sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Conjuntura - Syriza, a austeridade e nós





Parlamento Grego, Praça Syntagma - Wikipedia


Syriza, a austeridade e nós


Agnaldo dos Santos



É bastante conhecida a história (com alta dose de ironia) de que, após questionado por um interlocutor acerca dos impactos da Revolução Francesa na história, o líder chinês Deng Xioping teria respondido: “É muito cedo para saber”... Para aqueles que se interessam pelos destinos da esquerda contemporânea, a mesma resposta poderia ser dar à seguinte pergunta: qual o impacto da queda do Muro de Berlim sobre o movimento socialista?

Sim, porque após os episódios de 1989-1991 e o fim do bloco soviético, tivemos muitas crises econômicas internacionais: 1997/98, 2000 e a maior delas, em 2008. E onde estava a esquerda, principalmente a que se reivindica revolucionária? Muitos destes grupos, que chegaram a comemorar a queda da “Madrasta do Leste”, continuaram simplesmente encapsulados em seitas políticas e minúsculos grupos, não só durante a forte hegemonia neoliberal dos anos 1990 como durante toda a turbulência do início deste século. Presos a concepções políticas e palavras de ordem centenárias, com práticas autoritárias baseadas no tal “centralismo democrático”, a esquerda anticapitalista mostrou total despreparo para as tarefas que se apresentaram nas últimas décadas.

É verdade, existe uma esquerda social-democrata que não é anticapitalista e que também vem falhando ao fazer a gestão do capital, para não dizer o seu trabalho sujo em muitas ocasiões. Quase sempre preparam o terreno para o retorno eleitoral da direita, com D maiúsculo. Mas salta aos olhos a total falta de autocrítica da esquerda anticapitalista ante sua inoperância de propor agendas políticas e mobilizações sociais de massa. É muito mais cômodo jogar a culpa nos outros, nos traidores, como dizia Sartre sobre quem é o inferno...

Um bom exemplo sobre este dilema é o silêncio que se seguiu entre os grupos de esquerda anticapitalista após a total capitulação do governo grego comandado pela Coligação de Esquerda Radical - Syriza frente à União Europeia. Após a eleição parlamentar que deu maioria ao Syriza em janeiro de 2015, empossando Alexis Tsipras como primeiro-ministro, este governo ameaçou romper com a EU e decretar moratória das dívidas gigantescas que seu antecessor conservador havia contraído junto a bancos alemães e franceses, sob a tutela da Troika (Banco Central Europeu, FMI e Comissão Europeia). Depois de meses de impasse, o governo convocou um plebiscito para consultar a população sobre a adoção ou não das medidas de austeridade impostas pela EU, que implicava pesados cortes em programas sociais, aposentadorias, redução dos salários do funcionalismo público etc. Mesmo conseguindo uma significativa vitória de mais de 60% contra a austeridade, comemorada até por economistas como Joseph Stiglitz e Paul Krugman, o governo Tsipras não resistiu à pressão dos credores e da Alemanha e assinou em julho um acordo que garantia um empréstimo de 86 bilhões de euros, em troca de um plano de austeridade. Que por sinal de nada adiantará, pois o próprio FMI estima que a dívida grega pulou para mais de 200% do seu PIB e é tecnicamente “impagável”.  Então a manutenção da Grécia na Zona do Euro foi um tapa com luva de pelica no rosto de toda a esquerda europeia e mundial: “não adianta a retórica, vocês não têm nada para colocar no lugar, quem manda é o mercado”.

Interessante que Tsipras havia ameaçado renunciar caso o plebiscito não lhe desse a vitória do “Não”, mas o fez apenas em 20 de agosto, depois de aceitar os termos da Troika, que alegou ter feito a contragosto em nome da responsabilidade. Um grupo já declarou rompimento com o Syriza e promete criar nova agremiação mais à esquerda. E não se sabe como se comportará a partir de agora o grupo espanhol “Podemos”, outra frente de grupos políticos de esquerda que aguardava ansiosa por uma saída digna da Grécia para propor o mesmo à Espanha. Notemos: todos estes grupos são referência para a esquerda anticapitalista brasileira, em especial o PSOL, que parece resignado e pouco vem debatendo o assunto nas redes sociais e nos debates públicos. Torna-se mais significativo porque alguns de seus quadros vinham defendendo que o governo Dilma merecia cair porque aceitou o ajuste imposto pelo mercado, emudecendo, contudo, sobre o similar grego.

Então, é cedo para avaliarmos a queda do socialismo do Leste? Ao que parece, toda a esquerda (social-democrata e anticapitalista) ainda está atordoada com o nocaute de 1989, e não será tarefa simples construir a contra-hegemonia, uma vez que o capital parece ter aprendido lições com 1929 e recompôs rapidamente sua hegemonia, impondo sua agenda. Muito mais difícil ainda será a tarefa enquanto todos estes grupos preferem apontar os dedos uns aos outros para acusarem-se de traidores, esquerdistas etc, enquanto caminham todos para se unirem na cadeia com o recrudescimento político e a possível perseguição jurídica a tudo o que esteja relacionado à esquerda, radical ou não.


quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Conjuntura:

Amanhã, 20 de agosto: Todos pela Democracia e pela Esquerda







Por Guilherme Boulos
Publicado originalmente em: http://brasilem5.org/
 
Nesta quinta-feira, 20/8, milhares de trabalhadores e trabalhadoras tomarão as ruas do país por uma pauta de esquerda, contra o avanço conservador e o ajuste fiscal. O Manifesto Nacional, assinado por dezenas de movimentos sociais, é claro em relação aos objetivos do ato (facebook.com/events/873549372734912/).
Os três eixos da convocatória são: 1) Contra o ajuste fiscal, que os ricos paguem pela crise; 2) Fora Cunha, não às pautas conservadoras e o ataque aos direitos; e 3) A saída é pela esquerda, com o povo na rua e por Reformas populares.
Os movimentos acrescentaram ainda à pauta a rejeição clara aos retrocessos da tal Agenda Brasil – um pacto entre os de cima e contra os trabalhadores – reafirmando como contraponto uma agenda popular: Taxação das grandes fortunas e do lucro dos bancos, auditoria da dívida pública e reformas populares.
Mas a clareza do Manifesto não foi suficiente para evitar confusões e tentativas de desvirtuar o caráter da mobilização. Pela contraposição em relação aos atos puxados pela direita em 16/8, alguns – tanto entre organizações convocantes, quanto entre os sectários de plantão – apressaram-se em dizer (contra o própria convocatória do ato) que seria uma mobilização de defesa do governo Dilma.
Vejamos como chegaram a isso.
De um lado, é verdade que surgiram uma série de convocatórias paralelas reduzindo o ato à “luta contra o golpismo”, sem falar de ajuste, direitos e mesmo defendendo o governo Dilma. Alguns dos movimentos que participam da organização do ato chegaram a compor estas convocatórias. E isso levou ao fato de que em uma série de capitais do país não haverá ato unitário, mas sim dois atos. Um seguindo o Manifesto nacional, outro estritamente “contra o golpismo”.
Este é um fato notório para os que estão acompanhando a organização do dia 20 e publicizado em convocatórias diferentes – no local, horário e conteúdo – em algumas das cidades que terão mobilizações. Uma demonstração clara de que, onde o tom da mobilização não seguiu a unidade política do Manifesto nacional, ela se dividiu.
Mas, de outro lado, esta disputa real pelo significado do ato do dia 20 está sendo utilizada por grupos sectários da esquerda para carimbar o ato, e conseqüentemente o MTST, como governistas.
Nenhuma novidade quando se trata dos puristas de sempre. Seu grande orgulho é não se misturar com os outros. Fogem de ambiguidades, de riscos políticos, ou seja, da história. Dedicam a maior parte de seu tempo não a fazer política de esquerda, mas a criticar quem faz por não ser “suficientemente de esquerda”. O resultado é a mais completa impotência política. Vivem a dizer o que os outros devem fazer, para onde devem mobilizar, mas quanto a eles, não conseguem mobilizar nem seus vizinhos na defesa de suas ideias. Vivem de sonhar que um dia as massas cairão em seu colo.
Quanto a nós, estaremos nas ruas no dia 20. Os atos unitários, incluindo o de São Paulo, terão um tom claro contra a direita e o ajuste fiscal do governo. Também contra a Agenda Brasil.
Este é o ponto que demarca a unidade, diante da diversidade de orientações políticas dos movimentos que estão nesta Frente. Na Frente de Mobilização que vem sendo construída por vários movimentos sociais desde 2014 e que organizou dias de luta como o 15/4, o 25/6 e agora o 20/8, cabem todos aqueles que queiram lutar contra a ofensiva da direita e de Cunha, contra o ajuste fiscal do governo Dilma e por uma saída à esquerda para a crise.
Esta alternativa popular e unitária sairá fortalecida das mobilizações do dia
Política:

O NEC reproduz a Declaração do DAP


Consideramos importante a relação democrática e de colaboração com as diversas tendências ditas de esquerda dentro do PT. Dentro desse espírito segue abaixo a "declaração nacional o Diálogo e Ação Petista"





Aos companheiros e companheiras do DAP,
A todos petistas,



Neste momento, recrudesce a ofensiva da reação explorando as conseqüências "guinada" do governo Dilma e a paralisia do PT.

O governo federal não negocia com os servidores, mas anuncia a redução de ministérios, como quer a direita, e Aloísio Mercadante, ministro da Casa Civil, acena ao PSDB.
Frente a nova prisão de Zé Dirceu, o ministro Wagner diz que "a vida continua", enquanto uma nota da Executiva Nacional tenta contornar a necessária solidariedade face à arbitrariedade do juiz Moro.
Tudo que acentua a confusão entre os petistas e as forças populares!
Enquanto isso o golpismo volta à rua.
No Congresso Nacional, o PSDB e o PMDB se articulam para voltar a assumir o comando em algum momento.
O vice-presidente Temer, tem o desplante - com apoio da Fiesp e da Firjan - de pedir "alguém (!?) acima dos partidos e das instituições" para uma impossível "união". Impossível porque os trabalhadores teriam que renunciar a defender seus direitos da sanha da exploração patronal.
Nesta situação instável, está na ordem do dia a defesa do PT ameaçado de destruição pelos agentes do imperialismo, do qual o Judiciário se faz instrumento. A apuração das denuncias - falsas ou verdadeiras - da fábrica de delações premiadas é um pretexto para a operação da Polícia Federal e do Ministério Público que quer fazer do PT uma "organização criminosa", preservando os demais partidos institucionais.
Na verdade, hoje, mais do que nunca os trabalhadores precisam de suas organizações para defenderem seus direitos, na difícil situação em que a própria cúpula do PT os colocou, com sua adaptação antes às instituições apodrecidas, e a subordinação agora à política econômica suicida do governo Dilma.
Lembremos o Manifesto dos sindicalista da CUT ao 5o Congresso do PT pedindo o partido de volta para os trabalhadores.

DIREITOS E DEMOCRACIA, TUDO A VER
A defesa do PT, como a defesa da própria democracia, não devem ser separados da defesa dos direitos sociais dos trabalhadores.
Por isso, é não só legítimo como necessário, que os trabalhadores se concentrem na luta contra a deterioração das suas condições de vida, na luta contra o plano de ajuste recessivo comandado pelo ministro Levy.
Combater os cortes, as demissões, dirigir as reivindicações a Dilma, como aos governos estaduais e municipais, é um dado da mobilização popular que não deve ser abafada em nome da estabilidade. Ao contrário, é um imperativo para a vitória da democracia contra o golpismo que só os trabalhadores podem assegurar.
Afinal, para o povo a democracia é o acesso ao emprego, à educação, à moradia e à saúde. Mas há certos dirigentes do PT e outros partidos, assim como também setores equivocados da extrema-esquerda que não querem ver isso, e opõe a defesa da democracia à defesa dos direitos, como se fosse uma "escolha".
Na verdade, até para defender o mandato popular, cresce a exigência de mudança da política econômica. Na nossa opinião, são exigências vitais a derrubada dos juros, o fim do superávit primário e o controle do cambio - abaixo o plano Levy!

AGENDA NAS RUAS, COMO O PT AGIA!
No momento, estão mobilizadas várias categorias (principalmente de servidores), mas também os trabalhadores sem-terra, além da juventude e outros setores oprimidos. No Congresso, há a ameaça do projeto de terceirização e a questão da progressividade na regra 85/95 para as aposentadorias.
Especialmente os petroleiros da FUP estão numa luta de interesse direto para toda a nação: a defesa do pré-sal contra o desmonte da Petrobras pela gestão Bendine e o projeto Serra, com tudo que significa de negativo para a industria nacional e para as verbas para a educação e para a saúde.
Nos associamos a esta luta para defender essa conquista da Nação contra o imperialismo. Apoiamos todas as formas de solidariedade que tecem a necessária unidade de todas categorias, setores populares e democráticos nesta questão.
Com urgência, o DAP, através de seus grupos de base, ampliará seu engajamento no apoio aos petroleiros.
Ao mesmo tempo, conclamamos todos os petistas a "agir como o PT agia", ao invés da atitude de "esperar o que vai acontecer": somem-se às reuniões dos grupos de base do DAP!
Do mesmo modo, junto com os petistas, estaremos nas mobilizações que movimentos, frentes e a CUT, com apoio do PT, convocam nas próximas semanas, como os atos do próximo dia 20 de agosto previstos em 10 capitais.

Agir como o PT agia! • www.petista.org.br
Análise:

Sobre a crise, as filiações ao PT e os túneis

Por: Rodrigo Cesar 
Publicado originalmente em: http://www.pagina13.org.br/pt/sobre-a-crise-as-filiacoes-ao-pt-e-os-tuneis/#.VdRDOpcplXk






Na tentativa de demonstrar que a crise vivida pelo PT não é grave, alguns militantes e dirigentes partidários apresentam números absolutos de novas filiações realizadas nos últimos meses. Nada falam sobre desfiliações e, portanto, sobre o saldo final.

Os gráficos acima, por sua vez, mostram um cenário preocupante: a mudança da histórica curva crescente para um quadro de estagnação e, em seguida, o possível início de uma curva descendente do número de filiados e filiadas ao PT.

Obviamente, existe a possibilidade da oscilação negativa de 6 mil filiações entre abril e julho de 2015 ser decorrente de fatores administrativos circunstanciais no encaminhamento das filiações ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

De acordo com os dados do Tribunal, entre fevereiro e março de 2013, por exemplo, houve uma queda de 69 mil filiados e, logo em seguida, registrou-se um aumento de 87 mil para o mês de abril. Igualmente, entre agosto e setembro do mesmo ano, houve uma queda de 10 mil filiados e, logo em seguida, registrou-se um aumento de 33 mil para o mês de outubro. Ou seja, em ambos os casos, a linha de tendência manteve-se crescente.

Mas a curva do presente momento é de outra natureza, não é uma oscilação brusca e rapidamente revertida, como nos casos citados acima. A queda entre abril e julho de 2015 sucede um quadro de estagnação que se prolongou por cerca de 18 meses. A linha de tendência não se mantém crescente.

Os dados dos próximos meses indicarão se a queda do último trimestre representa apenas uma oscilação no quadro de estagnação ou o início de uma consistente tendência decrescente.

Talvez estejamos vivendo, neste exato momento, o primeiro ponto de virada na linha de tendência crescente das filiações ao PT em toda a sua história. Seria mais uma evidência de que a crise atual é a mais grave e a mais profunda que o PT já viveu. Por enquanto, é apenas uma possibilidade, entre muitas.

Contudo, mantida a estratégia conciliatória predominante no PT, que ademais leva o governo federal a acenar positivamente para a “Agenda [contra o] Brasil” de Renan Calheiros, poderemos presenciar uma situação inusitada: a transição de uma crise aguda para uma crise crônica, na qual o fantasma do golpismo daria um passo atrás mas seguiria rondando o governo, enquanto o PT levaria a termo o processo de brutal descaracterização como partido vinculado aos interesses da classe trabalhadora, tendo como um dos resultados uma verdadeira debandada das fileiras partidárias que se consolidaria como tendência difícil de reverter.

Se isso se confirmar, uma parte deverá sair por não ver mais no PT uma legenda eleitoralmente viável para abrigar seus interesses fisiológicos pessoais. Seria uma feliz depuração.

O problema é a outra parte: a militância de esquerda que poderá sair por estar cansada de ver nossas direções, bancadas e governos reiteradamente capitulando e nos conduzindo ao matadouro. Seria uma triste perda.

A esta altura, somente um cavalo-de pau poderá nos levar a um túnel cuja luz no final seja a saída e não o farol de um trem.

* Rodrigo Cesar é historiador e militante do PT