sábado, 4 de julho de 2026

MÁRIO SCHENBERG

 112 anos de uma vida entre a física e o combate político


Carlos Santiago — Doutor em Ciências Sociais, UNESP/Marília


Em 2 de julho de 2026 completam-se 112 anos do nascimento de Mário Schenberg (Recife, 1914 — São Paulo, 1990), o maior físico teórico brasileiro do século XX. Celebrar sua obra científica exige, também, lembrar que Schenberg jamais separou a pesquisa da ação política — e que essa indissociação lhe custou caro. Filiado ao Partido Comunista Brasileiro, Schenberg elegeu-se deputado estadual constituinte em São Paulo em 1946. Na Assembleia, integrou a bancada comunista liderada por Caio Prado Júnior, com quem articulou a aprovação do Artigo 123 da Constituição paulista de 1947 — dispositivo que reservava parcela da receita estadual ao fomento da pesquisa científica. Essa semente, amadurecida ao longo de treze anos de disputa política, germinaria em 1960 na fundação da FAPESP, uma das maiores agências de fomento científico da América Latina. É difícil imaginar homenagem mais concreta ao papel de cientista-cidadão que Schenberg cultivou. O preço dessa militância veio rápido: em 1948, com a cassação do PCB, toda a bancada comunista — Schenberg incluído — perdeu o mandato, e o físico foi preso. Reeleito em 1962, já pelo PTB, em acordo com um PCB na clandestinidade, sequer chegou a ser diplomado, impedido pela Justiça Eleitoral. Com o golpe de 1964, foi novamente detido, permanecendo cerca de cinquenta dias em condições degradantes nas dependências do DOPS, até que a pressão de físicos internacionais — entre eles Werner Heisenberg e Hideki Yukawa — contribuísse para sua libertação. Anos depois, sob o Ato Institucional, seria afastado da universidade. Nesses momentos de cerco, a solidariedade também veio de dentro do círculo mais próximo de Schenberg. O pai de Alberto Luiz da Rocha Barros — que seria, mais tarde, discípulo direto do físico no Instituto de Física da USP — atuou como advogado em sua defesa, gesto que testemunha como a perseguição ao cientista mobilizou também os laços de amizade e confiança construídos ao longo de sua trajetória acadêmica. Marcar esta data não é apenas lembrar o político perseguido, mas reafirmar o compromisso com o legado científico que ele deixou inacabado em tantas frentes. É nesse espírito que venho me dedicando à edição crítica de sua tese de cátedra de 1944, Princípios da Mecânica — trabalho que busca não apenas preservar, mas também iluminar, à luz da física contemporânea, a originalidade de um pensamento que a perseguição política jamais conseguiu silenciar.

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