quarta-feira, 22 de julho de 2026

Os Homens do Mar Somos Nós

Uma conversa sobre A Odisseia, de Christopher Nolan

Carlos Santiago (Doutor em Ciências Sociais - Unesp) 



Fui ao cinema ontem com meus sobrinhos e com a Amanda ver A Odisseia, de Christopher Nolan. As crianças saíram encantadas — e com razão, o filme tem espetáculo de sobra para isso. Eu também gostei, apesar de reconhecer, com um certo sorriso, a visão bem autoral do diretor sobre o material homérico. Mas o que ficou martelando na minha cabeça no caminho de volta, e que virou conversa boa depois, foi uma escolha dramática específica: a metáfora dos "homens do mar". 

Ao longo do filme, essa figura ronda o imaginário grego como uma ameaça sem rosto — vinda de fora, destruindo costumes antigos, mudando o mundo que os gregos conheciam. E então, perto do fim, há uma cena que sozinha vale o ingresso: Penélope, ainda sem saber que fala com o próprio marido disfarçado, pergunta ao estranho recém-chegado a Ítaca se ele e seus homens eram os "homens do mar". Odisseu responde que sim. E com essa única palavra, o filme reorganiza retroativamente tudo que veio antes. O inimigo que o mundo temia nunca foi um outro. Era o próprio grego, voltando para casa carregado da guerra que ele mesmo venceu. 

Vale dizer: isso é invenção de Nolan, não de Homero. Fui checar depois da sessão, e de fato não há qualquer menção aos "Povos do Mar" na Odisseia original. Essa é uma categoria da historiografia moderna, cunhada a partir de inscrições egípcias — as de Ramsés III em Medinet Habu, sobretudo — que descrevem confederações de invasores marítimos varrendo o Mediterrâneo oriental por volta de 1200 a.C. e contribuindo para o colapso de impérios inteiros. Homero é praticamente silencioso sobre isso. Mas a licença poética de Nolan não é gratuita: ele pega um enigma histórico real — quem eram essas pessoas, de onde vinham, por que o mundo antigo as temia tanto — e o transforma em metáfora para algo bem mais íntimo. A civilização não é destruída por uma força externa. É destruída pelos efeitos adiados da sua própria violência, disfarçados de ameaça alheia, porque é sempre mais suportável temer um inimigo do que reconhecer a própria autoria do desastre.

O temperamento heroico 

É aqui que entra minha referência preferida para pensar tragédia grega: Bernard Knox. Em The Heroic Temper, Knox descreve um tipo psicológico recorrente nos heróis sofoclianos — obstinado, isolado, incapaz de ceder mesmo quando ceder o salvaria. É o caso de Antígona, texto que conheço e exploro bastante: ela se recusa a dobrar-se ao edito de Creonte mesmo sabendo que isso a levará à morte, fiel a uma lei que ela sente como superior à lei da cidade. É o caso de Ájax, recusando viver desonrado. É o caso de Édipo, perseguindo a verdade mesmo sabendo que ela vai destruí-lo. Knox chama isso de heroísmo que se define pela recusa em parar — uma fidelidade absoluta a uma lógica interna que a comunidade ao redor já não consegue mais acompanhar, e que, exatamente por isso, produz catástrofe. 

O Odisseu de Nolan participa dessa mesma linhagem, ainda que de forma mais desgastada, menos nobre que uma Antígona. Ele não é o herói magnético e sedutor da tradição popular: é cansado, teimoso, às vezes cruel, obcecado pela necessidade de proteger todos ao seu redor mesmo quando essa proteção já não é mais possível. A astúcia que garantiu a vitória em Troia — o Cavalo, a manipulação, o engano como estratégia — não desaparece quando a guerra termina. Ela viaja com ele, vira método de sobrevivência, e é essa mesma inteligência manipuladora que, espalhada pelo Mediterrâneo através de seus homens dispersos, acaba gerando o pânico que os  gregos atribuem aos "homens do mar". O temperamento heroico de Knox não termina quando a guerra termina. Ele continua operando, agora como ameaça anônima, porque ninguém — nem os próprios gregos — quer admitir que o monstro é caseiro. 

A jornada invertida

Joseph Campbell descreveu a estrutura da jornada do herói como um ciclo de separação, iniciação e retorno: o herói parte, é transformado pela provação, e volta trazendo um dom para sua comunidade. A Odisseia de Homero é, para Campbell, o texto fundador desse modelo — Ulisses retorna a Ítaca restaurando a ordem, reafirmando o trono, o casamento, o lar. 

Nolan aceita a estrutura e inverte o conteúdo do retorno. O que Odisseu traz de volta não é um dom, mas a revelação de que ele próprio é a fonte do terror que sua comunidade vinha temendo havia anos. Não há restauração inocente ali — há reconhecimento. E é um reconhecimento duplamente irônico, porque acontece justamente no momento em que Penélope, símbolo ao longo de toda a tradição da fidelidade paciente que aguarda um retorno redentor, descobre, sem perceber de imediato, que aquilo que ela temia e aquilo que ela esperava eram a mesma pessoa. A jornada do herói, em Nolan, não termina em cura. Termina em confissão.

Impérios que geram seus próprios fantasmas 

Há algo maior por trás dessa escolha dramática, e talvez seja isso que explique por que ela ressoa tão bem hoje. Sociedades — antigas ou modernas — tendem a externalizar as consequências do próprio desenvolvimento, atribuindo a forças abstratas e estrangeiras aquilo que, na verdade, nasceu de dentro: guerras que geram crises, expansões que geram colapsos, vitórias que geram os inimigos da geração seguinte. Não é força demais reconhecer, em A Odisseia de Nolan, um comentário sobre como a própria civilização ocidental se constitui através desse ciclo — impérios que ruem e geram outros, violência que se relegitima como progresso ou heroísmo, e um mito fundador que esconde, na sua estrutura mais profunda, a história de um homem assombrado pelo que ele mesmo desencadeou. 

Não por acaso é um interesse que atravessa toda a obra recente de Nolan — de Amnésia a Dunkirk, de Oppenheimer até aqui: homens que reorganizam o passado para sobreviver a ele, cuja culpa histórica não é individual, mas coletiva, projetada, transferida para o mito. Os homens do mar não são um inimigo. São o espelho que os gregos — e nós — preferimos não reconhecer. E foi bom sair do cinema com essa pulga atrás da orelha, discutindo isso à mesa, entre uma lembrança da sessão e outra dos sobrinhos comentando as sereias.

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