quinta-feira, 30 de julho de 2026

MANIFESTO POR UM ANTICINEMA

O cinema encerra naturalmente a ilusão do tempo linear e abstrato decorrente da noção de indivíduo humano, esta abstração que colide com a realidade concreta. Explico. 

Os indivíduos humanos são dotados de memória, essa coleção de imagens do passado que conferem a ilusão de identidade, isto é, de que somos os mesmos apesar do envelhecimento e das transformações que o nosso corpo sofre.

Essa ilusão de identidade individual constitui a chave do tempo linear e abstrato do cinema, em que uma sequência encadeada de imagens afronta a descontinuidade e relatividade do tempo concreto, o tempo da teoria da relatividade de Albert Einstein. 

Nosso protótipo de cinema, em oposição ao cinema tradicional, reside no experimento cinematográfico que o realizador David Lynch emitiu com a película intitulada "A Estrada Perdida", ou "Lost Highway" no título original.

Nesse filme, Lynch realiza uma operação artística equivalente àquela de Pablo Picasso no âmbito pictórico, senão vejamos. 

Se Picasso percebeu que a profundidade de uma tela de pintura é uma falsificação ou ilusão, rompendo, através do cubismo, tal dimensão ilusória do universo pictórico, Lynch percebeu que o tempo no cinema também é uma dimensão ilusória, um mero simulacro, pois simula o tempo linear e abstrato decorrente da noção individual de identidade, como vimos acima, que se contrapõe ao tempo concreto da teoria da relatividade.

Nesse diapasão, em "A Estrada Perdida" Lynch rompe com a identidade das personagens e mostra um tempo não linear, mas circular, em que o final do filme reproduz o seu início de forma invertida. 

Tal experimento cinematográfico deve servir de modelo para um novo paradigma de cinema que rompa definitivamente com o tempo linear e abstrato decorrente da ilusão da identidade individual, com inaugurar o tempo concreto da teoria da relatividade na assim denominada sétima arte.






por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA. 

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