Não, não tratarei aqui da bela canção de Tom Jobim e Newton Mendonça interpretada por João Gilberto, mas sim de um músico muito festejado e de nomeada, o qual, todavia, na minha humilde opinião, talvez ainda remanesça subavaliado, dada a importância de sua contribuição para a música em geral e, especialmente, para esse estilo comumente denominado "jazz".
Chet Baker é seu nome.
Sim, há uma certa homologia entre a atormentada existência desse artista e sua música, senão vejamos.
Se Charlie Parker praticamente inventou o bebop, introduzindo o que chamei de "liberdade vigiada", isto é, variações melódicas de improviso, confinadas, no entanto, em um mesmo esqueleto harmônico, Chet Baker pode ter aprofundado tal invenção e ampliado tal liberdade.
Sem embargo, afora conseguir tocar seu trompete sem a estridência habitual desse instrumento, alcançando tons baixos de difícil execução, Chet Baker não raro exibia em suas performances vocais uma característica inusitada: a desafinação, a saber, sua voz não raro deixava de atingir a frequência exata da nota musical, provocando um desvio tonal de desagradável, porém cálida dissonância.
Enfim, uma execução imperfeita para uma existência idem, profundamente marcada por romances turbulentos, vício em drogas e prisões, que teve seu derradeiro momento em overdose determinante de queda letal desde uma janela de hotel em Amsterdam.
Mas se a arte de Charlie "Bird" Parker denota provavelmente o jazz proletário dos descendentes dos escravos da América do Norte, aquela de Chet Baker representa com efeito um certo individualismo romântico decadente do West Coast Jazz de matriz pequeno burguesa: dois monstros sagrados da música, sem embargo.
por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.
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