segunda-feira, 21 de julho de 2025

ONTOGÊNESE E FILOGÊNESE

 I. Introdução: a história como analogia estrutural do cosmos

A história humana, em seus traços fundamentais, pode ser vista como uma reprodução imanente da história do próprio universo físico, estabelecendo-se entre ambas uma analogia estrutural e ontológica. Assim como a cosmologia científica descreve a trajetória do universo a partir de uma singularidade densa e indivisível, rumo à complexificação, à diferenciação e à expansão espaço-temporal, também a humanidade emerge de uma forma social singular, fechada e concentrada — o indivíduo isolado sob a égide da propriedade privada — para caminhar, dialeticamente, em direção à universalização concreta das relações sociais e à superação da alienação: o comunismo.

II. A singularidade cosmológica e a singularidade social

A física moderna, especialmente sob a ótica da cosmologia do Big Bang, nos ensina que o universo teria surgido a partir de um ponto zero, uma singularidade físico-matemática de densidade e energia infinitas, anterior ao tempo, ao espaço e à causalidade.

Analogamente, na história social, o ponto de partida da modernidade capitalista encontra-se na singularização do sujeito burguês — o indivíduo proprietário, separado dos demais, delimitado jurídica e economicamente, absoluto em sua forma privada. Tal forma social é também uma singularidade ontológica: não existia em modos de produção anteriores, e inaugura, com o capitalismo, uma densidade histórica concentrada no sujeito-mercadoria, no sujeito da troca e do valor.

III. Expansão cósmica e universalização histórica

Com o Big Bang, a singularidade se expande: tempo e espaço passam a existir, a matéria se diferencia, forma-se estrutura. A entropia cresce, a complexidade se multiplica. A partir da origem comum, os corpos celestes afastam-se uns dos outros: o universo se torna plano, aberto, dilatado.

No plano histórico-social, a propriedade privada também se “expande”: o capital generaliza suas formas, o mercado se mundializa, o valor se autonomiza em relação à produção concreta. O indivíduo burguês, outrora local, torna-se forma universal: o ser humano é reduzido à condição de sujeito concorrencial, racional e isolado, ainda que ligado por redes técnicas globais.

Esse processo é, todavia, contraditório: assim como a expansão do cosmos implica tensões gravitacionais internas, a expansão do capital implica crises estruturais, esgotamento ecológico e insuficiência ontológica da forma individual como núcleo de sociabilidade.

IV. Do caos aparente à ordem superior: comunismo como estado universal

Se a cosmologia sugere, em alguns modelos, uma reversão futura do processo entrópico (Big Crunch, equilíbrio térmico, ou até ciclo eterno de contração e expansão), a história humana, pela via da dialética marxista, aponta para um salto qualitativo: a transição revolucionária para um modo de produção comunista, em que:

- A propriedade privada é abolida;
- O trabalho é socialmente organizado, não mais mercantilizado;
- As relações humanas deixam de ser mediadas pela equivalência abstrata do valor, e passam a ser fundadas na cooperação consciente e na planificação racional.

Trata-se da reintegração concreta dos seres humanos entre si e com a natureza, não mais sob a forma da singularidade isolada (indivíduo privado), mas sob a forma da universalidade concreta: o gênero humano organizado socialmente como totalidade consciente — uma nova ordem histórica tão abrangente quanto o próprio cosmos.

V. Conclusão: a história como expressão da matéria autorreflexiva

Se a cosmologia estuda a trajetória da matéria inconsciente no tempo e no espaço, a história humana é a trajetória da matéria que se pensa a si mesma — a matéria que se torna trabalho, linguagem, cultura, revolução. A analogia entre ambas não é apenas didática, mas revela que a história humana é a continuação da história cósmica sob outra forma: uma forma social, contraditória, consciente e orientada por finalidade.

Assim como o universo se expande da unidade para a multiplicidade, da homogeneidade para a complexidade, também a história humana caminha — entre rupturas, lutas e sínteses — da individualidade alienada para a universalidade emancipada.

O comunismo, nesse sentido, é o retorno da matéria a si mesma, em forma consciente, livre e socialmente reconciliada.







Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira, historiador.

Um comentário: