Imperioso confessar que cometi grave impropério e deslize ao olvidar, na homenagem a Jacob Gorender aqui publicada, o nome de CAIO PRADO JÚNIOR, o maior historiador brasileiro de todos os tempos, promotor de uma verdadeira revolução historiográfica, uma efetiva cesura epistemológica que inaugurou a tradição marxista no Brasil ao descortinar o real sentido da colonização, da qual são caudatários o próprio Gorender e outro exímio profissional, o Fernando Novais, este ainda em plena atividade.
Caio Prado simplesmente complementa o monumento intitulado O Capital, de Karl Marx, ao encaixar o Brasil colonial nos eixos da assim denominada acumulação primitiva de capital, descrita na obra mencionada, de tal sorte que os cercamentos na Inglaterra e o antigo sistema colonial não são doravante inteligíveis separadamente.
Sem embargo, se no caso dos cercamentos britânicos temos a formação da mercadoria consubstanciada na força de trabalho, mediante dissociação violenta entre trabalhadores e meios de produção, no caso do antigo sistema colonial observamos a consolidação e acumulação do dinheiro como forma de extração de mais-valia, que no período colonial ainda acontecia no âmbito da circulação de mercadorias e não no âmbito da sua produção, mediante compressão dos preços dos produtos das colônias.
Mas o antigo sistema colonial demandava um aparato estatal burocrático-militar sobejamente oneroso que entrou em crise, de tal sorte que sua solução foi a extração de mais-valia no próprio processo de produção de mercadorias, através da constituição do capital propriamente dito na grande revolução industrial inglesa do século XVIII, em que o dinheiro apropria-se de tal processo de produção.
Caio Prado Júnior, Fernando Novais e Jacob Gorender são de fato historiadores da mesma estirpe de Karl Marx, ou seja, a estirpe dos gigantes da historiografia mundial.
por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador.
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