terça-feira, 7 de abril de 2026

LUDWIG

Para Renata e João Felipe, meus afilhados

 

Cuidava-se decerto de época revolucionária na vida material do homo sapiens, com registro oficial de importantes transformações, inversões e mesmo colapsos, parecendo lícito ventilar que o arquétipo fundante dos mitos de Prometeu, Fausto, Frankenstein e, de certo modo, da própria religião cristã, estava a ser encenado com pompa e circunstância na prosaica história dos seres humanos de carne e osso, que experimentavam destarte o abstrato converter-se em concreto e, este, convolar-se em abstrato, eis que o universo do dinheiro agora controlava a produção econômica no maquinário da grande indústria, enquanto os trabalhadores transfiguravam-se na mercadoria insípida da força de trabalho, precisamente como foi mais tarde descrito por um grandíloquo pensador nascido em terras germânicas, onde também veio a lume o nosso herói de alcunha Ludwig, o qual cresceu e se desinibiu em residência acanhada de um singelo professor de piano e respectiva esposa, uma dona de casa, mas o certo é que o rapazote, desde tenra idade, exibiu talento e sensibilidade musicais, os quais afloraram com mais intensidade a partir do momento em que foi conduzido por seus pais, para júbilo e regozijo de toda a família, a contemplar um concerto sinfônico no teatro central da cidade, quando sua alma foi integralmente absorta por irresistível epifania catártica ao ouvir uma peça composta por certo menino prodígio vindo de paragens austríacas, e então Ludwig quedou ciente da sua verdadeira natureza e identidade, pois doravante o mundo dos sons harmonicamente justapostos não o abandonaria em nenhuma hipótese, seja na alegria ou na tristeza, na saúde ou na doença, até que seu viço fosse completamente ceifado pelo óbito.

Sensível e irascível, o jovem Ludwig era, todavia, desprovido de traquejo social suficiente para lograr sucesso com as mulheres, malgrado seus dotes físicos invejáveis, e isto se refletiu no fato de raríssimas vezes ter consumado com êxito uma conjunção carnal e íntima, apesar das múltiplas e variegadas tentativas a propósito, de tal sorte que seu refúgio em relação àquele mundo hostil dos relacionamentos humanos consistia no universo plácido da composição musical, em que se sentia plenamente à vontade na solidão da criação da arte das musas, a música, a mais abstrata das vertentes estéticas engendradas pelo homo sapiens, a saber, a única arte desfrutada sem o concurso do sentido da visão, e Ludwig permanecia integralmente absorto e compenetrado, diante do piano, para conceber partituras de notável qualidade, tais como, já aos dezesseis anos de idade, um concerto para tal instrumento e uma alentada sinfonia, obras estas que foram executadas pelo próprio compositor com enorme repercussão positiva, tanto entre o público ouvinte quanto pela crítica especializada, com restar evidente, então, que se cuidava de outro prodígio precoce de idioma alemão, mas com a distinção concernente a certa grandiloquência criativa que remetia, muito provavelmente, ao aspecto revolucionário daquele período histórico de radicais mudanças no modo de existência dos seres humanos, tanto na orbe puramente material quanto no imaginário coletivo, cabendo destacar que a obra de Ludwig distinguia-se pela inspiração profunda que se consubstanciava em inovações de jaez tanto melódico quanto harmônico, como se aquela paixão carnal e mui concreta, que suas vísceras experimentavam, fosse sublimada num amor incondicional e impessoal por toda a humanidade, eis que nosso herói estava ciente de que compunha peças perenes para a posteridade, ainda que sua glória não fosse completamente convolada em dinheiro, este vil metal que nada significava para Ludwig, que se contentaria de bom grado com uma vida bem frugal, desde que tivesse absoluta certeza de que seus rebentos sonoros guardassem dimensão estética exuberante, pois era isso que alimentava seu élan vital nômade em busca incessante do som perfeito, uma verdadeira obsessão que o acompanharia por todo o sempre, e ele estava mesmo disposto a enfrentar qualquer intempérie para alcançar seus objetivos, ainda que isto ensejasse a perda da paz de espírito, sendo interessante notar que dos dois grandes eixos constitutivos da vida material humana em sociedade, a saber, o trabalho e a reprodução sexuada, Ludwig desincumbiu-se, àquela altura de sua juventude, somente do primeiro, mas tal concentração mui provavelmente tenha tornado exequível a inefável excelência haurida pelo nosso herói em seu ofício.

Mas, por evidente ironia do destino, a partir dos trinta anos de idade, já músico consagrado, Ludwig começou a apresentar os primeiros sinais de uma disacusia severa e progressiva, a qual em pouco tempo culminou em anacusia, situação que, conquanto ensejasse um maior isolamento social do nosso herói, com agravar seu caráter já ensimesmado e circunspecto, não prejudicou sua produção com notas musicais, pelo contrário, até intensificou sua dedicação à concepção artística, a qual, ao adquirir contornos mais soturnos e sorumbáticos, foi contemplada com maior qualidade estética, revelada no aprofundamento das experimentações harmônicas e melódicas, mas cai a lanço obtemperar que as peças sinfônicas de sua autoria tornaram-se mais longas e abstratas, na exata acepção de que abandonaram o tradicional desenvolvimento linear de um motivo primordial para agora exibir um emaranhado de temas que se interpenetravam e conduziam a resultados inesperados e mesmo surpreendentes, arrebatando os ouvintes com elevada carga de estupefação, sendo interessante notar que tal elaboração atingiu o apogeu com uma extensa obra lírica, a saber, uma ópera de seis horas de duração em quatro atos, intitulada Mefistófeles e inspirada no mito medieval do Fausto, a qual lhe custou quase dez anos de profunda imersão laborativa, tanto no libreto quanto na partitura, levando a certa exaustão que, no entanto, foi amplamente compensada pela sensação de ter concluído um trabalho de manifesta perfeição, cujos méritos foram efusivamente acolhidos pelas entusiasmadas plateias ao redor do mundo e pela sempre distímica crítica musical profissional.

Mas talvez o fato mais pitoresco atinente à história de Ludwig consista na recuperação repentina da sua audição logo após a encenação da ópera Mefistófeles na sua cidade natal, à qual ele compareceu solenemente para receber homenagem oficial do respectivo prefeito, episódio este que o atordoou de tal sorte que o fez abandonar peremptoriamente a carreira de compositor musical e, aos quarenta e cinco anos de idade, contrair núpcias e constituir família e lar na região rural daquelas plagas, onde passou a se dedicar integralmente ao plantio de hortaliças, à pintura de paisagens bucólicas, em telas que jamais foram convertidas no vil metal, e às perfeitas performances ao piano, exclusivamente para sua esposa e filhos.  

Por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA

Um comentário:

  1. Parabéns, filho! Fico muito feliz com os seus contos!!!
    👏🏻👏🏻👏🏻❤️❤️❤️

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