Se anularmos o espaço aleatório correspondente ao intervalo entre os pontos zero e um da reta das abscissas no plano cartesiano, restar-nos-á uma singularidade geométrica: a pura coincidência entre dois limites que, embora topologicamente bem definidos, encerravam entre si um infinito denso de números reais. Essa anulação metafórica — que faz colapsar o intervalo num ponto — remete, em termos físicos, à densidade infinita do chamado instante zero da cosmologia padrão, aquele anterior ao surgimento do tempo, da extensão e da causalidade: o Big Bang.
No âmbito da matemática, a densidade do intervalo [0,1] expressa a infinitude não enumerável dos números reais, como demonstrado por Georg Cantor por meio do argumento da diagonalização. A supressão desse espaço, porém, elimina não apenas a continuidade, mas também a própria possibilidade de mensuração — e, com ela, a inteligibilidade do número como expressão da alteridade. Pois se o número designa um "outro" distinguível no espaço, sua supressão radical dissolve a alteridade e, portanto, o próprio fundamento ontológico do cálculo.
Entretanto, conforme já obtemperamos, a noção de número não é um a priori platônico ou mero constructo lógico-formal: ela deriva da noção de indivíduo, e esta, por sua vez, da forma histórica da propriedade privada dos meios de produção. O número, na modernidade capitalista, é a forma abstrata da contagem de unidades isoladas, passíveis de serem apropriadas, trocadas, quantificadas. Nesse sentido, a individualidade não é uma categoria natural, mas um construto social que corresponde à atomização dos sujeitos sob o regime da mercadoria.
O mesmo se aplica, por analogia dialética, às categorias de espaço e tempo vigentes na ciência moderna e na teoria cosmológica do Big Bang. O espaço, tal como concebido por Newton e herdado, com variações, por Einstein, é a extensão homogênea e mensurável dentro da qual os corpos se deslocam. O tempo é a sucessão mensurável de eventos. Ambos pressupõem a existência de entes discretos, separados, capazes de ocuparem posições distintas e de serem submetidos a transformações regulares.
Ora, esse modelo espaço-temporal repousa sobre uma ontologia da separabilidade: os corpos existem como entidades autônomas, individualizadas — tal como as mercadorias na circulação. É por isso que a cosmologia contemporânea, mesmo em sua vertente mais sofisticada, não escapa ao vício de origem de projetar a ideologia do capital sobre o cosmos, instaurando um tempo absoluto e linear, um espaço vazio e homogêneo, e uma singularidade originária que remete ao momento fundacional de toda propriedade: o ponto onde tudo ainda era Uno e indivisível, prestes a se expandir em múltiplos apropriáveis.
Dessa forma, a singularidade cosmológica — aquele ponto de densidade infinita anterior ao tempo — não é apenas uma hipótese física, mas também uma metáfora ideológica que consagra a origem do mundo como uma irrupção súbita da diferença a partir de um Nada absoluto. No plano social, isso espelha o mito burguês do contrato social, da gênese da propriedade, do surgimento do sujeito isolado.
A crítica marxista da economia política, entretanto, nos ensina que nem o número, nem o tempo, nem o espaço são neutros. Eles expressam, cada qual a seu modo, formas históricas de sociabilidade. A linha reta dos eixos cartesianos, o intervalo numérico contínuo, a sucessão dos instantes e a expansão do espaço-tempo nada mais são do que expressões matemáticas da forma-mercadoria, elevadas ao estatuto de universalidade ontológica.
A anulação do intervalo [0,1], portanto, não representa apenas uma abstração geométrica. Ela nos obriga a encarar o caráter socialmente constituído da matemática e da física, e a suspeitar da aparente neutralidade dos conceitos que organizam nossa compreensão do mundo. Como Marx advertia já nos Manuscritos de 1844, o ser humano produz a natureza enquanto se produz a si mesmo — e nisso se inscreve também sua cosmologia, sua álgebra, sua geometria e sua física.
Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira, historiador.