quinta-feira, 5 de março de 2026

ANTÓNIO LOBO ANTUNES

Hoje lamentamos profundamente a perda de António Lobo Antunes, que se despediu deste mundo aos 83 anos de idade, legando uma obra literária de importante extensão e envergadura artística, com se destacar como herdeiro legítimo de uma tradição que remonta, provavelmente, a Marcel Proust, caracterizada, em grande medida, pela perda gradativa da onisciência do narrador, que se torna, destarte, mais introspectivo e menos propenso à objetividade da narrativa. 

Sem embargo, o início do século passado, quando Proust engendra sua obra, viu florescerem novas formas de percepção do real em si, tanto nas artes quanto na ciência, de tal sorte que a subjetividade do artista ou do cientista tradicionais subverte-se em favor de um profundo questionamento dos limites e capacidades do sujeito cognoscente ou criativo. 

No âmbito científico, verbi gratia, a noção de tempo absoluto e linear, decorrente da sensação individual de permanência da identidade do indivíduo apesar do envelhecimento, foi completamente subvertida pela teoria da relatividade de Albert Einstein, enquanto a objetividade do próprio conhecimento científico foi posta à prova pela mecânica quântica, máxime pelo princípio da incerteza formulado por Werner Heisenberg, que demonstrou a interferência do sujeito sobre o objeto investigado durante o processo de observação empírica.

Ora, a obra de Lobo Antunes inscreve-se precisamente nessa nova percepção do real, pois seu narrador jamais divisa ou colima a objetividade, mas sua narrativa é fragmentária e não linear, com um tempo idem, de sorte a mimetizar o jaez hesitante e dúbio da memória  individual, sendo certo que a possibilidade de apreender a verossimilhança do objeto narrado exibe-se sempre duvidosa. 

Enfim, hoje um grande mestre das artes partiu lamentável e definitivamente, mas sua obra remanesce. 






por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.   

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