terça-feira, 19 de setembro de 2023

O discurso na ONU

 Os mais desavisados, provavelmente entorpecidos pelo esquerdismo pueril, talvez critiquem um suposto jaez social-democrata do discurso do presidente Lula proferido hoje na Assembleia Geral da ONU, com sua defesa do Estado do bem-estar social como forma de mitigar desigualdades sócio-econômicas.


Nada mais infenso à verdade.


O atual presidente do Brasil não se cingiu à crítica da injustiça neoliberal, que aprofunda desigualdades sociais, mas revelou-se radical no pensamento (no sentido de atingir a raiz do problema) ao criticar a ineficiência do capitalismo.


Sim, pois tal ineficiência não se exibe nas crises financeiras cíclicas tão somente, mas hodiernamente revela-se na forma de uma catastrófica emergência climática de poder destrutivo maior do que as aludidas crises financeiras, eis que não se cuida de destruição criadora, mas de destruição pura e simples, tão somente, ceifadora definitiva de vidas e forças produtivas.


Vida longa ao presidente Lula, filho legítimo e líder inconteste da classe trabalhadora mundial!



Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira, historiador.

Décimo aforismo

 A coleta do material empírico constitui, sem embargo, o primeiro estágio do conhecimento histórico, uma etapa incontornável, de fato.


Mas olhem:


A excessiva importância atribuída a esse estágio do método científico conduz invariavelmente ao detalhe narrativo e factual que pouco contribui à inteligibilidade histórica, conquanto possa encerrar interesse estético.



Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira, historiador.

sábado, 16 de setembro de 2023

Hipóteses sobre acumulação primitiva de capital.

 1. Durante a Idade Moderna, os países ibéricos acumularam metais preciosos internamente e desenvolveram a manufatura em suas colônias ultramarinas, como a indústria açucareira com trabalho escravo no Brasil, cujos lucros, todavia, eram escoados para as respectivas metrópoles por intermédio do exclusivo colonial e do comércio de escravos;


2. No mesmo período, a Inglaterra, preterida na corrida colonialista, desenvolvia uma forte manufatura interna fundada no trabalho livre e observava a introdução do capital na produção agropecuária, com os correlatos cercamentos, bem assim acúmulo de metais preciosos mediante exportação de manufaturados para as nações predominantes do antigo sistema colonial;


3. A precoce introdução do capital no âmbito da produção, tanto agropecuária quanto manufatureira, bem assim o acúmulo de metais preciosos, atribuíram aos britânicos a dianteira no desenvolvimento das condições para a ulterior subsunção real do trabalho no capital com o advento da revolução industrial, esta precedida pela revolução puritana e também pela fundação do Banco da Inglaterra, já no século XVII.




Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira, historiador.

Historiadores

 Karl Marx nutria admiração confessa por Charles Darwin, a ponto de fazer questão absoluta de encaminhar ao naturalista britânico um exemplar novo em folha de sua obra recém publicada à época, em 1867, o primeiro tomo de seu colossal projeto de crítica da economia política, a saber, O Capital.


Tal obra, juntamente com A evolução das espécies, constituem as duas mais importantes realizações no âmbito da historiografia mundial de todos os tempos:


Com efeito, Marx e Darwin não se contentam em exibir os acontecimentos que se sucedem no tempo, mas extraem a lógica subjacente a esta sucessão, o primeiro com relação à história humana, o segundo quanto à sucessão das espécies biológicas, vale dizer, a história natural.


Marx e Darwin são, definitivamente, os dois maiores historiadores de todos os tempos.




Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira, historiador.

Um todo artístico

 Ápice da crítica da economia política, obra magna de Karl Marx, O Capital constitui também o ponto culminante da historiografia mundial, ao haurir a essência do evolver das civilizações com a exposição das sucessivas relações de produção contraídas involuntariamente pelos seres humanos.


Mas olhem:


Conquanto de grandes dimensões, tal obra seria apenas o primeiro livro de um total de seis planejados pelo respectivo autor, um projeto de arquitetura colossal que não foi concluído, lamentavelmente, por força do perfeccionismo do Mouro de Trier.


Marx denominou seu projeto de “um todo artístico”, muito embora esteja habitualmente inserido no elenco das obras de ciências econômicas.


Acontece que O Capital, consoante já antecipado acima, exibe-se obra típica de historiografia, e nesse sentido encerra também um jaez artístico, em consonância com a dualidade entre ciência e arte que caracteriza a disciplina da História.


Ora, se a ciência deve ser breve, a arte deve ser longa como a vida, daí a dimensão colossal do projeto marxiano, esse todo artístico que colima abroquelar todos os aspectos da produção e reprodução da vida material do Homo sapiens.



Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira, historiador.

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Alvíssaras, alvíssaras!

 Foi com grata satisfação e enorme entusiasmo que recebi hoje, pelo camarada Lincoln Secco, a alvissareira notícia de que a Ubu Editora publicará no próximo ano a obra magna de Karl Marx, O Capital, na íntegra e em três volumes, na exímia tradução de Régis Barbosa e Flávio R. Kothe.


Cuida-se de monumento à ciência e à ação transformadora, que sobrepaira, sobranceira, no panteão inconteste das maiores obras já elaboradas pelo gênio humano.


Síntese genial da história econômica do Homo sapiens, apresenta a evolução a um só tempo lógica e cronológica de suas relações de produção, em que os indivíduos somente são chamados à colação enquanto representantes de tais relações, que arrostam constantemente as forças produtivas por elas mesmas liberadas, em movimento dialeticamente contraditório que insinua a necessidade histórica de superação do capital, objeto de investigação dessa obra de arte legada pelo grandíloquo Mouro de Trier.


Serão meses de grande expectativa.


Evoé!



Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira, historiador.

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

Um gigante da historiografia

 Faz-se mister solenidade, austeridade e recato para homenagear gigantes do pensamento, e este singelo espaço revela-se evidentemente demasiado modesto para entoar todos os encômios merecidos por um gênio do porte do professor Wilson do Nascimento Barbosa, mas ainda assim ousarei dizer breves locuções acerca desta imponente figura da historiografia brasileira.


Fui seu aluno nos pródromos da década de 1990, na disciplina de história moderna na Universidade de São Paulo, e logo na primeira aula de tal curso fui atingido por uma verdadeira martelada contra a vaga anticientífica que de certa forma se insinuava nos corredores do respectivo departamento e que me seduziu por um lapso temporal:


Ao tratar da Reforma Protestante, o professor Wilson estabeleceu uma relação intrínseca entre tal movimento histórico e a nova divisão do trabalho que se difundia na Europa com o advento da subsunção formal do trabalho no capital ensejada pelo advento da manufatura, com a respectiva ascensão da classe social da burguesia fabril que posteriormente lideraria a revolução industrial do século XVIII.


O professor Wilson ensina, destarte, a pensar em profundidade sobre o evento histórico, com a radicalidade necessária ao seu desvendamento científico, isto é, um pensamento que alcança a raiz dos acontecimentos empiricamente observáveis.


Lição indelével!


Muito obrigado, professor Wilson!





Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira.