segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

REVOLUÇÕES TECNOLÓGICAS E CICLOS SECULARES

Em prossecução da publicação precedente, intitulada "Bosquejo conjectural", assumo conscientemente os riscos de aventar a hipótese de existência de ciclos econômicos seculares (ou centenários) no modo capitalista de produção, vinculados às revoluções tecnológicas, de tal sorte que temos:

1. Primeiro ciclo: da revolução industrial inglesa do final do século XVIII (que afetou o processo de produção de capital) ao advento da eletricidade no final do século XIX (que atingiu tanto o processo de produção quanto o processo de circulação de capital);

2. Segundo ciclo: do advento da eletricidade à revolução digital do final do século passado (que afetou primordialmente o processo de circulação de capital);

3. Terceiro ciclo: da revolução digital em diante, de sorte que é de se cogitar em nova revolução tecnológica a partir da segunda metade do século corrente. 

São anotações para debater.

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador)  

sábado, 1 de janeiro de 2022

BOSQUEJO CONJECTURAL

As primeiras revoluções industriais do capitalismo afetaram primordialmente o processo de produção de capital, o que conduziu a um declínio das taxas de lucro do capital industrial em razão do aumento de sua composição orgânica. 

Por isso, a revolução digital do último quartel do século passado afetou primordialmente o processo de circulação de capital, aumentando a velocidade de tal processo sem atingir de forma importante a composição orgânica do capital industrial, o que se mostrou infenso ao declínio das suas taxas de lucro. 

Todavia, o aumento da velocidade de circulação de capital conduz a uma diminuição da quantidade de dinheiro circulante, tendendo a anular tal quantidade, o que corrói o supedâneo do capitalismo correspondente ao dinheiro. 

Destarte, o capitalismo enquanto sistema de contradições exibe-se exatamente como descrito de forma pioneira e insuperável pelo genial Karl Marx. 

São anotações para debater. 

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador)


quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

CONTRIBUTO PARA UMA TEORIA ECONÔMICA DOS FATORES LIMITANTES

(Advertência: o vertente texto consiste em prossecução da publicação precedente, intitulada "Ampliação histórica do conceito econômico de trabalho produtivo", sendo-lhe, todavia, antípoda, de tal sorte que ambos devem ser submetidos ao crivo do teste empírico)

Até o advento da revolução industrial inglesa do século XVIII, o fator limitante da produção da vida material corresponde às forças naturais, máxime a força natural da terra arável, vale dizer, a força produtiva consiste basicamente na força da natureza e seus ciclos, sendo certo que a produção de valor econômico, portanto, restava condicionada pela força da natureza e seus ciclos, situação de que resultou a teoria fisiocrática de Quesnay, Mirabeau, Badeau, Rivière, Dupont e outros economistas, consoante a qual o trabalho produtivo era essencialmente aquele atrelado às atividades agropecuárias. 

Com o advento de tal revolução industrial, as forças da natureza começam a ser dominadas e potencializadas pelo capital, de tal sorte que o fator limitante da produção econômica passa a corresponder à força de trabalho, a saber, o próprio corpo humano, e não mais às forças naturais. Por isso, o valor econômico passou a ser determinado essencialmente pelo trabalho predominantemente manual, potencializado pelo processo fabril, máxime na teoria do valor-trabalho de jaez ricardiano-marxista. 

As ulteriores revoluções tecnológicas no modo capitalista de produção da vida material da sociedade tornaram tendencialmente ínfima a quantidade de trabalho predominantemente manual incorporado aos respectivos produtos econômicos, de tal sorte que o fator limitante deixou de corresponder ao trabalho manual, físico, e passou a identificar-se com o trabalho intelectual, agora potencializado pela revolução digital do último quartel do século passado.

Hodiernamente, portanto, o valor econômico é produzido predominantemente pelo fator limitante correspondente ao trabalho intelectual, de tal sorte que a produção de inovação tecnológica domina a criação de valor econômico.

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador) 

domingo, 26 de dezembro de 2021

AMPLIAÇÃO HISTÓRICA DO CONCEITO ECONÔMICO DE TRABALHO PRODUTIVO

No decurso da história econômica e da história do pensamento econômico, o conceito de trabalho produtivo ampliou-se, de tal sorte que se podem distinguir três fases bem delineadas, a saber:

1. Propriedade fundiária: anteriormente à revolução industrial inglesa do século XVIII, o conceito econômico de trabalho produtivo adstringe-se à atividade agropecuária, consoante, por exemplo, a teoria dos fisiocratas, notadamente François Quesnay;

2. Propriedade dos meios de produção: após tal revolução industrial, o conceito amplia-se para abroquelar também o trabalho fabril, atrelado ao processo de produção de capital, consoante livro primeiro de O Capital de Karl Marx, bem assim a obra dos economistas clássicos britânicos, como Adam Smith e David Ricardo;

3. Propriedade dos meios de circulação: com o advento da revolução digital, nos anos 1970-80, o conceito de trabalho produtivo deve agora ser ampliado para abranger os trabalhadores envolvidos no processo de circulação de capital, notadamente os serviços de informática, telecomunicações e transportes, que guardam o condão de arrostar o declínio tendencial das taxas de lucro do capital industrial ao aumentar sua velocidade de rotação, sendo interessante notar que, hodiernamente, as economias centrais do capitalismo são dominadas pelo setor terciário, ou seja, pelo setor de serviços. 

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador)   

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

EXÓRDIO SOBRE CONSCIÊNCIA DE CLASSE E LONGA DURAÇÃO

Anteriormente ao advento da Revolução Industrial inglesa do século XVIII, os trabalhadores do campo e da cidade ainda conservam certa posse dos meios de produção e, portanto, certo controle sobre o ritmo da produção econômica, de tal sorte que ainda vigoram os limites individuais atinentes ao tempo de trabalho, o que nutre uma consciência individual bastante atuante. 

Com a eclosão da maquinaria e grande indústria, todavia, os respectivos trabalhadores, a saber, o proletariado perde inapelavelmente o controle sobre meios de produção e ritmo de trabalho, numa padronização forçada, imposta pelo maquinário, que fulmina aquela intensa consciência individual do trabalhador antediluviano, isto é, o trabalhador historicamente precedente à primeira revolução industrial. 

Contudo, esta padronização do tempo de trabalho favorece, ao suprimir a individualidade do trabalhador, sua consciência de classe social, e com ela a consciência da temporalidade de classe social que suplanta o tempo da vida individual. 

Nesse diapasão, Marx e Engels, intelectuais orgânicos do proletariado, na acepção de Gramsci, descortinaram pioneiramente a história das lutas de classes, inscritas na longa duração dos distintos modos de produção ao longo do tempo, com desvelar ainda a dinâmica de tais modos de produção nas contradições entre relações de produção e força produtivas. 

Quando Fernand Braudel, já em meados do século passado, sistematiza a assim designada "longa duração" no âmbito da historiografia mais acadêmica, sua inspiração nas investigações dos fundadores do materialismo histórico exibe-se evidente, com as continuidades e descontinuidades de tal temporalidade a desbordar os limites temporais de uma vida individual, favorecendo destarte a história coletiva das classes sociais e outros grandes agregados. 

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador)

  

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

PARTIDO E CLASSE

Colho do ensejo para render homenagem ao exímio historiador José Rodrigues Mao Júnior, que costuma aduzir que o centenário Partido Comunista Chinês promove o desenvolvimento das forças produtivas no gigante asiático, asserção com a qual estou plenamente de acordo, mas apenas acrescentaria o seguinte: e promove também o amadurecimento histórico da classe trabalhadora chinesa para conduzir o país rumo ao socialismo. 

Sim, pois a classe trabalhadora sofre mutações históricas que devem ser examinadas e consideradas, tanto tática como estrategicamente, pelo partido que representa sua vanguarda política. 

Tomemos, por exemplo, o caso da classe trabalhadora dos Estados Unidos da América, o país de capitalismo mais desinibido: os trabalhadores do Cinturão da Ferrugem foram suplantados pelos trabalhadores do Vale do Silício, sendo certo que, nesse particular, a velha indústria de transformação foi superada pela revolução digital e pela tecnologia da informação, sem que a classe trabalhadora assumisse os meios de produção, conquanto tal classe tenha haurido, nesse movimento histórico, ganhos efetivos em qualificação técnica e de educação em geral. 

O caso emblemático da extinta URSS, de outro bordo, exibe movimento histórico diverso: aqui a classe trabalhadora da indústria de transformação tradicional, conduzida pelo Partido Bolchevique, assumiu o controle do Estado e dos meios de produção, mas se deparou com o problema da planificação econômica, desafio histórico para o qual ainda não estava amadurecida e preparada, devido à sua baixa qualificação técnica e educacional em geral. 

No caso chinês, todavia, o Partido Comunista vem conduzindo a respectiva classe trabalhadora a uma qualificação técnica e educacional sem precedentes, acompanhando a revolução digital no país, o que exibe o potencial de habilitar tal classe a assumir o controle dos meios de produção e encetar a planificação econômica de jaez socialista, com total êxito, em futuro não muito distante. 

São singelas anotações para eventual debate. 

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador)         

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

MAIS DÚVIDAS DO QUE CERTEZAS: BREVES ANOTAÇÕES SOBRE O VALOR DA FORÇA DE TRABALHO

De proêmio, mister destacar a existência de robustas evidências empíricas a relacionar a escolaridade, ou tempo de permanência na escola, à grandeza do salário, de tal sorte que quanto maior a escolaridade, maior a remuneração salarial: observe-se, por exemplo, que as investigações dos laureados do prêmio Nobel de economia do corrente ano corroboram justamente tais evidências empíricas. 

Pois bem, a questão do valor da força de trabalho em O Capital de Karl Marx antolha-se-nos bastante controversa, pelas razões a seguir expostas:

Parece inconteste, para Marx, que o valor de uma mercadoria é determinado pelo tempo de trabalho socialmente necessário para produzi-la. Ora, a força de trabalho exibe-se como uma mercadoria especial, porquanto não é produzida pelo trabalho industrial, abstrato, estudado em O Capital, mas é engendrada em parte pela natureza, em parte pela família do trabalhador e em parte pela educação que ele recebe fora do âmbito familiar.

Diante de tal impasse, Marx nos informa que o valor da força de trabalho, essa mercadoria especial, é determinado por uma cesta de produtos socialmente necessária para produzi-la e reproduzi-la, mas tal "cesta básica", digamos assim, parece atrelar-se mais adequadamente à época da primeira revolução industrial, quando a qualificação dos trabalhadores exibia-se bastante exígua e não exigia grandes esforços fora do âmbito familiar.

Mas à medida que avançam as ulteriores revoluções industriais, o trabalho torna-se mais complexo e demanda qualificação que somente a educação oficial, não adstrita ao âmbito familiar, pode oferecer. 

Destarte, imperioso investigar, hodiernamente, o exato papel da Educação na determinação do valor da força de trabalho sob prisma do materialismo histórico. 

Eis acima algumas anotações para eventual debate. 

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador)