domingo, 13 de setembro de 2026

CRISTO E ÉDIPO

Parece lícito ventilar que, para Freud, o complexo edipiano consiste em certa medida no processo de formação do superego, com a introjeção no indivíduo da submissão à autoridade social difusa através da autoridade paterna.


Para o cristianismo, o Pai da Santíssima Trindade também representa, em certa medida, a autoridade difusa da lei do reino de Deus anunciada pelo Filho.


Observa-se, pois, certa convergência, nesse aspecto em particular, entre cristianismo e freudismo.


Hipóteses sub judice.






Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

REELEGER LULA, UM IMPERATIVO CATEGÓRICO

Vimos na publicação imediatamente precedente que o planeta está hodiernamente sob ameaça de dominação pela extrema direita internacional de jaez fascista, a qual pode nos conduzir a nova guerra mundial de consequências catastróficas.


Vimos também que, no século passado, o mundo vivia sob o mesmo perigo iminente, mas foi salvo pela esquerda política representada pela União Soviética.


Pois bem, tal esquerda política é atualmente representada pelo presidente Lula, cuja importância no cenário geopolítico mundial é inconteste, considerando o peso do Brasil na configuração hodierna das relações internacionais.


Logo, o presidente Lula cumpre hoje a função que a União Soviética desempenhava no século passado, vale dizer, a de escudo protetor contra a ameaça fascista internacional.


A reeleição do presidente Lula é, portanto, um imperativo categórico para a geopolítica mundial e, ademais, uma garantia de afastamento de uma catástrofe planetária sem precedentes!




Pelo coletivo do Núcleo de Estudos do Capital do Partido dos Trabalhadores

terça-feira, 8 de setembro de 2026

VATICÍNIOS

Há exatamente cem anos, na década de 1920, o mundo observava estarrecido o advento e ascensão de movimentos políticos de extrema direita no espectro ideológico, notadamente do movimento fascista na Europa, o qual prenunciava a grande crise econômica de 1929, com impacto de escala mundial.

Tal crise econômica culminou, dez anos depois, na violenta Segunda Guerra Mundial que poderia ter atribuído a vitória ao fascismo internacional, o que seria ainda mais desastroso sob prisma político, mas felizmente o mundo foi salvo de tal desastre pelo socialismo representado pela União Soviética.

Hodiernamente, estamos a observar a história em vias de se repetir, com a ascensão internacional da extrema direita política, representada agora na emblemática vitória recente do partido AfD na Alemanha, e não poucos economistas vaticinando uma nova grande crise financeira no curto ou médio prazo, talvez a manifestar-se como esgotamento da revolução digital pela eclosão da assim denominada "bolha" da inteligência artificial. 

Todavia, uma decorrente Terceira Guerra Mundial seria uma catástrofe completa para o planeta, dado o potencial nuclear de muitos Estados nacionais, e agora não temos a União Soviética para evitar e nos salvar de tal catástrofe. 

O mundo ainda pode ser politicamente redimido se as forças políticas socialistas existentes ainda exibirem algum viço.

O capitalismo por si só, no entanto, pode nos conduzir ao completo aniquilamento no curto ou médio prazo.





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.  

sábado, 5 de setembro de 2026

A ASTÚCIA DO DINHEIRO, OU O CAPITAL E A FENOMENOLOGIA DO ESPÍRITO.

Sem embargo, se Hegel expôs, em sua Fenomenologia do Espírito, o desenvolvimento da história humana mediante a astúcia da razão, Marx exibiu, em O Capital, a evolução das categorias econômicas através da astúcia do dinheiro.  

Ora, inicialmente como forma embrionária enquanto valor de troca, esse aspecto abstrato da mercadoria, o dinheiro emancipa-se como circulação de mercadorias para enfim culminar no capital, quando retorna ao concreto submetendo o próprio processo de produção de mercadorias.

Destarte, há uma notável homologia entre as duas obras filosóficas acima mencionadas, nas quais os seres humanos aparecem como títeres de desígnios transcendentes que lhes dirigem e governam a própria história à sua revelia, e até contra os mesmos.   

Evidentemente, há discrepâncias muito importantes entre Hegel e Marx, pois se, para o primeiro, a história humana pode culminar na forma elevada do Estado burguês enquanto estágio derradeiro de tal história (vide a obra do idealista hodierno Francis Fukuyama), para Marx o Estado burguês, como forma política do capital, representa apenas o estágio derradeiro da pré-história da verdadeira Humanidade, a saber, uma Humanidade ainda vindoura e despojada de divisões entre classes sociais e Estados nacionais, quando então os seres humanos livremente associados tomarão de assalto as rédeas de sua própria história. 






por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.  

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

O todo é maior do que a soma das partes, ou singelo esboço de crítica da macroeconomia keynesiana

A macroeconomia dos grandes agregados econômicos de tradição teórica keynesiana opera com a somatória simples dos correspondentes agentes econômicos, o que se me antolha, a princípio, um tanto reducionista e, quiçá, equivocado.


Sem embargo, no modo capitalista de produção os agentes econômicos, na maioria das vezes, operam como concorrentes, o que estimularia o avanço tecnológico e o aumento da produtividade respectivo, mas concretamente observa-se o fenômeno da formação de monopólios pela concentração e centralização de capital, e, contrariamente a um esperado declínio dos preços pelo mencionado aumento da produtividade, o que se nota é a propagação do fenômeno inflacionário.


De outro bordo, em uma eventual planificação econômica auxiliada por tecnologia digital na coleta e tratamento de dados, o que se poderá observar coincidirá com a sinergia da cooperação econômica entre os agentes correspondentes, com aumento de eficiência e de velocidade de circulação de produtos e serviços.


Em ambos os casos, o todo sempre é maior do que a mera soma das partes, isto é, do que o agregado.


Hipóteses sub judice.





Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

OGAS

O conceito de planificação econômica descentralizada instruída por tecnologia digital, como temos aqui preconizado, não é, em absoluto, uma novidade, mas tem como precursores históricos os projetos OGAS na União Soviética, na década de 1960, e o projeto CYBERSYN no Chile, na década de 1970, durante o governo de Salvador Allende. 

O primeiro, liderado pelo cientista da computação soviético VIKTOR GLUSHKOV, propunha uma rede hierárquica de três níveis de terminais localizados em regiões economicamente significantes que poderiam transmitir dados entre si em tempo real, utilizando a infraestrutura telefônica preexistente na União Soviética, de maneira a proporcionar um modelo de economia em que o papel-moeda seria substituído por pagamentos de forma eletrônica. 

Tanto o CYBERSYN quanto o OGAS parecem ter provocado imenso temor e receio por parte do Departamento de Estado norte-americano, e a CIA pode ter tido participação ativa no fracasso e posterior ostracismo de tais projetos de economia cibernética.

Hodiernamente, o PIX brasileiro já desperta grande atenção e animosidade dos imperialistas yankees, o que demonstra o quanto pode ser perigoso para o capital como modo de produção específico. 

Tanto o CYBERSYN quanto o OGAS estão a merecer investigações profundas por parte da historiografia econômica. 






por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA. 

CIÊNCIA E TRABALHO

A forma básica de divisão social do trabalho opõe o capital (detentor do trabalho eminentemente intelectual e, em decorrência, da produção científica) e o trabalho em sentido lato (vale dizer, aqui, como trabalho eminentemente manual), divisão esta que se reproduziu, verbi gratia, na experiência soviética, em que uma classe trabalhadora fabril típica arrostava uma classe burocrática de servidores públicos intelectuais engajados na imensa tarefa de planificação econômica. 

De outro bordo, aventamos aqui que a função precípua do Estado capitalista consiste na produção da mercadoria denominada força de trabalho, sendo certo que a hodierna revolução digital engendrou uma força de trabalho eminentemente intelectual engajada na produção de programas de computador (software), subvertendo, destarte, a mencionada divisão social do trabalho básica entre capital e trabalho, pois agora a classe trabalhadora também encerra sua parcela eminentemente intelectual nos produtores de tecnologia da informação. 

Ora, se considerarmos uma vindoura planificação econômica descentralizada e instruída por tecnologia digital (consoante temos preconizado também aqui), em substituição à mencionada burocracia sovética, podemos supor que a hodierna parcela intelectual da classe trabalhadora encontra-se apta a gerir e administrar tal tarefa de planificação econômica em ambiente de relações de produção tipicamente socialistas. 

A unificação política entre as parcelas manual e intelectual da classe trabalhadora exibe-se, portanto, como tarefa inadiável, conquanto difícil. 

Hipóteses sub judice.





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.   

domingo, 23 de agosto de 2026

CALIFÓRNIA, OU A REVOLUÇÃO DIGITAL ENTRE HOLLYWOOD E O VALE DO SILÍCIO.

Parece haver conexões profundas entre a indústria cinematográfica e a revolução digital, e não por acaso a Califórnia tem sido, há décadas, o proscênio por excelência de ambos os fenômenos.   

Sem embargo, o cinema, ou o âmbito audiovisual, encerra a faculdade de convolar em mercadorias virtuais uma grande gama de artes e mercadorias físicas, cabendo ventilar que entre Hollywood e o Vale do Silício situa-se o itinerário da transposição das telas dos teatros cinematográficos para as telas das televisões, inicialmente, e depois para as telas de computadores e celulares.

Nesse percurso, o mundo físico das artes e das mercadorias palpáveis perde sua "aura" (na acepção preconizada por Walter Benjamin) para o mundo virtual da hodierna revolução digital.






por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.  

sábado, 22 de agosto de 2026

CONJECTURA SOBRE AS MODERNAS FORÇAS PRODUTIVAS

A princípio, historicamente, o capital alavanca forças produtivas atuantes em âmbito microeconômico, adotadas primordialmente no processo fabril pelo capital individualmente considerado, mas hodiernamente sucede algo deveras interessante.


A revolução digital e os atuais algoritmos da assim denominada inteligência artificial, ao que tudo indica, atuam primordialmente no âmbito da circulação de capital, incrementando a velocidade de rotação correspondente, e encerram grande potencial, enquanto forças produtivas, de atuar em patamar macroeconômico, auxiliando uma vindoura planificação econômica instruída por tecnologia digital.


Por ora, no entanto, a revolução digital foi apropriada no âmbito microeconômico pela propriedade privada capitalista através das assim designadas Big Techs, que adotam a tecnologia digital para extração intensiva de mais-valia e, particularmente quanto à mencionada inteligência artificial, como capital fixo para subjugar o moderno trabalho eminentemente intelectual na produção de software.


Nesse diapasão, seria lícito ventilar que forças produtivas de jaez macroeconômico e potencialmente socialista entraram em contradição com as relações de produção capitalistas, que as adotam de maneira microeconômica e para fins de reprodução da propriedade privada dos meios de produção.


Impõe-se, destarte, que a classe trabalhadora em escala mundial aproprie-se de tais forças produtivas modernas para que a verdadeira natureza social de tais forças possa vicejar.


Hipóteses embrionárias sub judice, a desinibir.






Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira.

domingo, 16 de agosto de 2026

A TEORIA DO VALOR ENTRE A REPRODUÇÃO SEXUADA E O TRABALHO

Reiteradamente, já ventilamos aqui que a produção e reprodução da vida material humana bifurca-se em: 

1. Instância da reprodução sexuada, mediada pela família, em que se produz o ser humano integral;

2. Instância do trabalho, mediada pelo Estado, em que se mutila o ser humano para produzir força de trabalho apta a ser vendida ao capital. 

Cuida-se de instâncias distintas, mas não estanques, sendo certo que a teoria marxista do valor deve ser investigada quanto à produção da força de trabalho pelo Estado, e não quanto à produção do ser humano pela família, eis que os cuidados familiares não configuram trabalho propriamente dito. 

De outro bordo, o Estado engendra a força de trabalho mediante serviços como segurança (através das forças públicas, que reproduzem diariamente a separação entre trabalhadores e meios de produção), educação e saúde. 

Todavia, é de rigor distinguir, entre tais serviços estatais, aqueles que envolvem trabalho produtivo (como educação) e aqueles que envolvem trabalho improdutivo (como segurança e, provavelmente, saúde, uma espécie de faux frais da produção da força de trabalho).

Nesse diapasão, os trabalhos estatais improdutivos geram apenas custos, enquanto os trabalhos estatais produtivos engendram efetivo valor econômico. 

Por derradeiro, é de rigor apontar um equívoco teórico persistente no âmbito do movimento feminista de inspiração marxista, que confunde produção do ser humano e produção da força de trabalho, investigando indevidamente a teoria do valor no cerne do primeiro caso, em que não há realização efetiva de trabalho, mas somente de cuidados familiares. 

Hipóteses sub judice. 





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA. 

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

CONJECTURA SOBRE CAPITAL FIXO

LEI CONJECTURAL SOBRE CAPITAL FIXO.





Para que haja efetiva diminuição do valor individual da mercadoria mediante aumento da produtividade decorrente de investimento em capital fixo, o incremento da força produtiva do trabalho deve ser tal que compense o acréscimo de valor paulatinamente transferido aos produtos pela circulação de tal capital fixo. 


Tal lei consiste em conjectura sujeita a confirmação empírica e teórico-matemática.


Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

ESQUEMAS SOBRE A PRODUÇÃO ECONÔMICA DA CIÊNCIA MATEMÁTICA.

O dinheiro, isto é, o aspecto abstrato da mercadoria devidamente emancipado no curso da história, funciona como equivalente geral e, nessa condição, não exibe valor de uso específico, mas pode convolar-se em qualquer coisa, em qualquer substância. 

O número é o correspondente matemático do dinheiro, porquanto, na sua abstração, pode referir-se a qualquer coisa, a qualquer substância. 

Mas o dinheiro converte-se, dialética e historicamente, em capital propriamente dito, que encerra a tendência e a inclinação a acumular-se indefinidamente, a saber, infinitamente. 

Do mesmo modo, o número, esta forma de limitação, de estabelecer limites, convola-se dialeticamente no seu contrário, qual seja, o infinito, naquilo que é ilimitado, que não tem limites, de tal sorte que o infinito consiste no correspondente matemático do capital. 

Hipóteses sub judice.      





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA. 

domingo, 9 de agosto de 2026

BREVÍSSIMA TENTATIVA DE HISTÓRIA ECONÔMICA COMPARATIVA

A União Soviética exibia um parque industrial potente, fruto da bem sucedida política de coletivização e industrialização implementada a partir do primeiro plano quinquenal, mas, lamentável e enigmaticamente, não logrou alcançar a revolução digital e a economia planificada colapsou.


Os Estados Unidos da América exibiam um potente parque industrial que, talvez em razão da queda tendencial da taxa de lucro do capital fabril, cedeu lugar à indústria de software derivada da revolução digital, evidente na superação do Cinturão da Ferrugem pelo Vale do Silício.


A China hodierna, por seu turno, exibe um potente parque industrial e um promissor setor econômico atrelado à revolução digital, condições que poderiam favorecer uma coletivização e uma planificação econômica instruída por algoritmos que conduziriam o país a um estágio avançado de socialismo econômico mais viável e menos crítico do que o capitalismo.


Hipóteses sub judice.







Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira.

sábado, 8 de agosto de 2026

O COMUNISMO NUNCA EXISTIU

Dessume-se de obras como A ideologia alemã e o Manifesto Comunista que o comunismo somente será alcançado em escala mundial, planetária, quando todas as formas de propriedade privada dos meios de produção forem definitivamente erradicadas, isto é, quando todo o nosso planeta for propriedade de uma Humanidade unificada e despojada de divisões de classes sociais e Estados nacionais.


Nesse diapasão, os impropriamente designados comunismo primitivo e comunismo soviético configuraram tão somente, na verdade, “propriedades privadas coletivas” de determinados povos frente a outras formas de propriedade privada dos meios de produção, de outros povos ou nações, mas jamais constituíram o efetivo modo comunista de produção, nos termos acima deslindados.










Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira.

SOBRE O AFORISMO PRECEDENTE

Recebi críticas acerbas sobre o texto imediatamente antecedente aqui publicado, sendo certo que o camarada CARLOS OTÁVIO SANTIAGO aduziu que se trata de uma visão cruel, desnecessária, sem esperança, enfim, pesada e amarga. 

Ele tem toda a razão, decerto, mas tentarei reparar o estrago. 

Karl Marx preconizava, já na juventude, que o ser humano é um animal social, a partir mesmo do simples fato de que não se reproduz sozinho, mas de forma sexuada. 

Por outro lado, a divisão do trabalho, tanto social quanto na fábrica, intensifica tal jaez social do ser humano, cujos laços de cooperação e coletividade são objetivamente dados. 

Todavia, o desenvolvimento histórico engendra a propriedade privada dos meios de produção e a família nuclear, favorecendo a ilusão do indivíduo abstrato e isolado, isto é, as "robinsonadas" em evidente contradição diante do caráter social do ser humano acima mencionado. 

Portanto, tal contradição somente será resolvida, ao que parece, com a erradicação da propriedade privada dos meios de produção e da família  nuclear, no vindouro modo comunista de produção em escala mundial, quanto toda a Humanidade funcionará como uma grande e única família. 

É nossa esperança. 





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA. 

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

AFASIA

Persona, de Ingmar Bergman, e Paris Texas, de Wim Wenders, são duas películas cinematográficas que tratam de alguma forma, entre outras camadas semânticas, da incomunicabilidade, da dificuldade extrema de romper a mônada e comunicar-se com outrem.


Tal mônada consiste em verdade na tradução filosófica do indivíduo abstrato, fruto ou causa da propriedade privada dos meios de produção e da correspondente família nuclear, isto é, dos universos, respectivamente, do trabalho e da reprodução sexuada, pelos quais se efetiva a produção e reprodução da vida material humana, universos distintos mas não estanques.


Ora, tanto Elisabet, em Persona, quanto Travis, em Paris Texas, perdem a capacidade de comunicação e vivem um vazio de sentido, um deserto semântico apesar de constituirem família e se reproduzirem sexualmente, engendrando prole, o que não garante em absoluto um significado para suas existências individuais, ao contrário, causa afasia.


Quero crer que, superada a propriedade privada dos meios de produção e a correspondente família nuclear, a existência individual adquira pleno significado, porquanto cada um contribuirá e cooperará com todos os demais na continuação da espécie humana, de forma efetivamente coletiva e plena de sentido.







Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

MICROCONTO DO AMOR DIFUSO ESCRITO COM SANGUE

Maria Madalena da Silva mantinha com galhardia e airosamente a mais famosa e bem frequentada casa de lenocínio daquele vilarejo incrustado no meio do mais árido e recôndito sertão nordestino, mas quando, aos quarenta anos de idade, concebeu e deu à luz aquela criança, batizada com o epíteto de Nilton, realmente não conseguia recordar-se de que homem a engendrara, malgrado suspeitasse de um cidadão britânico que compareceu a negócio naquelas plagas olvidadas por Deus, mercê dos cabelos lisos e dos olhos azulados que Nilton desinibiu ulteriormente, mas o fato é que aquele menino não desfrutou da companhia de um pai ou de irmãos, mas, em compensação, recebeu de sua genitora um afeto incondicional e quiçá desmedido que, por ocasião da morte precoce de Madalena aos quarenta e sete anos, de causas mal explanadas até hoje, foi intensificado por seus avós, pais de sua mãe, que o acolheram na capital após tal óbito enigmático, os quais passaram a dedicar tempo integral aos cuidados de Nilton, com aquele amor que somente os avós em luto pela filha sabem nutrir pelo correspondente neto, ou seja, o menino sertanejo foi efetivamente cercado de todo o carinho plausível neste mundo incompreensível, e isto tem consequências, para o bem e para o mal, tanto que Nilton acabou por desenvolver certa sensibilidade afetiva também desmesurada, que o fez elaborar copiosos poemas de intensa inspiração religiosa já aos dez anos de idade, mas tal veia poética quedou silente na juventude do garoto, que a substituiu pelo talento matemático tão desenvolvido quanto a verve literária, pois foi estudar física quântica na universidade, onde mergulhou nos estudos com paixão adolescente e desenfreada, conquanto jamais tenha contraído conjunção carnal em toda a sua breve existência, movido que era por sentimentos de jaez, talvez, mais nobre do que a mera reprodução sexual individual, e de fato Nilton exibiu todo o seu imenso amor pela vida em sentido lato ao desenvolver o pioneiro modelo integralmente estável de computador quântico, que beneficiou toda a humanidade, mas faleceu muito cedo, aos quarenta e sete anos, como Madalena, deixando legado perene.







Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira.

PLANIFICAÇÃO DEMOGRÁFICA

Naturalmente, a questão por excelência que se manifesta quanto ao problema da planificação econômica socialista consiste em superar a contradição entre relações de produção e forças produtivas, uma contradição que parece encerrar jaez de principal, em termos maoístas.

Todavia, como já reiteramos aqui, a produção e reprodução da vida material humana bifurca-se em universo do trabalho e universo da reprodução sexuada, os quais também são dissociados e contraditórios entre si enquanto remanescer a propriedade privada dos meios de produção econômica e de reprodução sexuada, respectivamente no capital e na família nuclear. 

Logo, coadunar estes dois universos acima mencionados, numa planificação demográfica ajustada à planificação econômica, com a erradicação total da propriedade privada nestes dois universos, também constitui tarefa do vindouro modo comunista de produção em escala mundial.  

Hipóteses sub judice e embrionárias a refinar e desinibir. 







por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA. 

O ENIGMA CHINÊS

Karl Marx já postulava a ocorrência, como motor da história, da contradição e descompasso entre relações de produção e forças produtivas, no que se mostrou, mais uma vez, certeiro e preciso.    

Sem embargo, o colapso soviético exibe muito bem tal situação: uma nação em que as relações de produção, ou de propriedade, progressistas e avançadas colidiram frontalmente com as precárias forças produtivas, eis que a União Soviética não logrou atingir um nível mínimo de revolução digital ou informática necessário ao bom desempenho da planificação econômica de jaez socialista. 

A China hodierna, de outro bordo, exibe a relação inversa, isto é, uma nação que apresenta forças produtivas de alto nível, tendo alcançado a revolução digital e agora emula pela liderança da tecnologia dos algoritmos de inteligência artificial, mas ao mesmo tempo preserva relações de produção tipicamente capitalistas. 

Não se sabe exatamente qual a postura do Partido Comunista Chinês diante de tal condição histórica: estaria aguardando um novo salto das forças produtivas, talvez o pleno desenvolvimento da computação quântica, para implementar relações de produção realmente avançadas e socialistas, ou teria definitivamente capitulado perante o poder do dinheiro e do capital?

Mistério!





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA. 

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

AUTOCRÍTICA

Com muita frequência, o vertente sítio eletrônico, ou blog, recebe críticas acadêmicas em razão da ausência de acabamento empírico e formal, bem como de referências bibliográficas. 

Há certa dose de razão nisso, mas nota bene.

Cuida-se aqui de uma plataforma deprovida de qualquer pretensão ou veleidade acadêmica, eis que é produzida no âmago e para um partido político, cujos critérios de validade e veracidade destoam daqueles da Academia, com seus rituais formais, empíricos e bibliográficos. 

Nesse diapasão, é de rigor aduzir que o critério de validade das hipóteses aqui ventiladas é a PRÁTICA POLÍTICA, nos exatos termos das Teses contra Feuerbach, que não se confunde integralmente com o universo da empiria.

Demais disso, faz-se mister também aventar que a Academia oficial, cuja chancela parece dispensável para este veículo eletrônico, cumpre seu papel institucional de produzir força de trabalho para o capital, nos termos que aqui temos teoricamente suscitado, enquanto este blog peleja precisamente pela erradicação da oposição entre capital e força de trabalho.  

Todavia, este núcleo partidário ostenta, também, sua versão mais acadêmica com a revista marxista Mouro.

Enfim, as críticas acadêmicas serão sempre muito bem aceitas, mas cum grano salis, nos termos acima aludidos, ou seja, serão acatadas se colimarem, de alguma forma, a transformação social de jaez socialista. 




por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.  

TEMAS SOBRE O MOVIMENTO HISTÓRICO PENDULAR DAS TEORIAS DO VALOR.

Antes de configurar uma controvérsia teórica, marxismo e marginalismo, enquanto teorias antagônicas do valor econômico, consitituem uma oposição e um conflito histórico prático, social e concreto entre o processo de produção e o processo de circulação de mercadorias e, ulteriormente, de capital. 

Sem embargo, no período da Idade Moderna, o antigo sistema colonial descrito por Fernando Novais representa precisamente tal conflito histórico, com os donos do dinheiro ou mercadores, isto é, a burguesia comercial haurindo mais-valia mediante o processo de circulação de mercadorias, pela diminuição dos preços de compra dos produtos das colônias ultramarinas e aumento dos preços de venda de tais produtos na metrópole, com supedâneo no exclusivo colonial e na grande utilidade marginal dos produtos coloniais, exóticos na metrópole. Daí o predomínio, em tal época histórica, da teoria marginalista quanto à determinação dos preços.   

Com a acumulação primitiva de capital e o advento da grande revolução industrial inglesa do século XVIII, tal conflito entre trabalhadores e mercadores é definitivamente resolvido em favor destes últimos, que, introduzindo o dinheiro no próprio processo de produção mediante compra e venda de força de trabalho, passam a extrair mais-valia nesse mesmo âmbito do processo de produção econômica, de que resulta o predomínio da teoria marxista na determinação dos preços. 

Mas a concentração e centralização de capital e as crises de superprodução conduzem, inevitavelmente, ao retorno da necessidade de lançamento de novos valores de uso de alta utilidade marginal para compensar tais crises, em um retorno da teoria marginalista na deteminação dos preços e na obtenção de mais-valia no âmbito do processo de circulação de capital. 

Hipóteses sub judice. 






por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA. 

sábado, 1 de agosto de 2026

POR UMA UNIVERSIDADE PARTIDÁRIA

Já ventilamos aqui que a função precípua do Estado consiste na produção da mercadoria denominada força de trabalho, através de serviços como segurança, educação e saúde. 

Do mesmo modo, também aventamos que os partidos nada mais são do que proto-Estados na iminência de se convolarem no próprio Estado. 

Os partidos burgueses, portanto, reproduzem a dissociação entre capital e trabalho, ou seja, operam na frequência da produção da força de trabalho a ser explorada pelo capital.

Os partidos proletários realmente revolucionários, todavia, operam no sentido da emancipação da força de trabalho como tal, de modo a superar a dicotomia social entre capital e trabalho num estágio superior de modo de produção.

Destarte, tais partidos proletários devem conter em germe, de forma embrionária, as instituições estatais aptas a emancipar a força de trabalho, entre elas a instituição educacional hábil a preparar a classe trabalhadora para tal emancipação. 

Nesse diapasão, preconizamos aqui a necessidade do partido proletário revolucionário conter e abrigar, em seu âmago, uma universidade partidária capaz de preparar a classe trabalhadora para a própria emancipação. 

Hipóteses sub judice.





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.  

quinta-feira, 30 de julho de 2026

MANIFESTO POR UM ANTICINEMA

O cinema encerra naturalmente a ilusão do tempo linear e abstrato decorrente da noção de indivíduo humano, esta abstração que colide com a realidade concreta. Explico. 

Os indivíduos humanos são dotados de memória, essa coleção de imagens do passado que conferem a ilusão de identidade, isto é, de que somos os mesmos apesar do envelhecimento e das transformações que o nosso corpo sofre.

Essa ilusão de identidade individual constitui a chave do tempo linear e abstrato do cinema, em que uma sequência encadeada de imagens afronta a descontinuidade e relatividade do tempo concreto, o tempo da teoria da relatividade de Albert Einstein. 

Nosso protótipo de cinema, em oposição ao cinema tradicional, reside no experimento cinematográfico que o realizador David Lynch emitiu com a película intitulada "A Estrada Perdida", ou "Lost Highway" no título original.

Nesse filme, Lynch realiza uma operação artística equivalente àquela de Pablo Picasso no âmbito pictórico, senão vejamos. 

Se Picasso percebeu que a profundidade de uma tela de pintura é uma falsificação ou ilusão, rompendo, através do cubismo, tal dimensão ilusória do universo pictórico, Lynch percebeu que o tempo no cinema também é uma dimensão ilusória, um mero simulacro, pois simula o tempo linear e abstrato decorrente da noção individual de identidade, como vimos acima, que se contrapõe ao tempo concreto da teoria da relatividade.

Nesse diapasão, em "A Estrada Perdida" Lynch rompe com a identidade das personagens e mostra um tempo não linear, mas circular, em que o final do filme reproduz o seu início de forma invertida. 

Tal experimento cinematográfico deve servir de modelo para um novo paradigma de cinema que rompa definitivamente com o tempo linear e abstrato decorrente da ilusão da identidade individual, com inaugurar o tempo concreto da teoria da relatividade na assim denominada sétima arte.






por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA. 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

NOTA EXPLORATÓRIA E INCIPIENTE SOBRE O CIRCUITO FECHADO DO PROCESSO ECONÔMICO.

Quem produz a mercadoria denominada força de trabalho não é o próprio capital, mas o Estado através de serviços como segurança (que, pelas forças públicas, reproduz diariamente a separação entre trabalhadores e meios de produção), educação e saúde. 

Mas o custo de manutenção do Estado, através do sistema tributário, parece exibir boa dose de complexidade, eis que recai sobre toda a sociedade, a saber, sobre os donos do capital, da força de trabalho e do Estado.

Todavia, os donos do capital, proprietários dos meios de produção que engendram as mercadorias, transferem o ônus tributário aos preços dessas mercadorias.

O Estado, de outro bordo, cobra tributos e emite títulos públicos para pagar esses preços das mercadorias que embutem os próprios tributos, nos termos acima. 

Já os trabalhadores que vendem sua força de trabalho não encerram meios de eludir o ônus dos tributos, de tal sorte que, ao que parece, suportam a carga tributária em sua integralidade, carregando toda a sociedade sobre os seus ombros.

Os meandros do sistema tributário exibem-se, portanto, bastante complexos, demandando estudo sério e aprofundado. 

Hipóteses sub judice. 





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.

terça-feira, 28 de julho de 2026

SONHOS (uma estranha declaração de amor)

Parentes, amigos, namoradas, enfim, as pessoas em geral se afastam de mim por causa de meu comportamento esquisito, quase esquizóide, imerso e absorto que remanesço em meus delírios e sonhos, um mundo muito particular decorrente de minha afecção mental.

Mas alguns permanecem, e entre eles destacam-se os membros do Núcleo de Estudos do Capital do Partido dos Trabalhadores, camaradas que me acolhem com afeto, carinho e ternura há mais de trinta e cinco anos. 

Já disseram que somos, nós desse núcleo partidário, um mero grupo de gourmets!

Mas, como redarguiu o grande camarada Ciro Seiji Yoshiyasse, isso pode até ser verdade, mas entre um prato e outro, entre uma taça e outra, ainda não perdemos a capacidade de sonhar.    

Sim, sonhar com a revolução, com o comunismo, com um mundo melhor para todos viverem nele, enfim, a capacidade de sonhar parece ser um elemento que nos torna coesos como núcleo partidário!

Muito obrigado, camaradas do NEC-PT!





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA. 

segunda-feira, 27 de julho de 2026

MANIFESTO DE JUNHO - Partido da Refundação Comunista

Ampla unidade para derrotar os fascistas e traidores da Pátria



No processo eleitoral que se abre, destaca-se, para as pessoas de consciência democrática, progressista e patriótica, de esquerda ou não, membros de partidos ou não, militantes ou não, de qualquer idade, ocupação, classe social e condição econômica – para o povo brasileiro, enfim, com as demais camadas preocupadas com os riscos antepostos à Nação –, uma tarefa central. Trata-se de se unirem para derrotar os candidatos fascistas, confessadamente traidores da Pátria, e manter Lula e Alckmin na Presidência e na Vice, visando a garantir o regime democrático, defender a soberania do País, melhorar a composição dos parlamentos, seguir no desenvolvimento com progresso social e aprofundar reformas de interesse popular. Tais objetivos demandam foco, vontade, coragem, perseverança e discernimento, para se distinguir, entre as contradições, aquela principal, que define os campos em conflito e a tática. 


Essa disputa decisiva ocorre em uma situação extremamente complexa e grave, no País e no mundo. O capitalismo vive hoje, internacionalmente, o período estagnante do ciclo longo inaugurado logo após a Segunda Guerra Mundial. O fim da "Época de Ouro", instalado na primeira metade dos anos 1970, e a falência do “Consenso de Washington”, que agora se traduz na ruína da unipolaridade, escancararam os novos limites antepostos à sociabilidade burguesa. Ficou público e patente que a chamada globalização neoliberal entrou em crise e se esgotou. As suas promessas de abundância e liberdade em um Planeta utópico, sem história e sem lutas entre as classes, fracassaram em face da saturação tecnológica desregrada e da concentração econômica extrema, bem como da fusão entre os bens produtivos, comerciais e bancários na sua financeirização paroxísmica, reafirmando a baixa tendencial na taxa de lucros.


Nesse quadro, as frações mais reacionárias do capital monopolista-financeiro vêm ressuscitando o fascismo. Bancando saídas violentas para impor regimes políticos ditatoriais, tentam exterminar qualquer resistência e garantir a superexploração das multidões.  Ao desconstituir condições de sobrevivência popular, mediante a desestruturação do mundo laboral, o estrangulamento nos mercados internos e o arrocho aos pobres, pretendem converter o proletariado em massa miserável e sem direitos. Para tanto, semeiam o medo e manipulam ressentimentos psicossociais da pequena burguesia, especialmente suas frações desamparadas ou em fase de proletarização. Concomitantemente, valem-se da engrenagem que apropria o sobretrabalho no ciberespaço, com aplicativos e “inteligência artificial”, para elevar o controle sobre o ritmo laboral, rebaixar salários e exaurir os trabalhadores.


O resultado é a multidão global de "sobrantes": em 2026, a lacuna nos empregos atingiu 408 milhões de pessoas e, a informalidade, 2,1 bilhões. Nas metrópoles, a inflação dos alimentos e o colapso dos serviços públicos corroem o salário real, forçando multidões a empilharem ocupações precárias e sem garantias, na economia de plataformas virtuais e nos contratos PJ. O desalento dobra entre os jovens, que são empurrados ao isolamento e à criminalidade. O capital explora, também, as ondas migratórias das crises por si exportadas, metamorfoseando imigrantes no contemporâneo e degradado exército laboral de reserva. Fiel defensora dos magnatas que os patrocinam e não raro precedem, a extrema direita instrumentaliza tais fluxos ou diásporas por meio de vilanias e preconceitos, inclusive a xenofobia e o racismo, para culpar os “estrangeiros” pelo sucateamento público, dividir os povos e sabotar os sindicatos.


No oeste da Ásia, os EUA procuram camuflar e blindar o genocídio que atinge a Palestina, para transformar Gaza em protetorado. Violam, reiteradamente, os compromissos de cessar-fogo. Corroboram os ataques israelenses à nação iraniana, sob as ordens do Governo Netanyahu.


Pretendem, assim, apesar de revezes – como na guerra do Golfo Pérsico – controlar o fluxo de petróleo e deter a crescente resistência euroasiática. Com a degringolada e o declínio dos consensos imprescindíveis à sua hegemonia, seguidos pelo avanço da multipolaridade promovida e representada pelo BRICS, os EUA provocam guerras regionais, reativam a corrida armamentista e causam o risco de novo conflito global. Na Europa, os governos das grandes potências capitalistas e a OTAN, seu braço armado em aliança instável com Washington, nutrem a guerra contra o Estado russo. No leste da Ásia, o governo japonês eleva as tensões.


Sob o governo de Donald Trump, o imperialismo estadunidense resgata a caquética e antediluviana Doutrina Monroe, como se o Hemisfério Ocidental, especialmente o seu autoproclamado “quintal” americano, fosse a sua área de influência natural e incontestável. Assim, pratica o intervencionismo mais descarado, articula as forças reacionárias internas e patrocinam golpes ou ascensões nas brechas das instituições locais, que são sistematicamente manipuladas e, ao fim e ao cabo, convertidas em regimes autocráticos.


Embora contestada pelos povos e nações que mantêm governos soberanos e altivos, essa tutela, ansiada e praticada por Washington, consubstancia-se nos atos de agressão militar à Venezuela, no bloqueio à Cuba e nas sanções à Colômbia, bem como nas ingerências que facilitaram os assaltos extremo-direitistas às estruturas estatais de vários países do Cone Sul, da América Central e do Caribe.


No Brasil, os reacionários manipulam o sofrimento material gerado pelos seus próprios mecenas e o converte em ódio aos desafetos. O fascismo, como instrumento ideológico do capital financeiro em crise, alimenta-se de frustrações individuais, cresce na sociedade civil, disputa governos e tenta controlar instituições do Estado, para liquidar o regime democrático, implantar uma nova ditadura e superexplorar o trabalho, visando a concentrar mais ainda lucros e riquezas. Aproveitando-se da fragmentação que atinge a convivência no chão de fábrica, enfraquece a solidariedade ideológica de classe, favorece a cultura de autoisolamento e valoriza o “mérito individual”.


Apoia-se nos movimentos fundamentalistas e pânico moralista, inventando inimigos como "globalismo" e "marxismo cultural". Transforma redes sociais em arma de guerra com financiamento bilionário, difundindo mentira e desinformação em escala industrial.


A extrema direita, praticando a matriz entreguista sob a figura de “nacionalismo” miliciano e fantasiada como antissistêmica, utiliza o punitivismo e o culto à força bruta para canalizar o medo em face da crise na segurança pública. De modo eleitoreiro e desonesto, escolhe os partidos à esquerda e as entidades populares como alvos a serem aniquilados. Ademais, enquanto mantém intactos os monopólios econômicos, bajula o inquilino da Casa Branca. Põe-se, assim, sob o comando da política imperialista, fazendo-lhe coro na concentração de capital transnacional, na violência militar externa e no apego ao espaço vital em declínio, principalmente ligado a mercados e matérias-primas. O Brasil – com seus recursos estratégicos, mercado interno e parque industrial – é o foco prioritário do plano para sabotar a integração regional e interferir no processo eleitoral. Os candidatos bolsonaristas representam a sua obediente quinta-coluna.


Para realizar o seu papel nefasto, as forças fascistas encontram certos elementos favoráveis no terreno concreto. O social-liberalismo, em que pesem o seu progressismo e as suas conquistas iniciais, perdeu a potência inicial de cativar maiorias, diminuir a miséria e mobilizar grandes lutas. Suas políticas públicas viraram dogmas nas últimas décadas. Ao naturalizarem os imperativos de austeridade, gastos limitados a tetos e mera gestão da pobreza focalizada, engessaram o imaginário político. Setores à esquerda, integrados à burocracia institucional – no Estado e na sociedade civil –, repetem as receitas caducas. Mimetizados à lógica dos sucessivos arrochos e metas fiscais, esgotaram sua energia de responder às demandas populares. Aliás, trata-se de uma questão internacional, que desaba com maior brutalidade sobre os países dependentes: tais “ajustes” enfraquecem os direitos fundamentais e a infraestrutura pública.


Eis por que as iniciativas destinadas a mitigar os graves problemas da população, quando encaradas como um fim em si mesmas ou como elementos nucleares da estratégia transformadora, são incapazes de cativar o entusiasmo da juventude, organizar os setores avançados das classes trabalhadoras e colocar grandes massas em movimento. São, muito mais ainda, inaptas para criar uma força capaz de enfrentar o capital financeiro, os obstáculos econômicos estratégicos e às contradições fundamentais que sufocam o povo brasileiro. Em face de semelhante impasse, o grande nó a ser desatado é a unificação do campo democrático em defesa do atual governo, de suas medidas progressistas e das chapas identificadas com a frente ampla, mas promovendo, concomitantemente, a mobilização de massas pelas demandas imediatas do povo, articuladamente ao acúmulo de forças para novos e necessários avanços.


Por tudo isso, e pela ausência de um projeto em comum, o campo popular encontra-se paralisado por divisões internas e defensivismo tático.


Portanto, é urgente rejeitar tanto a acomodação nas estruturas estatais e governamentais, que aceita uma estabilidade institucional estéril, quanto as concepções típicas do esquerdismo sectário, cujas bolhas e discursos isolam a militância da realidade concreta. O fascismo encontra espaço e prolifera com desenvoltura entre o povo exatamente quando e onde os pioneiros sociais, as forças revolucionárias, os partidos políticos e os sindicatos representativos perdem a capacidade de organizar os trabalhadores e os “de baixo” nos locais de trabalho, moradia ou estudo, deixando o descontentamento legítimo com a democracia burguesa exposto à demagogia antipolítica dos hiperconservadores e autocratas.


A resposta mais consequente exige unidade e ações comuns. Os governos democráticos e soberanos do Continente devem erguer-se como polos fundamentais em defesa da paz e de solidariedade aos povos agredidos. Por seu turno, impõem-se a superação do reformismo burocrático, a disputa de cada insatisfação nas ruas, a reconstrução das organizações populares de massas e a reafirmação do papel central desempenhado pelo Estado brasileiro na aplicação de um projeto potente, que combine regime político democrático, soberania nacional e aspirações dos “de baixo”.


Consolidando-se o cenário em que se estreita o espaço das ditas terceiras vias, acentua-se a polarização entre os campos antagônicos e radicaliza-se o contencioso político, tornando óbvio que a reeleição de Lula é decisiva não só para o Brasil, mas também para a América Latina e os países dependentes ou ameaçados no mundo inteiro.


No País, o movimento bolsonarista é o núcleo da extrema direita. No combate à candidatura fascista, vassala do trumpismo, o apoio dos comunistas ao atual Governo Federal e à reeleição dos seus titulares traduz uma trilha combativa, nunca passiva. Jamais se deve assistir às contendas com braços cruzados. O objetivo do PRC é emparedar o ultraconservadorismo dentro e fora do processo eleitoral, mas com flexibilidade. Assim, a frente ampla deve tornar-se formalizada, orgânica e permanente, No seu interior, cabe aos partidos populares não apenas preservarem sua autonomia, mas serem o polo mais dinâmico, como representantes do Bloco Histórico encabeçado pelos trabalhadores urbanos e rurais. Para tanto, são imprescindíveis entendimentos que abarquem os dilemas cotidianos e sentidos da população, no apoio a candidaturas viáveis contra os reacionários, sem dogmatismo e sem puritanismo doutrinário.


Entre as bandeiras concretas estão: crescimento econômico com soberania e progresso social; controle da inflação sem a falaciosa “austeridade” ultraliberal; valorização real do salário-mínimo; alargamento e reforço do PAC; planejamento da Nova Indústria Brasil. Mas, em vez de meramente repisar conquistas passadas, são chaves a proposta e o discurso de avançar. Faz-se necessário atualizar o projeto para o futuro do Brasil, visando a: acumular forças; distribuir rendimentos; reduzir os tributos aos pobres, trabalhadores e empresários com salários ou proventos insuficientes; ampliar os direitos trabalhistas; promover a cultura nacional-popular; e radicalizar o regime democrático. Semelhante política somente será factível com abertura de um novo período conjuntural e com um largo arco de alianças que a defenda, promova ou sustente, assim como uma correlação de forças que retire as classes populares da defensiva.


Além dos majoritários, os postulantes proporcionais somam, e muito, na campanha para derrotar o principal candidato reacionário. Também desempenham relevante papel na luta para “mudar a cara” dos parlamentos – Congresso Nacional e assembleias estaduais –, fortalecendo as bancadas democráticas, progressistas e patrióticas nas instituições estatais que interferem nos rumos dos governos, da legislação e da política nacional. Eis porque os militantes, os ativistas, os lutadores populares, os apoiadores e eleitores da chapa Lula-Alckmin, precisam desenvolver iniciativas de ações próprias e multilaterais, desde já. De modo nenhum basta receber, “curtir” e falar pelas “redes sociais”, pois a internet e o ciberespaço, embora importantes, nunca substituem a vida ou as relações presenciais e pessoais, com contatos coletivos, individuais e diretos. O PRC apela, pois, às pessoas interessadas e engajadas no combate em curso.


Integrem-se à campanha eleitoral, imediatamente, conforme as fases definidas em lei. Vencer exige firmeza, organização e presença popular.


Trata-se de promover atividades coordenadas em cada bairro, fábrica e local de estudo, reunindo companheiros, colegas, conhecidos, amigos, familiares e vizinhos, convocando e fortalecendo encontros e atos, pequenos e grandes, nos vários e diversos espaços. O foco da carga é a extrema direita bolsonarista – o inimigo principal –, para desmascarar os agentes do imperialismo, isolá-los e preparar o triunfo. Nos estados-membros, é hora de apoiar candidaturas que reúnam maior número de forças, além de manter relações cordiais e contatos regulares com outros postulantes fora do campo extremo-direitista, bem como firmar pactos de não agressão, com vistas ao apoio incondicional ao político democrata que chegue ao segundo turno. O caminho da vitória é árduo, mas já está claro.



Brasil, 19-21 de junho de 2026



Comitê Central do PRC – Partido da Refundação Comunista


(originalmente publicado no sítio eletrônico "Vereda popular")