quinta-feira, 25 de março de 2021

REVISITANDO A EPOPEIA, SOB O OLHAR DO MASSACRE: A COMUNA DE 1871

 

 

 

Muro dos Federados - Cemitério Père-Lachaise. Fonte: Wikipedia 

 

Por Agnaldo dos Santos

 

 (Publicado originalmente em Mouro - Revista Marxista, nº 11, 2017, pp. 273-281)

 

É atribuída a Henrique de Navarra, futuro Henrique IV da França, a frase “Paris bem vale uma missa” (Paris vaut bien une messe), em 1593, quando abandona o protestantismo e adere ao catolicismo, para tentar pacificar o país dividido pelas guerras religiosas. Poderíamos adaptar sua frase para tratar de outro tema da história francesa tão ou mais importante do que os episódios que antecederam e sucederam a Noite de São Bartolomeu: “A Comuna de Paris bem vale um filme”! Sim, porque chega a ser impressionante que o dramático episódio, registrado na literatura, nos depoimentos de seus participantes e em tratados acadêmicos, tenha sido tão pouco explorado pelo cinema, maior veículo de entretenimento moderno, salvo a excepcional série francesa La Commune (Paris 1871), do diretor inglês Peter Watkins, que recriou em formato de documentário ficcional a epopeia dos trabalhadores parisienses.

            E até existe um roteiro prontinho esperando ser transmutado em película: é o igualmente excelente O Grito do Povo, uma adaptação de história em quadrinhos de Jacques Tardi do romance Le Cri du Peuple, de Jean Vautrin (HQ publicada no Brasil em 2005 pela Editora Conrad). A este material se somam outros publicados no Brasil anos anteriores, como o relato do communard Prosper-Olivier Lissagaray (História da Comuna de 1871, 1991 pela Ensaio), as cartas e artigos dos contemporâneos da insurreição (Crônicas da Comuna, 1992 pela Ensaio), coletâneas de artigos sobre o tema (Comuna de Paris na História, 2002 pela Xamã; Escritos sobre a Comuna de Paris, 2003 pela Xamã; A Comuna de Paris: os assaltantes do céu, 1983 pela Brasiliense; A Comuna de Paris, 1968 pela Laemmert), além do clássico de Marx (A Guerra Civil na França, primeiro pela Alfa-Ômega em 1973 e depois pela Boitempo, em 2011). Seria possível ainda lembrar outro clássico da literatura política, O Estado e a Revolução de Lênin (com diversas publicações em português a partir da Edições Avante) e o romance de Umberto Eco, o Cemitério de Praga (2011, pela Record), cujo personagem principal envolve-se com jesuítas, garibaldianos, maçons, satanistas, antissemitas e anticommunards.   Enfim, trabalhos para inspirar um cineasta interessado no assunto não faltam...

Agora, temos em português o estudo do historiador John Merriman, da Universidade de Yale, cujo título em inglês é bem mais impactante do que o adotado pela edição brasileira: “Massacre – The Life and the Death of The Paris Commune”. Pois, para o estudioso, é disso que se trata – um verdadeiro massacre da elite burguesa francesa contra o povo trabalhador que vivia na capital e que ousou questionar a ordem do Capital. Merriman demonstra grande erudição sobre o assunto, construindo sua narrativa dos acontecimentos nos gloriosos e fatídicos três meses de duração da efêmera revolução, utilizando fartas fontes primárias e secundárias (arquivos da polícia, da prefeitura e bibliotecas parisienses), além de relatos dos atores diretamente envolvidos, como o acima citado Lissagaray. Para um brasileiro que lê esta obra sob a conjuntura do golpe que inviabilizou o segundo mandato da presidenta Dilma Roussef (e, evidentemente, guardando as devidas proporções) soa familiar a contextualização que o autor faz dos antecedentes e do day after da Comuna. Senão, vejamos: uma cidade reluzente, o melhor lugar do mundo para quem tinha dinheiro e um verdadeiro inferno para seus pobres; intervenções urbanas que buscavam “modernizar” uma cidade que ainda mantida alguns logradouros com aspecto medieval, ótimos para levantes e barricadas; uma ascensão econômica pautada em grande medida pela liberdade que a oligarquia financeira desfrutava sob Napoleão III; o papel atuante da religião, no caso a Igreja Católica, em especial na educação primária; a forte oposição da classe artística ao establishment, bem representada pelo pintor naturalista Gustave Coubert, amigo de Pierre-Joseph Proudhon; o papel da mídia escrita no sentido de criar uma narrativa favorável às classes abastadas; uma crise política e econômica que buscou na guerra com a Prússia uma forma diversionista de resolução; por fim, uma repressão com requintes de crueldade e aplaudida de camarote pelas honnêtes gens, enrolados em suas bandeiras nacionais tricolores!

Se é verdade que a história contada por Merriman é bastante conhecida, ao menos pelo típico leitor de esquerda, seu livro ajuda a lançar mais luzes sobre vários aspectos que foram apenas pontuados por Marx e demais autores que se debruçaram sobre o tema. Alguns dispensam grandes comentários: a Comuna foi composta em sua grande maioria por trabalhadores semi-artesanais, pela Guarda Nacional, por jornalistas, advogados e outros membros da classe média progressista, mas também por trabalhadores desqualificados, mulheres que viviam da prostituição e abandonaram a atividade, de pequenos criminosos que viviam até aquele momento de furtos, enfim, de um amplo leque de personagens sociais.

Parece que relativamente poucos roubos foram relatados, e provavelmente apenas dois assassinatos ocorreram numa cidade que, apesar da saída de tantas pessoas, continuava sendo um lugar fervilhando de gente. Charles Beslay atribuiu isso ao surgimento espontâneo de uma “moralidade revolucionária”. Mas algumas evidências sugerem que os roubos na verdade podem ter aumentado. Não sabemos. [...] A Comuna proibiu a prostituição, fazendo algumas prisões e empurrando essa indústria para os cantos, embora doenças venéreas tenham proliferado, assim como acontecera durante o cerco prussiano (p. 109).

 

E, apesar do tom algo moralista pintado pelo ilustre autor de A Guerra Civil na França (“os ladrões e as prostitutas acompanharam a polícia versalhesa”), Merriman indica que boa parte das atividades relacionadas à vida boêmia e ao mercado de sexo continuaram durante a insurreição, ainda que muitos dos que ali viviam simpatizaram e até lutaram pelo novo regime.

O pesquisador de Yale reafirma o que sabemos sobre a composição política da Comuna, fortemente hegemonizada pelos partidários de Auguste Blanqui, de Proudhon e por alas radicais de republicanos (“jacobinos”), muitos deles veteranos das barricadas de 1848, tendo em menor medida membros da I Internacional, como o tipógrafo Eugène Varlin e a militante feminista russa Elisabeth Dmitrieff, que enviava informações do levante parisiense para Marx. Aliás, ao longo de todo o livro as figuras femininas são onipresentes, bem representadas pela militante anarquista Louise Michel, professora de educação primária e uma das mais destacadas lideranças do movimento. Também neste aspecto o livro resgata algo já indicado pelos textos anteriores que tratam do episódio, por ser algo bastante evidente para ser negligenciado. De acordo com Merriman, foi sobre elas que a fúria das tropas de Versalhes se fez mais visível, durante e após a Semana Sangrenta de 21 a 28 de maio de 1871:

A crença disseminada entre os versalheses de que a Comuna havia sido, em parte, obra de mulheres “arrogantes” e “antinaturais” pode ajudar a explicar o tratamento brutal que algumas delas enfrentaram depois de serem presas. Foram relatados estupros nos primeiro, oitavo e nono arrondissements [distritos]. Georges Jeanneret viu mulheres “sendo tratadas quase como árabes pobres de uma tribo de insurgentes: depois de matá-las, eles tiravam, enquanto elas ainda estavam em seus espasmos de morte, parte de suas roupas. Às vezes iam mais longe, como no sopé do faubourg (subúrbio) Montmartre e na Place Vendôme, onde mulheres foram deixadas nuas e violentadas nas calçadas” [...] A fúria de espectadores da classe alta, em particular mulheres, contra mulheres que supunham ser insurgentes, refletia um desejo de mostrar o perigo potencial de as mulheres esquecerem seu lugar (p. 307).

 

            Mas o livro traz informações negligenciadas ou, pelo menos, pouco trabalhadas por aqueles que estudaram o assunto. Uma delas é a luta que existia no interior da Igreja Católica e como isso pode ter influenciado o destino do arcebispo de Paris na Comuna. Georges Darboy era alinhado ao galicanismo, doutrina católica que existiu na França entre os séculos XVII e XIX, inspiradas no absolutismo de Luís XIV, segundo a qual a autoridade do episcopado francês teria precedência sobre a do papa. O conflito com Roma se manteve durante boa parte do século XIX porque o Vaticano aceitou assinar uma Concordata com Napoleão Bonaparte em 1802, que permitia ao Estado francês nomear os bispos no país.

Quando o arcebispo de Paris morreu, no último dia de 1862, o imperador escolheu Darboy para substituí-lo, ignorando a oposição do Vaticano. Ao saber da nomeação, sua mãe comentou: “Arcebispo de Paris, isso é bom, mas os arcebispos de Paris não duram muito tempo”. Desde que Darboy se mudara para Paris, três arcebispos haviam morrido – dois deles de forma violenta (p. 130).

 

Ele chegou a participar do Concílio Vaticano I (1869-1870) como oposição à infalibilidade papal, no entanto esta posição foi considerada uma heresia e ao final ele se submeteu à Roma. Mas após ser aprisionado pela Comuna, tornou-se um joguete nas mãos de Louis Adolphe Thiers, presidente do Governo Provisório que capitulou frente aos prussianos. Apesar de todas as tentativas dos comunardos e dos aliados de Darboy em trocar o arcebispo por reféns da Comuna, principalmente por August Blanqui que estava preso e enfermo, Thiers se negou até o fim em fazê-lo, provavelmente prevendo que o fuzilamento do clérigo lhe daria o argumento de que os comunardos era meros bandidos, que não mereciam o tratamento de prisioneiros de guerra. É possível que além deste cálculo político, Thiers tenha sido pressionado pelos monarquistas papistas que não simpatizavam com Darboy, visto como muito próximo dos Bonapartes. Marx também afirma em seu texto que o fuzilamento do arcebispo deveria ser creditado àquele “aborto degenerado” chamado Thiers.

            Como a obra procura destacar, além da vida durante a Comuna (capítulos 2 e 3), o processo de combate e a derrota da insurreição, boa parte da pesquisa levou em conta a repressão e as suas consequências para os parisienses que a sofreram. A partir da Semana Sangrenta, os comunardos foram caçados e executados sumariamente. Mesmo quem não era combatente comunardo também sofria o mesmo destino, pelo simples fato de ter permanecido em Paris.

 Um jornalista britânico estimou que entre 900 e 1,2 mil pessoas foram mortas [no quartel de] Lobau em 24 horas, sob supervisão do coronel Louis Vabre, dos Voluntários do Sena, um amigo sanguinário de Thiers. O massacre foi realizado de maneira implacável e eficiente. Como escreveu Victor Hugo em “Les fusillés”, “um som lúgubre permeia o quartel Lobau: é o trovão abrindo e fechando a tumba” (pp. 245-246)

 

            E ainda:

 Uma história horrível circulou rapidamente: uma mulher pediu para ver seu marido, pai de seus quatro filhos, que fora capturado. Um general respondeu com um sorriso que isso poderia ser providenciado: “Mulher respitável, vamos leva-la até ele”. Ela expressou seus agradecimentos e vários soldados jovens a escoltaram até um muro, onde a mataram. O Exército de Versalhes tinha dado um novo significado para a ideia de “reunir uma mulher com seu marido” (p. 259).

 

            Um aspecto importante, captado por outros estudos sobre a Comuna e que é bastante destacado por Merriman, foi a oportunidade que a repressão à Paris deu aos oficiais e soldados que foram humilhados na Guerra Franco-Prussiana de restaurar seu moral. E para que isso fosse possível foi necessário desconsiderar que suas vítimas eram elas também francesas, e neste sentido o espírito colonialista e o preconceito racial foram fundamentais para justificar a carnificina:

 

Soldados e comandantes com frequência comparavam os communards a “bárbaros” coloniais. Theophile Gautier os descreveu como “selvagens, com anel no nariz, tatuados de vermelho, dançando uma dança de escalpo sobre os escombros fumegantes da sociedade”. Gaston Galliffet certa vez contrastou os communards com os árabes norte-africanos que o exército francês vinha tratando com brutalidade há quarenta anos: “Os árabes têm um Deus e um país; os communards não tem nenhum dos dois. [...] Muitos soldados de linha haviam lutado na Argélia, no México e até na China e, na opinião deles, os communards não se classificavam mais como franceses do que os insurgentes que eles encontravam no exterior. Alphonse Daudet, outro anticommunard, disse que Paris estava “em poder de denegridos” (pp. 267-268).

 

            Havia uma preocupação, de parte do Governo de Versalhes, com a repercussão do massacre no exterior. A Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), com destaque para Marx em Londres, promovia campanhas de auxílio para as vítimas da repressão, e a própria imprensa estrangeira não podia deixar de notar e comentar a matança generalizada. Daí porque parte da imprensa e da produção literária francesa teve papel fundamental na justificação da repressão desumana contra a Comuna:

 

Entre o fim da Comuna e 1873, surgiram cerca de 300 livros apoiando a versão oficial dos acontecimentos. Esses relatos saudavam a vitória versalhesa e condenavam os “vândalos” e “bárbaros” da Comuna; Theóphile Gautier, Alphonse Daudet e outras figuras literárias publicaram seus ataques aos communards. A interpretação versalhesa da Comuna, procurando justificar a repressão sangrenta, continuou dominante ao longo do período da “República da Ordem Moral”, que durou até 1877. Vinte e um anos depois, um padre antissemita, horrorizado com o advento ao poder na França do povo que já apoiara a Comuna, argumentou que a repressão em 1871 havia sido “talvez ainda suave demais!” (p. 321).

 

            Merriman diz que existe ainda um debate acerca dos reais números sobre o massacre em 1871. Enquanto se estima que os reféns executados pelos comunardos tenham sido em torno de 68 (talvez 66), os números sobre as vítimas de Versalhes são difíceis de calcular. Os números ficam entre 17 mil (oficiais) e 35 mil, pois boa parte das execuções sumárias não tiveram qualquer tipo de registro, e muitas pessoas simplesmente foram consideradas “desaparecidas”, cujos corpos nunca foram encontrados. Muitos foram jogados nos rios, cobertos de cal, queimados e descartados em terrenos baldios fora de Paris. E ainda é preciso considerar o destino daqueles que não morreram fuzilados, mas padeceram nas masmorras da repressão:

 

Milhares de prisioneiros suportaram viagens longas e sofridas em carroças puxadas por animais até prisões em fortes e navios, bem como em pontões – prisões flutuantes – em Brest, La Rochelle, Rochefort, Cherbourg, Oléron, Lorient ou Île de Ré. Prisioneiros recebiam apenas um pedaço de pão para comer e duas canecas de água, e nenhuma oportunidade de “abaixar para cuidar da mais legítima necessidade!”. Isso era melhor do que ser morto a tiros, mas os prisioneiros ainda sofriam muito e nem todos acreditavam que tinham sorte. Uma canção que prisioneiros cantavam incluía o verso “Prisão é pior do que morte” (pp. 321-322).

 

Algo impossível de passar desapercebido é a iconografia do evento, que faz lembrar outros eventos igualmente traumáticos das últimas décadas do século XIX, como a Guerra Civil americana e a batalha de Canudos, no Brasil. Dezenas de cadáveres enfileirados um ao lado do outro, mostrando combatentes de diversas classes sociais que foram trucidados pelo Exército versalhês, nos trazem à memória as fotos dos sertanejos igualmente trucidados na Bahia e dos yankees e sulistas em sua guerra fraticida na América do Norte.

 

 

Comunardos de 1871. Fonte: Wikipedia

 


Antonio Conselheiro morto, 1897, em Canudos. Fonte: Wikipedia

 

 

 

 Soldados confederados mortos em 1862 nos EUA

 

 

Mesmo considerando as especificidades de cada massacre (trabalhadores urbanos rebelados, camponeses lutando contra a opressão sertaneja, interesses latifundiários contra interesses industriais concentrados na questão escravista), em todos os casos a mortandade sugeria para aqueles que as testemunharam que a humanidade teria chegado ao limite das potencialidades destrutivas. Porém haveria ainda todo o século XX para mostrar que tais conflitos eram apenas ensaios gerais da capacidade destrutiva de nossa espécie sob a batuta do Capital.

            Mas o livro, tão repleto de descrições da barbárie do qual é capaz a classe burguesa quando seus interesses são colocados em risco, procura mostrar também o quanto a experiência dos comunardos foi inspiradora para as lutas futuras. Apesar de boa parte da cidade ter mudado por completo sua aparência, e do novo regime reconstruir a Coluna Vendôme – cuja destruição tenha sido talvez a mais espetacular ação da Comuna – um monumento ainda faz ressoar a luta dos parisienses de 1871: o Muro dos Federados. Localizado no Cemitério Père-Lachaise, famoso por abrigar os sepulcros de personalidades como Honoré de Balzac, Oscar Wilde e Jim Morrison, o muro marca o local onde ocorreram fuzilamentos de comunardos na Semana Sangrenta.

Hoje, o Muro dos Federados continua sendo um monumento sombrio, estimulante, àqueles que foram massacrados pelas forças dos “homens da ordem”. As manifestações ali cresceram em tamanho em intensidade durante os confrontos de maio de 1968, e novamente três anos depois, no centenário da Comuna. Em 1983, o muro foi classificado como monumento histórico, em comemoração à vitória final da República francesa pela qual os communards lutaram (p. 328).

 

É possível afirmar, contudo, que a memória daqueles dramáticos eventos se mantém viva ainda nos dias atuais, mesmo depois da queda da experiência soviética, talvez sua filha mais notória, no final do século passado. Além das diversas versões de A Internacional que são executadas ainda hoje pelo mundo afora, cuja letra original foi escrita como poema pelo comunardo Eugène Pottier, referências ao levante proletário surgem nos diversos movimentos contra o neoliberalismo no início do atual século. Como o Movimento Democrático 18 de Março (MD18), criado em 2016 por brasileiros que vivem na França e outros países europeus e que, homenageando o dia do início da Comuna (18 de março), articulam no Velho Continente a denúncia do golpe contra o Governo Dilma. A luta contra as injustiças, de 1871 até hoje, mesmo com muitas derrotas (repletas de dignidade), continua inspirando corações e mentes, independente do idioma ou do lugar, no melhor sentido internacionalista: “Estamos aqui pela Humanidade”!

 

 

MERRIMAN, John. A Comuna de Paris. 1871: Origens e Massacre. Rio de Janeiro, Anfiteatro, 2015, 397 páginas.

 

 


terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Avaliação do processo eleitoral e os desafios para o PT

 





Núcleo de Estudos d'O Capital - PT/SP


1)      As últimas eleições municipais receberam dois tipos de análise: uma da mídia corporativa, decretando a derrota do bolsonarismo e do PT, tentando equipará-los e louvando uma “volta da política”, com a vitória de legendas típicas de direita (como o DEM), chamadas agora de “centro”; outra da burocracia do PT, tentando minimizar a derrota representada pela ausência de prefeituras petistas nas capitais dos estados;

2)      A primeira erra, ou omite deliberadamente informações, pois a conquista de eleitoral este ano do chamado Centrão fortalece a base de apoio bolsonarista no Congresso Nacional, ainda que pessoalmente Bolsonaro teve colhido algumas derrotas em cidades importantes como o Rio de Janeiro. Também esconde o fato de que a vitória do Centrão levou a um encolhimento expressivo do PSDB em nível nacional, o partido preferido da Faria Lima e da mídia corporativa, que ganhou São Paulo (cidade importante) mas recuou em outros tantos municípios pelo Brasil;

3)      Ainda nessa avaliação à direita, procuram construir uma narrativa de equivalência entre extrema-direita e PT para tentar vender uma “saída Biden”, ou seja, apresentar um candidato do grande capital como uma opção moderada, ainda que a esquerda e centro-esquerda não tenham nenhum traço do tão propalado radicalismo;

4)      A segunda avaliação, da burocracia petista, procura argumentar que não recuamos em relação ao pleito de 2016, e até teríamos voltado a ter prefeituras no embrião do partido, o ABC paulista, com as vitórias em Diadema e Mauá. Mesmo que numericamente seja razoável, esta avaliação desconsidera as dificuldades de renovação das lideranças do partido (basta ver o continuísmo na eleição para vereadores em São Paulo) e de apresentação de um discurso anti-hegemônico que combata tanto o antipetismo quanto o neoliberalismo, em doses diferentes no bolsonarismo e no Centrão;

5)      Os analistas políticos, petistas inclusive, insistem em apontar a singularidade local das eleições municipais, e que elas não permitem aferir a correlação de forças para a disputa nacional. Neste ano, havia um motivo para federalizar as eleições: a pandemia. Contudo, em quase todas as cidades, os temas locais continuaram falando mais alto. Pensando em 2022, os resultados das últimas eleições talvez tenham pouco peso, mas o retrato cru e frio aponta para a falta de renovação nos quadros petistas;

6)      O partido em São Paulo não conseguiu apresentar um nome competitivo, o que não seria problema em outros tempos, dada a sua capacidade de mobilizar a base militante. Mas a forma como ocorreram as prévias e a indicação de Jilmar Tatto como candidato levaram ao boicote dissimulado de parte das lideranças e dos candidatos a vereador, que escondiam o candidato majoritário em seus materiais. Muitos acabaram votando em Guilherme Boulos já no 1.o turno, e Jilmar ficou abaixo dos 10% de votos, atrás de um candidato de extrema-direita agora em litígio com o bolsonarismo, Artur do Val;

7)      O fenômeno eleitoral de Boulos deve ser analisado tendo em vista essa peculiaridade: foi favorecido pela ausência de um nome conhecido do PT, como Eduardo Suplicy ou Fernando Haddad, e acabou conquistando parte do eleitorado petista, contando ainda com a memória da gestão petista de Luiza Erundina, sua vice na chapa. Boulos teve uma vitória pessoal, que não pode ser creditada a algum crescimento exponencial do PSOL. Pois, apesar de ter obtido 200 mil votos a mais nas eleições proporcionais, não foi capaz de uma maior penetração nas periferias. Continua forte apenas em alguns nichos de classe média, como o meio acadêmico e artístico;

8)      Dito isso, precisamos olhar o quadro geral do pós-eleição 2020: Bolsonaro está diante de um dilema, que é assumir um programa econômico fascista típico, com forte presença estatal, ou continuar com uma agenda de austeridade fiscal que poderá ser fatal para sua reeleição, dada a situação econômica do país. Se conseguir se livrar da Agenda Guedes, será um candidato difícil de ser batido em 2022;

9)      A direita neoliberal tenta viabilizar nomes para ser um pretenso “centro democrático”, de Luciano Huck a João Dória, mas terá dificuldades de conquistar não só o voto conservador (fiel a Bolsonaro), como também apresentar algo que não seja o pacote econômico derrotado em 4 eleições seguidas, e que ficou invisível em 2018 devido à excepcionalidade daquela campanha;

10)   Ciro Gomes, que se desespera ao ver a resiliência eleitoral do PT, vai dando sinais de desembarcar de uma possível frente de esquerda e acena vigorosamente para o DEM de Rodrigo Maia e ACM Neto. A questão para ele é como conciliar suas propostas, que pressupõem um papel ativo do Estado na condução econômica, com o neoliberalismo puro sangue do grande capital, vocalizado pelo DEM. Corre o risco de perder votos tanto à esquerda quanto à direita;

11)   O PT é o único partido de esquerda estruturado nacionalmente, com uma bancada expressiva de parlamentares no Congresso Nacional e nas casas legislativas estaduais e municipais. Nenhuma alternativa progressista pode passar ao largo das forças petistas, ao contrário do que prega os Ferreira Gomes. Mas a dificuldade em analisar a grande derrota do impeachment 2016, iniciada em 2013 e coroada em 2018, impede por enquanto o partido de apresentar uma proposta convincente;

12)   Além disso, é preciso reconhecer que o nascimento e a construção do PT foram fruto de uma conjunção de fatores que não existem mais, como um operariado numeroso nos centros urbanos e a capilaridade das comunidades eclesiais de base católicas nas periferias. Consegue ainda resultados eleitorais razoáveis, mas encontra cada vez mais dificuldades em falar com os novos perfis da classe trabalhadora, pulverizada na informalidade e capturada pelo conservadorismo pentecostal. E ainda encontra um desafio inexistente nos anos 1980: o crime organizado em grande escala, em especial as milícias;

13)   O quadro econômico brasileiro é muito delicado, desde antes da pandemia e ainda mais após sua eclosão. Se Bolsonaro insistir numa agenda neoliberal de austeridade, dificultará sobremaneira sua reeleição. A esquerda em geral, e o PT em particular, devem calibrar uma narrativa que apresente alternativas progressistas no campo econômico, ao mesmo tempo que precisa tomar do bolsonarismo o discurso anti-sistêmico, porque nele é falso. Apenas uma agenda clássica de esquerda, de proteção ao trabalho, somada a temas ascendentes no século XXI (como meio ambiente, gênero e etnia), poderá ter chances contra a extrema-direita. Mas, para isso, terá que saber conciliar o melhor de sua tradição – materializada na figura de Lula – com a necessidade de romper com a mera lógica eleitoreira. E isso passa necessariamente pela renovação dos quadros partidários e do abandono de práticas viciadas ainda em voga. Mais do que nunca, o Brasil precisa de um PT forte e renovado. 


segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

HIPÓTESES ALEATÓRIAS E INCIPIENTES SOBRE PLANIFICAÇÃO ECONÔMICA

1. Consoante atesta o professor de história da Universidade de São Paulo, Lincoln Secco, em sua obra "História da União Soviética" (São Paulo, Maria Antônia Edições, 2020), página 115: "Apesar de subidas e descidas bruscas em virtude de guerras, a União Soviética teve altas taxas de crescimento até 1978. Desde o ano seguinte, a renda nacional teve aumento medíocre. A economia desacelerou pouco a pouco nos anos 1980. Sob Brejnev, a taxa média de crescimento nos anos 1970-1975 foi de 5,5%, e na segunda metade daquele decênio, foi de 4,3%. Em 1981-1985, às vésperas da Perestroika, foi de 3,2%. Os países capitalistas passaram pela mesma desaceleração econômica a partir da década de 1970"

2. Destarte, verifica-se coincidência bastante significativa no ano de 1978: no mesmo momento histórico em que o crescimento econômico da antiga URSS começa a declinar, a China, sob o novo comando de Deng Xiaoping, enceta reformas que, poucos anos depois, hauriram taxas de crescimento econômico estratosféricas, as quais lograram posicionar, hodiernamente, esse gigante asiático em emulação com os Estados Unidos da América pela supremacia econômica mundial.

3. Os acontecimentos de 2 parecem estar imbricados, ainda, com os pródromos da revolução microeletrônica e digital da década de 1980 no Ocidente capitalista. 

4. No livro primeiro de sua obra máxima "O Capital", Karl Marx descreve os fenômenos correlatos de concentração e centralização de capital, típicos da acumulação capitalista, parecendo pertinente aventar que tal acumulação pressupõe também a tendência à concentração e centralização de dados econômicos sobre produção e consumo. 

5. Tal tendência à concentração e centralização de dados econômicos, suposta em 4, parece confirmar a procedência e a viabilidade teóricas da planificação econômica centralizada nos moldes soviéticos. 

6. Sucede, todavia, que o crescimento econômico aumenta a quantidade e qualidade de dados sobre produção e consumo submetidas à planificação centralizada, o que incrementa também, se não estiverem disponíveis sistemas microeletrônicos de armazenamento e processamento digitais de tais dados, a burocracia estatal economicamente improdutiva empregada na planificação centralizada, o que ocorreu, ao que parece, na antiga URSS, que não passou pela revolução digital e microeletrônica observada no Ocidente capitalista, vindo a desmoronar, por isso, em 1991. 

7. O Partido Comunista Chinês, ao contrário do seu congênere soviético, encetou reformas bem sucedidas para atingir tal revolução digital em seu país, conquanto em detrimento tanto da planificação econômica centralizada quanto da abolição da propriedade privada dos meios de produção. 

8. A China hodierna, prestes a obter a total independência no campo microeletrônico em relação ao Ocidente capitalista, poderia teoricamente adotar um modelo de planificação econômica centralizada, porém descentralizadamente alimentada e atualizada pelos próprios produtores e consumidores via internet, de tal sorte que todos os dados desses produtores e consumidores (pressuposta a estatização dos meios de produção) alimentariam contínua e atualizadamente um algoritmo digital e central de planificação econômica apto a coadunar, assim, oferta e demanda econômicas.

9. Evidentemente, o modelo teórico de planificação econômica em 8 seria otimizado se aplicado em âmbito mundial. 

10. São singelas hipóteses para incentivar o debate. 


(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador)                                           

    

terça-feira, 17 de novembro de 2020

COMPANHEIRO CLOVES CASTRO, PRESENTE!

 


 


Por CIRO SEIJI, do Núcleo de Estudos d´O Capital do Partido dos Trabalhadores 

 

Hoje fui ver a despedida do Cloves.  Foi velado numa fábrica no bairro Serraria em Diadema, nem me pergunte como algo tão adequando encontrou seu caminho. Era quase uma multidão que convergiu para aquela quebrada para cantar a Internacional, e jovens e velhos militantes se revezaram para tecer uma impressionante colcha de retalhos, cada pedaço com uma riqueza de cor e textura, como preciosas frestas da história classe operária, só que por ela mesma; ouro puro: ...Ele quase escapou antes de ser baleado! Dizia um, ...prometi naquela tarde no Anhangabaú que não desistiria!, dizia uma companheira lembrando companheiros presos, ...meu pai ficou furioso comigo porque coloquei a faixa do Boulos no muro de casa.. dizia  Thiago não contendo as lágrimas.” Era um militante disciplinado! cumpria as tarefas! no PCB, na ALN, na Oposição Sindical, no PT, na AE...” disse Adriano Diogo tentando pescar lacunas na memória. O gigante  negro Miltão Barbosa eu nem ouvi, começou rindo e terminou chorando debaixo de por um monte de outros abraços negros. E vinham mais outros retalhos desta história mililtante : sobrinha acolhida como filha, filhos companheiros, companheiros irmão de luta, e não dava para escutar a todos porque de vez em quando passava um caminhão com caçambas de cavaco – vocês nem sabem o que é isto... quem acha que a classe operária acabou não viu aquelas fábricas  e favelas se espalhando dali até o pé da serra do mar, onde a água da represa conteve este formigueiro de gente e cimento. E ao fundo ainda a cadência das prensas Shuller  tremendo o chão, sério, não é poesia não -  é um baque surdo... a gente sente no coração. Valter Pomar termina a homenagem tão forte quanto afetuosamente: “viveu e morreu como um proletário”. E ainda desafiou a nossa burocracia que rifou a militância do combate do dia 15, e disse que a vida do Cloves serve para lembrar como é lutar sem se perder pelo caminho. Fui embora pensando na minha morte solitária. Fui embora pensando na minha morte provavelmente solitária,  e que inveja poder morrer abraçado por tantos!





segunda-feira, 27 de julho de 2020

TOMEMOS O EMPIRISMO "CUM GRANO SALIS"

De proêmio, exoro licença aos meus eventuais leitores para remetê-los ao singelo texto de minha autoria intitulado "O sujeito cognoscente como ser social, ou brevíssimas considerações sobre epistemologia materialista", publicado neste blog aos 16 de julho de 2019. 

Nesse diapasão, é mister observar com muito cuidado que o empirismo está hodiernamente em voga na produção científica, parecendo lícito ventilar, contudo, que esta tendência exacerbada de entronizar o material empírico pode ser uma forma de ideologia individualista típica de nossa época de hegemonia neoliberal. 

Sim, porquanto tomar o empírico pelo concreto constitui inversão característica das ideologias: ora, o material empírico, vale dizer, aquilo que se apresenta aos cinco sentidos do indivíduo não passa de mera abstração se não for mediada pelo pensamento. 

Destarte, o empírico puro, imediato, que se apresenta ao indivíduo singular, antolha-se-nos abstrato, eis que o concreto consiste no empírico pensado, mediado pelo pensamento, mas este pensamento deve ser capaz de apreender o concreto como síntese de múltiplas determinações, unidade do diverso, como já preconizava o velho Karl Marx.

Assim, a categoria da "mercadoria", verbi gratia, é a unidade que abroquela uma miríade de valores-de-uso empiricamente constatados, a síntese concreta de uma diversidade empírica que somente fica acessível ao conhecimento por mediação do pensamento.   

Todavia, o pensamento somente apreende tal unidade ou síntese se estiverem dadas as condições históricas para tanto: por isso que apenas tardiamente na história da humanidade restou acessível à ciência a intelecção da lógica dialética que comanda o evolver do tempo histórico, primeiramente de forma idealista com Hegel e, depois, de forma materialista e concreta com Marx e Engels. 

Tomemos, então, o empirismo cum grano salis, pois ele é uma etapa necessária, mas não suficiente para a apreensão do concreto pelo pensamento e, portanto, pelo conhecimento científico. 

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador formado pela USP) 

   

    

terça-feira, 7 de julho de 2020

IMPROVISO SOBRE A VOCAÇÃO HISTÓRICA DA FORMA-MERCADORIA

1. A vocação histórica da forma-mercadoria consiste na extração do máximo de excedente econômico dos produtores, comprimindo-lhes o respectivo consumo, mediante o mínimo de trabalho improdutivo, seja ele militar ou civil. 

2. Nesse diapasão, temos que, no escravismo antigo, sobretudo no Império Romano, observa-se uma máxima compressão do consumo dos produtores escravizados, mas o excedente econômico assim haurido é completamente consumido na atividade bélica improdutiva das forças armadas latinas, restando relativamente pouco excedente econômico convolado em consumo suntuário da classe dominante dos proprietários fundiários, com resultar em comércio bastante estiolado nas fímbrias do sistema, o que obsta o pleno desenvolvimento da forma-mercadoria. 

3. Já no medievo ocidental, o consumo dos produtores em condição de servidão exibe-se maior do que o dos escravos antigos, inclusive com desinibição de excedente econômico apropriado por tais servos da gleba, excedente este que fomenta um comércio marginal mais desenvolvido que no escravismo antigo.

4. Tal comércio desenvolve-se muito na época moderna dos Estados absolutistas mercantilistas, cabendo destacar que a forma-mercadoria desinibe-se exponencialmente como produto exótico de ultramar, de tal sorte que a burguesia mercantil apropria-se do excedente econômico literalmente "comprando barato e vendendo caro", comprimindo ao máximo o consumo dos produtores diretos europeus e ultramarinos.   

5. Ainda na época mercantilista, cabe destacar que o aparato militar mantenedor do sistema ainda exibe-se relativamente muito oneroso, obstando um maior consumo suntuário das classes dominantes e assim dificultando, contraditoriamente, a própria expansão e pleno desenvolvimento da forma-mercadoria. 

6. Esta forma-mercadoria realiza-se de maneira plena somente quando apropria-se do próprio processo produtivo, com a conversão da força de trabalho e dos meios de produção em mercadorias, bem assim com a redução relativa do aparato militar mantenedor do sistema, que se torna difuso, o que permite uma maior desinibição do consumo suntuário da burguesia industrial e uma acumulação acelerada de capital.

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador)