados era o único do trigésimo andar respectivo.


Cuidava-se de uma atipicamente gélida noite de sábado de fins de julho, com os termômetros indicando sete graus centígrados, e por volta das onze horas o casal, que estava sozinho assistindo a um agradável filme romântico, decidiu que a fome dos dois merecia celebração com pizza e vinho tinto.


Quanto ao vinho não havia muito a deliberar, já que sua adega estava bem fornida de tintos Bordeaux, egressos das melhores safras, mas no que pertine à pizza acabaram por decidir que encomendariam uma, inteiramente feita à moda portuguesa, no serviço de entrega do tradicional restaurante italiano do bairro, que os servia desde que se haviam mudado para aquele prédio, há dois anos.


Avençado isto, o problema que se imiscuía agora consistia em: qual dos dois desceria e depois subiria os trinta andares do prédio para buscar a pizza naquela noite de frio suficiente para congelar a medula dos ossos?


Como era costume, resolveram jocosamente a pendência no jogo de par ou ímpar e, dessa vez, a escolhida foi Carla, que foi compelida a vestir um confortável e espesso roupão de cor avermelhada, colimando desincumbir-se airosamente da saborosa, porém árdua tarefa.


A preguiça apresentava-se demasiada, mas quando o interfone tocou, alardeando a chegada do entregador com a encomenda, Carla não titubeou, levantou-se do sofá e dirigiu-se incontinenti ao elevador, já salivando com a imagem, delineada em sua mente, daquela iguaria inventada pelos napolitanos e, quiçá, aperfeiçoada pelos ascendentes lusitanos.


Aquele inverno era, com efeito, de um rigor implacável, e Carla sentia que lhe congelavam as extremidades do corpo, nada obstante o espesso e avermelhado roupão que a protegia.


A descida do elevador demorou os poucos segundos previstos, durante os quais nossa protagonista, que estava só, pôs-se a observar a sua própria e delgada silhueta refletida nos espelhos que cobriam as quatro paredes do recinto, o qual estava equipado com uma câmera, situada em um dos cantos superiores, que captava imagens de seu interior e as emitia diretamente para o monitor instalado na guarita do porteiro.


A distância que separava tal guarita do saguão de entrada do prédio não era de magnitude tão exacerbada, mas para Carla aquele percurso a céu aberto mostrou-se criogênico e úmido, pois também garoava, e ela o transpôs de forma ligeira, quase correndo.


Cumprimentou cordialmente o porteiro da noite, que lhe abriu o portão interno, e logo pôde divisar a sorumbática e escura figura do entregador de pizza sobre uma bicicleta, o qual se apresentava guarnecido de uma vestimenta impermeável e negra que lhe cobria todo o corpo, inclusive a cabeça por intermédio de um capuz largo e apto a fazer sombra sobre a face, a qual restava inteiramente incógnita.


Carla aproximou-se do portão externo, que permanecia fechado, e saudou sem resposta o entregador de pizza, que remanescia com a cabeça abaixada e a face encoberta por sombras, a pouca distância das grades de ferro, do lado de fora. Ela, então, mostrou o dinheiro do pagamento e introduziu sua mão na abertura entre as grades, destinada precisamente a tais tipos de troca com a parte externa ao portão do prédio, para pegar a encomenda.


Já na posse da pizza, ainda quente, Carla lançou um olhar mais atento em direção à figura do entregador, que dessa vez soergueu a cabeça para deixar sua tez à mostra por um curto instante.


O susto de nossa protagonista não foi desprezível, pois o entregador ostentava um semblante lívido exatamente igual à horripilante figura do ator Max Schreck em ação no filme Nosferatu de F. W. Murnau, com suas orelhas e dentes pontiagudos e olhos esbugalhados sob sobrancelhas espessas.


Mas o susto durou pouco, eis que o portador de pizzas imediatamente voltou a baixar a cabeça, escondendo o rosto na penumbra e retirando-se do lugar com extrema rapidez e em total silêncio.


Recobrada, Carla fez um gesto positivo para o porteiro do prédio, que retribuiu com um aceno de mão, desejando-lhe boa noite.


Antes de adentrar o elevador no retorno ao aconchego terno e aquecido do lar, em que o marido aguardava ansiosamente para encetar o banquete de pizza e vinho tinto, a moradora do trigésimo andar ainda se deteve por alguns instantes e voltou-se para trás com o pensamento direcionado para a bizarra figura do entregador, talvez com receio de que ele pudesse, de alguma forma, tê-la seguido até ali. Mas ela estava só, certeza esta que não impediu, todavia, que um certo calafrio lhe trespassasse a espinha dorsal.


Moveu-se finalmente para dentro do elevador, apertou o botão correspondente ao trigésimo andar e as portas respectivas fecharam-se. O mostrador digital do recinto começou então a fornecer o progresso da ascensão, a qual, no entanto, interrompeu-se abruptamente.


De fato, o elevador parou com um solavanco quando o mostrador digital da ascensão indicava o décimo terceiro andar do prédio, e novamente Carla assustou-se, pois seus pés chegaram a despegar-se do piso, tamanha foi a brutalidade do movimento que deteve a subida.


Ela aborreceu-se profundamente com o que estava a acontecer, mas com espírito prático apertou o botão para que as portas se abrissem, e então notou que estava na metade do caminho entre o décimo terceiro e o décimo quarto andares, sem possibilidade de evadir-se.


Pressionou então o botão que lhe permitia comunicar-se diretamente com o porteiro e chamou-o pelo nome, mas ele não respondeu aos apelos cada vez mais desassossegados de Carla.


Conquanto não padecesse de claustrofobia, a incômoda situação exasperou-a e a deixou em estado de quase pânico, pois não conseguia de forma alguma comunicar-se com o mundo exterior ao elevador.


Foi então que descobriu por acaso algo que aliviou um pouco sua tensão: em um dos bolsos do roupão estava o seu telefone celular.


Ora, é cediço que telefones celulares costumam falhar dentro de elevadores, mas isso tampouco deteve Carla na tentativa de estabelecer contato com seu marido pelo aparelho que agora estava em suas mãos.


Malograram, todavia, as tentativas da nossa protagonista, já que o telefone celular realmente não estabelecia ligações dentro daquele recinto.


O desespero, então, estabeleceu-se, e Carla passou a berrar desbragadamente.


Tal cena, tétrica, foi interrompida também abruptamente por um novo e pouco auspicioso evento: as luzes do elevador apagaram-se sem aviso e calaram profundamente a voz estrídula da moradora do trigésimo andar.


Na mais impenetrável escuridão, dentro de um elevador parado no décimo terceiro andar e sem qualquer contato com o mundo exterior, Carla ainda chegou a acalmar-se um pouco e teve a ideia de iluminar o recinto com a luz do telefone celular.


Ao acionar a luz do celular, Carla mirou o espelho à sua frente e então um estremecimento fustigou-lhe alma: a imagem que se descortinava era a do entregador de pizza ao seu lado, com um sorriso cínico nos lábios a mostrar os dentes pontiagudos.


Pedro, no apartamento, começava a impacientar-se, pois já se passavam cerca de dez minutos desde que Carla saíra para pegar a pizza.


Levantou-se do sofá e chamou o elevador.


Quando este chegou ao trigésimo andar e a porta se abriu, Pedro vislumbrou no chão do recinto o telefone celular de Carla e a embalagem de pizza com a tampa fechada.


Abriu a tampa e verificou que dentro da embalagem havia somente um punhado de pedaços de borda de pizza com marcas de mordidas.


Carla nunca mais foi vista.


As imagens gravadas pela câmera do elevador mostravam que ela jamais adentrara o ascensor após ter pego a pizza no andar térreo do prédio.


(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA)

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

A CULPA NA TRADIÇÃO JUDAICO-CRISTÃ

Já observamos que a produção e reprodução da vida material humana em sociedade processa-se por meio de duas instâncias bem delineadas, a saber: a reprodução sexuada e o trabalho. 

Entre tais instâncias insinuam-se duas contradições básicas evidentes:

1. O trabalho é realizado de forma coletiva pela divisão social desse mesmo trabalho, enquanto a reprodução sexuada é efetuada de forma individual, o que engendra tensão entre o indivíduo e a sociedade nas relações de produção, ou seja, nas relações de propriedade dos meios de produção econômica. 

2. Da reprodução sexuada pode-se extrair o máximo de prazer, enquanto do trabalho pode-se obter o máximo de dor. 

A contradição em 2 provoca o sentimento de culpa, eis que, para a manutenção da população e extração de prazer pela reprodução sexuada, é preciso também trabalhar e experimentar a dor do trabalho, sob pena de extinção. 

Tal sentimento de culpa aparece de forma evidente no simbolismo do pecado original inserto nas Sagradas Escrituras da tradição judaico-cristã. 




por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador. 

sábado, 16 de agosto de 2025

DA MOEDA METÁLICA À MOEDA DIGITAL

Diviso três grandes etapas da evolução histórica do dinheiro, a saber:

1. Subsunção meramente formal do trabalho no capital: correspondente ao período da manufatura, anterior à revolução industrial inglesa do século XVIII e ao advento da maquinaria e grande indústria, em que a moeda ainda se exibe em sua forma metálica;

2. Subsunção real do trabalho no capital: posterior ao advento da maquinaria e grande indústria, quando a força de trabalho subsume-se efetivamente no capital, mas ainda em seu aspecto predominantemente manual e não intelectual, em que a moeda exibe-se como papel-moeda ou moeda fiduciária;

3. Subsunção total do trabalho no capital: período hodierno da revolução digital, quando a força de trabalho subsume-se no capital também em seu aspecto predominantemente intelectual, e não apenas manual, com o advento das moedas digitais ou criptomoedas.

Observe-se que tal evolução das moedas corresponde também a uma aceleração do processo de circulação de capital, o que encerra o condão de frear o declínio tendencial da taxa de lucro do capital, na exata medida em que diminui os assim denominados faux frais inerentes a esse processo de circulação de capital. 



por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador. 

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

O SUICÍDIO DE ALTHUSSER

Seguem algumas conjecturas bem incipientes e esquemáticas, na confluência entre psicanálise e marxismo, sobre o relato autobiográfico de Louis Althusser intitulado "O futuro dura muito tempo".

Nesse diapasão, partimos de três pressupostos, a saber:

1. A produção e reprodução da vida material humana em sociedade processa-se mediante duas instâncias bem delineadas, a saber: o trabalho, estudado por Karl Marx, e a reprodução sexuada, investigada por Sigmund Freud em seu aspecto psicológico. 

2. Louis Althusser não suportava o casamento monogâmico, tanto que estabelecia casos extraconjugais para constituir o que ele mesmo denominou como uma certa reserva de mulheres. 

3. Louis Althusser cometeu um injustificável feminicídio contra a própria esposa, mas foi considerado inimputável e confinado em manicômio judiciário. 

Sabemos que, através do complexo de Édipo descrito por Freud, o indivíduo separa-se do seu passado consubstanciado na família que o engendrou e constitui o seu próprio Ego, fundamento psicológico da propriedade privada dos meios de produção econômica e reprodução sexuada, típica da sociedade burguesa.

Ventilo aqui a conjectura de que Althusser exibia um Ego malformado decorrente de um complexo de Édipo incompleto, de tal sorte que o injustificável assassinato de sua própria esposa pode ser interpretado como uma forma de tentativa de aniquilação desse Ego e da correlata propriedade privada dos meios de reprodução sexuada, equivalente ao casamento monogâmico do ponto de vista jurídico burguês, ou seja, uma forma de suicídio.

De outro bordo, o comunismo teórico de Althusser pode ser visto como uma rebeldia contra o próprio Ego e a correlata propriedade privada dos meios de produção e reprodução típicos da sociedade burguesa. 

Conjecturas sub judice.




por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador.     

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

KARL MARX E FERNANDO NOVAIS

As obras de Karl Marx e Fernando Novais são complementares: com efeito, Marx investigou o dinheiro, ou a circulação de mercadorias, que precede historicamente o capital em sentido estrito, mas não chegou a estudar a extração de mais-valia nesta circulação simples de mercadorias, o que foi efetuado por Novais ao descortinar o antigo sistema colonial e a mais-valia pressuposta nas diferenças de preços entre metrópole e colônia, com desvantagem para esta última.


O capital propriamente dito consistiu na forma que o dinheiro encontrou para resolver a crise do antigo sistema colonial, mediante sua inserção no próprio processo de produção econômica através da compra de força de trabalho e extração direta de mais-valia nesse processo de produção, inserção essa propiciada pela prévia acumulação primitiva de capital com separação entre trabalho e meios de produção, cabendo destacar que a Inglaterra, país onde o capital se desenvolve pioneira e plenamente, era uma região periférica no âmbito do antigo sistema colonial.





Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira, historiador.

sábado, 9 de agosto de 2025

CYBERSYN

O projeto Cybersyn, implementado durante o governo do presidente chileno Salvador Allende no início da década de 1970, pode ser considerado como um protótipo ou experiência histórica embrionária daquilo que temos denominado, aqui neste portal eletrônico, como planificação econômica descentralizada com auxílio de internet e inteligência artificial.


Com efeito, esse projeto piloto conectou uma miríade de empresas nacionalizadas em tempo real, através da tecnologia disponível na época, o telex, a um computador central que, por intermédio de um software estatístico, processava dados quantitativos fornecidos por tais empresas com a finalidade de instruir políticas macroeconômicas.


Tal ousadia política de jaez socialista, pioneira e precursora daquilo que depois foi teoricamente desenvolvido, por exemplo, pelo economista marxista escocês Paul Cockshott, deflagrou uma violenta reação do imperialismo estadunidense, que, através da CIA, fomentou e apoiou uma importante porém malograda greve de caminhoneiros, a qual não conseguiu alcançar o escopo colimado de derrubar o governo socialista de Allende, o qual, no entanto, foi posteriormente deposto e assassinado por um sangrento golpe de Estado comandado pelo general Augusto Pinochet, também sustentado pelo imperialismo yankee.






Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira, historiador.

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

DINHEIRO E INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL (em homenagem ao camarada RONALD ROCHA)

De proêmio, rogo licença para evocar o texto de minha autoria  intitulado "A informação contra o capital", previamente publicado neste portal eletrônico, para então formular a seguinte indagação: o dinheiro será substituído pela inteligência artificial? A resposta é afirmativa, pelas razões a seguir.

O dinheiro consiste na forma autônoma do aspecto abstrato da mercadoria, isto é, seu valor de troca, e serve, através da circulação de mercadorias, como dispositivo de satisfação abstrata de necessidades humanas concretas.

Mas é preciso enfatizar que o dinheiro serve, pois, como forma abstrata e crítica de coadunar oferta e demanda econômicas, sujeita a flutuações e crises periódicas que obstam o livre desenvolvimento das forças produtivas. 

A internet e a inteligência artificial encerram hodiernamente a potencialidade de substituir o dinheiro em sua função de coadunar oferta e demanda econômicas, através daquilo que temos denominado, também neste portal eletrônico,  como planificação econômica descentralizada, uma forma de reatar a produção e o consumo econômicos com dados fornecidos em tempo real pelos agentes envolvidos, com o auxílio precisamente da internet e da inteligência artificial. 

Estados Unidos e China emulam atualmente pelo desenvolvimento da inteligência artificial como sucedâneo do dinheiro, e as medidas tomadas por Donald Trump contra a ameaça à hegemonia do dólar, máxime contra os BRICS, inserem-se nesta disputa pela supremacia econômica mundial. 

Mas vejam: os estadunidenses colocam-se por ora na frente desta corrida tecnológica, considerando sua suficiência na produção de microprocessadores e em projetos estratégicos como o STARGATE LLC.



por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador. 

domingo, 3 de agosto de 2025

DANÇA E MÚSICA (para Márcia Claus e Maria Reisewitz)

 A música, dentre todas as artes, talvez seja a que mais intensamente se manifesta no registro da abstração sensível. Ela não precisa da imagem, da representação plástica, da narrativa figurativa ou da materialidade da forma palpável. Pode ser integralmente fruída de olhos fechados — o que a distingue do cinema, da escultura, da pintura e mesmo do teatro. Sua presença, etérea e incorpórea, atravessa o corpo e afeta o espírito sem se fixar em uma representação visível. Neste sentido, a música é o mais próximo que a arte pode chegar da matemática, pois ambas operam com proporções, ritmos, simetrias e estruturas formais regidas por leis internas.


Não por acaso, Leibniz afirmava que “escutar música é fazer matemática sem se dar conta”. A escuta musical seria, assim, uma contagem inconsciente — uma operação rítmica na qual o tempo se organiza em intervalos e a mente, mesmo sem o auxílio da razão discursiva, decifra padrões, repetições, desenvolvimentos temáticos e modulações. A música se torna, então, a matemática tornada sensível, uma forma abstrata de experimentar o tempo ordenado.

Entretanto, a música não paira sozinha no ar da abstração. Desde os tempos primordiais, ela se enlaça à dança, isto é, à corporificação do som no movimento humano. A dança converte o ritmo em gesto, o tempo em espaço, a métrica em deslocamento físico. Com ela, a música deixa de ser apenas experiência auditiva para tornar-se também experiência cinestésica — ela ganha corpo, e o corpo, por sua vez, ganha consciência rítmica.

Nessa junção, revela-se algo mais profundo: a superação da cisão entre mente e corpo, ou melhor, entre abstração e concretude, na acepção marxiana da crítica à separação entre pensamento e prática. A dança ao som da música representa a sublimação dialética da abstração sonora, pois reconcilia o pensamento (a música como ordem invisível) com a prática corporal (a dança como ação sensível e situada no espaço).

Mas a dança, diferentemente do deslocamento cotidiano do corpo humano — que é caótico, fragmentário, muitas vezes alienado — não é aleatória. Ela é organizada por uma coreografia, ou seja, por um plano. A coreografia é uma planificação do movimento corporal realizada de forma consciente, coletiva ou individualmente, com objetivo estético e simbólico. Cada passo, cada deslocamento, cada pausa se inscreve numa totalidade coordenada. Trata-se, pois, de uma ordem pensada, mas não imposta por um centro autoritário: ela pode emergir de ensaios, improvisações, acordos tácitos — uma planificação descentralizada do corpo no tempo e no espaço, guiada pelo som.

E é aí que a metáfora adquire sua força revolucionária. Pois o que divisamos na dança musical não é apenas uma arte, mas uma imagem antecipatória do modo de produção comunista, em sua forma mais nobre: a da planificação descentralizada da vida. A coreografia dançada ao som da música representa, nesse sentido, uma utopia concreta: ela nos mostra como é possível coordenar movimentos individuais dentro de uma totalidade sem recorrer à coerção hierárquica, sem que haja conflito entre autonomia e harmonia.

Ao contrário do capital, que unifica abstratamente os indivíduos pela coação do valor e pela mediação cega do mercado, a dança coletiva concilia a liberdade e a ordem por meio de um acordo rítmico e sensível, onde cada um age por si, mas em consonância com os outros. É o retrato artístico daquilo que Marx chamou de reino da liberdade: uma sociedade onde a produção deixa de ser comandada pelo valor abstrato e passa a ser conscientemente organizada em função das necessidades humanas.

Portanto, ao olharmos para um corpo que dança ao som da música, vemos mais do que uma expressão estética. Vemos uma alegoria material da emancipação humana. A música — abstração sensível; a dança — corporificação rítmica; a coreografia — planificação horizontal; o conjunto — uma pré-figuração da sociedade comunista.

Nesse novo modo de produção, a humanidade deixará de ser uma abstração estatística, jurídica ou ideológica, e passará a se realizar enquanto totalidade concreta, viva, sensível, integrada. O movimento coreografado do corpo dançante é, por isso, a imagem prefigurada de um mundo reconciliado, onde a divisão entre trabalho manual e intelectual, entre indivíduo e coletividade, entre necessidade e liberdade, é finalmente superada.





Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira, historiador.