domingo, 5 de abril de 2026

A DOBRA LITERÁRIA

O capital enquanto propriedade privada dos meios de produção e valorização de valor traduz-se na superfetação da transformação de mais-valia em capital, isto é, na acumulação de capital, que pode ser representada na imagem da dobra barroca descrita por Gilles Deleuze na sua obra intitulada precisamente A Dobra.


A história da literatura ocidental parece desinibir-se também como uma dobra barroca, que começa colimando descrever objetivamente o real e termina numa metalinguagem em que o narrador toma consciência da sua subjetividade enquanto literato que exibe limites na apreensão do real objetivo.


Nesse diapasão, Cervantes enceta esse movimento de dobra literária com seu Dom Quixote, ao refletir sobre a literatura de cavalaria medieval dentro do próprio enredo do romance, mas o século passado atinge o paroxismo desse movimento, com o Ulisses de Joyce, essa paródia da Odisseia de Homero, já enunciando o fluxo de consciência que confunde narrador e personagem, enquanto a monumental obra de Proust destaca um narrador ensimesmado que não consegue romper a clausura de um tempo puramente subjetivo e impressionista, mas quando o narrador de Kafka colima a objetividade com linguagem cartorialmente neutra, o resultado é um enredo absurdo.


Enquanto não for rompida a crisálida do capital, a literatura remanescerá como pura subjetividade metalinguística ou absurdo objetivo.






Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira.

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