quinta-feira, 7 de abril de 2022

Eleições: Lula e Alckmin, Terceira Via, Bozo. Registrando Obviedades.

 A chapa Lula-Alckmin deve ser fechada até o fim de abril. Não vejo outros nomes sendo cogitados a sério para a vaga de vice do Lula. O PT precisa dos votos do Alckmin? A pergunta nem é essa, a pergunta é: o Alckmin tem votos? Por óbvio que o PT não precisa desses votos. Mas precisa do simbolismo desse acordo para acalmar a oposição liberal a sua candidatura e principalmente a seu futuro governo. Alckmin é elitista, liberal no pensamento econômico, profundamente conservador quanto aos costumes, com uma ligação odiosa com a Opus Dei, organização da extrema direita católica, que apoiou a ditadura de Franco na Espanha. Não só não tem nenhuma afinidade com as ideias que, pelo menos nos corações e mentes da militância, norteiam a política petista, ideias estas de inclusão da população mais pobre, valorização do trabalho e desenvolvimentismo e independência nacional, liberalidade nos costumes, como também sempre atuou no sentido contrário quando esteve no poder. A seu favor conta um histórico de fidelidade e honestidade. Pelo que se sabe, não procurou a política com objetivos fisiológicos, de enriquecimento pessoal, foi fiel a seu partido enquanto ele foi um partido de verdade, respeita os acordos que firma e é um interlocutor civilizado ao negociar esses acordos. Estes dois últimos aspectos são avalizados pelo Haddad, experenciados durante sua prefeitura de São Paulo. Não é um político carismático, como fica óbvio pela alcunha que ganhou de “Picolé de Chuchu”, nem muito habilidoso, dado o fato de ter alimentado o monstro Dória que o traiu e terminou de afundar seu partido. Não temo que venha a articular um golpe contra Lula, como Temer foi capaz de fazer com Dilma, mas acho que existe o risco de, caso Lula venha a se afastar da presidência, por doença, o que é possível por conta de sua idade avançada, assumindo a presidência, dê uma guinada de cento e oitenta graus nos rumos do governo.

A candidatura do Marreco acabou, como já tinha sido anunciado que aconteceria até abril, por todo mundo que sabia alguma coisa de política e se manifestava com alguma honestidade intelectual. Uma candidatura obviamente condenada ao fracasso. O sujeito é antipático, arrogante, ignorante e tem sérias limitações cognitivas. Além disso, ou por isso mesmo, não tem nenhuma aptidão para o diálogo e a articulação política. Não tem nenhuma proposta e baseia sua campanha no antipetismo e no combate à corrupção, a suposta causa de todos os males do país. Uma plataforma duplamente vencida. O antipetismo está passando e as pessoas hoje veem a economia e não a corrupção como o principal problema. Está isolado desde o início e sua candidatura só saiu do traço por conta de intensa e exaustiva campanha da imprensa corporativa, principalmente a Globo, único setor, além de um segmento corporativista do judiciário, que o apoia. Antes mesmo de sair candidato, já havia ganhado a pecha de traidor, tanto para a esquerda quanto para a direita. À esquerda por ter traído a justiça e a pátria, ao entregar tanto uma quanto outra a interesses estrangeiros em troca de ganhos pessoais e à direita por ter barganhado com o Bozo um ministério e, ao ser contrariado, sair do posto atirando contra seu chefe e benfeitor (e beneficiário de seus desmandos na justiça). Para confirmar a má fama, agora trai o partido que o acolheu e pagou polpudo salário além de disponibilizado vultuosas verbas de campanha e muda-se para o monstrengo União Brasil, a Arena rediviva, em busca de mais fundos, a convite de um de seus caciques. Verdade seja dita que nenhum dos dois partidos o quer, pois, sua rejeição no eleitorado hoje já consegue ser maior que a do Bozo. Um fenômeno, de fato, esse marreco. Fazemos votos que em algum momento a justiça seja finalmente feita, após amplo direito de defesa que ele sempre negou a suas vítimas, e ele seja encarcerado por um bom tempo, junto com o resto da quadrilha de Curitiba.

Outro que afunda, em índices de intenção de votos pífios, é Doria, o jestor, como dizia o saudoso Paulo Henrique Amorim. Eu não tenho acompanhado a política paulista, mas, aparentemente, seu governo de São Paulo é desastroso, apesar de ter conduzido a vacinação de maneira correta e relativamente eficiente. Aparentemente, este foi o único mérito de sua jestão. Seus índices de rejeição parecem ser altíssimos, a ponto de ninguém, nem seu candidato à sucessão no governo do estado, querer tê-lo no palanque, segundo artigo publicado na imprensa. É pedante, arrogante, autoritário, elitista e sua aversão aos pobres é tão evidente que é incapaz de gerar qualquer empatia com a maioria da população. Tem massacrado o funcionalismo, do professor ao pesquisador ao barnabé, o que gera um enorme contingente de pessoas a lhe fazerem oposição. Diante de sua inviabilidade, há uma espécie de motim ou guerra civil dentro do PSDB, onde Eduardo Leite, o desconhecido, tenta dar o golpe nas prévias e assumir a candidatura presidencial. É o penúltimo prego no caixão da legenda.

Junto com Marreco e Dória, vai-se a imaginária terceira via, sonho inefável da imprensa corporativa, entreguista e golpista, que nunca decolou e também não vai decolar com Ciro ou Eduardo Leite ou qualquer outro nome inventado e sem história. As pesquisas e a história têm demonstrado que tanto o PT quanto o Bozo têm, além de um teto de votos, inferido pelo seu índice de rejeição, um piso de votos. Este é de trinta por cento para o primeiro e vinte e um por cento para o segundo. Para uma candidatura da tal terceira via emplacar, precisaria somar pelo menos os vinte e um por cento do piso do Bozo para tirá-lo do segundo turno. Hoje, nem somando os índices de todos os nomes apresentados para essa empreitada chega-se perto disso. A eleição vai ser mesmo plebiscitária: barbárie ou democracia. Fantasia autocrática e violenta ou experiência de administração bem-sucedida. Morte ao preto pobre e bandido ou inclusão, trabalho e consumo. É assustador que a escolha apresentada seja essa, e que a possibilidade da opção pela barbárie possa vencer novamente, mas esses são os fatos.

Finalmente, o inominável, o Bozo, cresce ligeiramente nas pesquisas. Muita gente parece ter se assustado, mas é o esperado, não há nenhuma surpresa nisso. Com o desaparecimento da terceira via, os votos desta migram, majoritariamente para a extrema direita. Ou alguém acredita que os parcos votos do Marreco e do jestor poderiam migrar, significativamente, para o Lula? Os eleitores da terceira via são os antipetistas alfabetizados, envergonhados pela grosseria do elemento que hoje ocupa indevidamente a cadeira presidencial. E o incomível tem o seu carisma torto, é um fascista raiz e a sua tropa de desajustados sociais o reconhece e se identifica. Além disso ele tem enormes recursos financeiros e tecnológicos, advindos não só de uma burguesia nacional atrasada, ignorante e de mentalidade colonial escravagista, mas também da extrema direita internacional do qual se tornou um  baluarte, apesar de sua inépcia, sem falar dos interesses da geopolítica estadunidense que sempre trabalhou e trabalhará para que nenhum país se estabeleça como uma economia ou liderança rival no continente americano. A eleição provavelmente será suja e violenta, com notícias falsas, hoje constrangedoramente chamadas de fake news, sendo distribuídas intensamente e em larga escala para dezenas de milhões de eleitores e vários episódios de atentados pelas milícias fascistas, fortemente armadas durante o desgoverno do Bozo, com eventuais episódios fatais mesmo nos bairros de classe média dos grandes centros. Digo isso porque episódios fatais no campo, nas pequenas cidades e nas periferias dos grandes centros são a regra, já são a regra hoje.

Encerro dizendo que mesmo apesar de tudo, acho que o mais provável é mesmo a eleição do Lula e o fim desse período trágico de nossa história, para um novo começo, difícil, lento, suado, da construção de um país que nos orgulhe a todos, principalmente o povo mais pobre, preto, mestiço, indígena que são os deserdados desta terra. E repito a palavra de ordem sempre levada pelo nosso camarada, o Satânico Dr. Mao: O Socialismo Avança e o Capitalismo se Esfacela! E acrescento: Uahahahaha! (risada de monstro).


Pedro Crem

quarta-feira, 6 de abril de 2022

Elementos históricos para uma epistemologia materialista:


1. Parto da seguinte premissa: a proximidade da verdade epistêmica exibe-se diretamente proporcional à distância histórica ou dissociação entre sujeito e objeto do conhecimento.


2. Anteriormente ao advento da revolução neolítica, os seres humanos ainda se subsumem completamente na natureza, descabendo cogitar em dissociação entre sujeito e objeto do conhecimento.


3. Com o advento da revolução neolítica, os seres humanos passam a transformar a natureza consoante suas necessidades concretas, de tal sorte que que há uma discreta ruptura entre sujeito e objeto do conhecimento. Os indivíduos ainda mantêm a posse dos meios de produção e ainda preservam considerável autonomia para determinar o tempo e o ritmo de trabalho, situação esta que remanesce até os estertores da idade média, caracterizada pela atividade agropecuária e artesanato. Na orbe epistêmica, portanto, o sujeito do conhecimento ainda coincide com o indivíduo humano, o qual permanece ainda muito subsumido na natureza e, destrate, pouco distante do objeto do conhecimento.


4. Com o advento da manufatura, na idade moderna, os indivíduos trabalhadores perdem em certa medida a posse dos meios de produção e já não determinam completamente o tempo e o ritmo do trabalho, numa subsunção meramente formal do trabalho no capital que já provoca maior distanciamento entre sujeito e objeto do conhecimento. Observam-se os pródromos da vindoura classe proletária, sendo certo que a filosofia de Baruch de Espinosa, ao fulminar radicalmente qualquer transcendência divina, vulnerou a ideia de um observador dissociado ou fora do Universo e, por conseguinte, a acepção de um tempo e um espaço absolutos, com viabilizar os fundamentos da ulterior teoria da relatividade de Albert Einstein, com sua concepção peculiar do espaço-tempo.


5. Com o advento da revolução industrial inglesa do século XVIII, caracterizada pela ascensão da maquinaria e grande indústria e pela subsunção real do trabalho no capital, os indivíduos trabalhadores perdem completamente a posse e a propriedade dos meios de produção, bem assim a determinação individual do tempo e ritmo do trabalho, constituindo plenamente uma classe proletária internacional que encerra o potencial de emancipar a humanidade e unificá-la perante a natureza, do que se dessume uma máxima distância entre sujeito e objeto do conhecimento, resultando no socialismo científico de Marx e Engels.


Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira, historiador.

quarta-feira, 23 de março de 2022

BREVE DISCURSO DAS HIPÓSTASES: INDIVÍDUO E SOCIEDADE

Os seres humanos convivem com abstrações em seu cotidiano há milênios: mais especificamente, desde o momento em que passaram a trocar mercadorias entre si.

Sim, pois a intercambialidade entre os diversos valores de uso das mercadorias pressupõe que exista algo em comum entre as mesmas: ora, esse denominador comum entre mercadorias de distintos valores de uso consiste no fato de que são fruto do trabalho humano. 

Todavia, o trabalho para pescar um peixe exibe-se distinto do trabalho para produzir farinha de mandioca, logo o trabalho que determina a equivalência entre distintos valores de uso corresponde ao trabalho humano abstratamente considerado, despido de suas determinações concretas, de tal sorte que o valor de certa mercadoria determina-se pelo tempo de trabalho humano ABSTRATO necessário à sua produção: eis a origem da teoria econômica do valor-trabalho. 

Já tive a oportunidade de obtemperar, na publicação imediatamente precedente deste portal, que os indivíduos humanos, quando apartados de suas relações sociais de produção, não passam de meras abstrações ou quimeras. Mas as relações de produção, se consideradas independentemente dos indivíduos humanos concretos que lhes dão suporte, também configuram abstrações: eis o problema da interação entre indivíduo e sociedade.

Destaque-se que a multiplicidade das necessidades individuais concretas enseja a multiplicidade dos valores de uso e, por conseguinte, a divisão social do trabalho e a troca de mercadorias: em tais necessidades individuais concretas, portanto, reside o nascedouro da relação de produção representada pela mercadoria e seu derivado historicamente ulterior, o capital. 

Destaque-se, também, que cada indivíduo humano singularmente considerado encerra necessidades concretas idênticas às dos demais indivíduos, mas também guarda necessidades concretas singulares ou partilhadas com poucos indivíduos: observe-se que já na distinção entre os gêneros (feminino, masculino etc.) há diferenças entre necessidades concretas individuais.

Mas, sob o domínio do modo capitalista de produção, um mesmo valor de uso pode ser produzido por distintos capitais individualmente considerados, sendo certo que tal multiplicidade é historicamente mitigada pela tendência capitalista à centralização e decorrente formação de oligopólios e monopólios. 

É mister obtemperar ainda que, sob o capitalismo, há uma tendência à padronização e repetição das mercadorias e do próprio trabalho, de tal sorte que o trabalho abstrato, acima mencionado, tende a realizar-se em um trabalho homogêneo, repetitivo e padronizado nas distintas plantas fabris, fenômeno que é intensificado pela centralização de capital. 

O comunismo mundial, portanto, conquanto despido das fraturas sociais derivadas das lutas de classes, deverá deparar-se com os problemas da interação entre indivíduo e sociedade, máxime com a questão da satisfação das necessidades individuais concretas, as quais, se não se exibem absolutamente singulares para cada caso, podem ser vinculadas a poucos indivíduos humanos. Em todo caso, será imperiosa a divisa: de cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades. 

Eis alguns temas, discretamente dispersos, para debater.

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador)  

  

quarta-feira, 9 de março de 2022

FRAGMENTO SOBRE RAZÃO E ABSURDO

O filósofo Georg Wilhelm Friedrich Hegel descortinou pioneiramente a lógica dialética que habilita o estudioso a capturar a intelecção da história da humanidade, mas o fez de maneira formal e idealista, sendo certo que seus discípulos Karl Marx e Friedrich Engels despojaram esta inteligibilidade de seu cariz abstrato, com atribuir um conteúdo concreto ao evolver humano no curso do tempo, de sorte que se desvelou, destarte, a sucessão dos distintos modos de produção ao longo da história, cuja dinâmica rege-se pelas contradições entre relações de produção e forças produtivas, que se manifestam, por seu turno, por meio de lutas de classes. 

Impõe-se, então, indagar: por que motivo a intelecção da história da humanidade, pela lógica dialética e pelo materialismo histórico, somente foi exequível tardiamente, entre os séculos XVIII e XIX?  

Ouso voluntariamente correr os riscos de ventilar uma resposta a esta indagação: o motivo reside no advento em grande escala da classe proletária durante o fenômeno histórico da revolução industrial inglesa do século XVIII. 

Sim, porquanto tal classe social, completamente desprovida dos meios de produção, exibe um caráter mundial que lhe confere aptidão para emancipar a humanidade, com habilitá-la a tomar as rédeas da sua própria história e submetê-la aos ditames da razão, alcançando um novo modo de produção já não mais fraturado em classes sociais antagônicas.

Portanto, a inteligibilidade da história da humanidade somente se manifesta quando esta mesma humanidade apresenta-se apta a dirigir o seu próprio destino, sendo certo que, portanto, apenas na longa duração dos distintos modos de produção, que se sucedem no curso do tempo, é que se pode apreender tal inteligibilidade. 

Ora, tal longa duração suplanta evidentemente o tempo de uma vida humana individual, de sorte que a própria razão, por conseguinte, também se exibe como fenômeno social atrelado à longa duração histórica. 

A história do indivíduo humano abstrato, apartado de suas relações sociais, enfim, de suas relações de produção e da história de tais relações de produção, não pode, portanto, suplantar o estatuto de quimera desprovida de racionalidade e inteligibilidade.

Por isso, no âmbito da literatura, por exemplo, proliferam os casos de obras que, divisando o indivíduo humano, chegam no nonsense e no absurdo:

Nas obras de Anton Tchekhov, verbi gratia, nada digno de nota acontece, pois este autor, médico e provido de olhar científico, apreendeu a falta de racionalidade do tempo próprio das personagens individuais. 

Franz Kafka, por seu turno, exibe-nos indivíduos humanos oprimidos por uma realidade que lhes escapa ao controle, sendo certo que o resultado deste solipsismo exacerbado apresenta-se na forma de aberrações como o inseto de "A metamorfose".

Já as personagens do assim chamado "teatro do absurdo" mal conseguem se comunicar entre si, talvez porquanto aquilo que têm a dizer como meros indivíduos abstratos, no sentido acima exposto, não seja inteligível a mais ninguém. 

São singelas ideias para eventual debate.

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador)  



quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

O HOMEM AMARELO

O pintor holandês Vincent van Gogh, portador de transtorno afetivo bipolar e obcecado pela cor amarela, fracassou, em vida, em todos os aspectos de sua breve existência: desastroso nos campos amoroso, profissional, financeiro, familiar, etc, ele foi, nada obstante, postumamente reconhecido e consagrado como o mais importante artista plástico de sua época e, decerto, um dos mais relevantes expoentes de toda a história da arte, e quiçá seu ponto culminante - ao menos na humilde opinião do autor que aqui lhes dirige a palavra.


A sua vida é, de fato, de um apelo irresistível ao biógrafo, mas seria factível um exame materialista histórico de sua obra, objetivamente isento?

A questão metodológica, que aqui se nos antolha preambular, consiste no seguinte: em nosso sentir, a aproximação de jaez marxista, como colimamos demonstrar, desvela-se não apenas possível como, sobretudo, absolutamente necessária à averiguação precisa da relevância histórica da arte de Van Gogh.

Limítrofe entre o figurativismo e o abstracionismo, sua obra pictórica representa provavelmente o liame mais significativo, na orbe das artes, da transição entre as formações sociais pré-capitalistas, ou "antediluvianas", e o capitalismo propriamente dito, e, nesse sentido, seu estudo guarda o condão de desnudar relações inusitadas.

Creio que já se postulou, amiúde, ser a pintura abstrata coeva do trabalho também abstrato, aquele apartado dos meios de produção e que serve ao capital para produzir mais-valia, enquanto a arte figurativa amolda-se mais aos períodos históricos que precedem o modo de produção capitalista, máxime ao artesanato, quando o trabalhador ainda possui os meios de produção.

Ora, a obra de Van Gogh exibe-se, no essencial, como a arte de transição por excelência entre essas duas épocas: com efeito, cuida-se do artista que efetuou, e de forma pioneira, a dissociação mais radical entre as cores, notadamente o amarelo, e as figuras ou formas que lhes dão suporte na tela, de tal sorte que os objetos nela representados perdem suas cores naturais e assumem outras que o artista, ao seu alvedrio, lhes atribui artificialmente. 

Mas, a escolha das cores dos objetos seria de fato aleatória para esse artista? O que dizer do predomínio do amarelo na obra de Van Gogh?

Suponho também que já se suscitou que tal predomínio é caudatário de determinado defeito ocular do artista provocado por medicação.

Nada mais falacioso.

O amarelo de Van Gogh é a cor do ouro, vale dizer, do dinheiro por natureza, precisamente o metal que cumpre a função social de representar a quantidade de trabalho abstrato ou o valor das mercadorias. O próprio Karl Marx diria que se trata do metal que, com sua cintilante cor amarela, consubstancia a "gelatina" de trabalho abstrato, de massa disforme de valor, a saber, o próprio símbolo do capital. 

Ao libertar o amarelo-ouro de seus suportes figurativos, Van Gogh na verdade representa no plano pictórico a dissociação entre trabalho e meios de produção, que engendra o trabalho abstrato e sua medida, o valor, por seu turno consubstanciado, como equivalente geral, no dinheiro, no ouro, no vil metal de cor amarela. 

Esse artista genial removeu de suas figuras as respectivas cores naturais e as pintou de amarelo, de ouro, de dinheiro: assim como este se converte em qualquer mercadoria, as figuras e formas das telas de Van Gogh perdem a cor natural e assumem a cor amarela, convolando-se em abstrações, em formas mutuamente conversíveis.

Seria um figurativismo abstrato, ou um abstracionismo figurativo? O que se pode asseverar com certo grau de certeza é que a conversibilidade das figuras amarelas do artista neerlandês reproduz o mecanismo pelo qual, sob o pálio do capitalismo, o dinheiro convola-se em mercadoria e vice-versa, essas "gelatinas de trabalho abstrato", de valor. 

Por derradeiro, se o Mouro de Trier estudou o dinheiro com absoluta falta dele no bolso, o artista holandês também pintou suas figuras douradas sem conseguir convertê-las no vil metal amarelo que tanta falta lhe fez. 

Seria Vincent van Gogh o Karl Marx das artes?

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador)         

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

A MERCADORIA: TEORIAS DO VALOR E LUTAS DE CLASSES

(em homenagem ao camarada Maurício Barbara)

As lutas de classes exibem-se presentes, conquanto ainda de forma tácita, desde o primeiro capítulo da obra magna de Karl Marx, O Capital, que versa sobre a mercadoria, notadamente nas teorias do valor que derivam do duplo aspecto deste objeto de exame, a saber, o duplo aspecto da mercadoria expresso em seu valor de uso e seu valor de troca.

Quanto ao primeiro aspecto, o valor de uso, que consiste na aptidão da mercadoria para satisfazer necessidades humanas concretas, resta em destaque, evidentemente, o universo do consumo econômico, sendo certo que influiu decisivamente para o advento da teoria marginalista do valor, elaborada pioneira e concomitantemente por Jevons, Menger e Walras. 

O segundo aspecto da mercadoria, seu valor de troca, que para Marx é determinado pelo tempo de trabalho humano abstrato socialmente necessário para produzi-la, releva, a toda evidência, o âmbito da produção econômica, sendo certo que contribuiu de maneira decisiva para o advento da teoria marxista do valor, em certa medida derivada das postulações de Adam Smith e David Ricardo. 

Ora, antolha-se-nos, de forma hialina, que a produção e o consumo econômicos encerram, no modo capitalista de produção, caráter antagônico, concernente a classes sociais também antagônicas, porquanto, se o proletariado encarrega-se eminentemente da produção, o consumo mostra-se dominado pelos detentores dos meios de produção. 

Não por acaso, o grande debate teórico da Economia Política, notadamente entre as teorias marginalista e marxista do valor econômico, descortina uma cada vez mais evidente luta de classes entre, respectivamente, conservadores e progressistas no universo político. 

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador)  

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

ANOTAÇÃO INCIPIENTE SOBRE O NASCEDOURO DIALÉTICO DO DINHEIRO

No primeiro capítulo de sua obra magna, O Capital, Karl Marx discorre de forma percuciente sobre a contradição primordial ínsita à mercadoria, notadamente entre seu valor de uso e seu valor de troca. 

O primeiro aspecto da mercadoria, o valor de uso, refere-se à sua aptidão para satisfazer necessidades humanas concretas, enquanto o outro aspecto, o valor de troca, exibindo-se concernente à intercambialidade entre as mercadorias, é determinado pelo tempo de trabalho humano abstrato socialmente necessário para produzir determinada mercadoria.

Aventaríamos então, com supedâneo no acima aduzido, que o valor de uso é o aspecto concreto da mercadoria, enquanto o valor de troca é seu aspecto abstrato. 

Destarte, o dinheiro, o equivalente geral, nasce precisamente desta contradição entre os aspectos concreto (tese) e abstrato (antítese) da mercadoria, realizando uma síntese de tal contradição no ouro, o aspecto abstrato concretizado, vale dizer, a concretização do aspecto abstrato. 

São anotações sujeitas ao crivo crítico. 

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador)