PARA GUIDO ROCHA, in memoriam
PARA RONALD ROCHA.
As águas pluviais precipitavam-se torrencialmente, logo pela manhã, sobre as escarpas íngremes das montanhas naquela vila das Minas Gerais na colônia portuguesa das Américas, mas tal condição não obstou os trabalhos do sacerdote católico na capela incrustada no alto de um morro na periferia daquela relativamente singela aglomeração urbana, e o padre então prolatou locuções canônicas de exorcismo batismal diante de pais atônitos que seguravam no colo sua criança, a qual, assombrada com a situação, emitia gritos inexoráveis do mais puro terror, mas esse vigário não se detinha e, incontinenti, tomou a criança em seus braços e a mergulhou com celeridade na pia de batismo, proferindo simultaneamente a seguinte fórmula sacramental: “Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém”
Àquela criança franzina, de delicada higidez física, foi atribuída a alcunha de Roque, mas sua fragilidade constitutiva não configurou entrave a uma infância bastante animada e feliz, nos limites um tanto estreitos de um filho de carpinteiro que, malgrado sua reconhecida habilidade profissional, não sabia muito bem como administrar os negócios e, na maioria das vezes, era logrado nas celebrações contratuais, mas, não obstante seu estilo de vida frugal, procurou transmitir seus conhecimentos a Roque quando este completou doze anos de idade,tarefa esta que, no entanto, exibiu-se liminarmente infrutífera, pois o garoto não encerrava o menor talento para as artes manuais, conquanto quedasse absorto com as leituras bíblicas que encetava secretamente, noites adentro e sem conhecimento ou concurso dos pais, o que demonstrava sua religiosidade já entranhada e epidérmica, de tal sorte que seu genitor, colimando curar a inépcia e imperícia de Roque quanto ao ofício da carpintaria, resolveu então conduzi-lo, sob seus veementes protestos, a um ritual de despacho, de crença originalmente africana, em logradouro ermo nas cercanias da vila onde fincavam moradia, trabalho este que, todavia, não surtiu efeitos imediatos, para desgosto do pai.
Passados alguns meses, no entanto, Roque logrou sozinho e com muita presteza, para grande espanto e comoção de seu progenitor, entalhar em madeira, com exímia perfeição, um boneco articulado para uso em teatro de marionetes, pois acalentava, juntamente com alguns amigos do bairro, as artes cênicas com títeres, mediante peças teatrais habitualmente desinibidas no sótão de um casarão onde residia um destes colegas de infância, em ocasiões lúdicas e de pronunciado júbilo coletivo, conquanto secretas e de participação exclusiva da agremiação de meninos das adjacências, que geralmente brincavam juntos nas vias públicas locais, cabendo destacar que, certa feita, no aludido sótão, Roque encontrou uma Bíblia ilustrada que continha uma vasta figura antropomórfica do Demônio e, ao deparar-se com tal desenho, foi acometido por grave surto de pânico, tamanho foi o assombro provocado por aquela imagem aterrorizante, a qual, na verdade, não se desligou de seus pensamentos durante meses a fio, com ensejar-lhe severa prostração que o cingiu a permanecer acamado por todo esse nebuloso período.
Tal estado letárgico, em verdade resultante de genuína crise religiosa, durou aproximadamente seis meses, ao final dos quais um evidente milagre ocorreu, eis que Roque, recobrando a vitalidade e o vigor juvenis, passou a dedicar-se com notável afinco à escultura em madeira e em pedra sabão, parecendo lícito ventilar que, em pouco tempo, tornou-se um dos mais festejados e requisitados artistas de extração católica daquela vila, com produzir em escala quase industrial um sem número de imagens religiosas de crucifixos, de santos e de Nossas Senhoras imaculadas, cujos ligeiramente melancólicos semblantes eram amiúde banhados em ouro obtido naquela mesma região, e que adornavam tanto santuários quanto residências, sendo certo que a fama do rapaz logo encetou a exorbitar os quadrantes das Minas Gerais para chegar à metrópole lusitana, ensejando inclusive estudos acadêmicos de especialistas que vinham ter àquela singela vila colonial exclusivamente para averiguar, de perto, a verdadeira revolução na estética barroca em vias de construção pelo jovem Roque, que enfim amealhou, destarte, dinheiro suficiente para comprar o mencionado casarão, em cujo sótão surtara diante da imagem demoníaca, tornando-se, assim, um sujeito abastado e senhor de escravos, com importantes laços sociais na elite da vila e das paragens próximas, conquanto jamais tenha contraído núpcias, talvez em razão de uma existência quase monástica na extrema devoção ao labor de jaez artístico e religioso.
A figura plácida e quase esquálida de Roque contrastava, de certa forma, com sua animação e entusiasmo por ocasião das reuniões festivas que patrocinava em seu lar no intuito de consolidar e ampliar seus laços sociais, os quais, de maneira bem pragmática, ensejavam-lhe incremento dos negócios enquanto santeiro, e dentre os senhores que frequentavam tais animados encontros havia um dentista que invariavelmente introduzia temas políticos nos respectivos colóquios, sempre acalentando inflamado proselitismo a propósito das vantagens a serem hauridas por eventual independência das Minas Gerais em relação à metrópole lusitana, e parece lícito aventar que, na verdade, os discursos, digamos, subversivos de tal dentista no casarão de Roque, no curso do tempo, convolaram-se na principal atividade dessas festas que agremiavam cada vez mais assíduos frequentadores e apoiadores das premissas de uma ruptura política com Portugal, malgrado o absoluto desinteresse do dono da casa em relação a tais temas, os quais se lhe antolhavam bastante tresloucados e sem real importância, muito embora tolerasse de bom grado as conversas a propósito nas dependências de sua propriedade, até que, em certa noite fresca de lua cheia, um de tais encontros foi abruptamente interrompido por violenta invasão do casarão de Roque por forças públicas, as quais arrestaram liminarmente e sem grandes justificativas todos os presentes ao convívio, conduzindo-os incontinenti aos porões do presídio local, sendo certo que aqui se enceta um verdadeiro martírio do nosso prezado santeiro.
Sem embargo, nos dois meses em que permaneceu sob custódia, Roque foi barbaramente torturado por um agente das forças públicas, portador de intensos olhos de coloração azul clara e de longos cabelos e barbas loiros, o qual invariavelmente se apresentava, vestindo sempre uma túnica alva como as nuvens do céu, sob o epíteto de “Jesus Cristo”, e infligia à figura pequena, esquálida e quebradiça do santeiro as mais cruéis atrocidades, como privação de sono, espancamento, chibatadas, afogamento em banheira, suspensão em pau-de-arara por dias a fio, enfim, coisas inomináveis que foram suportadas, todavia, com inacreditável galhardia, e mesmo airosamente, por aquele sujeito frágil e miúdo.
Logo após sua soltura do presídio, Roque concedeu alforria a todos os seus escravos e passou a produzir, com sofreguidão evidente, crucifixos de avantajada dimensão que destoavam completamente das plácidas e serenas figuras de outrora, pois agora a imagem de Cristo assemelhava-se mais ao próprio Roque durante as sessões de tortura, sempre esquálido, com as pernas tensamente dobradas, o semblante quase monstruoso a lançar um grito lancinante pelos lábios escancaradamente abertos e olhos esbugalhados, cabelos desgrenhadamente eriçados e corpo absolutamente hirto.
Despiciendo dizer que Roque não convolou qualquer desses crucifixos agonizantes em dinheiro, mas alienou todas as suas posses para causas que hoje denominaríamos como humanitárias, vindo a falecer na mais completa miséria e obscuridade.
por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.
Nenhum comentário:
Postar um comentário