A impressão resultante da leitura detida daquele opúsculo era de pura vertigem, pois o tenente do Exército, de alcunha Luís, jamais imaginara que a história humana pudesse ser regida por uma lógica implacável, considerando a noção corrente, de matriz liberal, de que seria a liberdade individual de heróis notáveis a verdadeira mestra de tal disciplina, o que contrastava de forma antípoda com a exposição poderosamente sucinta e teoricamente bem encadeada de toda a trajetória da humanidade até o capitalismo, explanada por intermédio da acepção axial de lutas de classes, contida no singelo livro em seu poder naquele exato momento, intitulado Manifesto Comunista, uma obra quase tão famosa quanto as Sagradas Escrituras da tradição judaico-cristã, e que lhe pareceu liminarmente luminosa de forma resplandecente, eis que, desde o princípio do conflito bélico com o pequeno país fronteiriço, Luís percebera algo de ininteligível na conduta das tropas sob sua égide, mas agora o segredo de tal estranhamento fora revelado, já que se cuidava na verdade de condição que suplantava em muito o tão alardeado patriotismo, na medida em que se divisava e vislumbrava agora uma luta de classes no próprio âmago da corporação militar, em que os oficiais de alta patente patrocinavam os interesses materiais das elites econômicas da nação, enquanto os soldados aniquilados nas trincheiras representavam a classe trabalhadora que produzia, sem dela desfrutar, a riqueza daquele território nacional, cabendo destacar que tal compreensão cintilante da situação hodierna transfigurou por completo o estado de espírito de Luís, inoculando nas suas mais recônditas entranhas viscerais um sentimento de revolta contra a injustiça que lhe fora exibida por aquele opúsculo supracitado, e naquele instante ocorreu-lhe o subversivo pensamento de que poderia canalizar o descontentamento dos batalhões e insufla-lo contra aquele governo de títeres do imperialismo yankee, o qual conduzia a nação à tão arriscada quanto tresloucada empreitada de invadir o pobre país vizinho para destruir sua indústria nutrida pela pirataria da tecnologia norte-americana, parecendo lícito ventilar que Luís encetou tratativas efetivas com outros tenentes para colocar seu pensamento e suas ideias em prática, por mais ousado que isso pudesse se lhe antolhar.
A mil quilômetros dali, nesse mesmo território nacional e simultaneamente, mas longe das trincheiras fronteiriças com o país supostamente inimigo, Luiz, um operário fabril especializado no torno mecânico, quedava absolutamente deslumbrado e absorto nos estudos de outra obra comunista, intitulada O Capital, de cuja leitura tentaram dissuadi-lo em razão de suposta dificuldade quanto à respectiva inteligibilidade, mas o nosso proletário industrial não desistiu da prossecução de sua curiosidade extrema e levou adiante suas investigações na seara econômica, ou, mais apropriadamente falando, na orbe da crítica da economia política, consoante a denominação do autor daquele livro monumental, vindo a perceber que a indústria representava a medula espinhal da produção da riqueza de uma nação e, portanto, os trabalhadores fabris detinham em suas mãos um poder inaudito e despercebido, eis que a paralização generalizada dos expedientes operários encerraria teoricamente o condão de colapsar o país e derrubar o governo de celerados que impunham um desumano esforço de guerra à população sob seu pálio, e então Luiz passou a cogitar com afinco em maneiras de organizar aqueles proletários para encetar uma greve geral hábil a subverter o status quo amplamente desfavorável àqueles que carregavam a nação sobre os ombros.
Não se exibia trivial passar da cogitação à prática, mas o que unia, a princípio, as causas de Luís e Luiz consistia no anseio pela paz e contra toda a sangria de vidas humanas e de meios materiais provocada pela guerra, sendo certo, todavia, que os dois sujeitos sequer tinham ciência prévia da existência um do outro, mas suas práticas entrelaçaram-se de algum modo, pois a reação do governo contra a paralização geral, tanto de soldados quanto de operários, foi nada menos do que brutal, com adoção das atividades das polícias políticas em larga escala, o que, no entanto, surtiu efeito contrário, pois logrou reunir efetivamente os dois movimentos paredistas paralelos, inclusive com encontro pessoal e solene de Luís e Luiz, que estabeleceram um pacto de estratégia comum a ser adotada na derrubada dos títeres dos imperialistas do norte, cabendo destacar que, pouco tempo após o início das greves militar e civil, o governo veio realmente a entrar em colapso, pressuposta certa violência e mortes de ambos os lados da contenda, mas o fato é que os celerados no poder foram presos e substituídos por uma junta civil-militar, sob a arguta liderança de Luís e Luiz, que passou a administrar a nação e, após a celebração de acordo de paz com o país vizinho agredido, impôs nova ordem social no território sob seu comando, estatizando todas as terras aráveis e meios de produção industriais e adotando um sistema de planificação econômica computacional que se assemelhava com o projeto CYBERSYN tentado no Chile de Allende, mas com o auxílio de notáveis melhorias decorrentes da utilização da rede mundial de computadores, ou internet, parecendo lícito ventilar, no entanto, que os imperialistas yankees procuraram golpear de forma intensa a administração do tenente e do operário, e dispensaram muito dinheiro e espionagem no intuito de provocar uma guerra civil naquele novo país, mas a perfídia dos norte-americanos foi liminarmente naufragada pela densidade daquele pacto entre soldados e trabalhadores, que evitou a ingerência estrangeira na política interna com grande galhardia e mesmo airosamente.
Destarte, a vida material da população daquele país, no geral, melhorou, mas o mesmo não se pode afirmar categoricamente sobre a vida, digamos, anímica do povo, pois o homo sapiens é uma espécie biológica de extrema complexidade, e conflitos de outro jaez exsurgiram no socialismo que adquiria contornos cada vez mais bem definidos, mas aquela experiência pioneira trouxe também variegados percalços, a começar da planificação econômica por computadores, que atuava, por assim dizer, como um corpo estranho introduzido no novo tecido social e demandava um esforço concentrado gigantesco em termos de ciência e tecnologia, sem olvidar o dispêndio energético que impactava ainda o ambiente, nada obstante uma eficiência econômica geral superior quando comparada ao vetusto capitalismo.
Como diria um exímio pensador francês, cuidava-se, a rigor, de uma hipótese sendo experimentada, mas que experimento fascinante!
Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira.
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