1. PARA CESÁRIA ÉVORA.
Mornas no mar
Singram o Atlântico
Com a flor do Lácio a lapidar
Idioma tão romântico
Diva descalça Cesária
Évora, seu nome lusitano
Com paixão atrabiliária
Glória para o continente africano
2. PARA PINA BAUSCH.
A sensualidade exibe-se provável
Em corpos chamuscados
Encerrados em mônadas
Sequiosas por solidão
O pas de deux impõe-se
Onde imperava outrora
O solista virtuose
De quem emanava o inefável do indivíduo
Mas a dança
Arte do solipsismo
Agora expõe o desejo carnal
Que do incomunicável mortal faz perene
Ao reproduzi-lo em sua prole
E a sociedade assim perpetua-se
Pela força do amor
3. PARA JORGE LUIS BORGES.
A bibliofilia poliglota
Confinada em biblioteca
De uma vida que não foi
Mas viveu intensamente
Nos livros em que assimilou toda a História
O tesouro inteiro da literatura universal
E engendrou ficção elevada ao quadrado
Alinhavada em citações de obras imaginárias
Feitas de nostalgia daquilo que não aconteceu
E superou o próprio tempo
Condensando-se no Aleph
Primeira letra do alfabeto
Letra A de amor
4. PARA FERNANDO PESSOA.
Nestes versos livres versando sobre poesia
Está a suprema veleidade metalinguística
Mas tudo vale a pena
Quando se cuida dessa pessoa
Que não se perpetuou em prole
Mas multiplicou-se na heteronímia
Com desinibir todas as potencialidades
Exaurindo todas as possibilidades
Da vida de um funcionário do comércio
Convertida em plenitude existencial
Em infinito universo inédito trancafiado em arca
Uma multidão escondida em um só
Pois à literatura cumpre precisamente isto
Deferir vida para além da vida
Histórias para além da história
Perenizar o mortal
E quão pequenos parecemos
Diante dessas pessoas
5. PARA JOSÉ SARAMAGO.
Extensas digressões sardônicas
Enveredam por sendas imprevistas
E entrecortam o enredo alegórico
Destituído do silente ponto final
Mas pleno de vírgulas rumorosas
Que mantêm vibrante a música narrativa
E a melodia poética desse fôlego criativo
Com uma novela que contorce a tradição historiográfica
Enquanto outra fustiga as Escrituras Sagradas
Para que outra ainda ressuscite personagens literárias
De sorte que o conjunto da obra
Descortina-se uma única digressão
Que colima aquilo que poderia ser e que não é
Com divisar no porvir a utopia de um novo mundo
6. PARA DAVID LYNCH.
Se a tela plana de uma pintura
Carece de profundidade
E a cena em movimento de uma película
Exibe apenas simulacro de tempo
Então o pintor natural de Málaga decompôs suas figuras em perfis
Enquanto este cineasta rompeu oniricamente
A identidade de suas personagens
Pois o roteiro cíclico de seus filmes
Ruma para o nada
Ausência de início e inexistente o fim
Em permanências movediças e princípios violados
Rostos e corpos convolam-se em outros tantos
E assim caminha a Humanidade que sonha
Nesse surrealismo cubista
7. PARA EDWARD HOPPER.
Cenas banais e comezinhas
De realismo pictórico insidioso e enganador
Engendram estranho desconforto
Com paisagens urbanas desérticas
Em ambientes fantasmagoricamente desabitados
Como uma cidade devastada por hecatombe
Que aniquilara os habitantes
Mas poupara os edifícios
Onde agora medram espectros e quimeras
Que aterrorizam o espectador
Pelo insuportável solipsismo
Das personagens que remanesceram
Teratologicamente confinadas
Em sua assombrada incomunicabilidade
8. PARA ALBERTO GIACOMETTI.
Criação humana
A linha reta
Fruto do pensamento abstrato
Dos antigos geômetras do universo plano
Desforra-se de seu criador
Que ora se exibe em sua humanidade
Precisamente como linha reta
Abstrata
Desenhada no papel
E os traços rabiscados pelo artista
Nos seus desenhos de figuras humanas
Auferem autonomia para suplantar o suporte plano
Cada linha traçada convolando-se em indivíduo
Pleno em sua essência
Como uma linha reta tridimensional
O homem agora é um rabisco
Em sua vida por um fio
por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.
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