domingo, 26 de outubro de 2025

ESQUETE SOBRE VALOR E VIOLÊNCIA

"Nunca há um documento da cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie"

Walter Benjamin


Vimos que a forma-mercadoria pressupõe a propriedade privada dos meios de produção dessa mercadoria, bem assim que tal propriedade privada dos meios de produção funda-se no trabalho e na violência, sendo certo que, por esta última instância, o indivíduo ou grupo proprietário adquire ou impede a turbação de sua propriedade por outrem, de tal sorte que trabalho e violência desenvolvem-se dialética e ulteriormente, na escravidão, em uma classe social que só trabalha e outra que exerce a violência sobre a primeira. 

Mas aduzimos outrossim que o valor de dada mercadoria é determinado pelo tempo de trabalho socialmente necessário para produzi-la, em homenagem ao trabalho como instância fundamental da propriedade privada dos meios de produção de tal mercadoria: o que dizer, no entanto, da violência, a segunda instância de tal propriedade privada dos meios de produção dessa mercadoria? Não deve ser considerada na determinação do valor dessa mercadoria?  

Ousaria responder afirmativamente a tal indagação. 

Sem embargo, podemos tomar o exemplo do antigo sistema colonial tão bem descrito, verbi gratia, por Fernando Novais e Jacob Gorender, em que o preço do produto final das colônias escravistas, como o açúcar no Brasil colonial, era composto em grande medida, ainda que indiretamente, pelo custo de escravização no continente africano.

Ademais, no capitalismo hodierno, o papel da violência na determinação do valor ou preço final das mercadorias exibe-se pressuposto no custo dos tributos que sustentam o aparato burocrático-militar estatal que, em última instância, serve apenas como mantenedor, pelo monopólio legal da violência, da propriedade privada capitalista dos meios de produção contra a massa de trabalhadores despojados dessa propriedade e que, portanto, devem alienar sua força de trabalho pra sobreviver.

Destarte, a violência, e não apenas o trabalho, funciona como fator determinante do valor mercantil, segundo o acima exposto.

Hipóteses sub judice.




por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador. 

TEMAS INCIPIENTES SOBRE ABSTRAÇÃO E VALOR DE TROCA

À abstração do indivíduo, ou grupo, isolado, que se dissocia da história passada de que na verdade é fruto, corresponde a abstração do valor de troca da mercadoria, que adquire autonomia como dinheiro, ou seja, como circulação de mercadorias. 

Isso porquanto a TROCA de mercadorias pressupõe distintos PROPRIETÁRIOS dessas mercadorias que são trocadas, isto é, os indivíduos ou grupos isolados somente se relacionam entre si na troca de merdadorias como seus respectivos proprietários, pois, nota bene, não faz sentido cogitar em troca de mercadorias entre indivíduos que são coletivamente detentores ou proprietários de um conjunto de objetos meramente compartilhados, e não trocados, entre os mesmos.  

Logo, a propriedade privada do objeto a ser trocado como mercadoria consiste em pressuposto da relação social ou de produção consubstanciada nessa troca de mercadorias. 

Mas, na verdade, a propriedade privada de dada mercadoria decorre da apropriação, pelo trabalho e pela violência, de determinados meios de produção dessa mesma mercadoria, de tal sorte que o aspecto abstrato da mercadoria, ou seja, seu valor de troca, é determinado pelo tempo de trabalho socialmente necessário para a respectiva produção, cabendo não olvidar que seu valor de uso consiste na sua qualidade concreta de satisfazer a necessidades humanas concretas. 

Dessume-se, portanto, que o aspecto abstrato da mercadoria, isto é, seu valor de troca, corresponde ao aspecto abstrato do indivíduo, ou grupo isolado, como proprietário privado de determinados meios de produção.

Em suma, a abstração da mercadoria exibe-se homóloga à abstração do indivíduo ou grupo isolados como proprietários privados.   





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador. 

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

OS TEMPLOS DOURADOS, OU EXÓRDIO DO PREÂMBULO DE UM BOSQUEJO ENSAÍSTICO.

Há dois templos católicos brasileiros, de estilo arquitetônico colonial, que, somados, encerram bem mais de uma tonelada de ouro adotada como adorno, a saber, a basílica de Nossa Senhora do Pilar em Ouro Preto e a igreja de São Francisco em Salvador, mas tal abundância em metal precioso não se exibe, de forma alguma, como aleatória, muito pelo contrário, pois é cediço que o ouro consiste na manifestação concreta mais apropriada e longeva da relação de produção consubstanciada no dinheiro, que nada mais é do que a denominação por excelência da circulação de mercadorias, as quais, por seu turno, guardam uma dupla faceta como valor de uso, seu aspecto concreto consistente na satisfação de necessidades humanas, e como valor de troca, seu jaez abstrato, sendo certo ainda que esta última qualidade da mercadoria destaca-se dela e adquire autonomia para funcionar precisamente como dinheiro, mas convém lembrar que, previamente a tal autonomia, a troca simples de mercadorias se impunha como forma de simbiose entre agrupamentos humanos, de tal sorte que as aludidas relações de produção, isto é, a mercadoria e sua troca simples, que teve como sucedâneo o dinheiro ou a circulação de mercadorias, exsurgem como formas alienadas e heterônomas de relações sociais entre os seres humanos, que os governam e regem à sua revelia como uma opressão de origem e caráter divino, razão pela qual a troca simples de mercadorias produziu o politeísmo, enquanto o dinheiro ou a circulação de mercadorias engendrou o monoteísmo, na exata medida em que, neste último caso, o instrumento monetário pode ser substituído e corresponder a qualquer tipo de mercadoria, vale dizer, pode transfigurar-se em qualquer valor de uso, mas o mais fascinante em toda essa história é que, em dado momento, o dinheiro cai dos píncaros divinos da circulação de mercadorias para voltar ao universo demasiado humano da produção de tais mercadorias, agora como capital propriamente dito ou em sentido estrito, o que pode ser apreendido na forma adquirida por um acontecimento histórico emblemático designado como Revolução Industrial, acontecido na Inglaterra durante o século XVIII da nossa era, ou seja, a era cristã, alusão esta bastante oportuna e conveniente, eis que a figura grandiloquente de Jesus Cristo pode ser interpretada como um monstruoso vaticínio do capital, na medida em que também é uma maneira de ascensão do abstrato ao concreto enquanto manifestação humana e corpórea da própria divindade monoteísta de uma determinada tradição religiosa, encetada pelo povo hebreu, sendo certo, como corolário geral do acima exposto, que os templos católicos inicialmente mencionados foram adornados com ouro abundante para mostrar seu jaez e caráter precisamente divino e transcendental, enfim, para exibir o aspecto concreto e material da divindade corporificada no Salvador.    






Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira, historiador.

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

DO ABSURDO EXISTENCIALISTA (ao camarada LINCOLN SECCO, exímio curador marxista brasileiro)

Muito provavelmente, a faceta mais radical do existencialismo consista na ideia de absurdo, esta ausência de sentido no mundo, desenvolvida teoricamente, verbi gratia, por Albert Camus e conduzida ao paroxismo por Emil Cioran, para quem, no limite, o suicídio pode configurar uma saída trágica, mas honesta, para esta falta de esperança na existência humana.

Mas, efetivamente, o que conduz a esse pessimismo exacerbado, a esse abismo vertiginoso?

O contraponto dos existencialistas ao racionalismo absoluto de Hegel, na verdade, não introduziu nada de sistemático em seu lugar, remanescendo no âmbito do irracionalismo individualista que conduz, em última instância, àquela ideia de abismo e absurdo suicidas. 

Um esforço concentrado para devolver sentido à existência humana foi logrado, todavia, pelo socialismo científico, que deslocou o indivíduo do centro das investigações para entronizar a sociedade dividida em classes sociais antípodas, em que o sentido da necessidade revolucionária de constituição da verdadeira Humanidade, despojada de antagonismos de classes sociais e Estados nacionais, e onde cada indivíduo poderá desenvolver suas plenas capacidades ao obter uma existência materialmente digna desse nome, substitui o vazio e o absurdo individuais existencialistas. 

Nesse diapasão, o socialista Louis Althusser costumava asseverar que os indivíduos, por ora, são meros vetores de determinações estruturais do capital, sendo certo, portanto, que o vazio existencial e o absurdo individual decorrem precisamente do fato de que os seres humanos estabelecem entre si relações de produção, ou de propriedade dos meios de produção, heterônomas e alienadas, que os governam à sua revelia e que os destitui de sentido próprio para existir no mundo. 

Tais relações de produção atingem o apogeu no capital, esta faceta abstrata da forma-mercadoria que obtém autonomia e governa o destino dos seres humanos de forma alienada e heterônoma, parecendo lícito ventilar que, precisamente, este jaez ABSTRATO do capital é que produz a sensação individual de vazio existencial e absurdo do mundo. 

Mas a verdadeira Humanidade já aludida, a ser alcançada no comunismo mundial vindouro, restituirá o sentido da existência aos invidíduos humanos, mas agora em chave coletiva, e não egoísta. 

Eis, portanto, o sentido e a tarefa que se impõem hodiernamente aos seres humanos enquanto coletividade: a revolução que suplantará o capital para alcançar o comunismo mundial. 





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador.          

terça-feira, 21 de outubro de 2025

MACHADO DE ASSIS (em homenagem à estimada camarada MARISA YAMASHIRO)

O meu inigualável herói cinematográfico, o realizador DAVID LYNCH, costumava aborrecer-se quando o mistério de uma película quedava elucidado e resolvido, mas este mesmo cineasta aduzia, em tom mais filosófico, que não era apropriado escrutinar o sentido de um filme, assim como não é relevante procurar pelo sentido da vida ou da existência, de tal sorte que o jaez absurdo das obras deste autor reside, na verdade, em uma postura existencialista radical.

Parece oportuno obtemperar, nesse diapasão, que as origens do existencialismo filosófico fincam espeque na contraposição ao sistema racionalista extremado do último grande filósofo, Hegel, contra o qual se insurgem vozes da estirpe do niilista Nietzsche e do cético Kierkegaard, sendo certo que este último esgrimiu a lapidar sentença segundo a qual "os filósofos constroem castelos de ideias e moram numa choupana"

Destarte, para estes críticos de Hegel, enveredar pela busca de um sentido ou essência da vida consiste em erro grosseiro, eis que o mistério da existência remanescerá sempre incólume. 

Mas Machado de Assis, ao recusar-se, em seu romance "Dom Casmurro", a desvendar o mistério do possível adultério de Capitu contra Bentinho, já em 1899, insere-se nessa grande linhagem existencialista que rompeu com todas as formas de teleologia ou busca por sentido nesta vida misteriosa e fascinante. 

Parafraseando o que asseverou Dostoievski em relação a "O capote" de Gógol, postularíamos que somos todos caudatários de "Dom Casmurro" do bruxo de Cosme Velho, uma linhagem misteriosa que, no cinema, por exemplo, vai de "Os Pássaros" de Alfred Hitchcock a "Twin Peaks" de David Lynch.

MACHADO DE ASSIS, aqui, agiganta-se como digno de integrar o mesmo panteão de Dante, Shakespeare, Cervantes e Goethe. 





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador. 

PARA VERA COTRIM

Raro encontrar uma pessoa inteira

vemos elas mesmo

aos pedaços

numa réstia da luz do sofrer

Numa fome de tudo perdida

num post logo apagado

É raro


Mas não a Vera

Inteira ela era


É evidente

ontologicamente

Quem pensa fora da caixa

vive fora dela

Quem busca a verdade

exercita até se tornar

Vera


Saudades de conversas inteiras

que eu não entedia a metade

de gente fazendo história fora da aula

sem medo ou pudor

sem patriarcado

Inteira

Vermelha

Vera






Por CIRO SEIJI YOSHIYASSE 

sábado, 18 de outubro de 2025

O FIM DO EGO, TERCEIRA PARTE: LITERATOS.

Manifestações daquilo que venho denominando fim do ego, ou a crise da ideologia do individualismo burguês e da respectiva egolatria típica do capitalismo, ocupam lugar bastante evidente no âmbito da literatura, senão vejamos alguns casos bem interessantes em que a obra sobrepuja em muito a biografia do respectivo autor.

É cediça, nesse diapasão, a reclusão voluntária de Dalton Trevisan, alcunhado de "O vampiro de Curitiba", completamente avesso a aparições públicas e à concessão de entrevistas, bem assim a diretriz inobservada de Franz Kafka ditada a seu amigo Max Brod, para que este descartasse toda a sua obra literária inédita após o seu desaparecimento, que revelam evidente desapego aos louros e privilégios da fama e do dinheiro que afagam o ego das figuras públicas nesse departamento. 

Mas talvez a maior manifestação literária de desapego do ego esteja encerrada na vida e na obra de Fernando Pessoa, que viveu modestamente como burocrata do comércio, mas expandiu tal ego em um universo literário de heterônimos que suplantou de forma exponencial essa humilde e monótona existência pequeno burguesa, uma vida totalmente dedicada à edificação de uma obra que o alçou à condição de um dos maiores poetas de todos os tempos, um reconhecimento também póstumo que evidencia sua integral ausência de egolatria burguesa; um sujeito que, parafraseando o grande Rabindranath Tagore, plantou uma verdadeira floresta sabendo que jamais viria a se sentar à sombra de uma única de suas frondosas árvores.  




por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador.