domingo, 26 de outubro de 2025

ESQUETE SOBRE VALOR E VIOLÊNCIA

"Nunca há um documento da cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie"

Walter Benjamin


Vimos que a forma-mercadoria pressupõe a propriedade privada dos meios de produção dessa mercadoria, bem assim que tal propriedade privada dos meios de produção funda-se no trabalho e na violência, sendo certo que, por esta última instância, o indivíduo ou grupo proprietário adquire ou impede a turbação de sua propriedade por outrem, de tal sorte que trabalho e violência desenvolvem-se dialética e ulteriormente, na escravidão, em uma classe social que só trabalha e outra que exerce a violência sobre a primeira. 

Mas aduzimos outrossim que o valor de dada mercadoria é determinado pelo tempo de trabalho socialmente necessário para produzi-la, em homenagem ao trabalho como instância fundamental da propriedade privada dos meios de produção de tal mercadoria: o que dizer, no entanto, da violência, a segunda instância de tal propriedade privada dos meios de produção dessa mercadoria? Não deve ser considerada na determinação do valor dessa mercadoria?  

Ousaria responder afirmativamente a tal indagação. 

Sem embargo, podemos tomar o exemplo do antigo sistema colonial tão bem descrito, verbi gratia, por Fernando Novais e Jacob Gorender, em que o preço do produto final das colônias escravistas, como o açúcar no Brasil colonial, era composto em grande medida, ainda que indiretamente, pelo custo de escravização no continente africano.

Ademais, no capitalismo hodierno, o papel da violência na determinação do valor ou preço final das mercadorias exibe-se pressuposto no custo dos tributos que sustentam o aparato burocrático-militar estatal que, em última instância, serve apenas como mantenedor, pelo monopólio legal da violência, da propriedade privada capitalista dos meios de produção contra a massa de trabalhadores despojados dessa propriedade e que, portanto, devem alienar sua força de trabalho pra sobreviver.

Destarte, a violência, e não apenas o trabalho, funciona como fator determinante do valor mercantil, segundo o acima exposto.

Hipóteses sub judice.




por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador. 

TEMAS INCIPIENTES SOBRE ABSTRAÇÃO E VALOR DE TROCA

À abstração do indivíduo, ou grupo, isolado, que se dissocia da história passada de que na verdade é fruto, corresponde a abstração do valor de troca da mercadoria, que adquire autonomia como dinheiro, ou seja, como circulação de mercadorias. 

Isso porquanto a TROCA de mercadorias pressupõe distintos PROPRIETÁRIOS dessas mercadorias que são trocadas, isto é, os indivíduos ou grupos isolados somente se relacionam entre si na troca de merdadorias como seus respectivos proprietários, pois, nota bene, não faz sentido cogitar em troca de mercadorias entre indivíduos que são coletivamente detentores ou proprietários de um conjunto de objetos meramente compartilhados, e não trocados, entre os mesmos.  

Logo, a propriedade privada do objeto a ser trocado como mercadoria consiste em pressuposto da relação social ou de produção consubstanciada nessa troca de mercadorias. 

Mas, na verdade, a propriedade privada de dada mercadoria decorre da apropriação, pelo trabalho e pela violência, de determinados meios de produção dessa mesma mercadoria, de tal sorte que o aspecto abstrato da mercadoria, ou seja, seu valor de troca, é determinado pelo tempo de trabalho socialmente necessário para a respectiva produção, cabendo não olvidar que seu valor de uso consiste na sua qualidade concreta de satisfazer a necessidades humanas concretas. 

Dessume-se, portanto, que o aspecto abstrato da mercadoria, isto é, seu valor de troca, corresponde ao aspecto abstrato do indivíduo, ou grupo isolado, como proprietário privado de determinados meios de produção.

Em suma, a abstração da mercadoria exibe-se homóloga à abstração do indivíduo ou grupo isolados como proprietários privados.   





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador. 

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

OS TEMPLOS DOURADOS, OU EXÓRDIO DO PREÂMBULO DE UM BOSQUEJO ENSAÍSTICO.

Há dois templos católicos brasileiros, de estilo arquitetônico colonial, que, somados, encerram bem mais de uma tonelada de ouro adotada como adorno, a saber, a basílica de Nossa Senhora do Pilar em Ouro Preto e a igreja de São Francisco em Salvador, mas tal abundância em metal precioso não se exibe, de forma alguma, como aleatória, muito pelo contrário, pois é cediço que o ouro consiste na manifestação concreta mais apropriada e longeva da relação de produção consubstanciada no dinheiro, que nada mais é do que a denominação por excelência da circulação de mercadorias, as quais, por seu turno, guardam uma dupla faceta como valor de uso, seu aspecto concreto consistente na satisfação de necessidades humanas, e como valor de troca, seu jaez abstrato, sendo certo ainda que esta última qualidade da mercadoria destaca-se dela e adquire autonomia para funcionar precisamente como dinheiro, mas convém lembrar que, previamente a tal autonomia, a troca simples de mercadorias se impunha como forma de simbiose entre agrupamentos humanos, de tal sorte que as aludidas relações de produção, isto é, a mercadoria e sua troca simples, que teve como sucedâneo o dinheiro ou a circulação de mercadorias, exsurgem como formas alienadas e heterônomas de relações sociais entre os seres humanos, que os governam e regem à sua revelia como uma opressão de origem e caráter divino, razão pela qual a troca simples de mercadorias produziu o politeísmo, enquanto o dinheiro ou a circulação de mercadorias engendrou o monoteísmo, na exata medida em que, neste último caso, o instrumento monetário pode ser substituído e corresponder a qualquer tipo de mercadoria, vale dizer, pode transfigurar-se em qualquer valor de uso, mas o mais fascinante em toda essa história é que, em dado momento, o dinheiro cai dos píncaros divinos da circulação de mercadorias para voltar ao universo demasiado humano da produção de tais mercadorias, agora como capital propriamente dito ou em sentido estrito, o que pode ser apreendido na forma adquirida por um acontecimento histórico emblemático designado como Revolução Industrial, acontecido na Inglaterra durante o século XVIII da nossa era, ou seja, a era cristã, alusão esta bastante oportuna e conveniente, eis que a figura grandiloquente de Jesus Cristo pode ser interpretada como um monstruoso vaticínio do capital, na medida em que também é uma maneira de ascensão do abstrato ao concreto enquanto manifestação humana e corpórea da própria divindade monoteísta de uma determinada tradição religiosa, encetada pelo povo hebreu, sendo certo, como corolário geral do acima exposto, que os templos católicos inicialmente mencionados foram adornados com ouro abundante para mostrar seu jaez e caráter precisamente divino e transcendental, enfim, para exibir o aspecto concreto e material da divindade corporificada no Salvador.    






Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira, historiador.

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

DO ABSURDO EXISTENCIALISTA (ao camarada LINCOLN SECCO, exímio curador marxista brasileiro)

Muito provavelmente, a faceta mais radical do existencialismo consista na ideia de absurdo, esta ausência de sentido no mundo, desenvolvida teoricamente, verbi gratia, por Albert Camus e conduzida ao paroxismo por Emil Cioran, para quem, no limite, o suicídio pode configurar uma saída trágica, mas honesta, para esta falta de esperança na existência humana.

Mas, efetivamente, o que conduz a esse pessimismo exacerbado, a esse abismo vertiginoso?

O contraponto dos existencialistas ao racionalismo absoluto de Hegel, na verdade, não introduziu nada de sistemático em seu lugar, remanescendo no âmbito do irracionalismo individualista que conduz, em última instância, àquela ideia de abismo e absurdo suicidas. 

Um esforço concentrado para devolver sentido à existência humana foi logrado, todavia, pelo socialismo científico, que deslocou o indivíduo do centro das investigações para entronizar a sociedade dividida em classes sociais antípodas, em que o sentido da necessidade revolucionária de constituição da verdadeira Humanidade, despojada de antagonismos de classes sociais e Estados nacionais, e onde cada indivíduo poderá desenvolver suas plenas capacidades ao obter uma existência materialmente digna desse nome, substitui o vazio e o absurdo individuais existencialistas. 

Nesse diapasão, o socialista Louis Althusser costumava asseverar que os indivíduos, por ora, são meros vetores de determinações estruturais do capital, sendo certo, portanto, que o vazio existencial e o absurdo individual decorrem precisamente do fato de que os seres humanos estabelecem entre si relações de produção, ou de propriedade dos meios de produção, heterônomas e alienadas, que os governam à sua revelia e que os destitui de sentido próprio para existir no mundo. 

Tais relações de produção atingem o apogeu no capital, esta faceta abstrata da forma-mercadoria que obtém autonomia e governa o destino dos seres humanos de forma alienada e heterônoma, parecendo lícito ventilar que, precisamente, este jaez ABSTRATO do capital é que produz a sensação individual de vazio existencial e absurdo do mundo. 

Mas a verdadeira Humanidade já aludida, a ser alcançada no comunismo mundial vindouro, restituirá o sentido da existência aos invidíduos humanos, mas agora em chave coletiva, e não egoísta. 

Eis, portanto, o sentido e a tarefa que se impõem hodiernamente aos seres humanos enquanto coletividade: a revolução que suplantará o capital para alcançar o comunismo mundial. 





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador.          

terça-feira, 21 de outubro de 2025

MACHADO DE ASSIS (em homenagem à estimada camarada MARISA YAMASHIRO)

O meu inigualável herói cinematográfico, o realizador DAVID LYNCH, costumava aborrecer-se quando o mistério de uma película quedava elucidado e resolvido, mas este mesmo cineasta aduzia, em tom mais filosófico, que não era apropriado escrutinar o sentido de um filme, assim como não é relevante procurar pelo sentido da vida ou da existência, de tal sorte que o jaez absurdo das obras deste autor reside, na verdade, em uma postura existencialista radical.

Parece oportuno obtemperar, nesse diapasão, que as origens do existencialismo filosófico fincam espeque na contraposição ao sistema racionalista extremado do último grande filósofo, Hegel, contra o qual se insurgem vozes da estirpe do niilista Nietzsche e do cético Kierkegaard, sendo certo que este último esgrimiu a lapidar sentença segundo a qual "os filósofos constroem castelos de ideias e moram numa choupana"

Destarte, para estes críticos de Hegel, enveredar pela busca de um sentido ou essência da vida consiste em erro grosseiro, eis que o mistério da existência remanescerá sempre incólume. 

Mas Machado de Assis, ao recusar-se, em seu romance "Dom Casmurro", a desvendar o mistério do possível adultério de Capitu contra Bentinho, já em 1899, insere-se nessa grande linhagem existencialista que rompeu com todas as formas de teleologia ou busca por sentido nesta vida misteriosa e fascinante. 

Parafraseando o que asseverou Dostoievski em relação a "O capote" de Gógol, postularíamos que somos todos caudatários de "Dom Casmurro" do bruxo de Cosme Velho, uma linhagem misteriosa que, no cinema, por exemplo, vai de "Os Pássaros" de Alfred Hitchcock a "Twin Peaks" de David Lynch.

MACHADO DE ASSIS, aqui, agiganta-se como digno de integrar o mesmo panteão de Dante, Shakespeare, Cervantes e Goethe. 





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador. 

PARA VERA COTRIM

Raro encontrar uma pessoa inteira

vemos elas mesmo

aos pedaços

numa réstia da luz do sofrer

Numa fome de tudo perdida

num post logo apagado

É raro


Mas não a Vera

Inteira ela era


É evidente

ontologicamente

Quem pensa fora da caixa

vive fora dela

Quem busca a verdade

exercita até se tornar

Vera


Saudades de conversas inteiras

que eu não entedia a metade

de gente fazendo história fora da aula

sem medo ou pudor

sem patriarcado

Inteira

Vermelha

Vera






Por CIRO SEIJI YOSHIYASSE 

sábado, 18 de outubro de 2025

O FIM DO EGO, TERCEIRA PARTE: LITERATOS.

Manifestações daquilo que venho denominando fim do ego, ou a crise da ideologia do individualismo burguês e da respectiva egolatria típica do capitalismo, ocupam lugar bastante evidente no âmbito da literatura, senão vejamos alguns casos bem interessantes em que a obra sobrepuja em muito a biografia do respectivo autor.

É cediça, nesse diapasão, a reclusão voluntária de Dalton Trevisan, alcunhado de "O vampiro de Curitiba", completamente avesso a aparições públicas e à concessão de entrevistas, bem assim a diretriz inobservada de Franz Kafka ditada a seu amigo Max Brod, para que este descartasse toda a sua obra literária inédita após o seu desaparecimento, que revelam evidente desapego aos louros e privilégios da fama e do dinheiro que afagam o ego das figuras públicas nesse departamento. 

Mas talvez a maior manifestação literária de desapego do ego esteja encerrada na vida e na obra de Fernando Pessoa, que viveu modestamente como burocrata do comércio, mas expandiu tal ego em um universo literário de heterônimos que suplantou de forma exponencial essa humilde e monótona existência pequeno burguesa, uma vida totalmente dedicada à edificação de uma obra que o alçou à condição de um dos maiores poetas de todos os tempos, um reconhecimento também póstumo que evidencia sua integral ausência de egolatria burguesa; um sujeito que, parafraseando o grande Rabindranath Tagore, plantou uma verdadeira floresta sabendo que jamais viria a se sentar à sombra de uma única de suas frondosas árvores.  




por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador. 

O FIM DO EGO, SEGUNDA PARTE: GRIGORI YAKOVLEVICH PERELMAN.

Ainda no compartimento dedicado ao fim do ego e decadência do sujeito histórico individual, faz-se mister, com a máxima urgência e solenidade, mencionar o caso do matemático russo cujo nome está em epígrafe, Grigori Perelman. 

No final de 2002 e começo de 2003, esse matemático demonstrou, em artigos publicados no sítio eletrônico denominado arXiv, um dos sete maiores problemas matemáticos, até então não resolvidos, segundo a lista do prestigiado Instituto Clay, isto é, a assim designada conjectura de Poincaré, o que lhe rendeu ensejo ao Prêmio do Milênio no valor de um milhão de dólares, bem assim a também prestigiada Medalha Fields, considerado o maior galardão mundial na seara da matemática. 

Eis a resposta de Perelman ao recusar ambos os prêmios:

"Não estou interessado em dinheiro ou fama, não quero ser exibido como um animal em um zoológico"

Assim procedendo, Perelman retirou-se definitivamente da vida acadêmica e pública e isolou-se na reclusão absoluta, asseverando seu descontentamento com a monetização da ciência e a falta de reconhecimento público de seus predecessores no campo de investigação a que se dedicava.

Tal relato prescinde de comentários, mas talvez Perelman seja um comunista soviético, um stalinista "de raiz"!

Bobby Fischer será objeto da próxima publicação, não percam!





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador.      

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

O FIM DO EGO

Já tivemos a oportunidade, aqui, de obtemperar que a identidade individual e o ego desenvolvem-se a partir do complexo edipiano descrito por Sigmund Freud, mediante o qual o ser humano afasta-se da família originária e se torna, digamos, livre para constituir sua própria família, processo este que produz a impressão e a ideologia de que o indivíduo está isolado no mundo e que não é fruto das sociedades atual e passada, o que está no fundamento da propriedade privada dos meios de produção, sejam eles fundiários ou capitalistas. 

O socialismo científico de Karl Marx e Friedrich Engels talvez constitua a crítica mais radical de tal ideologia, crítica esta que entronizou, como sujeitos históricos, as classes sociais como sucedâneo dos indivíduos e heróis da historiografia. 

Hodiernamente, esta consciência da ideologia, digamos, egoísta ou ególotra adquiriu alguns contornos interessantes:

Tomemos o exemplo da literatura: Elena Ferrante e Thomas Pynchon fazem absoluta questão de ocultar o ego sob o manto do pseudônimo ou da reclusão absoluta, enquanto, nas artes plásticas, a identidade do artista gráfico Banksy remanesce uma incógnita intransponível. 

Mas, pasmem, é no âmbito da economia que reside o maior de todos os mistérios hodiernos: quem seria Satoshi Nakamoto, pioneiro misterioso e recôndito das criptomoedas ou moedas digitais? Até hoje não se sabe ao certo se ele existe ou não, se é de fato um indivíduo ou um coletivo!

Façamos uma solene saudação a estas misteriosas manifestações de fim da ideologia do ego, algo que, na política, por exemplo, antolha-se-nos muito distante. 



por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador. 

terça-feira, 14 de outubro de 2025

A LUA E A AREIA

 A LUA E A AREIA

 

Em memória de Arthur Charles Clarke e Stanley Kubrick 

 

 

 

O eventual e nobre leitor destas páginas manuscritas com sangue, na melhor e mais confiável tradição fiduciária encetada por Friedrich Nietzsche, quiçá venha a se recordar de que este humilde servo, que ora lhe dirige estas linhas, algures já ventilou a conjectura de acoplar ao texto agora sob escrutínio uma música incidental oriunda de algum aparelho externo e avulso, apto a amenizar com melodias e acordes a respectiva leitura, e neste caso eu tomaria a liberdade de sugerir uma faixa de jazz intitulada “Moon and Sand”, do álbum Standards, devidamente executada, com maestria técnica e alma engajada, por Keith Jarrett ao piano, Gary Peacock ao contrabaixo e Jack DeJohnette na percussão, para então relatar que em determinada noite de lua cheia, há séculos já passados, em certa ilha inserida no oceano Pacífico à altura do equador, ocorria nas areias mornas do litoral uma cerimônia fúnebre de corpo presente, dedicada ao recém falecido ancião da tribo local, e rigorosamente dirigida pelo sacerdote do grupo, que comparecia na íntegra, chefe religioso este que prolatava sentenças de lamento e profunda consternação pelo acontecido com o velho e sábio membro daquela população temente ao todo poderoso criador do universo, e então o líder confessional já aludido empreendeu uma pausa no inflamado discurso para fitar o luar e obtemperar que aquilo, a morte, também lhe ceifaria o vigor vital algum dia desses, enquanto aquele satélite lunar, e o deus particular que ele encerrava em seu mais recôndito âmago, remanesceriam airosamente e com galhardia, malgrado o finito destino individual de cada rosto ali constante, mas talvez aquela tribo guardasse o condão de se perpetuar nos rebentos dos componentes daquele cortejo de exéquias, e tal reflexão acalmou seu despedaçado músculo do átrio esquerdo do peito, enquanto as ondas oceânicas provocavam inexoravelmente o celeuma típico dos mares daquela região longínqua no meio do nada e olvidada pelo já mencionado todo poderoso.

Neste exato momento, a milhares de quilômetros distantes dali, na região do mesmo planeta hoje conhecida como floresta amazônica, dois pajés de tribos distintas e tradicionalmente inimigas, marcadas por disputas territoriais e guerras infindáveis entre si, encontram-se solenemente em território neutro para trocar presentes e remédios, bem assim para estabelecer colóquio amistoso sobre a vida, com empreender diálogo pacífico sobre a finitude do corpo e a infinitude da alma, ou mais especificamente acerca da maneira como somos capazes de escutar nosso espírito interno através do turbilhão incontido do pensamento, algo que permanece fora do controle de nossa vontade e revela o jaez divino de nossas breves existências materiais, eis que tal entidade mental e desgovernada reúne-se, após a morte corpórea, aos deuses perenes que habitam a floresta e contêm os mistérios da selva que cura e mata com a mesma falta de cerimônia, mas que acolhe com ternura o burburinho musical produzido pelas águas do imenso rio que corre ao largo de forma incessante e que não respeita qualquer celebração fúnebre das tribos que habitam suas adjacências, mas fornece a substância líquida e o alimento vivo imprescindíveis para o corpo individual dos integrantes dos povos que moram ali há dezenas de séculos.  

Muito, muito tempo após os acontecimentos acima narrados, deparamo-nos agora no continente africano, mais especificamente no litoral da costa de seu flanco oeste, com um grupo de comerciantes europeus, oriundos da península ibérica, que empreende, com boa dose de altivez, complexas tratativas com as autoridades de determinada nação local, colimando a aquisição de um lote de escravos jovens e hígidos destinado ao labor nas plantações e engenhos de açúcar na porção nordeste do país que ora veio a se denominar como Brasil, parecendo conveniente aventar e aduzir nesse particular que o instituto da escravidão resulta na verdade do desdobramento da apropriação, pelo trabalho humano de certo grupo, de determinado meio de produção ou propriedade fundiária, a qual demanda, por seu turno, a violência como estratagema para sua manutenção contra a desapropriação respectiva, pelas vias bélicas, por outros grupos distintos, de tal sorte que em algum momento o trabalho e a violência dissociam-se e se fazem autônomos para que floresça uma classe de escravos, que somente trabalha, e outra de senhores, que exerce a violência contra a primeira, cabendo destacar ainda que a transfiguração da troca simples de mercadorias em circulação de mercadorias por intermédio do dinheiro, esta faceta autônoma do valor mercantil abstrato em forma de metal precioso, máxime de ouro, encerrou o nefasto condão de recrudescer aquele aludido instituto da escravidão, razão pela qual estamos agora a discorrer sobre tal assunto para, sem embargo, haurir como corolário desta breve digressão de história econômica que à época da troca simples de mercadorias corresponde o politeísmo como manifestação religiosa predominante, enquanto o dinheiro, ou a circulação de mercadorias, engendra o monoteísmo como unificação de todas as entidades divinas que encantavam a natureza em seus variegados fenômenos, tanto animados quantos inanimados, como minerais, vegetais ou animais, de tal maneira que o Deus único e onipresente desta derradeira crença religiosa pode ser compreendido outrossim enquanto culminância da autonomia do pensamento ou da mente humana que se convola em divindade antropomórfica solitária e infalível.

No entanto, o dinheiro monoteísta ainda se exibia deveras arraigado na mercadoria politeísta, na exata medida em que resultava da autonomia completa da faceta mercantil como valor abstrato, bem assim funcionava como mera circulação de tais objetos satisfativos de necessidades humanas, de tal sorte que algum dia o dinheiro seria inapelavelmente compelido a descer dos píncaros onde reinava e se reintegrar ao mundo da produção da vida material dos seres humanos, da mesma forma como o Deus monoteísta seria instado a se comunicar com o homo sapiens novamente, o que Prometeu fez com o Olimpo ao entregar o fogo aos mortais, bem assim o Fausto medieval efetuou ao estabelecer contrato com Mefistófeles, mas a mais acabada manifestação religiosa da ascensão do abstrato ao concreto, ou da aliança entre o Deus monoteísta e os homens finitos, foi decerto a figura grandiloquente de Jesus Cristo, esse Deus onipresente que se fez ser humano, representando o mais acabado e lapidado vaticínio daquilo que seria um dia denominado pelo Mouro de Trier como capital, ou seja, a reintrodução do dinheiro no mundo de carne e osso dos seres humanos, a saber, na produção e reprodução da vida material dos reles mortais, que teve como acontecimento culminante a Revolução Industrial inglesa do século dezoito da era cristã, solenemente saudado e perenizado, por aquele mesmo Mouro de Trier, na imagem do Prometeu desacorrentado.   

Cabe obtemperar que esta ascensão do abstrato ao concreto do dinheiro no mundo, denominada capital, correspondente no âmbito religioso à corporificação do Deus monoteísta em forma de ser humano, consiste na verdade numa massa disforme de máquinas que submete o corpo dos trabalhadores para extrair o lucro, mas a história ulterior demonstrará que também a mente deste operário será subsumida no capital para extração de lucro, sendo certo asseverar que tal subsunção adquirirá a forma de um programa de computação denominado inteligência artificial, que regerá e acelerará o pensamento humano para os fins colimados de enriquecer a classe dos detentores destes meios de produção de coisas ou pensamentos, de tal sorte que, agora, a divisão entre senhores e escravos convolou-se em antagonismo entre capitalistas e trabalhadores, mas esta dissociação e divisão dos seres humanos em classes sociais distintas e inimigas alcançará, como vaticinado pelo Mouro de Trier acima citado, um dia derradeiro, quando então os trabalhadores subsumidos no capital tomarão de assalto as máquinas e a inteligência artificial dos capitalistas numa revolução mundial que restabelecerá a harmonia e a irmandade entre os mortais.

Esta harmonia mundial, que nosso Mouro de Trier uma vez denominou comunismo, não encerrará, contudo, o condão de afastar aquela dicotomia entre a finitude do corpo e a infinitude da alma, tão característica do mundo dominado pela mercadoria, e os seres humanos remanescerão aflitos com a morte, que castiga cruelmente o fluxo contínuo e incontido de seu pensamento, mas eis que alguém logrou a ideia de derrotar a finitude do corpo mediante a fusão dos cérebros humanos com a inteligência artificial, de tal maneira que todos os indivíduos da espécie do homo sapiens teriam suas sinapses cerebrais devidamente mapeadas e copiadas para serem introduzidas em um único e monumental dispositivo algorítmico que contemplará todas as mentes do mundo, e então esses seres humanos renunciarão ao seu corpo físico para cingirem-se a pensamento puro introduzido naquele grande dispositivo algorítmico que abroquelará todos os indivíduos da espécie, os quais lograrão enfim derrotar a morte e a finitude física para ganhar a Lua e as estrelas deste universo tão belo quanto desconcertante, e este seres humanos fundidos no algoritmo gigantesco concederão um novo nome para toda a humanidade vitoriosa contra a morte: DEUS.

 

 

Por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA 

domingo, 12 de outubro de 2025

A HISTORIOGRAFIA MARXISTA ENTRE O CAPITAL E O MANIFESTO COMUNISTA.

A historiografia de inspiração marxista bifurca-se em duas vertentes bem delineadas, cada qual sob a égide de uma das duas principais obras do socialismo científico, a saber, O Capital e o Manifesto Comunista, de tal sorte que, no primeiro caso, temos uma história das relações de produção alienadas que os seres humanos contraem involuntariamente entre si, reificadas nas categorias econômicas que se sucedem no curso do tempo histórico, vale dizer, a mercadoria, o dinheiro, o capital e suas variações; no segundo caso, exibe-se uma história dos seres humanos divididos, pelas relações de produção acima mencionadas, em classes sociais antagônicas, isto é, uma história das lutas de classes. 

Ao historiador marxista cabe colimar a fusão entre estas duas vertentes, para obter uma historiografia totalizante entre os modos de produção e as lutas políticas de classes sociais. 

Eric Hobsbawm talvez seja o modelo mais próximo deste tipo de historiador marxista totalizante. 





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador. 

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

O ÚLTIMO FILÓSOFO

Não resta dúvida de que o último grande sistema filosófico coincide com o idealismo de George Wilhelm Friedrich Hegel, o pioneiro a descortinar, pela entronização da razão absoluta, a lógica dialética que rege a história, asseverando que o real é racional e o racional é real. 

Demasiado abstrata, porém, a razão idealista de Hegel, que rege a história universal, reflete, na verdade, o mundo burguês das relações de produção alienadas e heterônomas do capital, em que os seres humanos, segundo Louis Althusser, não são mais do que meros vetores de determinações estruturais deste capital, e que produziu nossa arte e nossa ciência também abstratas, fundadas no indivíduo como proprietário privado dos meios de produção. 

Soren Kierkegaard parece ter sido o primeiro a insurgir-se contra o sistema idealista de Hegel com a lapidar senteça: "O filósofo constrói um castelo de ideias e mora numa choupana", no que foi seguido pelo niilismo de Friedrich Nietzsche, que preconizava liquidar a marteladas com todas as abstrações em nome do advento do sobre-humano e da transvaloração de todos os valores.

Malgrado sua eloquência, todavia, esses precursores existencialistas, críticos de Hegel, deixaram de estabelecer os fundamentos da superação da alienação em que se funda a razão abstrata idealista, quedando, portanto, confinados no âmbito do irracionalismo filosófico. 

Mas Karl Marx logrou superar a razão abstrata do sistema idealista mediante um sistema materialista histórico, fundado na praxis social e na razão concreta, e não no indivíduo isolado dos existencialistas, ao preconizar que "os filósofos cingiram-se a interpretar diferentemente o mundo: cabe, porém, transformá-lo"

Destarte, no comunismo mundial, previsto por Marx, a razão concreta prevalecerá sobre a razão abstrata, mediante o advento de um algoritmo central alimentado com todos os dados de produção e consumo mundiais de todos os agentes econômicos, ao qual caberá tratar e processar tais dados para atribuir a cada um segundo suas necessidades, e para exigir de cada um segundo suas possibilidades, consoante a máxima comunista inspirada nas Sagradas Escrituras da tradição judaico-cristã. 

Nesse novel e vindouro modo de produção social, comunista mundial, o real tornar-se-á racional e vice-versa, concretizando o vaticínio do último filósofo, Hegel.




por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador.    

Homenagem a VERA COTRIM, Presente!

 

Com muita tristeza e consternação comunicamos pesarosos o falecimento de nossa camarada Vera Cotrim, uma grande intelectual marxista e militante. Generosa e atenta, nestes tempos de tantos recuos táticos, Vera apontava para o erro com dignidade. Nós do Núcleo de Estudos d'O Capital nos juntamos a familiares, filhos, alunos e tantos militantes neste momento de pesar num grande abraço solidário e socialista.

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

INFORTUNÍSTICA (em homenagem ao exímio mestre e causídico ANTÔNIO JOSÉ DE ARRUDA REBOUÇAS)

Hodiernamente, observa-se uma evidente  pletora pandêmica de afastamentos do trabalho por doenças mentais de nexo etiológico infortunístico. 

Na década de 1990, quando atuei como procurador federal no âmbito de acidentes do trabalho, ainda predominavam os acidentes típicos e as mesopatias como lesões por esforços repetitivos, disacusias e anacusias, enfim, doenças relacionadas ao trabalho manual tipicamente fabril. 

Atualmente, no entanto, com a revolução digital e aquilo que denomino subsunção total do trabalho no capital, vale dizer, o advento do trabalho eminentemente intelectual subsumido no capital produtor de programas de computador, ou software, as mesopatias convolaram-se em doenças mentais laborativamente incapacitantes.

A inteligência artificial como capital fixo tende a agravar tal situação, ao pressionar pela celeridade e produtividade do trabalho humano eminentemente intelectual. 

Notas sub judice a desenvolver. 




por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador.