quarta-feira, 12 de abril de 2023

Preâmbulo sobre revoluções industriais e divisão internacional do trabalho

Em linhas gerais, a primeira revolução industrial caracterizou-se pelo advento de máquinas produtoras de bens de consumo imediato; a segunda revolução industrial, pelo advento de máquinas produtoras de outras máquinas, ou de processos produtivos geradores de bens de produção e bens de consumo duráveis, isto é, máquinas enquanto bens de consumo imediato; já a hodierna terceira revolução industrial destaca-se pelo advento de bens de produção de ciência e tecnologia.


Estas revoluções industriais refletem-se na divisão internacional do trabalho: por exemplo, os EUA lideram atualmente a terceira revolução industrial, situando-se na vanguarda da produção de software; a China encerra hodiernamente um parque industrial característico da segunda revolução industrial, com produção maciça de bens de consumo duráveis e bens de produção, o que fundamenta sua atual política externa denominada Nova Rota da Seda; outros países, como o Brasil, cingem-se à primeira revolução industrial, destacando-se na produção de bens de consumo imediatos e matérias primas para países mais avançados no plano industrial, como os aludidos EUA e China.


Eis aqui alguns elementos para encetar o debate.


(por Luís Fernando Franco Martins Ferreira, historiador)

sábado, 8 de abril de 2023

Brevíssimos elementos provisórios sobre inteligência artificial

Surgiu no final do ano passado, no Vale do Silício, onde se situa a atual vanguarda industrial mundial, um novo modelo de software denominado inteligência artificial generativa, capaz de produzir textos e imagens.


Estima-se que tal tecnologia em breve produzirá outros programas de software, vale dizer, consistirá em software produtor de software, com substituir tarefas mais repetitivas e menos complexas hoje atribuídas aos programadores de tecnologia da informação, liberando-os para tarefas intelectuais mais sofisticadas.


Assumindo que tal inteligência artificial encerra o jaez de capital constante, a adoção dessa nova tecnologia pelo capital empregado na produção de software resultará em aumento da composição orgânica desse capital.


Ora, consoante já aventado neste portal eletrônico, a revolução digital atual aumentou o valor da força de trabalho, diminuindo portanto a taxa de mais-valia.


Esta diminuição da taxa de mais-valia, combinada com o aumento da composição orgânica do capital decorrente da adoção da inteligência artificial na produção de software, culminará em declínio tendencial das taxas de lucro do capital, na esteira do que Marx prevê no livro terceiro de sua obra magna, O Capital.


São singelas hipóteses e conjecturas sujeitas ao crivo crítico.


Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira, historiador e membro fundador do Núcleo de Estudos do Capital do Partido dos Trabalhadores 

sexta-feira, 31 de março de 2023

IMPROVISO SOBRE FORÇA DE TRABALHO

Sob prisma histórico, o capital cinge-se, de proêmio, ao âmbito da mera circulação de mercadorias, como dinheiro tão somente, sendo certo que atingirá o âmbito da produção de mercadorias após o advento da acumulação primitiva e da maquinaria e grande indústria, esta última atrelada à revolução industrial inglesa do século XVIII.

Ao atingir o âmbito da produção de mercadorias, o capital engendra, dialeticamente, o seu oposto, a saber, a mercadoria consubstanciada na força de trabalho, a qual, todavia, em um primeiro momento, não é produzida pelo trabalho assalariado, o que conduz à aparência da existência de uma aporia na teoria marxista do valor, porquanto esta mercadoria denominada força de trabalho não exibiria valor, na exata medida em que não seria fruto do trabalho assalariado, mas do âmbito familiar. 

Nada mais enganoso: esta aparente aporia consiste na verdade no movimento contraditório e dialético da história do capital, decorrente da reduzida qualificação da força de trabalho em um primeiro momento histórico, a saber, o da revolução inglesa do século XVIII, estudada por Karl Marx em sua obra O Capital, no livro primeiro.

Todavia, à medida que avança historicamente o capitalismo, a produção capitalista exige maior qualificação desta mercadoria especial, a força de trabalho, de tal sorte que sua produção desloca-se do âmbito familiar para o âmbito escolar, isto é, a qualificação da força de trabalho demanda maior tempo de trabalho assalariado dos professores na sua produção, de tal sorte que aquela aparente aporia dissolve-se historicamente: agora a força de trabalho é sim produzida por trabalho assalariado dos professores, que exorbita o âmbito meramente familiar, de tal sorte que seu valor mensura-se precisamente pelo tempo de trabalho na escola, necessário à sua produção. 

A revolução digital do último quartel do século passado (que instituiu o software como principal mercadoria, bem assim exacerbou o aspecto intelectual da força de trabalho, exigindo maior tempo de trabalho no âmbito escolar para sua qualificação), provocou um aumento, portanto, do valor da força de trabalho, reduzindo então a taxa de mais-valia e, via oblíqua, a taxa de lucro do capital.

Observe-se, neste particular, que ocorre uma inversão do movimento da tendência declinante da taxa de lucro: se, nas duas primeiras revoluções industriais do capitalismo, tal declínio decorre primordialmente do aumento da composição orgânica do capital, com a atual revolução digital a diminuição da taxa de lucro resulta primordialmente do aumento do valor da força de trabalho e consequente diminuição da taxa de mais-valia. 

São conjecturas a conferir, sujeitas ao crivo crítico. 

(por Luís Fernando Franco Martins Ferreira, historiador) 

quarta-feira, 22 de março de 2023

BREVE QUESTÃO SOBRE REVOLUÇÃO DIGITAL E TAXA DE LUCRO DO CAPITAL

A revolução digital ou microeletrônica do último quartel do século passado instituiu o software como seu valor de uso predominante, ou principal mercadoria, de tal sorte que ocorreu uma diminuição na composição orgânica do capital, porquanto a produção capitalista de software demanda pouco capital constante e muito capital variável, ao utilizar de forma intensiva o aspecto intelectual da força de trabalho. 

Todavia, a taxa de mais-valia pode ter diminuído também, eis que houve um aumento do valor da força de trabalho, que de predominantemente manual passou a ser predominantemente intelectual, com uma maior demanda de tempo para sua formação pelo trabalho assalariado dos professores, no âmbito escolar. 

Ora, se a taxa de lucro do capital consiste na proporção entre taxa de mais-valia e composição orgânica do capital, e se ambas diminuíram com a aludida revolução digital, faz-se mister investigar como tal revolução repercutiu na taxa de lucro do capital. 

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador)   

 

domingo, 5 de fevereiro de 2023

Estudos em homenagem a Lincoln Secco. Quarto estudo: do pêndulo epistêmico.

Na epistemologia em geral, e no âmbito do marxismo em particular, há um certo embate provecto e vetusto entre os métodos indutivo e dedutivo, correspondentes respectivamente ao empirismo britânico e ao racionalismo francês. 

No marxismo, tal embate adquiriu contornos de paroxismo na querela específica entre os autores Edward Palmer Thompson e Louis Althusser, sobre o qual já se discorreu neste portal eletrônico no texto intitulado "Breve escrito experimental", em que se releva o empirismo agudo do primeiro, com suas categorias históricas, e o racionalismo exacerbado do segundo, com seus vetores de determinações estruturais do capital. 

Em Thompson, o tempo empírico corresponde aos indivíduos concretos, em suas manifestações culturais, o que remete ao tempo do segundo estudo da vertente série; em Althusser, o tempo é substituído pela lógica, como em um planetário (na analogia adotada por Thompson) de movimentos determinados, o que conduz ao tempo da física do primeiro estudo desta mesma série.

Escapa a ambos estes autores a lógica do tempo histórico, aquele da Ciência da Lógica de Hegel, tão bem estudada por Lênin em sua leitura de O Capital, em que as categorias econômicas de mercadoria, dinheiro e capital sucedem-se ao longo do tempo para conformar o modo capitalista de produção. 

Marx supera destarte os métodos indutivo e dedutivo da lógica apofântica com seu método materialista dialético, em que as categorias econômicas são a um só tempo históricas e lógicas, vale dizer, categorias concretas, correspondentes ao empírico pensado, apropriado pelo pensamento mediante a lógica dialética.

(pelo coletivo do Núcleo de Estudos do Capital do Partido dos Trabalhadores) 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Estudos em homenagem a Lincoln Secco. Terceiro estudo: do tempo histórico.

Nos dois primeiros estudos investigamos brevemente os tempos, respectivamente, da física e dos indivíduos humanos, agora tangenciaremos grosso modo o tempo das sociedades humanas. 

Nesse diapasão, faz-se mister aduzir que o filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel aparece como o pioneiro a descortinar a inteligibilidade da história das sociedades humanas, a saber, o precursor da intelecção do evolver dos grandes aglomerados humanos que suplantam a história do indivíduo humano, sendo certo que descobriu a lógica que rege tal desenvolvimento social consubstanciada no trinômio dialético tese/antítese/síntese, notadamente em sua Ciência da Lógica. 

Mas Hegel cinge-se à história humana, pois seu idealismo absoluto, ou racionalismo radical, não autorizam a intelecção daquilo que veio antes do homo sapiens, limitação esta que foi superada quase simultaneamente por Charles Darwin e Karl Marx, que adotaram uma postura materialista e inverteram o idealismo de Hegel: nesse sentido, Darwin descortinou a lógica da história natural ao desvelar a evolução das espécies mediante a luta pela sobrevivência dessas espécies, enquanto Marx descobriu a lógica da história humana nas lutas de classes sociais e na contradição primordial entre relações de produção e forças produtivas. 

A lógica do tempo histórico no planeta Terra, destarte, mediana entre o tempo da física e o tempo dos indivíduos humanos, foi assim descortinada por tais grandes pensadores europeus entre os séculos XVIII e XIX. 

Mas é preciso também asseverar que o determinismo positivista suscitado pelo filósofo francês Auguste Comte também inspirou sobremodo a ciência da história, senão vejamos. 

Parece cediço o grande desenvolvimento da historiografia a partir da noção de longa duração concebida pelo historiador francês Fernand Braudel, cujo mar Mediterrâneo, todavia, foi sensivelmente inspirado no sertão de Euclides da Cunha.

Sim, pois Braudel morou e trabalhou no Brasil na década de 1930, onde teve contato com a grande obra do gênio de Cantagalo, que por seu turno era discípulo de Auguste Comte por intermédio do militar brasileiro Benjamin Constant. 

Destarte, o determinismo geográfico de Euclides da Cunha, notadamente em Os Sertões, foi decisivo na formulação do conceito de longa duração na obra O Mediterrâneo de Fernand Braudel, conquanto este jamais tenha admitido manifestamente sua influência pelo Euclides brasileiro. 

(pelo coletivo do Núcleo de Estudos do Capital do Partido dos Trabalhadores)   

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Estudos em homenagem a Lincoln Secco. Segundo estudo: memória, identidade e tempo.

Abordamos no primeiro estudo a questão do tempo da física, notadamente a maneira, em linhas gerais, como foi superada a noção de tempo absoluto, substituída pela acepção de tempo-espaço da teoria da relatividade de Albert Einstein.

Cuidaremos agora do tempo absoluto, ou melhor, de como a constituição material e corpórea dos seres humanos favorece essa noção equivocada de tempo.

Nesse diapasão, faz-se mister aduzir que a matéria do corpo humano transforma-se de modo contínuo, de tal sorte que a cada minuto já não somos mais o que fomos há um minuto ou alguns segundos!

Todavia, o cérebro humano é dotado de memória, imagens e sensações arquivadas que nos aparelham com a noção de identidade, vale dizer, a falsa sensação de que somos sempre a mesma pessoa apesar das transformações que nosso corpo material sofre ao longo do tempo, o que faz esse tempo parecer absoluto, isto é, homogêneo em sua caminhada, como se ele fosse passível de mensuração independentemente do observador, o que constitui um equívoco fundamental!

Logo, o tempo absoluto dos relógios, na verdade, decorrem da própria conformação física do Homo sapiens, e por isso sua superação pela ciência foi tão árida e remanesce provocando equívocos e mal-entendidos.

No próximo estudo tangenciaremos a questão do tempo da história humana!

(Pelo coletivo do Núcleo de Estudos do Capital do Partido dos Trabalhadores)