quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

A INFORMAÇÃO CONTRA O CAPITAL.

1. Na oposição entre valor e valor-de-uso, estampada logo no primeiro capítulo do livro primeiro de O Capital, de Karl Marx, reside implícita a oposição entre o abstrato e o concreto.
2. Quanto mais desinibida a divisão social do trabalho, mais longe de produzir para si próprio, segundo suas necessidades concretas de valores-de-uso, encontra-se o trabalhador, portanto mais abstrato seu trabalho e mais dependente da circulação de mercadorias, vale dizer, do dinheiro, para prover seu sustento concreto. Mister aduzir, outrossim, que quanto mais desinibida a divisão social do trabalho (e portanto mais abstrato o próprio trabalho), mais concretas as necessidades de consumo do trabalhador, em razão do progressivo acréscimo de novos valores-de-uso.     
3. O dinheiro, vale dizer, a circulação de mercadorias, consiste na forma abstrata de prover necessidades concretas, vale dizer, necessidades de valores-de-uso, e nessa oposição entre abstrato e concreto radica a contradição primordial entre oferta e demanda ínsita à sociedade capitalista, geradora de crises econômicas cíclicas.
4. O capital consiste, em sua essência, na subsunção dos meios de produção, portanto do próprio processo de produção, ao dinheiro, vale dizer, à circulação de mercadorias, e tal subsunção convola a circulação de mercadorias em circulação de capital, bem assim a produção de mercadorias em produção de capital.   
5. Os processos de produção e circulação de capital, destarte, consistem na forma hodierna e vigente de provento abstrato de necessidades concretas; vale dizer, a mediação entre o produtor concreto e suas necessidades concretas (por valores-de-uso) realiza-se abstratamente pelo capital. 
6. A tecnologia da informação guarda o condão de aumentar a velocidade de circulação de capital e, via oblíqua, a velocidade de produção de capital, de tal sorte que o aprofundamento da divisão social do trabalho compensa-se por esta aproximação gradativa entre produção e consumo viabilizada por tal tecnologia. 
7. A contradição desvelada em 6., acima, guarda também o condão potencial de reunir, pela tecnologia da informação, a produção e o consumo concretos, a saber, de valores-de-uso, sem a mediação abstrata do capital; vale dizer, se forem conectados, pela tecnologia da informação, produtores e consumidores concretos de valores-de-uso, a mediação abstrata do capital torna-se despicienda.
8. Na contradição desvelada em 7., acima, radica a oposição entre forças produtivas (tecnologia da informação) e relações de produção (capital).

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador)    
     

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

CINCO DIVAGAÇÕES SOBRE O INFINITO E O ABSTRATO.

1. Como cediço, o método científico, para Marx, faz o pensamento ascender do abstrato ao concreto, e nos parece que a história do conhecimento e da ciência percorre o mesmo caminho.

2. Destarte, o número, por exemplo, consiste em conceito abstrato, que enseja inclusive a ideia de infinito, algo que não existe concretamente no universo.

3. O próprio universo não é infinito, como demonstrou Hubble em 1929, mas está em expansão, de tal forma que os números não são aptos a captar a verdadeira natureza do universo.

4. A economia clássica, por seu turno, criticada por Marx em "O Capital", parte do indivíduo abstrato, isto é, apartado da atividade prática do trabalho em sociedade, para dessumir um "mercado" simétrico ao universo da física clássica, a saber, infinito e homogêneo.

5. Mister concluir, então, que o indivíduo abstrato e o número abstrato são entidades simétricas que correspondem a um patamar ainda incipiente da ciência e do conhecimento em geral. 

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador)

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

NÍVEIS DE ABSTRAÇÃO DO TRABALHO HUMANO.

NÍVEIS DE ABSTRAÇÃO DO TRABALHO HUMANO.

Segundo Karl Marx, o trabalho humano abstrato é aquele que atribui valor à mercadoria.

É mister suscitar que a abstração do trabalho humano aprofunda-se em consonância com o desenvolvimento histórico da divisão do trabalho, de tal sorte que o trabalhador depende cada vez mais da sociedade para prover a si próprio, na medida em que fica cada vez mais distante de produzir para seu próprio sustento. 

Nesse diapasão, distinguem-se alguns níveis históricos de abstração do trabalho humano, a saber: 

1) Ausência de divisão do trabalho: o trabalhador produz todos os artigos necessários para o próprio sustento;

2) Divisão social do trabalho: o artesão produz uma mercadoria completa com meios de produção próprios;

3) Divisão do trabalho na fábrica: o trabalhador assalariado produz partes de uma mercadoria, mas esta é feita integralmente na respectiva planta fabril;

4) Globalização atual: o trabalhador assalariado produz parte de uma peça feita na respectiva planta fabril, a qual não produz a mercadoria na sua integralidade, mas apenas uma peça sua. 

Destarte, nesse caso a abstração do trabalho indica quão distante resta o trabalhador de prover a si mesmo com o produto do próprio trabalho, sendo paulatinamente mais dependente da sociedade, no caso, capitalista. 

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA)