quinta-feira, 17 de julho de 2025

OS PÁSSAROS

 David Lynch, um dos maiores cineastas do século XX, costumava dizer que o momento em que um mistério é plenamente resolvido é o momento em que se torna enfadonho. Para Lynch, o valor estético e metafísico de uma obra repousa em sua capacidade de preservar zonas de opacidade, de conservar um núcleo enigmático que escapa à lógica interpretativa cartesiana.

Nesse mesmo parâmetro, pode-se afirmar que *Os Pássaros* (*The Birds*, 1963), de Alfred Hitchcock, talvez constitua a maior obra da história do cinema — justamente por manter em suspenso a origem, o sentido e a causalidade do fenômeno central da narrativa: os inexplicáveis ataques dos pássaros à população humana.

Os Pássaros se constrói a partir da suspensão da lógica ordinária da causalidade. Ao contrário da tradição clássica hollywoodiana — em que toda ação possui uma motivação psicológica ou factual clara — Hitchcock sabota a lógica do realismo narrativo e introduz uma perturbação sem causa visível, uma ruptura na ordem simbólica do mundo.

Isso aproxima sua obra da estética do próprio Lynch, para quem o cinema é um espaço de imersão no inconsciente coletivo, mais do que uma sequência racional de eventos. A diferença é que Hitchcock, ao contrário de Lynch, parte de um contexto realista e o desestabiliza gradualmente, ao passo que Lynch já emerge do delírio onírico.

Ao longo das décadas, diversos críticos tentaram “resolver” o enigma de Os Pássaros:

- Interpretação psicanalítica: os pássaros seriam projeções dos recalques da protagonista, ou metáforas do retorno do reprimido na forma de um colapso afetivo-familiar.
- Interpretação religiosa: os ataques configurariam um tipo de castigo apocalíptico, sugerido pelo tom bíblico da cena na escola e da mulher que anuncia o juízo final.
- Interpretação feminista: os pássaros seriam metáforas da opressão feminina, ou da luta entre figuras femininas conflitantes (a mãe, a filha, a nova mulher).
- Interpretação política da Guerra Fria: uma alegoria do medo coletivo da destruição irracional e súbita (bomba atômica, comunismo, etc.).

Todas essas chaves têm mérito, mas talvez não capturem o alcance atual do filme, que pode ser relido à luz da crise ecológica contemporânea.

Na era do Antropoceno, em que a ação humana passou a alterar irreversivelmente os ecossistemas planetários, Os Pássaros adquire nova dimensão: os ataques irracionais podem ser lidos como o retorno traumático da natureza violentada.

Sob esse prisma, os pássaros já não são apenas símbolos psíquicos ou sociais: eles se convertem em agentes de uma natureza recalcada, que rompe os limites do controle humano para reivindicar o lugar que lhe foi negado. Eles são, nesse sentido, metáfora da vingança do planeta contra a forma histórica do capital, que explora e degrada o ambiente até seus limites de colapso.

Trata-se de uma leitura em sintonia com pensadores marxistas contemporâneos como John Bellamy Foster, Andreas Malm ou Jason W. Moore, para os quais o capitalismo não é apenas uma forma de exploração do trabalho, mas também de subjugação sistêmica da natureza — o que se manifesta em eventos catastróficos cada vez mais frequentes.

A partir da psicanálise freudiana, podemos dizer que o recalcado tende a retornar de forma disforme, traumática e incontrolável. Se pensarmos que a natureza foi, historicamente, recalcada pelo capital — tratada como objeto inerte, como “recurso natural” a ser apropriado —, então os pássaros simbolizam o retorno sintomático desse recalque.

Neste quadro, o filme de Hitchcock antecipa aquilo que hoje se manifesta como colapso climático, pandemias zoonóticas, eventos extremos e caos ecológico. A diferença é que Hitchcock não oferece resposta racional, nem moral, nem científica. Ele simplesmente apresenta o mistério: eles atacam. E o fazem sem motivo, sem lógica, sem redenção.

Os Pássaros é, assim, um filme sobre o indomável, sobre a falência do projeto iluminista de dominação da natureza e sobre o retorno do mundo como sublime negativo — isto é, como força caótica que escapa à razão instrumental e que, uma vez desperta, não pode mais ser contida.

Na medida em que recusa explicações e conclui sem catarse, Hitchcock cria um cinema da inquietação permanente, uma experiência estética que toca as zonas mais profundas do medo humano: não a morte, mas a incompreensibilidade do real.

Se, como dizia Lynch, o mistério perde a graça ao ser resolvido, Hitchcock nos oferece, talvez, o mistério perfeito — aquele que, como a própria natureza, nos observa em silêncio e, por fim, revida.







Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira, historiador.

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