A junção de "non" com "nada" resulta em "nonada", locução do vernáculo castiço e arcaico com que João Guimarães Rosa inaugura a narrativa de sua obra mais emblemática (a monumental "Grande Sertão: veredas"), palavra esta que habitualmente significa coisa sem importância, irrisória, mas o fato é que sua tônica etimológica está na partícula "nada", e é deste pressuposto que partiremos aqui.
Sem mais rebuços, o "nada" de Rosa coincide com o próprio "sertão", esse lugar árido e deserto que, assim como o "capital" de Karl Marx, aparece tanto como elemento concreto quanto como categoria abstrata, como valor de uso e como valor de troca.
Mas o capital, bem assim o dinheiro, compartilha com o sertão rosiano o jaez de ser simultaneamente nada e tudo, algo que em si não vale nada, mas que pode se convolar em qualquer coisa.
Sim, pois o sertão rosiano, em que a existência humana exibe-se em todas as suas facetas (como Deus e como Diabo), confunde-se com o próprio mundo ou universo, mas este último também encerra o condão de ser nada, eis que a cosmologia padrão da história do universo coloca o ponto infinitamente denso, ou seja, o nada, como seu início e, provavelmente, seu fim.
Destarte, em nossa moderna concepção de mundo, a saber, em nossa hodierna Weltanschauung ou cosmovisão, profundamente arraigada no capital, parece lícito ventilar a hipótese consoante a qual, para Guimarães Rosa:
NONADA = SERTÃO = CAPITAL
Hipóteses sub judice.
por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador.
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