sábado, 31 de maio de 2025

POR UMA HISTÓRIA SOCIAL DA MAIS-VALIA

Recordo-me de que o nosso grande mestre Jacob Gorender admoestava que a exposição em O Capital, obra-prima de Karl Marx, observa o padrão que vai do mais abstrato ao mais concreto, segundo o movimento histórico do objeto de investigação respectivo, que também é observado pelo movimento histórico do conhecimento científico. 

Tal ascensão do abstrato ao concreto, outrossim, reflete uma crescente SOCIALIZAÇÃO DO CAPITAL, de sorte que a teoria marxista do valor, que divisa o tempo de trabalho humano SOCIALMENTE necessário para produzir dada mercadoria, somente atinge sua expressão mais concreta e desenvolvida nos estágios mais historicamente avançados do modo capitalista de produção. 

Por isso Marx arrosta o problema da equalização da taxa de lucro do capital somente no último livro da obra acima aludida, quando tal modo de produção já está SOCIALMENTE amadurecido. 

O mesmo aventaria acerca da taxa de mais-valia, cujo jaez crescentemente socializado conduz a uma determinada equalização, como no caso da taxa de lucro. 

A conferir. 



por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador.             

sexta-feira, 30 de maio de 2025

REFINANDO UM POUCO A HIPÓTESE PRECEDENTE.

Com a perspicácia e a percuciência que lhe são peculiares, o grande camarada, professor Lincoln Secco, indaga os motivos pelos quais, no texto antecedente, considero apenas o tempo de trabalho dos professores na determinação social do valor da força de trabalho.

Excelente pergunta!

Ora, o trabalho da família, durante o período de vida da criança que antecede sua inserção na escola, não constitui, a rigor,  trabalho assalariado, nem produz mais-valia, de tal sorte que não foi considerado como produtor de mercadoria.

Mas, como se cuida de uma mercadoria específica, a saber, a força de trabalho, podemos considerar também esse período do trabalho familiar na produção de tal mercadoria, ainda que não seja trabalho assalariado, rigorosamente falando. 

Destarte, a taxa social de mais-valia diminui, pois temos que incluir os cinco anos da vida da criança anteriores à sua inserção escolar, de tal sorte que o tempo de trabalho socialmente necessário à produção da força de trabalho respectiva aumenta para 21 anos.

Assim, temos que a taxa social de mais-valia cai para 0,67, pois dos 35 anos de vida útil de trabalho, o trabalhador labora 21 anos para repor seus anos de formação ou produção, isto é, trabalha apenas 14 anos como excedente, os quais, divididos pelos 21 anos necessários à sua formação, resultam numa taxa social de mais-valia de 0,67, ou 67%.

Observe-se que quanto maior o tempo de trabalho socialmente necessário para produzir a mercadoria consubstanciada na força de trabalho, menor a taxa social de mais-valia e, portanto, menor também a taxa de lucro do capital. 

Ora, como historicamente aumenta a complexidade do trabalho, aumenta também esse valor da força de trabalho, diminuindo tanto a mais-valia quanto o lucro. 

Hipóteses ainda sub judice. 



por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador. 

ANOTAÇÕES PRELIMINARES SOBRE A TAXA SOCIAL DE MAIS-VALIA.

Seguem algumas anotações preliminares sobre a determinação do valor da força de trabalho e da taxa social de mais-valia no período de subsunção total do trabalho no capital.

Como vimos em textos precedentes, publicados neste portal eletrônico, o período histórico de subsunção total do trabalho no capital expunge a teoria marxista do valor de suas aporias e tautologias, de tal sorte que o valor da força de trabalho passa a ser efetivamente determinado pelo tempo de trabalho socialmente necessário para produzi-la e reproduzi-la, nomeadamente o tempo de trabalho assalariado dos professores no âmbito escolar e acadêmico.

Nesse diapasão, o valor da força de trabalho, e o respectivo salário do trabalhador, é determinado pela taxa social de mais-valia, que por seu turno é calculada da seguinte forma.   

Segundo a Previdência Social do Brasil, verbi gratia, o trabalhador do sexo masculino encerra uma vida útil média de trabalho, socialmente considerada, de 35 anos, porém sua formação escolar varia, mas tomemos uma formação escolar média de 16 anos, correspondente ao tempo em que tal trabalhador permanece na escola, desde os 5 até os 21 anos de idade aproximadamente, quando conclui a faculdade ou ensino superior. 

Logo, o tempo de vida útil de trabalho que excede os dezesseis anos de produção escolar da força de trabalho corresponde a 35 menos 16, ou seja, 19 anos em que o trabalhador laborou além do tempo de trabalho necessário à sua produção ou formação na escola.    

Nesse caso, a taxa social de mais-valia equivale a 1,19, isto é, 19 divididos por 16, sendo certo que o salário mensal ou anual é calculado levando em consideração tal taxa, a qual, evidentemente, muda com a variação de tempo socialmente necessário à formação escolar da força de trabalho, vida útil de trabalho, sexo, etc., mas sempre de forma socialmente considerada, e não individualmente.

Hipóteses sub judice. 





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador.   

quarta-feira, 28 de maio de 2025

ALEA JACTA EST!

Sejamos bem didáticos.

Cenário econômico no Brasil atual:

1. Alto índice de ocupação da força de trabalho;

2. Altas taxas de juros;

3. Inflação em declínio.

Muitos dirão: isso indica que o Banco Central do Brasil está correto na sua política monetária de combate à inflação. Vejamos. 

Com baixo nível de desemprego, o capital não consegue arrostar o declínio tendencial de sua taxa de lucro mediante redução de salários, de tal sorte que há a necessidade de aumentar os preços das mercadorias que produz, já que investir na produção de forma inovadora, para reduzir tais preços, poderia causar maior queda tendencial da taxa de lucro.

Mas a alta taxa básica de juros determinada pelo Banco Central compensa tal situação, de tal sorte que o capital deixa de aumentar os preços das mercadorias que produz pois compra títulos da dívida pública que remuneram nababescamente, deixando outrossim de investir na produção.

Mas a dívida pública, desta forma, não tende a crescer no médio e longo prazo, pressionando a inflação com maior gasto público?

Bem, esta é uma outra história, pois, sob a égide do capital, o planejamento da economia não parece encerrar escopo muito além dos ganhos imediatos dos seus detentores. 

ALEA JACTA EST!




por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador.

          

terça-feira, 27 de maio de 2025

DESINDUSTRIALIZAÇÃO?

Quer me parecer que a aceleração do processo de circulação de capital representa um contraponto ao declínio tendencial de sua taxa de lucro, pois diminui os assim denominados faux frais e aumenta a massa de lucro auferida em determinado lapso temporal.

Por isso, nos séculos XIX e XX observou-se uma grande evolução na indústria de material de transporte, máxime do automóvel, que viabiliza maior celeridade no deslocamento de pessoas e mercadorias. 

A hodierna revolução industrial digital, todavia, parece configurar um ponto de inflexão neste panorama, pois substituiu em grande medida tal necessidade de deslocamento físico de mercadorias e pessoas, ao favorecer mercadorias virtuais e telecomunicações instantâneas pela internet. 

Isso provocou uma certa desindustrialização na região do assim designado Cinturão da Ferrugem nos EUA, verbi gratia, e em outras regiões do planeta, como o Brasil e, ao que parece, o Japão, cuja indústria automobilística também sofre suas consequências. 

Seria um movimento de substituição definitiva da tradicional indústria da transformação, material, por uma indústria da informação, virtual?

Não estou absolutamente convicto disto, pois a revolução digital, com seus data centers e inteligência artificial, exigem uma infraestrutura de hardware e produção de energia elétrica extremamente importantes, de tal sorte que a produção material parece ter mudado de aspecto, mas não desaparecido.

Conjecturas sub judice. 



por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador.  

segunda-feira, 26 de maio de 2025

CAPITAL, TRABALHO E MEIO AMBIENTE

Em consonância com o texto imediatamente precedente, publicado neste portal eletrônico, diviso três grandes fases históricas do capitalismo, a saber:

1. Subsunção formal do trabalho no capital: período da manufatura, que se inicia em meados do século XV, com as grandes navegações europeias que marcam os pródromos do antigo sistema colonial, e dura até a grande revolução industrial inglesa de meados do século XVIII;

2. Subsunção real do trabalho no capital: período da maquinaria e grande indústria, de meados do século XVIII até o início do século XXI;

3. Subsunção total do trabalho no capital: período da assim denominada inteligência artificial, desde o início do século XXI, em que todas as potencialidades da força de trabalho, tanto manuais quanto intelectuais, subsumem-se definitivamente no capital. 

Logo, vivemos hodiernamente nos pródromos da última fase do capitalismo, mas se faz mister notar que em 1 e 2 a contradição principal consistia na oposição entre capital e trabalho, enquanto em 3 a contradição principal parece deslocar-se para a oposição entre capital e meio ambiente, dada a enorme demanda por recursos naturais representada pela manutenção física da inteligência artificial.

Todavia, o sujeito revolucionário apto a superar o capitalismo remanesce correspondendo à classe trabalhadora, na exata medida em que o meio ambiente, por razões óbvias, não pode cumprir tal papel histórico. 

Hipóteses sub judice.



por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador.    

domingo, 25 de maio de 2025

DA SUBSUNÇÃO TOTAL DO TRABALHO NO CAPITAL

De proêmio, rogo licença para evocar meu texto previamente publicado neste portal eletrônico sob o título "Inteligência artificial como capital fixo", cujas hipóteses parecem ter sido confirmadas.

Sem embargo, o artigo publicado hoje no jornal Folha de São Paulo intitulado "Com IA, programadores da Amazon são pressionados a trabalharem mais rápido", o qual na verdade consiste em republicação de reportagem do periódico estadunidense The New York Times, corrobora a hipótese de que, simetricamente à primeira grande revolução industrial, a do século XVIII na Inglaterra, testemunhamos hodiernamente uma nova forma de subsunção real do trabalho no capital que colima o aumento da força produtiva do trabalho para maximização da mais-valia relativa.

Todavia, se no caso da revolução industrial inglesa cuidava-se de subsumir na maquinaria, isto é, no capital fixo, o trabalho eminentemente manual, atualmente trata-se de subsumir no software de inteligência artificial o trabalho eminentemente intelectual dos programadores.

Destarte, a inteligência artificial hoje cumpre a mesma função de capital fixo cumprida pela maquinaria na revolução industrial do século XVIII, cujo escopo consiste em submeter o trabalho ao seu comando para elevar a respectiva produtividade.

Cuida-se ainda de uma transformação profunda no modo de produção capitalista, na medida em que completa o processo de subsunção do trabalho no capital, pois agora a força de trabalho em todas as suas potencialidades, tanto manuais como intelectuais, estão sob o comando dos meios de produção alheios aos trabalhadores e de propriedade burguesa, tanto que, como esgrimi no texto "Karl Marx e o conhecimento científico", também publicado neste portal eletrônico, a teoria marxista do valor expunge-se das contradições e aporias que a conspurcavam, tornando-se plenamente consistente do ponto de vista lógico e dialético.

Denominarei tal processo como SUBSUNÇÃO TOTAL DO TRABALHO NO CAPITAL.




por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador. 

ZHDANOV

Convenhamos que a ruína deste mundo começou quando o aspecto abstrato da mercadoria, a saber, seu valor de troca, sobrepujou o seu aspecto concreto, isto é, sua aptidão para satisfazer a necessidades humanas concretas, cabendo destacar que o valor de troca, a certa altura da história, adquire autonomia e se convola em dinheiro que, por seu turno, se metamorfoseia em capital, essa categoria econômica que representa o grau máximo de alienação exibido pelas relações de produção que os seres humanos contraem entre si, na exata medida em que encerra como escopo tão somente a valorização do valor para obtenção de lucro, sem nenhuma consideração com aquelas necessidades humanas concretas.

Tal caráter abstrato, ao máximo, do capital reflete-se hodiernamente nas variegadas manifestações da arte dita abstrata, entre as quais eu inseriria o pós-modernismo como movimento estético, que renunciou a representar a realidade concreta, contraposta ao jaez abstrato do mencionado capital.

Mas o comunismo, como movimento e tendência da história, guarda como divisa o resgate da realidade concreta mediante a reconsideração dos indivíduos concretos em sua prática social, na pretensão de exigir de cada um segundo suas potencialidades e atribuir a cada um segundo suas necessidades. 

Logo, o realismo socialista de Andrei Zhdanov estava, em princípio, correto ao tentar resgatar esteticamente a realidade concreta das necessidades e potencialidades humanas, malgrado certa brutalidade de seus métodos de persuasão. 




por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador. 

sexta-feira, 23 de maio de 2025

SEBASTIÃO SALGADO

Há poucas horas, faleceu o mais importante fotógrafo da história, o brasileiro Sebastião Salgado, em cuja homenagem ouso rabiscar algumas linhas bastante singelas que, espero, estejam à altura deste artista universal. 

Na minha humilde opinião, sua obra mais impressionante consiste nas imagens que capturou no garimpo de ouro da Serra Pelada na década de 1980, e peço licença para justificar minha preferência.

Sebastião Salgado exibia sólida formação acadêmica como economista, o que enseja as divagações que seguem. 

Parece cediço que a categoria econômica da mercadoria apresenta um duplo aspecto como valor de uso e valor de troca, sendo certo que o primeiro, concreto, consiste na sua aptidão para satisfazer a necessidades humanas, enquanto o outro, abstrato, é determinado pelo tempo de trabalho humano socialmente necessário para produzir essa mercadoria.

No curso da história, o aspecto abstrato da mercadoria adquire autonomia como dinheiro, que enseja a circulação das mercadorias, mas, outrossim, todas as formas de exploração do trabalho alheio para obtenção do lucro. 

Sem embargo, o dinheiro inicialmente permite, pelas diferenças de preços no antigo sistema colonial, a obtenção de lucro comercial, mas depois, na história, ele insere-se no próprio processo de produção econômica e transforma a força de trabalho em mercadoria, convolando-se em capital propriamente dito, cujo escopo consiste na extração da mais-valia para obtenção de lucro nesse mesmo processo de produção econômica.

Mas o interessante mesmo é que o dinheiro, esse aspecto abstrato da mercadoria que adquire autonomia, exsurge a princípio na forma de ouro. 

Ora, o ouro como dinheiro, objeto da cobiça humana, exibe-se portanto como fonte histórica da exploração do trabalho alheio, a saber, do jugo do ser humano pelo ser humano, mas seu jaez abstrato encerra o condão de ocultar essa exploração. 

Todavia, a arte de Sebastião Salgado ilumina a concretude do ouro, esse ente abstrato como dinheiro, ao exibir de forma épica a fonte de sua extração e produção pelo trabalho humano. 

Precisamente, na Serra Pelada esse artista magnífico encontra nos trabalhadores garimpeiros o aspecto brutalmente concreto da essência oculta do sistema de exploração do trabalho humano alheio pelo capital. 

Se a arte deve, sobretudo, iluminar o real, Sebastião Salgado cumpriu seu ofício de maneira brilhante, como nenhum outro antes dele. 




por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador. 

quinta-feira, 22 de maio de 2025

KARL MARX E O CONHECIMENTO CIENTÍFICO

Devo algumas explicações preliminares sobre o singelo texto imediatamente precedente publicado neste portal eletrônico. 

Enceto tal explicação admitindo que reconheço em Karl Marx o maior cientista social da história, o que faz dele um ser humano e, como tal, sujeito aos limites do próprio processo de desenvolvimento do conhecimento científico. 

Nesse diapasão, faz-se mister suscitar que o próprio Marx entende que o conhecimento científico atrela-se ao movimento do pensamento que ascende do abstrato ao concreto, cabendo destacar que o concreto é síntese de múltiplas determinações, unidade do diverso. 

Mas tal movimento de ascensão do abstrato ao concreto exibe-se inerente também ao próprio objeto do conhecimento científico, de sorte que na história natural, verbi gratia, as espécies biológicas mais antigas são incorporadas e superadas nas espécies biológicas mais recentes e mais complexas, sendo lícito ventilar que, nesse caso, a anatomia do homem é a chave da anatomia do macaco, na locução do próprio Karl Marx, admirador confesso de Charles Darwin.

No que pertine aos modos de produção que se sucedem no curso da história, há uma evidente simetria com o que acontece com a evolução das espécies biológicas acima aludida, de tal sorte que o modo de produção historicamente mais recente e complexo, o capitalista, incorpora e desenvolve as categorias econômicas que lhe antecedem, como a mercadoria e o dinheiro, na categoria econômica do capital.

Mas o próprio modo de produção capitalista exibe sua evolução histórica, e se inicialmente ele transforma a força de trabalho em mercadoria, tal força de trabalho aparece nos pródromos do capitalismo em sua forma eminentemente manual ou física, que não exige qualificação intelectual importante, podendo ser produzida no âmbito familiar sem o concurso do trabalho assalariado que engendra mais-valia. 

Isto representa uma aporia lógica para a teoria marxista do valor, pois a rigor todas as mercadorias deveriam ter seu valor determinado pelo tempo de trabalho humano socialmente necessário à sua produção, o que não acontece com a mercadoria consubstanciada na força de trabalho, ao menos nesta fase histórica em que encerra jaez eminentemente manual, pois ela é engendrada no âmbito familar pelas tarefas e afazeres domésticos que não são, rigorosamente falando, trabalho assalariado, nem geram mais-valia.

Por isso Marx incorre em certa tautologia ao postular que, diferentemente das demais mercadorias, a força de trabalho tem seu valor determinado pelo valor dos meios de subsistência necessários ao trabalhador médio, uma tautologia pois o valor aparece tanto na definição como no objeto a definir, ensejando uma circularidade que compromete a consistência lógica de tal conceito.

Mas tal incursão em tautologia decorre do próprio jaez ainda historicamente pouco desenvolvido do modo capitalista de produção, e não de um equívoco de Marx, tanto que a evolução capitalista ulterior confirma e lapida a teoria marxista do valor, senão vejamos. 

A hodierna revolução industrial digital introduz e entroniza o software como mercadoria principal, cuja produção demanda uma força de trabalho eminentemente intelectual que não pode ser engendrada no ambiente meramente familiar, pois demanda uma qualificação técnica que somente a escola pode oferecer, de tal sorte que, nesse caso, a força de trabalho é produzida por trabalho assalariado gerador de mais-valia, a saber, o trabalho assalariado dos professsores. 

Logo, tal revolução digital confirmou a teoria marxista do valor, pois agora a força de trabalho encerra seu valor determinado precisamente pelo tempo de trabalho humano socialmente necessário para produzi-la, vale dizer, o tempo de trabalho assalariado dos professores em âmbito escolar. 

Destarte, a aporia e a tautologia de Marx em sua teoria do valor eram apenas aparentes, pois o próprio objeto de sua investigação, o modo de produção capitalista, acabou por resolver tais problemas em sua evolução histórica concreta. 

Karl Marx, sem embargo, era um gênio visionário.     




por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador. 

quarta-feira, 21 de maio de 2025

UMA APORIA TEÓRICA E SUA RESOLUÇÃO PRÁTICA NA HISTÓRIA.


Quando o dinheiro convola-se historicamente em capital propriamente dito, ele enceta uma revolução social no modo de produção pela transformação da força de trabalho em mercadoria, cabendo destacar que tal mudança qualitativa na história manifestou-se inicialmente na forma da grande revolução industrial inglesa do século XVIII. Mas tal revolução no modo de produção restou incompleta e inconclusa, pois a força de trabalho afeta à maquinaria e grande indústria encerra um jaez ainda eminentemente manual ou físico, de tal sorte que, sem exigir grande nível de qualificação intelectual ou escolar, pode ser engendrada no âmbito familiar pelo trabalho doméstico.

Ora, se a mercadoria consubstanciada na força de trabalho, portanto, não é fruto do trabalho assalariado que gera mais-valia, mas sim do trabalho doméstico no âmbito familiar que não gera mais-valia, então há uma certa aporia ou contradição no âmago da teoria marxista do valor, pois a mercadoria consubstanciada na força de trabalho encerraria um caráter especial que a distingue e opõe às demais mercadorias.

Este caráter especial da mercadoria consubstanciada na força de trabalho evidencia-se na forma diferenciada da determinação de seu valor, o qual se estabelece não pelo tempo de trabalho humano socialmente necessário à sua produção, como acontece com as demais mercadorias, mas sim pelo valor dos meios de subsistência habitualmente necessários ao trabalhador médio, o que configura até mesmo, de certa forma, uma tautologia.    

Tal aparente aporia, no entanto, foi histórica e concretamente resolvida pela hodierna revolução industrial digital, que introduziu e entronizou o software como sua mercadoria por excelência, o qual exige, para sua produção, uma força de trabalho eminentemente intelectual que somente pode ser engendrada no ambiente escolar que, por seu turno, exorbita o âmbito meramente familiar.

Nesse caso, a força de trabalho intelectual produtora de software é com efeito engendrada pelo trabalho assalariado dos professores, os quais, por definição como assalariados, também geram mais-valia.

Destarte, a aporia teórica acima descrita foi resolvida e superada de maneira prática na história, de sorte que a força de trabalho como mercadoria deixa de ser especial e seu valor passa a ser determinado pelo tempo de trabalho humano socialmente necessário à sua produção, notadamente o trabalho escolar dos professores como trabalhadores assalariados. 



por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador.    

sábado, 17 de maio de 2025

ECONOMIA E POLÍTICA

Ciente do jaez complexo e controverso do tema em testilha, não posso esquivar-me, todavia, de tecer alguns comentários bastante incipientes a propósito. 

A exímia estudiosa Shoshana Zuboff recentemente cunhou o conceito de capitalismo de vigilância para denominar o que entende representar uma nova etapa no modo capitalista de produção, caracterizado por utilização de dados para dirigir o comportamento dos cidadãos nas variegadas esferas de sua vida, tanto políticas quanto econômicas. 

Honestamente, não sei se logrei compreender bem tal categoria, mas quer me parecer que se nota uma certa influência do conceito de poder esgrimido por Michel Foucault, em que a política predomina sobre a economia. 

Entendo, entretanto, que enquanto o problema da produção e reprodução da vida material humana em sociedade não for devidamente resolvido, a questão da distribuição do produto econômico entre as distintas classes sociais remanescerá predominante, de tal sorte que a economia continuará prevalecendo sobre a política, cabendo destacar que a obtenção do lucro permanecerá dirigindo eventual tentativa de determinação do comportamento individual.

Nada obstante, a controvérsia segue complexa, pois o próprio Lênin argumentava que a política é mais importante do que a economia, mas, nota bene, este dirigente político liderava um partido proletário em processo revolucionário, e sabemos que o proletariado constitui a única classe social apta a resolver aquele problema da produção e distribuição material da sociedade, acima aludido, isto é, a única força social e histórica hábil a limpar "toda a velha merda", na locução sardônica do próprio Karl Marx. 

Enfim, um bom e necessário debate.





por  LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador.  

MÚSICA: O FRÉDÉRIC FRANÇOIS CHOPIN DE BRAD MEHLDAU (em homenagem ao camarada Sérgio Domingues, notável divulgador marxista)

Quase dois séculos separam os pianistas Frédéric François Chopin e Brad Mehldau, mas este último presta um relevante e esteticamente agradável tributo ao primeiro na música que representa uma faixa de seu álbum "The art of the trio", intitulada "Lament for Linus"

Nesta faixa, Brad Mehldau reinventa o estudo de Chopin intitulado "Lament", de tal sorte que extrai a essência da linha melódica de aludido estudo para em seguida desenvolvê-la de forma improvisada, como é sintomático do estilo jazzístico, haurindo um efeito de grande impacto estético.

Outrossim, em uma analogia livre com o desenvolvimento científico, aventaríamos que este procedimento de Mehldau assemelha-se a uma lapidação de dada hipótese mediante o método científico, pois toma o estudo fragmentário de Chopin e transcende sua incipiência, expurgando tudo o que lhe é acessório e acidental para lhe conferir um jaez mais objetivo e hialino, apontando ainda os desdobramentos que lhe são embrionários. 

Indo um pouco mais além, ventilaríamos também uma analogia com o próprio desenvolvimento histórico das espécies biológicas e dos modos de produção sociais, que se caracteriza por certo aperfeiçoamento e desdobramento de estruturas prévias e menos complexas.

Sem embargo, o movimento que ascende do abstrato ao concreto, como postulado por Karl Marx, parece incidir sobre todas as esferas do real, sendo certo que o concreto é síntese de múltiplas determinações, unidade do diverso. 




por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador.     

sexta-feira, 16 de maio de 2025

Breve estudo em homenagem ao camarada Maurício Barbara

No livro primeiro de O Capital de Karl Marx, o dinheiro é sinônimo de circulação de mercadorias, mas esse autor não investigou como a burguesia comercial antediluviana lucrava com as diferenças de preços das mercadorias, especialmente no antigo sistema colonial, o qual foi dissecado por Fernando Novais.


Com o advento do capital propriamente dito, isto é, a inserção do dinheiro na produção direta das mercadorias, exsurge o problema do declínio tendencial da taxa de lucro, sendo possível que a aceleração da circulação de capital contraponha-se a tal declínio, mediante redução dos faux frais desse processo de circulação de capital, bem assim o aumento da massa de lucro auferida em dado lapso temporal.


As informações sobre produção e consumo representam item essencial para esta aceleração da circulação de capital, máxime para alocação de recursos pelo capital financeiro, o que pode ter estimulado a revolução digital ou microeletrônica hodierna, pois a aceleração da prospecção de informações sobre produção e consumo econômicos parece acelerar a circulação de capital.


De outro bordo, as melhorias nas comunicações e, portanto, também na difusão das informações pelas telecomunicações, máxime pela internet, substituem em grande medida as necessidades de deslocamento físico de pessoas e mercadorias, em detrimento do setor econômico dos transportes, verbi gratia, o que se manifesta, por exemplo, na decadência do Cinturão da Ferrugem nos Estados Unidos da América, que foi substituído pelo Vale do Silício como locomotiva econômica daquele país.


Hipóteses sub judice.

Maurício Barbara, destacado intelectual do Núcleo de Estudos do Capital, é doutorando em economia pela UFBA.




Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira, historiador.

terça-feira, 13 de maio de 2025

CIÊNCIA E POLÍTICA

Na produção e reprodução de sua vida material em sociedade, os seres humanos contraem entre si relações de produção, ou de propriedade, heterônomas e alienadas, que os governam à sua revelia e dividem a espécie do homo sapiens em classes sociais irremediavelmente antagônicas, representadas pelo capital (burguesia) e pelo trabalho (proletariado).

Tal fenômeno da alienação, necessariamente acompanhado pela divisão da humanidade em classes sociais antagônicas, é o responsável direto pela cesura entre o universo empírico da prática e o âmbito racional da ciência, de tal sorte que se faz mister uma metodologia científica rigorosa e controlada para que o pensamento transcenda tal cesura e alcance o conhecimento epistemologicamente válido, pois a prática social, a saber, o trabalho sob a égide do capital, por si mesma não conduz a este conhecimento.

Mas a divisão em classes sociais não implica em relativismo científico ou epistemológico, pois o proletariado, em seu aspecto potencialmente universal e apto a superar historicamente essa divisão em classes, encerra também a possibilidade, por intermédio de seus intelectuais orgânicos, de alcançar o conhecimento científico hábil a orientar a prática política capaz de concretizar a aludida superação da alienação e da divisão classista. 

Sob a ótica histórica, quando o dinheiro transforma-se em capital propriamente dito, ele inaugura e produz a força de trabalho como mercadoria sujeita à compra e venda, mas tal situação representa em si mesma uma oposição contraditória entre o ser humano e sua aptidão para o trabalho, uma divisão artificialmente imposta pelo capital que não tem como sustentar-se indefinidamente, e que alimenta uma massa de trabalhadores, ou de forças de trabalho como mercadorias, constitutiva de uma classe social que se define como uma potência apta a resolver tal contradição.         

Portanto, a ciência produzida no âmago do proletariado, por seus intelectuais orgânicos, encerra o condão de orientar e informar a prática política potencialmente apta a superar o modo capitalista de produção e a própria divisão entre classes sociais que lhe é ínsita: tal ciência foi denominada socialismo científico e um dos seus pressupostos consiste na asserção de que é na prática que o ser humano comprova a veracidade de seu pensamento. 




por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador.    

domingo, 11 de maio de 2025

DIALÉTICA E REPRODUÇÃO

Parece lícito aventar, com efeito, que a produção e reprodução da vida material humana bifurca-se em dois segmentos complementares, a saber: pela reprodução sexuada, preserva-se a espécie humana e, pelo trabalho, pereniza-se o modo de produção, sendo certo que, se este último foi dissecado por Karl Marx, a noção de espécie biológica foi investigada em profundidade por Charles Darwin.

Mas a continuidade do modo de produção capitalista, especificamente, bifurca-se, por seu turno, em classes sociais distintas e antagônicas, representadas pelo trabalho (proletariado) e pelo capital (burguesia), de tal sorte que o movimento diacrônico de preservação temporal deste modo de produção é garantido dialética e precisamente pela interação entre tais classes opostas. 

De forma simétrica, a preservação da espécie humana pela reprodução sexuada bifurca-se em gêneros ou sexos opostos, a saber, o feminino e o masculino, cabendo destacar ainda que o movimento diacrônico de continuidade temporal desta espécie é garantido dialeticamente pela interação entre tais gêneros feminino e masculino.

Todavia, as evidências empíricas mostram que a reprodução das espécies conduz, dialeticamente, ao surgimento de novas e mais complexas espécies, numa alteração qualitativa percucientemente investigada por Charles Darwin. 

Simetricamente, ainda, as evidências empíricas também mostram que os distintos modos de produção sucedem-se na história, de tal forma que é previsível e esperado que o modo capitalista de produção seja dialeticamente superado por outro, qualitativamente distinto e superior. 



por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador. 

sábado, 10 de maio de 2025

L. S. LOWRY

A produção e reprodução da vida material humana em sociedade realiza-se por duas vertentes angulares, a saber: a reprodução sexuada e o trabalho.

Mas tanto o universo da reprodução sexuada quanto o mundo do trabalho pareciam demasiado indignos e desagradavelmente feios aos olhos da arte plástica do romantismo pictórico, que os submergia na representação do amor lírico e da natureza em suas telas assépticas. 

O pintor britânico Laurence Stephen Lowry, no entanto, parece ter sido um dos arautos infensos a essa modalidade romântica da representação pictórica da realidade social, ao retratar em suas telas precisamente o universo das fábricas e dos trabalhadores da indústria de seu país.

Malgrado ainda restrito a certo figurativismo que alguns classificaram até mesmo como naif, sua obra antolha-se-nos mais revolucionária do que a ramificação de jaez formalista que vai dos impressionistas ao abstracionismo, passando por Van Gogh e Picasso, porquanto, ao contrário do racionalismo destes, Lowry dirige-se diretamente ao coração dos trabalhadores, encerrando o condão mais de comover do que de fazer pensar abstratamente. 

Seria a obra de Lowry uma espécie ou vertente de realismo socialista ocidental? 




por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador.  

segunda-feira, 5 de maio de 2025

RESILIÊNCIA CAPITALISTA

Em caráter ainda bastante incipiente e conjectural, ouso ventilar que o capitalismo concorrencial do século XIX arrostava duas frentes de óbices à acumulação irrestrita de capital consistentes no seguinte:

No âmbito do processo de produção de capital, a concorrência conduzia ao aumento da composição orgânica do capital colimando a elevação da força produtiva do trabalho para redução dos preços, o que, por seu turno, provocava um declínio tendencial da taxa de lucro do mesmo capital.

Na orbe do processo de circulação de capital, esta mesma concorrência engendrava um entrave consistente no descompasso entre oferta e demanda econômicas, com dificultar a realização da mais-valia. 

O capitalismo monopolista do século XX, de certa forma, resolveu em boa medida tais óbices da fase concorrencial, pois eliminou a concorrência e, por conseguinte, a necessidade da aumentar a composição orgânica do capital para reduzir preços, removendo o espectro da queda tendencial da taxa de lucro. 

De outro bordo, mediante a possibilidade de imposição de preços administrados, os monopólios ensejaram de certa forma coadunar, ao menos em determinado setor da economia, a oferta e a demanda econômicas, facilitando a realização da mais-valia.

Hipóteses sub judice. 




por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador.