Na produção e reprodução de sua vida material em sociedade, os seres humanos contraem entre si relações de produção, ou de propriedade, heterônomas e alienadas, que os governam à sua revelia e dividem a espécie do homo sapiens em classes sociais irremediavelmente antagônicas, representadas pelo capital (burguesia) e pelo trabalho (proletariado).
Tal fenômeno da alienação, necessariamente acompanhado pela divisão da humanidade em classes sociais antagônicas, é o responsável direto pela cesura entre o universo empírico da prática e o âmbito racional da ciência, de tal sorte que se faz mister uma metodologia científica rigorosa e controlada para que o pensamento transcenda tal cesura e alcance o conhecimento epistemologicamente válido, pois a prática social, a saber, o trabalho sob a égide do capital, por si mesma não conduz a este conhecimento.
Mas a divisão em classes sociais não implica em relativismo científico ou epistemológico, pois o proletariado, em seu aspecto potencialmente universal e apto a superar historicamente essa divisão em classes, encerra também a possibilidade, por intermédio de seus intelectuais orgânicos, de alcançar o conhecimento científico hábil a orientar a prática política capaz de concretizar a aludida superação da alienação e da divisão classista.
Sob a ótica histórica, quando o dinheiro transforma-se em capital propriamente dito, ele inaugura e produz a força de trabalho como mercadoria sujeita à compra e venda, mas tal situação representa em si mesma uma oposição contraditória entre o ser humano e sua aptidão para o trabalho, uma divisão artificialmente imposta pelo capital que não tem como sustentar-se indefinidamente, e que alimenta uma massa de trabalhadores, ou de forças de trabalho como mercadorias, constitutiva de uma classe social que se define como uma potência apta a resolver tal contradição.
Portanto, a ciência produzida no âmago do proletariado, por seus intelectuais orgânicos, encerra o condão de orientar e informar a prática política potencialmente apta a superar o modo capitalista de produção e a própria divisão entre classes sociais que lhe é ínsita: tal ciência foi denominada socialismo científico e um dos seus pressupostos consiste na asserção de que é na prática que o ser humano comprova a veracidade de seu pensamento.
por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador.
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