sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

RABISCOS D´OESTE: VERSOS LIVRES EM UM MUNDO CATIVO.

1. PARA CESÁRIA ÉVORA.

Mornas no mar

Singram o Atlântico

Com a flor do Lácio a lapidar

Idioma tão romântico

Diva descalça Cesária

Évora, seu nome lusitano

Com paixão atrabiliária 

Glória para o continente africano


2. PARA PINA BAUSCH.

A sensualidade exibe-se provável 

Em corpos chamuscados

Encerrados em mônadas

Sequiosas por solidão

pas de deux impõe-se

Onde imperava outrora

O solista virtuose

De quem emanava o inefável do indivíduo

Mas a dança

Arte do solipsismo

Agora expõe o desejo carnal 

Que do incomunicável mortal faz perene

Ao reproduzi-lo em sua prole

E a sociedade assim perpetua-se

Pela força do amor 


3. PARA JORGE LUIS BORGES.

A bibliofilia poliglota

Confinada em biblioteca

De uma vida que não foi

Mas viveu intensamente

Nos livros em que assimilou toda a História

O tesouro inteiro da literatura universal

E engendrou ficção elevada ao quadrado

Alinhavada em citações de obras imaginárias

Feitas de nostalgia daquilo que não aconteceu

E superou o próprio tempo 

Condensando-se no Aleph

Primeira letra do alfabeto 

Letra A de amor


4. PARA FERNANDO PESSOA.

Nestes versos livres versando sobre poesia

Está a suprema veleidade metalinguística

Mas tudo vale a pena

Quando se cuida dessa pessoa

Que não se perpetuou em prole

Mas multiplicou-se na heteronímia

Com desinibir todas as potencialidades 

Exaurindo todas as possibilidades

Da vida de um funcionário do comércio

Convertida em plenitude existencial

Em infinito universo inédito trancafiado em arca

Uma multidão escondida em um só

Pois à literatura cumpre precisamente isto

Deferir vida para além da vida

Histórias para além da história

Perenizar o mortal

E quão pequenos parecemos

Diante dessas pessoas  


5. PARA JOSÉ SARAMAGO.

Extensas digressões sardônicas

Enveredam por sendas imprevistas

E entrecortam o enredo alegórico

Destituído do silente ponto final

Mas pleno de vírgulas rumorosas

Que mantêm vibrante a música narrativa

E a melodia poética desse fôlego criativo

Com uma novela que contorce a tradição historiográfica

Enquanto outra fustiga as Escrituras Sagradas

Para que outra ainda ressuscite personagens literárias

De sorte que o conjunto da obra

Descortina-se uma única digressão

Que colima aquilo que poderia ser e que não é

Com divisar no porvir a utopia de um novo mundo 


6. PARA DAVID LYNCH.

Se a tela plana de uma pintura 

Carece de profundidade

E a cena em movimento de uma película 

Exibe apenas simulacro de tempo

Então o pintor natural de Málaga decompôs suas figuras em perfis

Enquanto este cineasta rompeu oniricamente

A identidade de suas personagens

Pois o roteiro cíclico de seus filmes

Ruma para o nada

Ausência de início e inexistente o fim

Em permanências movediças e princípios violados

Rostos e corpos convolam-se em outros tantos

E assim caminha a Humanidade que sonha

Nesse surrealismo cubista   


7. PARA EDWARD HOPPER.

Cenas banais e comezinhas

De realismo pictórico insidioso e enganador 

Engendram estranho desconforto 

Com paisagens urbanas desérticas

Em ambientes fantasmagoricamente desabitados

Como uma cidade devastada por hecatombe

Que aniquilara os habitantes

Mas poupara os edifícios 

Onde agora medram espectros e quimeras

Que aterrorizam o espectador

Pelo insuportável solipsismo 

Das personagens que remanesceram

Teratologicamente confinadas

Em sua assombrada incomunicabilidade


8. PARA ALBERTO GIACOMETTI.

Criação humana

A linha reta

Fruto do pensamento abstrato 

Dos antigos geômetras do universo plano

Desforra-se de seu criador

Que ora se exibe em sua humanidade

Precisamente como linha reta

Abstrata

Desenhada no papel

E os traços rabiscados pelo artista

Nos seus desenhos de figuras humanas

Auferem autonomia para suplantar o suporte plano

Cada linha traçada convolando-se em indivíduo

Pleno em sua essência

Como uma linha reta tridimensional

O homem agora é um rabisco

Em sua vida por um fio  






por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.

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