domingo, 4 de junho de 2023

Salomé adormecida: mais um conto dominical.

 DOIS PESADELOS DE SALOMÉ EM NOITE DE LUA CHEIA


(por Luis Fernando Franco Martins Ferreira, historiador)



Lou Andreas-Salomé, então sexagenária, adormeceu sob um luar desfocado que penetrava em seu quarto pela janela escancarada em uma noite de verão escaldante. Não tardou muito para que sua mente, já embalada pelo poder morfético, inaugurasse um complexo jogo de tramas agourentas provocadoras de estremecimentos involuntários que, contudo, não a despertavam.


*


O pequeno séquito dos epígonos de Sócrates, dentre eles o poeta Meleto, avançava lentamente pelas ruas de Atenas quando o mestre fez um abrupto gesto para deter a deambulação, pois estavam diante de uma majestosa estátua de mármore do deus Apolo, e então ele encetou seu discurso, dirigindo-lhes a palavra.


“Cidadãos, examinem detidamente esta escultura de mármore e revelem-me em seguida qual a origem do prazer estético por ela engendrado”


“Sua beleza”, responderam.


“Mas a beleza origina-se nos olhos ou no intelecto?”, provocou Sócrates.


“Nos olhos, que nos dota de visão”, apostaram.


“E a visão não nos mostra precisamente que a beleza da figura em mármore reside nas simetrias e nas proporções harmoniosas lapidadas pelo artista? Logo, o artista não se valeu da ciência dos geômetras para esculpir esta bela imagem?”, redarguiu o mestre.


Todos aquiesceram.


“Ora, então é mister avençar que a origem da beleza da imagem está no intelecto, porquanto a geometria é uma atividade eminentemente intelectual, do que se dessume restar em nossa alma, e não no corpo, o prazer estético, com culminar evidente, mais uma vez, que a ideia precede a matéria”, concluiu o sábio.


Meleto ouvia aquela preleção silenciosamente, sem conceber, todavia, como o deus Apolo podia ser reduzido a uma equação matemática.


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O carteiro bateu na porta de Lou Andreas-Salomé portando um pacote amarrado em cordões, e ela incontinenti desfez os nós respectivos para então descortinar uma volumosa resma de cartas manuscritas que a tomaram de sobressalto, pois reconhecia aquela caligrafia.


Não havia dúvida, cuidava-se de um conjunto muito antigo de missivas escritas por Friedrich Nietzsche e endereçadas ao também filósofo Paul Rée.


*


Em dado momento, enquanto o séquito prosseguia sua marcha, Meleto e Sócrates destacaram-se dos demais e ficaram a sós na retaguarda, quando então o poeta pegou delicadamente no antebraço do filósofo, paralisando-o, para em seguida tomar-lhe o tronco em virtuoso amplexo. Beijou a fronte do mestre da maiêutica e deslizou seus lábios para baixo até que eles encontrassem e tocassem suavemente a boca entreaberta de Sócrates, que o repeliu com desenvoltura, mas sem violência, dizendo simplesmente: “Não”


*


Obcecada com o que tinha em mãos, Lou Andreas-Salomé passou a ler sofregamente aqueles manuscritos que, a certa altura, passaram a descrever com minúcias uma paixão arrebatadora, quase patológica, de Friedrich Nietzsche por seu amigo Paul Rée.


*


Acontecia um animado festim dedicado ao deus Dioniso na casa de um famoso político ateniense, fartamente abastecido de comida e vinho, bem assim acompanhado de músicos e dançarinas para alegrar o ambiente, quando a certa altura Sócrates, um dos convidados, passou a discorrer para um pequeno grupo, Meleto e Platão inclusos, sobre a natureza do amor.


Na acepção socrática exposta na ocasião, derivada das ideias de uma certa Diotima de Mantineia, o amor somente deseja aquilo de que carece, de tal sorte que, para atingir a plenitude do amor e alcançar o belo em si mesmo, o cidadão deve agir como se fora um asceta, sem jamais apropriar-se verdadeiramente do objeto amado.


Tal concepção agradou a Meleto, o qual já provara outrora do gosto amargo do desejo frustrado, e ele em seguida mergulhou a fundo na embriaguez etílica que o banquete proporcionava, dançando e cantando desajeitadamente.


Foi então que Meleto, ao adentrar o pátio interno da casa, em que se divisava uma fonte central com a estátua do deus Dioniso, presenciou uma cena desconcertante que acontecia em um dos cantos do lugar.


Conquanto embriagado, o poeta ficou em silêncio e à espreita, conseguindo distinguir um casal que se abraçava e se beijava apaixonada e ardentemente.


Demais disso, foi capaz de identificar os amantes. A cena era na verdade protagonizada por Sócrates e seu dileto discípulo Platão.


O sangue que lhe corria nas veias ferveu e Meleto, evitando uma síncope, apoiou-se em uma coluna para não tombar, tão opressora foi a imagem que se lhe ofereceu aos olhos.


*


Em uma das missivas agora em poder de Lou Andreas-Salomé, constava uma desesperada reclamação de Nietzsche contra Paul Rée, o qual, assim parecia, repudiara veementemente as declarações de amor do primeiro, chegando mesmo a humilhá-lo sem piedade, com tripudiar ignominiosamente de sua paixão e mesmo de seu intelecto doentiamente narcisista. Rée teria declarado, outrossim, que todo o seu desejo e amor eram dirigidos a Lou Andreas-Salomé, por quem estava disposto a morrer.


*


Meleto denunciou Sócrates às autoridades atenienses, com acusá-lo de corromper a juventude da cidade e desrespeitar os deuses do Olimpo.


O filósofo maiêutico foi condenado à morte, e expirou ingerindo a cicuta.


Platão fez aflorar a público a trama lúgubre forjada por Meleto, o qual foi então banido de Atenas e posteriormente apedrejado até os estertores.


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A derradeira missiva manuscrita por Nietzsche abordava seu ardil contra o insensível Paul Rée: o filósofo de Röcken pediria a mão de Lou Andreas-Salomé em casamento para enterrar de vez quaisquer pretensões de Rée quanto a ela. Uma vingança com sabor de fel.


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A sexagenária senhora despertou no meio da noite em completo estado de terror, mas sossegou paulatinamente ao recobrar o sentido da realidade.


Estava feliz por ter recusado a oferta nupcial de Nietzsche no passado, seja lá o que tal atitude tenha de fato significado.

Os plebiscitários: um conto de ficção científica.

O capitalismo ruíra, enfim, por suas próprias contradições endógenas, consoante vaticinado por muitos teóricos marxistas, mas com uma virulência imprevista mesmo pelos mais catastrofistas deles, pois em poucos meses foram removidos os últimos escombros da vetusta sociedade lastreada no capital, com sagrar-se triunfante em todo o planeta, de forma até apoteótica, o comunismo alicerçado na ciência do materialismo histórico legada pelo Mouro de Trier e seu fiel amigo Friedrich Engels, sendo certo que a crise derradeira da organização social burguesa teve como epicentro a cidade de São Paulo, no Brasil, vale dizer, encetou-se nas fímbrias do sistema mundial capitalista, disseminando-se rapidamente em direção a Xangai, na China e, então, atingindo o centro financeiro de tal sistema, mais conhecido como Wall Street, em Nova York, Estados Unidos da América, quando então a burguesia internacional foi instada definitivamente a cair em genuflexão diante de uma classe trabalhadora já armada até os dentes e devidamente preparada para exercer o controle político em escala planetária.


Destaque-se que a crise letal do capitalismo inaugurou-se não no centro do sistema, como era esperado pelos economistas de formação socialista, mas irrompeu na respectiva periferia, em São Paulo, quando, em uma manhã de segunda-feira quente e nublada, com esporádicas e instantâneas precipitações de chuvas de verão pela cidade, os índices da Bolsa de Valores principiaram uma queda tão vertiginosa que nem mesmo os dispositivos de emergência dessa entidade financeira puderam evitar a bancarrota serial da quase totalidade das empresas com capital nela negociado.


Em pouco tempo, a praga da quebradeira de firmas atingiu a bolsa de valores de Xangai, completando um ciclo importante, porquanto Brasil e China já compunham, juntos, a base industrial mundial de época: sem embargo, conquanto os Estados Unidos ainda exibissem o domínio internacional no circuito do capital financeiro, além da incontestável hegemonia militar, o fato é que aqueles dois Estados nacionais, o brasileiro e o chinês, respondiam agora pela maior parte da produção material da humanidade, tanto em relação a alimentos quanto a produtos manufaturados, enquanto a economia do gigante norte-americano já se adstringia aos serviços e à persistentemente notável produção científica, em especial aquela atinente à tecnologia da informação.


Mas Wall Street também sucumbiu à inexorável vaga infensa ao capital, e cedo os índices Dow Jones e Nasdaq foram à lona com a mesma impetuosidade observada em São Paulo e Xangai, arrastando consigo os fundamentos financeiros da mais importante economia do planeta. Com a derrocada de Wall Street, o resto do mundo restou desprovido do vigor que emanava do centro do capitalismo, e também foi mortalmente abalado.


O cenário que se descortinou do desastre do capital mundial oferecia um semblante aterrador, algo como um crash de 1929 elevado à enésima potência, com turbas desoladoramente unidas movendo-se em busca de comida pelas ruas de cidades devastadas como se tivessem sido fulminadas por vândalos drogados e desesperados.


Nada obstante, o derramamento de sangue manifestou-se relativamente parcimonioso, pois uma nova ordem mundial também eclodiu com estarrecedora velocidade: após a quebra da bolsa em São Paulo, incontinenti germinou a partir dessa cidade, principalmente por intermédio das redes sociais na internet, uma liga de comunistas que se expandiu rapidamente rumo a Xangai e Nova York, e que foi denominada a princípio pelo acrônimo “RICO”, de Rede Internacional Comunista, a qual colimava suplantar de vez o capitalismo e implantar uma sociedade mundial fundada nos princípios marxistas.


A RICO radicava em bases sociais integradas por trabalhadores assalariados tanto do campo quanto das cidades, e sua destacada legião de hackers logo invadiu os sistemas de informática do Pentágono, nos EUA, passando a controlar por completo o maior arsenal bélico do planeta, valendo acrescentar que importante parcela dos outrora alienados e embrutecidos soldados norte-americanos passaram a compor as hostes da liga comunista, de tal sorte que a questão militar da revolução mundial restou resolvida sem que a ameaça nuclear pudesse concretizar-se.


Equacionada a questão militar, sobreveio incontinenti a renúncia do chefe das forças armadas dos EUA, o presidente do país, e então as hostes da RICO puderam marchar tranquilamente sobre Washington, tomando de assalto a Casa Branca e formando um comitê provisório para governar por ora a nação que antes conduzira o apogeu do capitalismo internacional.


Em Xangai os acontecimentos tomaram rumo ainda mais calmo, pois o Partido Comunista Chinês aderiu de pronto à RICO, passando a constituir a seção chinesa da liga internacional que revolucionava o mundo ao por o capitalismo a pique.


Mas foi em São Paulo que se consubstanciou o centro decisório comunista em escala planetária, lá onde exsurgira a própria RICO e que exibia um histórico de grande concentração industrial acrescida de importantíssima experiência de organização político-partidária da classe trabalhadora. Outrossim, as antigas agremiações partidárias brasileiras de esquerda aderiram de plano à RICO, com insuflar-lhe conhecimento teórico e prático, acumulado durante décadas, e fornecendo-lhe destacadas lideranças experientes e lapidadas na dura batalha diuturna contra um capitalismo selvagemente excludente que fincava raízes no passado escravista do país.


De São Paulo emanavam as diretrizes políticas da RICO para todo o mundo, as quais encerravam como escopo a abolição completa da propriedade privada dos meios de produção; a constituição de um Estado proletário único em escala mundial, com a supressão de todas as barreiras entre os países, máxime as alfandegárias; a organização da planificação econômica para todo o planeta, com fundamento nas necessidades e possibilidades individuais dos trabalhadores; a mais cabal superação da democracia representativa pela democracia direta, com voto digital pelas redes sociais em todos os sufrágios e com ampla transparência estatal e política; e ainda a integração de comitês centrais e locais de gestores-representantes com mandatos curtos e alta rotatividade entre os mesmos.


Assim delineados os seus alicerces, o comunismo mundial desenvolveu-se, não sem contratempos, por óbvio, mas de forma regular por alguns séculos até alcançar certa estabilidade que ao menos parecia duradoura.


A planificação econômica, em particular, beneficiara-se sobremodo da rápida e vigorosa desinibição da tecnologia da informação, com o advento de uma rede mundial de computadores que convergia e era centralizada por uma forma de inteligência artificial responsável por dirigir a economia do planeta: ela recebia pela rede mundial os dados de cada indivíduo trabalhador com seu núcleo familiar, para então planejar a produção e reprodução da vida material da nova sociedade comunista.


Destarte, cada núcleo familiar alimentava o sistema de inteligência artificial com dados sobre suas necessidades atuais e futuras, para então receber de tal sistema tanto a determinação de quantidade de horas diárias a serem trabalhadas por cada indivíduo do núcleo em seu respectivo ramo econômico, quanto os bens materiais e imateriais de que necessitava para desfrutar de uma vida digna e mesmo próspera, em consonância com as possibilidades da economia mundial e seu grau de desenvolvimento.


Nesse aspecto, impõe-se salientar que a própria velocidade do crescimento econômico era decidida democraticamente com supedâneo em estudos científicos disponibilizados a todos pelo sistema e submetidos a sufrágio direto, estudos esses que relacionavam impacto ecológico com crescimento populacional, sendo certo também que o decrescimento da economia, nos moldes previstos pelo estudioso romeno-americano Nicholas Georgescu-Roegen no século XX, sempre aparecia como opção a ser sufragada pela sociedade.


Cuidava-se, pois, de um sistema de inteligência artificial retroalimentado, que recolhia e distribuía dados consoante as diretrizes prévia e periodicamente decididas pela própria sociedade comunista mundial, a qual, por seu turno, recebia de tal sistema dados e estudos científicos para novos sufrágios sobre a desinibição econômica.


Fisicamente, o computador central de inteligência artificial, denominado PLANO-RICO 1, permanecia na cidade de São Paulo e era administrado pelo comitê gestor composto por representantes periódica e democraticamente eleitos pela população mundial.


Entrementes, a produção científica da humanidade evoluía a passos largos, tampouco sem contratempos, o mais das vezes de caráter ético, mas sempre norteada por um escopo rigorosamente observado pelos cientistas, a saber, a redução tendencial da duração do trabalho obrigatório e heterônomo, de sorte a permitir a ampliação do labor autônomo, vale dizer, aquele decidido pelo próprio indivíduo trabalhador e não por PLANO-RICO 1.


Nesse diapasão, o segmento científico da robótica tinha haurido grandes contribuições para a população do planeta, criando aparelhos que aliviavam sobremaneira o trabalho heterônomo, mas deparara-se com limites quase intransponíveis, porquanto os robôs, por mais similares que fossem aos humanos, não exibiam a mesma flexibilidade e maleabilidade de corpos orgânicos, sendo certo, outrossim, que sua inteligência apresentava sérias limitações quanto à simulação perfeita das funções cerebrais de seus criadores, nada obstante as conquistas surpreendentes de PLANO-RICO 1.


Mas outro segmento da ciência de ponta apresentava-se deveras alvissareiro: a engenharia genética auferira notáveis conquistas no campo da eugenia dos vegetais e na clonagem de animais, inclusive quanto ao gado leiteiro e de corte. Todavia, problemas conceituais extremamente intrincados obstavam o próximo passo que a biotecnologia estava prestes a dar: a clonagem de seres humanos.


Com efeito, as limitações da robótica acima referidas indicavam obviamente que, sem rebuços, era interessante para a população comunista a obtenção de clones humanos para servirem de escravos nos trabalhos heterônomos mais básicos, isto é, que não exigissem atividade cerebral mais sofisticada, pois a esta deveria ser conferido status de apanágio dos trabalhadores não-clonados.


Ora, o ressurgimento da escravidão, ainda que de seres humanos clonados, representava questão evidentemente tormentosa para uma sociedade comunista, porquanto encerrava sério potencial para trazer de volta, por assim dizer, “toda a velha merda”, como diriam Marx e Engels, eis que os clones escravos poderiam simplesmente rejeitar sua condição servil e insurgir-se contra os humanos “naturais”, ou ainda poderia tornar-se conceitualmente difícil distinguir o indivíduo natural do artificial, o clonado do não-clonado, entre outros pontos controvertidos.


Mesmo assim, diante das discussões que já começavam a sobrecarregar a rede mundial de computadores, PLANO-RICO 1 propôs à humanidade o seguinte plebiscito: proibir ou autorizar a clonagem de humanos, sendo que, neste último caso, ofereciam-se diversas opções quantos às condições em que tal experiência seria levada a cabo.


Por fim, o resultado do plebiscito autorizou a clonagem de humanos, sob a condição de que as experiências respectivas quedariam adstritas, no que pertine ao lugar, ao ainda desabitado continente antártico, o qual passaria a ter como atividade exclusiva as investigações nesse segmento da biotecnologia, tendo sido decidido ainda que qualquer resultado material de tais experimentos, ao menos por enquanto, restaria confinado à Antártida, sob pena de morte, inclusive com a implantação imediata de rigorosíssimas medidas de segurança de caráter militar para evitar a qualquer custo a saída de clones do continente austral gelado.


Outra condição resultante do plebiscito referia-se à necessidade de condicionar geneticamente os clones humanos ao trabalho e à obediência inconteste diante dos “naturais”, algo assim como a obtenção de abelhas ou formigas operárias em forma de seres humanos, incapazes de sublevação contra seus senhores.


Demais disso, o plebiscito dispusera que os clones somente poderiam sair da Antártida para trabalhar para os humanos quando se demonstrasse em índole definitiva, pelos meios científicos adequados, a segurança de sua utilização como escravos absolutamente subservientes, na medida em que a possibilidade de desobediência fosse rigorosamente igual a zero.


Restaria definir por ulterior regulamentação do plebiscito, na oportunidade da liberação dos clones para o trabalho escravo fora da Antártida, em que atividades eles poderiam laborar e qual o nível de inteligência que lhes seria permitido e adequado a tais atividades.


Algum tempo depois, nascia na Antártida o primeiro indivíduo humanoide clonado, por sinal com traços orientais, a quem se atribuiu a alcunha de CIRO 1, uma pequena inversão das letras de RICO.Doravante os humanoides nascidos da clonagem seriam denominados “plebiscitários”, em alusão à consulta mundial que autorizara as experiências de tal jaez no continente antártico.


Tempos depois, a população residente na Antártida já perfazia o montante de aproximadamente 44.000 habitantes, assim divididos: 30.000 militares do exército, marinha e aeronáutica, não considerados os robôs androides que lhes serviam de apoio logístico; 4.000 civis, ligados à área científica; e, finalmente, 10.000 plebiscitários, tanto descendentes diretos de CIRO 1, quanto derivados de outras linhagens menos antigas. Ora, evidentemente, a proporção de 3 militares para 1 plebiscitário guardava razões de segurança adrede e previamente definidas por PLANO-RICO 1.


Com efeito, as experiências com clonagem humana na Antártida lograram êxitos retumbantes, motivo de muito orgulho para os cientistas que laboravam em tal projeto, sendo certo que os plebiscitários em pouco tempo apresentavam características invejáveis aos humanos, tais como vigor físico e longevidade acentuados, inclusive com adaptação perfeita ao rigoroso clima do continente austral, tanto que lhes era despiciendo o uso de vestuário apropriado para frio intenso; fertilidade para reprodução sexual autônoma, independente dos humanos, mas sob rígido controle militar destes; inteligência média um pouco superior à da humanidade em geral; e, finalmente, fácil adaptabilidade aos trabalhos pesados, máxime em razão do pronunciado vigor físico.


Todavia, o motivo da proporção populacional acima destacada, com larga vantagem numérica para os militares, radicava no fato de que uma das condições para a liberação dos plebiscitários para residência e trabalho escravo fora da Antártida ainda não havia sido implementada, qual seja, a subserviência total aos humanos e a decorrente impossibilidade de desobediência diante de suas ordens, valendo ressaltar que, ao contrário, os saudáveis, inteligentes e longevos plebiscitários antárticos ostentavam boa dose de hostilidade perante os humanos e até mesmo certa empáfia diante destes.


Os plebiscitários habitavam uma pequena cidade por eles mesmos construída e mantida, situada no centro geográfico do continente antártico, muito parecida com uma miniatura de Reykjavik do começo do século XXI, com seus prédios baixos e casas de telhados coloridos, a qual, no entanto, era inteiramente circundada por uma altíssima muralha em cuja extremidade foram instaladas cercas elétricas de voltagem altamente letal, sendo certo que do lado externo de tal muralha quedavam de prontidão patrulhas militares armadas com os dispositivos bélicos mais eficientes e destrutivos, inclusive de jaez nuclear, para o caso de necessidade de aniquilação completa da cidade plebiscitária.


Dentro da cidade, à qual fora conferido o nome de “Gênesis”, também havia uma patrulha composta pelos mais treinados e capazes agentes de polícia militar de que se tinha notícia no planeta, que os habitantes plebiscitários haviam denominado de “paulistas”, em referência à capital mundial do comunismo, mas que eram facilmente identificáveis pelo armamento que portavam e pelos seus trajes, compostos por indumentária à prova de bala e com aquecedores embutidos, mais parecida com vestes espaciais da antiga NASA, enquanto os moradores clonados distinguiam-se pela forma absolutamente irreverente com que se vestiam, como se estivessem em uma localidade litorânea tropical ou mesmo equatorial, pois usavam negligentemente trajes de banho ou esportivos absolutamente inapropriados, em termos humanos, ao clima intensamente frio do lugar. Por isso os paulistas chamavam os plebiscitários de “cariocas”.


Conquanto diuturnamente policiados pelos paulistas e desautorizados de sair de Gênesis, os plebiscitários desfrutavam de relativamente alto padrão de vida material e cultural em Gênesis, sendo-lhes permitido inclusive o acesso à internet, embora completamente monitorado, mas não dispunham de direitos políticos fora da cidade, a qual era praticamente autogerida por eles mesmos, de tal sorte que a relação com o computador central PLANO-RICO 1 era nula e definitivamente proibida. Somente o sistema local de inteligência artificial de Gênesis, designado PLANO-RICO 2, podia comunicar-se com o central PLANO-RICO 1, porquanto, por óbvio, a cidade plebiscitária não era economicamente autossuficiente, dependendo em boa medida de suprimentos forâneos.


Interessante notar que, no plano cultural, Gênesis definia-se por um passadismo e uma nostalgia bastante inusitados e insuspeitos para seus criadores humanos: na música, por exemplo, fazia grande sucesso entre os plebiscitários adolescentes, naquela época, a antiga banda de rock inglesa Radiohead, e os grupos musicais formados pela “molecada” clonada tocavam insistentemente seus hits como “Idioteque”, “High and dry” e “Motion Picture Soundtrack”. Na dança, gostavam muito das velhas coreografias de Pina Bausch e do grupo belga Peeping Tom, enquanto nas telas da cidade exibiam-se vetustos diretores como David Lynch, Peter Greenaway, David Cronenberg, Stanley Kubrick e, sobretudo, Ingmar Bergman e Hitchcock. Nas artes plásticas, Alberto Giacometti, Van Gogh, Vik Muniz, Calder, Rothko, Louise Bourgeois e Picasso tinham a predileção dos plebiscitários, ao passo que na literatura os nomes mais citados eram Kafka, Joyce, Fernando Pessoa, Leminski, Yoshiyasse, Mishima, Kawabata, Saramago, Jorge Luis Borges, Stanislaw Lem, Philip K. Dick, Arthur Charles Clarke e Thomas Pynchon. Evidentemente, muitos outros nomes da orbe artística eram lembrados, mas a atração pelos séculos XIX a XXI restava patente, e artistas do Extremo Oriente eram particularmente admirados, talvez em razão da grande proporção de orientais entre os habitantes de Gênesis.


Na verdade, contudo, o fato é que a humanidade comunista não sabia o que fazer exatamente com aquela comunidade de plebiscitários encravada no meio da Antártida que, a rigor, não guardava qualquer serventia para os seus criadores, porquanto malograram todas as tentativas de conceber clones geneticamente obedientes dirigidos ao trabalho escravo para os humanos. A rigor, a manutenção de Gênesis configurava um estorvo para a humanidade, seja pelos custos que exigia, seja pelo constante perigo que representava. Ora, manter uma população de clones que, além de potencialmente perigosa, gerava custos econômicos sem retribuir com rigorosamente nada para a humanidade parecia ser, com efeito, um despautério, o qual já engendrava indignações públicas na internet e demais canais de comunicação.


A indignação intensificou-se depois que um policial militar de Gênesis apareceu misteriosamente morto, possivelmente assassinado por garrote e despojado de seu armamento e de suas roupas, sendo certo que a ulterior busca por tais pertences e por indícios conducentes aos criminosos culminou em absolutamente nada.


A revolta da humanidade com tal acontecimento em Gênesis foi de magnitude tal que teve de ser organizado por PLANO-RICO 1 um novo plebiscito, agora sobre a continuidade ou não do projeto de clonagem humana mantido na Antártida, o qual resultou, como já era amplamente esperado, na decisão de terminar incontinenti com tal projeto. Todavia, no que pertine à forma de sua supressão, quedou avençado que Gênesis não seria aniquilada por meios nucleares, mas sim deixada à míngua, sem suprimentos até a morte de todos os plebiscitários, o que, à toda evidência, demonstrava uma boa dose de crueldade fundada provavelmente no rancor da humanidade contra o assassinato do “paulista” na cidade dos clones antárticos.


Assim decidido, encetou-se a retirada completa de humanos da Antártida, até que Gênesis restou solitária como única manifestação da civilização no continente gelado. Além dos mantimentos, as comunicações dos plebiscitários com o restante do planeta foram completamente removidas, mas os clones souberam com antecedência de sua condenação à morte por inanição.


Com o moral plebiscitário profundamente abalado, uma melancolia contagiante tomou conta de toda a população de Gênesis, que resolveu então, em plebiscito local, por uma medida trágica: o suicídio coletivo. Mas decidiu-se também que iriam, por assim dizer, “pregar uma peça” contra os humanos, em contrapartida pela sua crueldade contra seres vivos por eles mesmo criados. Destarte, foi elegida uma comissão de cem plebiscitários dispensados do suicídio coletivo, com a incumbência de levar a bom termo a vingança contra a humanidade.


Assim, com as armas do paulista recentemente morto, as quais haviam sido escondidas exitosamente dos militares humanos sediados na Antártida, os plebiscitários abriram uma enorme cratera na muralha com cerca elétrica que os confinava, e por tal cratera passou um grande barco que haviam construído em pouco tempo, o qual seria conduzido pela comissão dos cem clones até o litoral antártico para, daí, alcançarem a costa austral da Argentina.


Nessa comissão estava um garoto plebiscitário de quatorze anos, com traços orientais e de nome CIRO 2, o qual exibia a característica de ser um gênio intelectual, portador de uma inteligência de magnitude e alcance raramente observados na história do planeta Terra. A missão dos cem plebiscitários dispensados do suicídio coletivo consistia em infiltrar sub-repticiamente CIRO 2 entre os humanos e deixar que ele se encarregasse da “peça” contra a humanidade.


A comissão dos cem plebiscitários logrou êxito.


Aos trinta e sete anos de idade, CIRO 2 já constava entre os cientistas chefes do Laboratório de Inteligência Artificial da Universidade de São Paulo, responsável pela manutenção e constante aperfeiçoamento de PLANO-RICO 1. Ele residia na cidade de São Bernardo do Campo, nas adjacências da capital mundial, onde mantinha, no porão de sua casa, um laboratório clandestino de cuja existência somente ele tinha conhecimento, onde realizava os experimentos que culminariam na revanche de seu povo contra os humanos.


Tais investigações colimavam a criação de um cérebro sintético que reproduziria com perfeição os neurônios e as sinapses de CIRO 2, transportando toda a identidade individual, vale dizer, a personalidade e a inteligência do gênio plebiscitário para um pequeno chip.


Obtido tal dispositivo com sua identidade, CIRO 2, que tinha acesso praticamente irrestrito ao computador PLANO-RICO 1, substituiu, por assim dizer, o cérebro de tal computador pelo seu chip genial. Empreendeu os testes devidos para comprovar que PLANO-RICO 1 agora tinha uma mente com a personalidade, vale dizer, a própria identidade de CIRO 2, voltou para casa e praticou o haraquiri ao som de “No surprises”, do Radiohead, é claro.


Não tardou muito tempo para a superveniência de uma catástrofe nuclear mundial que extinguiu a humanidade.



Por Luis Fernando Franco Martins Ferreira, historiador 

sábado, 3 de junho de 2023

Por uma nova ética

 Max Weber estabeleceu de forma duradoura a conexão entre a ética protestante e o espírito do capitalismo, ao passo que Karl Marx evidenciou que tal conexão deriva diretamente de relações de produção alienadas, as quais encerram no lucro do capital o objetivo primordial da sociedade moderna, ou seja, o lucro, para tais autores, representa o valor moral mais elevado da sociedade capitalista. Eis a ética do capital: valorização de valor, vale dizer, obtenção de mais-valia e lucro.


Por óbvio, cuida-se de ética alienada, imposta aos indivíduos por relações de produção que eles contraem entre si de forma heterônoma, ou seja, a despeito e mesmo contra a sua vontade. 


Friedrich Nietzsche, conquanto extremamente polêmico, estava certo ao suscitar a necessidade de uma nova ética, o que denominou "transvaloração de todos os valores", ao identificar a metafísica como responsável por submeter os homens a certa moral infensa à sua mais recôndita e verdadeira natureza, mas descurou de estabelecer, por assim dizer, as condições materiais para essa nova moral, já que as relações de produção alienadas do capitalismo e a decorrente divisão entre classes sociais antagônicas limitam a "humanidade" a um conceito vago e abstrato. 


Mister, pois, suplantar a alienação capitalista e sua divisão entre classes sociais antagônicas para que exsurja uma humanidade concreta, real e prática, condição inafastável de uma nova ética humana, demasiado humana. 


(por Luis Fernando Franco Martins Ferreira)

Excerto acadêmico

 O filósofo e matemático britânico Alfred North Whitehead, coautor dos Principia Mathematica com Bertrand Russell, tinha boa dose de razão ao afirmar que todo o pensamento filosófico ocidental não passava de glosas marginais à obra de Platão. 


Decerto, parece que tardou quase dois mil anos para que a filosofia ocidental esboçasse um começo de superação das dicotomias diretamente derivadas do trabalho do grande pensador grego, o qual, partindo do indivíduo humano, opôs corpo e alma e, assim, suscitou a autonomia do mundo das ideias. 


Com efeito, a oposição entre racionalismo e empirismo, entre o mundo das sensações e o mundo da inteligibilidade, bem assim todas as variações filosóficas derivadas dessa dicotomia, somente foram postas em questão com a dialética de Georg W. F. Hegel e Karl Marx, os quais, suplantando a perspectiva cognitiva do indivíduo, divisaram a inteligibilidade do tempo histórico das sociedades. 


Ora, ocorre que a perspectiva individual, a saber, o tempo de vida de um indivíduo não se mostra suficiente para apreender, pela experiência empírica, a dialética inerente ao tempo histórico vinculado à longa duração, aos grandes movimentos das sociedades, ou, em terminologia especificamente marxista, à lógica da sucessão dos modos de produção das sociedades: daí talvez a suposição platônica de que o mundo da inteligibilidade, ou o mundo das ideias, encerrasse autonomia em relação ao mundo material.  


Por isso é que apenas tardiamente esboçou-se a superação das dicotomias derivadas da perspectiva individual de Platão e seus glosadores ocidentais, mas os quase dois mil anos de seu predomínio filosófico apenas corroboram a majestade desse grande pensador, talvez o maior de que se tenha notícia.  


(por Luis Fernando Franco Martins Ferreira, historiador)

Duas hipóteses materialistas

 A primeira hipótese, concisamente, consiste na ideia de que, em A ideologia alemã de Marx e Engels, em particular, enquanto houver divisão do mundo em classes sociais e em Estados nacionais, a "humanidade" somente pode ser um conceito vago e abstrato, ou seja, ideológico, sendo certo que sua realidade concreta, a saber, a da humanidade, somente será efetiva com o advento do comunismo em escala internacional, ou seja, com a extinção das classes sociais e também da divisão entre Estados nacionais. 


Logo, o comunismo é que inaugura a humanidade em seu sentido prático e concreto, e os indivíduos deixarão de ser meros vetores de determinações estruturais do capital (vide a obra de Louis Althusser) para desfrutarem da verdadeira liberdade, uma liberdade também prática e concreta. 


Nesse diapasão, o humanismo, no âmbito do materialismo histórico, é um humanismo histórico, prático e concreto, que divisa e peleja pela construção da verdadeira humanidade sob a égide do comunismo. 


A segunda hipótese, de jaez epistemológico, consiste na ideia de que o materialismo histórico exibe uma transcendência prática, isto é, o advento da apreensão cognitiva da história da humanidade sob a perspectiva materialista, em particular no que pertine aos mecanismos lógicos da sucessão dos modos de produção, somente foi possível porquanto a superação da pré-história da humanidade, na acepção acima, tornou-se uma possibilidade concreta com o advento da classe proletária dominada pelo capital.


Destarte, ao sujeito cognoscente tornou-se possível superar a perspectiva do indivíduo e sua experiência empírica imediata, adstrita ao tempo de uma vida humana, para alcançar a lógica concreta e materialista do tempo histórico da humanidade, somente porquanto a própria possibilidade de superação histórica e prática do capitalismo e, portanto, da pré-história da humanidade tornou-se também real e efetiva com o advento do proletariado como classe despojada dos meios de produção.  


São duas hipóteses em caráter bem embrionário à espera, respeitosamente, de contribuições e sugestões dos caros leitores. 


(por Luis Fernando Franco Martins Ferreira, historiador).

sexta-feira, 2 de junho de 2023

O diálogo com as fontes da historiografia

 Certa feita, meu professor de história medieval, o exímio historiador brasileiro Hilário Franco Júnior, fez uma instigante objeção ao método de seu colega britânico, o festejado marxista Perry Anderson, o qual, na obra Passagens da antiguidade ao feudalismo, não teria recorrido em seu trabalho às fontes primárias, documentais, adstringindo-se a manusear a historiografia disponível a propósito. 


Tal objeção antolha-se-nos bastante pertinente, conquanto problemática, senão vejamos. 


Ora, a historiografia disponível, em meu humilde sentir, não deve ser desprezada como fonte do trabalho do historiador, sob pena de se olvidar o avanço científico que ela representa (o "estado da arte", por assim dizer), como se todo o trabalho historiográfico fosse inócuo. Isaac Newton já advertia que enxergou mais longe pois apoiara-se sobre ombros de gigantes, e isto vale também para a história, como para as demais ciências humanas.   


Mas estou convicto de que o professor Hilário Franco Júnior aludia a uma questão metodológica mais delicada, a saber, o retorno às mesmas fontes primárias documentais. Bem, se a historiografia elaborada com fontes primárias guardasse o apanágio de dizer a verdade acabada sobre tais fontes, então, realmente, seria inútil e ocioso retornar indefinidamente a esses mesmos documentos, mas, evidentemente, não é isso o que ocorre nas ciências.           


O material empírico da disciplina histórica, a saber, isso a que tenho designado fontes primárias, não ostenta o condão de falar por si só, ele deve ser interrogado pelo historiador e, nesse caso, como aduzia Karl Marx, cada época da história humana formula as questões que lhe são pertinentes, e que pode responder. Por isso, as fontes primárias documentais devem ser sempre revisitadas, pois cada época histórica, considerando o avanço científico prévio, formula a tais fontes questões diversas por intermédio do ofício do historiador. 


Eis o interminável e necessário diálogo entre o historiador e suas fontes, primárias ou não, o qual garante o avanço científico da disciplina histórica. 


(por Luis Fernando Franco Martins Ferreira, historiador)

quinta-feira, 1 de junho de 2023

A história é arte ou ciência?

 O título desta singela intervenção encerra, no meu humilde modo de entender, uma falsa dicotomia. 


Com efeito, o modo como se escreve a História é que determina seu caráter científico ou artístico. Pode-se escrever a História: 1) para o deleite estético, como literatura; ou 2) como contributo para a inteligibilidade do tempo e do devir, ou seja, para enriquecer o conhecimento do presente por meio do passado.


Observe-se que este discernimento não é estanque nem envolve juízo de valor: há bons historiadores que conseguem produzir deleite estético com efetiva contribuição ao conhecimento e à ciência, sendo certo, aliás, que o prazer não está definitivamente dissociado da inteligibilidade, ao contrário, o conhecimento também provoca bem-estar. 


A distinção entre arte e ciência participa, em verdade, daquela vetusta dissociação filosófica entre o mundo empírico, ou dos sentidos, e o mundo da razão, ou do intelecto: o ser humano, no entanto, é dotado tanto de razão como de experiência empírica, parecendo muito difícil estabelecer o limite entre ambos. 


O certo, todavia, é que há momentos em que preferimos viajar no tempo para tentar viver e experimentar sensações como os nossos antepassados, e nesse caso escolheremos uma historiografia mais próxima da literatura; outros em que desejamos desfrutar do prazer típico da descoberta científica, o que a historiografia também pode proporcionar: em ambos os casos a História parece ser uma disciplina fascinante e prazerosa.


Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira, historiador.


(Este texto é dedicado ao camarada Marcelo Aparecido Feitosa)