1. Consoante atesta o professor de história da Universidade de São Paulo, Lincoln Secco, em sua obra "História da União Soviética" (São Paulo, Maria Antônia Edições, 2020), página 115: "Apesar de subidas e descidas bruscas em virtude de guerras, a União Soviética teve altas taxas de crescimento até 1978. Desde o ano seguinte, a renda nacional teve aumento medíocre. A economia desacelerou pouco a pouco nos anos 1980. Sob Brejnev, a taxa média de crescimento nos anos 1970-1975 foi de 5,5%, e na segunda metade daquele decênio, foi de 4,3%. Em 1981-1985, às vésperas da Perestroika, foi de 3,2%. Os países capitalistas passaram pela mesma desaceleração econômica a partir da década de 1970"
2. Destarte, verifica-se coincidência bastante significativa no ano de 1978: no mesmo momento histórico em que o crescimento econômico da antiga URSS começa a declinar, a China, sob o novo comando de Deng Xiaoping, enceta reformas que, poucos anos depois, hauriram taxas de crescimento econômico estratosféricas, as quais lograram posicionar, hodiernamente, esse gigante asiático em emulação com os Estados Unidos da América pela supremacia econômica mundial.
3. Os acontecimentos de 2 parecem estar imbricados, ainda, com os pródromos da revolução microeletrônica e digital da década de 1980 no Ocidente capitalista.
4. No livro primeiro de sua obra máxima "O Capital", Karl Marx descreve os fenômenos correlatos de concentração e centralização de capital, típicos da acumulação capitalista, parecendo pertinente aventar que tal acumulação pressupõe também a tendência à concentração e centralização de dados econômicos sobre produção e consumo.
5. Tal tendência à concentração e centralização de dados econômicos, suposta em 4, parece confirmar a procedência e a viabilidade teóricas da planificação econômica centralizada nos moldes soviéticos.
6. Sucede, todavia, que o crescimento econômico aumenta a quantidade e qualidade de dados sobre produção e consumo submetidas à planificação centralizada, o que incrementa também, se não estiverem disponíveis sistemas microeletrônicos de armazenamento e processamento digitais de tais dados, a burocracia estatal economicamente improdutiva empregada na planificação centralizada, o que ocorreu, ao que parece, na antiga URSS, que não passou pela revolução digital e microeletrônica observada no Ocidente capitalista, vindo a desmoronar, por isso, em 1991.
7. O Partido Comunista Chinês, ao contrário do seu congênere soviético, encetou reformas bem sucedidas para atingir tal revolução digital em seu país, conquanto em detrimento tanto da planificação econômica centralizada quanto da abolição da propriedade privada dos meios de produção.
8. A China hodierna, prestes a obter a total independência no campo microeletrônico em relação ao Ocidente capitalista, poderia teoricamente adotar um modelo de planificação econômica centralizada, porém descentralizadamente alimentada e atualizada pelos próprios produtores e consumidores via internet, de tal sorte que todos os dados desses produtores e consumidores (pressuposta a estatização dos meios de produção) alimentariam contínua e atualizadamente um algoritmo digital e central de planificação econômica apto a coadunar, assim, oferta e demanda econômicas.
9. Evidentemente, o modelo teórico de planificação econômica em 8 seria otimizado se aplicado em âmbito mundial.
10. São singelas hipóteses para incentivar o debate.
(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador)