1. A formação do indivíduo: produto social e ilusão de autonomia
O ser humano, quando tomado isoladamente como indivíduo, não é uma substância originária ou pré-social, mas um resultado histórico da sociedade que o forma. A interiorização das normas, valores e estruturas simbólicas da coletividade precede e condiciona a emergência da consciência individual. Nesse sentido, o “indivíduo” é uma síntese social cristalizada, produzida pela história concreta de uma sociedade determinada — especialmente sob o capitalismo.
Porém, esse processo de constituição não ocorre de forma transparente. Ele é mediado psicanaliticamente, no plano subjetivo, pela estrutura do complexo de Édipo, conforme delineado por Freud. O desligamento progressivo da criança em relação aos pais — e a concomitante constituição do Ego — promovem uma ficção de autonomia subjetiva. A criança, ao se constituir como “eu”, separa-se simbolicamente do outro e do passado, erigindo uma instância racional centrada e delimitada.
Essa cisão funda a base de uma consciência egocêntrica, que assume a forma de sujeito abstrato. E é precisamente essa ilusão de autonomia e separação que se projeta, em plano social, como propriedade privada: o indivíduo como "proprietário de si", separado dos outros e do coletivo, senhor de seus objetos e produtos.
2. A gênese da forma-mercadoria: do Ego ao valor de troca
A consciência egocentrada, produto do processo edipiano, encontra sua correspondência objetiva na forma econômica da propriedade privada dos meios de produção. Essa estrutura, por sua vez, gera a mercadoria como forma dominante da sociabilidade: o produto do trabalho é separado de seu produtor e aparece como objeto portador de valor de troca, indiferente ao uso, à necessidade ou à relação concreta entre seres humanos.
A oposição entre valor de uso e valor de troca — central na crítica marxista da economia política — encontra, assim, uma raiz psíquica e estrutural na oposição entre indivíduo e sociedade, ou entre Ego e inconsciente. Enquanto o valor de uso representa a qualidade sensível, concreta, social do produto, o valor de troca representa a abstração mensurável, a expressão quantificada da equivalência mercantil — isto é, o domínio da razão formal.
3. Razão e valor: o consciente como instrumento do capital
A razão — especialmente na forma que assume na modernidade — é coextensiva à estrutura do valor de troca. O pensamento racional moderno é um pensamento de equivalência, de generalidade, de abstração. Sua operação básica é a substituição do concreto pelo mensurável, do singular pelo universal, do qualitativo pelo quantitativo. Exatamente como a mercadoria.
O dinheiro, como forma suprema do valor de troca, é a encarnação objetiva da razão abstrata. Ele reduz todos os objetos e relações a um denominador comum, desprovido de conteúdo, mas universalmente operável. A razão individual moderna, voltada à maximização, cálculo, mensuração, é assim um reflexo psíquico e epistemológico da lógica do capital.
4. O inconsciente como arquivo da história social
Se a razão está atrelada ao capital, a superação dessa razão exige sua negação dialética. Aqui reside a chave do argumento: é preciso submergir no inconsciente, entendido não apenas como instância psíquica individual, mas como arquivo histórico da formação social do sujeito. No inconsciente pulsa a história social recalcada, as formas de convivência pré-capitalistas, as estruturas simbólicas não dominadas pelo valor de troca.
Este “mergulho no inconsciente” é, assim, um gesto epistemológico e político: ao desvelar os processos que produziram o sujeito, desnaturaliza-se a forma-indivíduo e, com ela, a forma-mercadoria e a forma-capital.
5. Socialismo científico como ciência do inconsciente histórico
O socialismo científico, como o propõe Marx, é a forma teórica que desvela o inconsciente da razão capitalista. Ele revela que a racionalidade burguesa — que se pretende universal — é historicamente datada e funcional à dominação. Ele mostra que o sujeito egóico não é o ponto de partida, mas o ponto de chegada de um processo de separação, reificação e fetichização.
Portanto, o esforço científico revolucionário é regressivo no tempo e progressivo no conteúdo: retorna ao inconsciente, à história da produção social do sujeito, para desarmar as formas fetichizadas da razão e construir uma racionalidade nova, fundada na mediação, na historicidade e na emancipação coletiva.
Conclusão
A razão moderna é filha do capital, assim como o Ego é filho do Édipo. A crítica radical da sociedade capitalista exige, portanto, uma crítica da forma sujeito, uma arqueologia do consciente e uma liberação do inconsciente histórico reprimido. Somente assim é possível construir uma ciência verdadeiramente social — o socialismo científico como saber libertador, que não parte do indivíduo, mas o supera pela reconstrução crítica de sua própria origem.
Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira, historiador.