quinta-feira, 9 de julho de 2015

Conjuntura:

Dilma e golpe




Por: Guilherme Boulos 

Publicado em :http://www1.folha.uol.com.br/colunas/guilhermeboulos/2015/07/1653510-dilma-e-o-golpe.shtml




A convenção do PSDB no último domingo selou a guinada lacerdista do partido de Franco Montoro e Mario Covas. Com discursos recheados de meias palavras, os tucanos deixaram claro o que ainda não podem dizer abertamente: o apoio à interrupção do mandato de Dilma e sua prontidão para ocupar o posto.

Coube a Aécio Neves, em entrevista a uma rádio gaúcha, expressar a meia palavra num ato falho. "A convenção me reelegeu presidente da República", disse o presidente reeleito do PSDB. Os atos falhos, mostrou Freud, são sempre reveladores. Neste caso, revelou aquilo que o também psicanalista Christian Dunker chamou de uma "falta de luto" de Aécio em relação à derrota eleitoral de 2014. E uma sobra de despudor.

O despudor, aliás, é o que melhor define o tom das articulações entre líderes do PSDB e do PMDB sobre as "saídas políticas". Cassação via TSE? Impeachment a partir do TCU? Parlamentarismo com Cunha? Temer ou novas eleições? Tudo isso abertamente nos jornais e, ao que parece, em conexão com ministros de tribunais superiores, numa perigosa escalada de judicialização da política.

Numa palavra, o nome destas articulações é golpismo. Primeiro se constroem as saídas, depois buscam-se os argumentos que podem legitimá-las. Nenhum golpe se deu sem argumentos e muitos deles pretenderam-se constitucionais. Não deixaram de ser golpes por isso.

O tom da convenção tucana forçou Dilma a reagir numa entrevista dizendo que não irá cair. Para logo na sequência anunciar que serão tomadas novas medidas de ampliação do ajuste fiscal. Melhor teria sido o silêncio.

As reações de Dilma ao fogo cerrado contra seu governo parecem um caso grave da síndrome de Estocolmo. Quanto mais a direita a ataca, mais a presidenta a afaga. Repete o mesmo erro de outubro. Ao ser eleita, Dilma deu todos os sinais à direita acreditando que, com isso, garantiria governabilidade. Deu no que deu. Agora, mais enfraquecida, repete o mesmo gesto, esperando resultados diferentes.

É claro que há um cálculo. Dilma e sua equipe sabem que nenhum golpe prospera sem apoio da elite econômica. Em particular do mercado financeiro. E este não tem razão alguma para queixas do governo Dilma até aqui. Aprofundar o ajuste antipopular poderia ser uma forma de garantir a governabilidade com a banca.

Mas este cálculo parece subestimar os efeitos da perda de governabilidade nas ruas. O governo tem hoje 9% de aprovação. O ajuste fiscal é um dos grandes responsáveis por isso e tudo indica que as consequências mais duras ainda estão por vir. Um governo tão impopular é um governo fraco.

E a banca não costuma se destacar pela lealdade. Se o governo não tiver força para aprovar as políticas de seu interesse –ainda que demonstre disposição para isso– será atirado aos cães sem qualquer remorso. A cada recuo, Dilma vai tornando-se em refém desta possibilidade, que seria a mais indigna: ser derrubada não por contrariar os grandes interesses econômicos, mas por não ter condições de defendê-los.

O cenário é complexo. Aos movimentos sociais, cabe ter a firmeza de fazer o enfrentamento em duas trincheiras. De um lado, combater o golpismo sem tréguas, sabendo que –se prosperar– dará expressão a uma ofensiva reacionária de longo alcance. De outro, combater as políticas antipopulares deste governo, que se mostra incapaz de construir uma agenda que seja defensável.

Movimentos golpistas marcaram um ato para 16 de agosto. Importantes movimentos populares, sindicais e estudantis já começaram a se articular para construir uma grande mobilização em 20 de agosto.

Neste cenário de polarização e incerteza, o que é seguro é que a política transbordará cada vez mais para as ruas.
Análise:

Os limites e esperanças dos partidos-movimento


Por Emmanuel Wallerstein | Tradução de Gabriela Leite
Publicado em: http://outraspalavras.net/capa/wallerstein-limites-e-esperancas-dos-partidos-movimentos/





Em países com eleições disputadas, há normalmente dois partidos principais, que se situam em algum lugar mais ou menos no centro das visões dos eleitores deste país. Nos últimos anos, houve um número relativamente grande de eleições nas quais um movimento de protesto ou ganhou as eleições ou, pelo menos, elegeu representantes em número suficiente para que seu apoio seja necessário, afim de que o partido principal governe.

O último exemplo deu-se na província de Alberta, no Canadá, onde o Partido Nacional Democrático (NDP, em inglês), concorrendo com uma plataforma próxima à esquerda radical, tirou do poder, de forma inesperada, os Conservadores Progressistas, um partido de direita que governava sem dificuldade havia bastante tempo. O que fez desse acontecimento ainda mais surpreendente foi que Alberta tem a reputação de ser a província mais conservadora no Canadá, e é a base do primeiro-ministro do país, Stephen Harper, no posto desde 2006. O NPD ganhou, inclusive, 14 das 25 cadeiras em Calgary, residência e reduto de Harper.

Alberta não é o único caso. O Partido Nacional Escocês (SNP, em inglês) varreu as eleições na Escócia, mesmo com o histórico de ser um partido marginal. O partido de ultra direita polonês, Partido da Lei e Justiça derrotou o candidato que era  considerado conservador pró-negócios, a Plataforma Cívica. O Syriza, na Grécia, que fez campanha em uma plataforma anti-“austeridade”, está agora no poder, e seu primeiro-ministro, Alexei Tsipras, luta para alcançar seus objetivos. Na Espanha, o Podemos, outro partido anti-“austeridade”, está crescendo firmemente nas pesquisas e parece pronto para dificultar ou impossibilitar a permanência no poder do partido conservador, o Partido Popular. A Índia está, agora mesmo, celebrando um ano no poder de Narendra Modi, que concorreu em uma plataforma que expulsou partidos estabelecidos e dinastias do poder.

Estas eleições-protestos têm sempre algo em comum. Em todas as campanhas, os partidos que surpreenderam utilizaram uma retórica que chamamos de populista. Quer dizer, afirmaram que estavam lutando contra as elites do país, que têm muito poder e ignoram as necessidades da vasta maioria da população. Enfatizaram os abismos de riqueza e bem estar entre as elites e o povo. Deploraram o declínio do ganho real dos estratos médios da população. Reafirmaram a necessidade de criar empregos, principalmente em lugares nos quais há um grande crescimento no desemprego.

Além disso, estes movimentos de protesto sempre apontam para a corrupção dos partidos no poder, e prometem acabar com ela, ou pelo menos reduzi-la drasticamente. Com todos esses argumentos, eles reivindicam mudança, mudança real.
Porém, devemos olhar mais de perto para esses protestos. Não são, de maneira alguma, todos iguais. Existe um racha fundamental entre eles, que conseguimos perceber tão logo nos debruçamos sobre sua retórica. Alguns desses movimentos de protestos estão à esquerda — o Syriza, na Grécia; o Podemos, na Espanha; o SNP, na Escócia; o NDP, em Alberta. E alguns estão claramente à direita — o Modi, na Índia, o Partido Lei e Justiça, na Polônia.

Esses à esquerda focam suas críticas centralmente sobre questões econômicas. Sua retórica e mobilização baseiam-se no sistema de classes. Os que estão à direita fazem principalmente afirmações nacionalistas, normalmente com ênfase xenófoba. Na esquerda, querem combater o desemprego gerado por políticas do governo — incluindo, claro, maior taxação das grandes riquezas. Os à direita querem combater o desemprego prevenindo a imigração, inclusive deportando imigrantes.

Quando chegam ao poder, estes movimentos de protesto, tanto à esquerda quanto à direita, descobrem ser muito difícil cumprir as promessas populistas que fizeram para se eleger. Grandes corporações têm os instrumentos principais para limitar as medidas tomadas contra si. Agem através dessa entidade mítica chamada “mercado”, com auxílio e cumplicidade de outros governos e instituições internacionais. Os movimentos de protesto descobriram que, se pressionarem muito, a receita do governo será reduzida, pelo menos a curto prazo. Mas para aqueles que votaram por eles, o curto prazo é a medida para continuar aprovando-os. O dia de glória e poder dos movimentos de protesto corre o risco de ser bem limitado. Então, eles “fazem compromissos”, o que irrita o mais militante de seus apoiadores.

Deve-se sempre lembrar que os apoiadores de uma mudança no governo são muito heterogêneos. Alguns são militantes que lutam por ampla mudança no sistema mundial e no papel que seus países nele desempenham. Outros estão meramente cansados dos partidos tradicionais, que se tornaram repetitivos e pouco sensíveis. Alguns apoiam por achar que é impossível ser tão ruim quanto quem está no governo. Em resumo, estes partidos-movimentos não são um exército organizado, mas uma aliança instável e flutuante de muitos e diferentes grupos.

Há três conclusões que podemos rascunhar, a partir dessa situação. A primeira é que governos nacionais não têm poder ilimitado para fazer o que querem. Eles são extremamente constrangidos pelo funcionamento do sistema mundial como um todo.
A segunda conclusão é que, no entanto, pode-se fazer alguma coisa para aliviar o sofrimento das pessoas comuns. É possível fazê-lo precisamente ao perseguir realocações de renda via tributação e outros mecanismos. Algumas medidas irão “minimizar a dor” de seus beneficiários. Os resultados podem ser apenas temporários. Mas, mais uma vez, quero lembrá-los que todos vivemos no curto prazo e qualquer melhora que possamos conseguir neste tempo é uma vantagem, não uma desvantagem.
A terceira conclusão é que, se um desses partidos-movimentos chegar a ser um participante sério na mudança do sistema mundial, ele não deve se limitar ao populismo de curto prazo, e sim engajar-se numa ação de médio prazo para influir na luta global, nesse período de crise sistêmica e transição para um sistema mundial alternativo — algo que já começou e está em curso.

Apenas quando partidos-movimento de esquerda aprenderem como combinar medidas de curto prazo para “minimizar a dor” com esforços de médio prazo para influir na luta bifurcada por um novo sistema, poderemos ter alguma esperança de chegar à saída que desejamos — um sistema mundial relativamente democrático e igualitário.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Análise:

Liberismo, libertários, liberais

"aguardamos até hoje um instrumento mais adequado para implementar programas políticos do que os partidos no comando das máquinas públicas."





O que pode haver em comum entre o terrorista estadunidense Timothy MacVeigh, o grupo republicano Tea Party nos EUA, o divulgador do software livre Eric Raymond, o líder anarquista Mikhail Bakunin, o grupo de hackers Anonymus e o darwinista social Herbert Spencer? O fato de que todos, em épocas e com motivações distintas, acusarem o Estado e a centralização das grandes corporações como os maiores inimigos dos indivíduos. Não se trata apenas de defender as garantias individuais em uma sociedade moderna: todos estes personagens e instituições estavam (e estão) convencidos do caráter maligno da centralização da vida moderna em instituições, tipificada tanto no Estado quanto nas corporações.
E alguns deles, como o MacVeigh, Bakunin, o grupo Anonymus e o programador Raymond não tinham (e não tem) dúvidas sobre o papel que cabe aos indivíduos na garantia de seus direitos inalienáveis, por meio da ação direta. A ideia básica é: não espere que outros façam o que deve ser feito tão somente por você, único interessado em seus próprios interesses - o texto de Raymond, A Catedral e o Bazar, é hoje um clássico desta premissa, aplicada ao mundo da informática. Os outros (Estado, grandes empresas e grandes instituições - como partidos e sindicatos) farão de tudo para mantê-lo sob um rígido cabresto, de modo a garantir a passividade necessária para manter o status quo.
Os argumentos tendem a ser muito tentadores: quem haveria de ser contra o monopólio, por exemplo, das grandes corporações de informática, que impõem produtos e processos cobertos por uma forte proteção de propriedade intelectual? Tanto os difusores do software livre quanto os hackers militam nessa trincheira, em que muitos progressistas estão inclinados a engrossar o coro - inclusive este escriba. Quem, conhecendo as estruturas burocratizadas dos partidos políticos e dos sindicatos, não seria contra ao centralismo antidemocrático de instituições que, em princípio, deveriam ser exatamente o seu oposto?
Ocorre que grassa no seio da esquerda, desde a Grande Revolução de 1789, um debate acerca dos papéis das lideranças e dos militantes nestas organizações, bem como a própria inserção do indivíduo na sociedade moderna. O debate é extenso e esse opúsculo não pretende tratá-los, apenas nominar alguns: os debates entre os pais fundadores estadunidenses representados na coletânea de textos conhecida como "O Federalista" (interesse individual x interesse coletivo); a disputa entre marxistas e bakuninistas no seio da Associação Internacional dos Trabalhadores (organização x ação direta); o conflito entre autonomistas e bolcheviques após a Revolução de 1917 na Rússia (conselhos x centralismo democrático); o conflito de anarquistas e trotskistas contra as forças soviéticas na Guerra Civil Espanhola (exército popular x exército profissional). Em todas essas disputas, emergia o dilema que acompanha até hoje as forças identificadas com a esquerda: até onde vai a autonomia individual e onde deve cessar a centralização das lideranças?
Convêm lembrar que esse dilema faz pouco eco do outro lado da trincheira: mesmo contra a intervenção de instituições estatais, os liberais sempre aceitaram a premissa da premiação daqueles considerados mais capacitados e a penalização dos incompetentes (vide os argumentos spencerianos, ressuscitados nos ataques conservadores atuais contra programas sociais como o Bolsa Família). Mas curiosamente, sempre foi um tabu na esquerda. Por quê?
Antes de mais nada, porque aquilo que chamamos de esquerda é irmão siamês da direita, ou seja, nasceram juntos com o advento da sociedade moderna. Um dos pilares do Renascimento e do Iluminismo é a importância atribuída ao indivíduo. Foi somente na modernidade que se passou a valorizar os diretos "inalienáveis" das pessoas, sem a interferência da tradição, da família e da religião. Sociedades que conseguiram absorver o ideário liberal forjaram cidadãos conscientes de serem portadores de direitos. Isso explica porque, em determinadas conjunturas do século XIX e durante a 2ª Guerra Mundial, esquerda e direita se uniram contra inimigos comuns (a reação medievalista, o fascismo etc).
Mas ambas possuem seus "pré-conceitos", que os faz entrar permanentemente em confronto: a direita sente ojeriza por qualquer força que induza ao igualitarismo; a esquerda vê com desconfiança as tentativas de garantir a liberdade entre desiguais. Norberto Bobbio diz, inclusive, que é aí que reside a diferença fundamental entre ambos. Ocorre que tanto o capitalismo precisa de mecanismos mínimos de equalização para garimpar talentos em qualquer classe social como o projeto socialista precisa garantir a existência de mecanismos para a liberdade individual.
Nesse sentido, a tradição política italiana foi muito feliz em instituir em seu idioma a distinção entre "liberalismo" e "liberismo": o primeiro associado às garantias individuais e o segundo relacionado à liberdade irrestrita do mercado. Ocorre que esta distinção, utilíssima para esse debate, acaba sempre borrada nos enfrentamentos concretos entre as forças políticas. Desse modo, reivindicações autênticas no campo da esquerda podem confundir liberdade com imposição, e organização com subtração dos direitos das minorias.
Na opinião deste escriba é aí que surge o dilema, sempre renovado, do papel do individuo e do coletivo na tradição de esquerda. Se a experiência soviética já comprovou as mazelas do centralismo, urge a necessidade de confrontar o outro tabu da esquerda - a liberdade. Se, na qualidade de indivíduo, não consigo negociar meus interesses, tenho o direito de fazê-los valer de qualquer maneira? Não caímos aí no aporismo hobbesiano do "todo contra todos"? As perguntas são pertinentes, porque as personagens e instituições supracitados responderiam positivamente à primeira pergunta e daria de ombros para a segunda.
É irônico que a sociedade estadunidense seja a melhor expressão de ambas as tendências: extremamente centralizadora, com o Estado militar mais poderoso do mundo, foi engendrada por meio do discurso descentralizador puritano do small is beautiful, daí o surgimento de tempos em tempos de grupos de extrema-direita com um discurso... libertário! Mas, se para os norte-americanos o pior problema é o surgimento de um veterano de guerra explodindo prédios (sem abalar o status quo), para a esquerda o enfrentamento desse dilema põe em jogo não só a tática da ação imediata, mas o horizonte societário que se procura atingir. Afinal, o descolamento entre direção e base em todos os partidos de esquerda hoje são evidentes por si só, contudo aguardamos até hoje um instrumento mais adequado para implementar programas políticos do que os partidos no comando das máquinas públicas.

Agnaldo dos Santos
Análise:


OS PLEBISCITÁRIOS GREGOS CONTRA A AUSTERIDADE, OU OS TRABALHADORES HELENOS CONTRA O CAPITAL.

 telesurtv.net


No último domingo, os trabalhadores gregos derrotaram politicamente o capital na clamorosa vitória plebiscitária do “não” às medidas de austeridade impostas pelos credores da nação helênica.

Sim, cuida-se exatamente de uma vitória política direta dos trabalhadores contra o capital, porquanto as medidas de austeridade econômica assim derrotadas representam apenas e tão somente uma tentativa de manter em níveis aceitáveis, para os capitalistas, as taxas de lucro.

Ora, austeridade, nesse caso, significa diminuição de salários, aposentadorias e tributos, em suma, diminuição do padrão de vida dos trabalhadores, com declínio de seus ganhos diretos ou por intermédio dos investimentos sociais do Estado em saúde, educação, mobilidade urbana, previdência, lazer etc., em nome da preservação do padrão de vida dos patrões capitalistas.

Isso tudo, meus caros leitores, mais uma vez demonstra que Karl Marx estava coberto de razão ao propor, cento e cinquenta anos atrás, a lei da queda tendencial das taxas de lucro do capital, pois a austeridade nada mais é do que um conjunto de dispositivos econômicos para arrostar tal lei de ferro do capitalismo.

Por Luis Fernando Franco Martins Ferreira.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Conjuntura:


Nunca houve crise para a Elite no Brasil: é preciso distribuir a riqueza






Mercedes-Benz tem 1º semestre recorde em vendas de leves
A Mercedes-Benz emplacou um total de 7.513 automóveis no mercado brasileiro durante o primeiro semestre, volume recorde para o período, representando aumento de 50,7% na comparação com igual período do ano passado, quando a marca vendeu 4.985 unidades. Este volume de vendas conferiu à montadora participação de 33% no segmento de veículos premium no País.





O Brasil é um dos países com maior concentração de renda do Planeta. Prova disso é que, entra crise, sai crise e a elite de base escravocrata continua a ostentar sua riqueza. É claro que uma análise sobre os fetiches da mercadoria requeriria mais espaço, tempo e reflexão. Numa sociedade marcada pelo consumo as mercadorias mais caras aparecem como sinais de sucesso e daí para frente...

Enfim, sobre o plano da política e da realização de programas progressistas, a questão da concentração da riqueza em nosso país deve estar na linha de frente do enfrentamento ideológico com a Elite e seus sabujos midiáticos. Uma única palavra de ordem que, se inteligentemente trabalhada, consegue aglutinar o povo. São as ideias simples que no fundo contêm os maiores poderes.

Carlos Cesar Felix

segunda-feira, 6 de julho de 2015

História:

Publicado em: O Estado de São Paulo, 04 de julho de 2015.


Há 91 anos, o governador se exilava na Penha, o presidente bombardeava civis, que, famintos, comiam pombos e ratos

Em um 5 de julho como hoje, numa madrugada enevoada de inverno paulistano, 91 anos atrás, a cidade começava a viver uma história que a conduziria a uma das maiores batalhas travadas em solo urbano da América Latina: a Revolta Tenentista de 1924. O saldo desse episódio seria sangrento: 503 mortos, 4.864 feridos (dois terços eram civis), quase 2.000 prédios destruídos, o êxodo de cerca de 300 mil moradores da capital, que contava então 700 mil habitantes e alguns vestígios de destruição que podem ser vistos ainda hoje.
No início, foi uma surpresa. Ninguém entendeu nada quando tropas rebeldes do Exército, aliadas com a Força Pública Estadual (atual Polícia Militar), um verdadeiro exército regional na época, com artilharia e aviação, começaram a atacar alvos civis. E entendeu-se menos ainda quando uma bomba caiu no Mosteiro de São Bento exatamente no momento em que se celebrava uma missa em homenagem aos revolucionários de 1922. Houve pânico, correria. Então, outro morteiro, agora lançado da torre da Estação da Luz, tombou sobre o Liceu Coração de Jesus, deixando um aluno ferido. Alvo errado, porque a bomba se destinava ao Palácio de Campos Elísios, logo ali na frente, na Avenida Rio Branco, residência oficial do presidente do Estado (como se chamavam os governadores na época) Carlos de Campos. E esse foi só o primeiro dia.
Destruição do Cotonifício Crespi, na Mooca
Destruição do Cotonifício Crespi, na Mooca

Foi na manhã seguinte que a população soube com mais clareza que os atacantes eram tenentes do Exército sob a liderança dos irmãos Távora (Joaquim e Juarez), Eduardo Gomes, Custódio de Melo e outros. Todos haviam participado do levante dos 18 do Forte de Copacabana ocorrido dois anos antes no Rio contra o então presidente da República Arthur Bernardes. Vencidos na capital federal, os tenentes rebeldes vieram se esconder em São Paulo, onde passaram a viver camuflados sob nomes falsos. Para retomar a tentativa de deposição de Bernardes, aqui encontraram como aliado o major fiscal da Força Pública, Miguel Costa.
Aos poucos, os rebeldes foram tomando pontos estratégicos da cidade, como os quartéis da Luz, as estações da Luz e Sorocabana e os Correios, enquanto atacavam a casa do governador. A cidade literalmente parou. Os poucos bondes que circulavam traziam exemplares minguados de jornais como o Estado, Correio Paulistano e Fanfulla (da comunidade italiana) com pedidos desesperados de informações sobre pessoas desaparecidas.
Depois da paralisia veio a acefalia. O presidente Carlos de Campos, há apenas dois meses no cargo, saiu dos Campos Elísios depois que rebeldes, posicionados nos altos do Araçá, acertaram o alvo e bombardearam o Palácio. Campos, primeiro, foi para a Secretaria de Justiça, no atual Páteo do Colégio, e, quando esta também foi atacada com tiros de canhão, refugiou-se em Guaiaúna, na época uma aprazível vila cercada de montanhas ao lado do atual bairro da Penha, na Zona Leste. Uma enorme ironia da história: enquanto o “governador” fugia, no dia 9 de julho, data cara para a história paulista, um emissário de Miguel Costa o procurava para entregar uma carta, propondo a rendição dos rebeldes, em troca de anistia. Quando chegou ao palácio e o encontrou desabitado, o soldado comunicou o fato a Costa, que mandou o tenente João Cabanas ocupá-lo imediatamente – no popular “foi pra roça perdeu a carroça”.
O plano dos tenentes, que não se concluiu, era tomar a cidade rapidamente e embarcar uma tropa de soldados do Exército e da Força Pública para o Rio, onde derrubariam Bernardes. No entanto, acabaram ficando isolados e cercados em São Paulo. De seu refúgio na Penha, então um importante entroncamento ferroviário, Campos, com apoio do ministro da Guerra, Setembrino de Carvalho, conseguiu reunir 18 mil homens, canhões com alcance de 11 quilômetros e tanques franceses (uma arma jamais usada no Brasil) e aviões bombardeiros Breguet. Esse poderoso arsenal entrou em ação apenas seis dias após o início da revolta. Naquela semana, tropas da Marinha conseguiram destruir o QG rebelde instalado onde hoje fica o quartel da Rota, na avenida Tiradentes. Atiravam usando como referência e mira para os canhões a chaminé da antiga usina eletricidade da Rua João Teodoro, que ainda guarda marcas de estilhaços. Palco de combates renhidos, a Igreja da Glória, no Cambuci, também preserva uma marca daqueles tempos. O anjo sobre a porta principal perdeu parte do braço nos combates – e assim permanece. A Igreja da Glória, com seu jeitão de castelo fortificado, era estratégica: ficava em posição privilegiada numa elevação do terreno. Foi defendida por imigrantes húngaros e até ganhou um poema de Menotti Del Picchia, que diz assim: “Também nós temos – ó paulistas – nossa martirizada igreja, a nossa heroica e santa catedral de Rheims. Ela se alteia carbonizada, roída pelas balas de carabinas, mordida pelos estilhaços das granadas, furadas pelos obuses, no alto de uma colina, dominando a Mooca longínqua e o fagulheiro do Brás. Está de pé ainda. Parece um soldado baleado, morto no seu posto.”
O governo federal, com a cumplicidade do estadual, usava, para combater a revolta, o método de ataque conhecido como “bombardeio terrificante”, em que os tiros são disparados a esmo, sem destino certo, para fazer a população se revoltar contra os ocupantes. Esse mesmo método havia sido usado pelos alemães contra os franceses e belgas na I Guerra e condenado pelo mundo civilizado. Aqui, o Estado o utilizou contra seus próprios cidadãos. Resultado óbvio: dois terços dos mortos e feridos eram civis, sem relação com a revolta.
Postados no pátio da Igreja da Penha e nas colinas da Vila Matilde, locais de topografia alta em uma cidade que ainda não tinha edifícios, os canhões atiravam impiedosamente. Miravam, principalmente, fábricas, como o Cotonifício Crespi, na Mooca (hoje um hipermercado), a Duchen e a Antarctica, mas também residências. Por isso, as maiores vítimas não eram os militares rebeldes, mas os civis, que viviam nos cortiços da região do Tamanduateí, na Várzea do Carmo (atual Parque D. Pedro II), uma área alagada de terrenos baratos, onde haviam se instalado imigrantes italianos e espanhóis, operários das numerosas fábricas da região.
Eram os “carcamanos”, como os chamavam os paulistas antigos. Entre as vítimas estavam, por exemplo, os De Giani, italianos do Bom Retiro. Quando dois filhos do casal morreram sob impacto das bombas, a mãe, traumatizada, não conseguiu mais amamentar os dois caçulas gêmeos, que morreram de inanição. Um terceiro filho sobreviveu, mas perdeu o pé. Ficou infame também o “massacre do Theatro Olympia”, localizado na atual Avenida Rangel Pestana, e usado como abrigo por moradores do Brás, Mooca e Belenzinho expulsos de suas casas pelos combates. Uma bomba do exército legal destruiu o lugar, matando 30 pessoas.
Com a intensificação dos ataques, a fome começou a assombrar as casas dos paulistanos. Nas regiões proletárias, muitos sobreviviam escondidos em porões, comendo pombos, ratos e o que aparecesse. E não demoraram a surgir os saques por parte da população faminta. Foram saqueados, em alguns casos com apoio dos rebeldes, o Mercado Municipal da Rua 25 de Março, os armazéns Puglisi e Gamba, na Mooca, e os Armazéns Matarazzo, no Largo do Arouche. No Brás, espanhóis esfomeados carnearam, ainda vivos, bois de uma manada desgarrada que passou por lá. Segundo uma testemunha, “os gritos dos bois pareciam gritos humanos”.
À certa altura, uma comissão composta pelo prefeito Firmiano Pinto, que os rebeldes permitiram continuar no cargo, o presidente da Associação Comercial, José Carlos de Macedo Soares, o arcebispo metropolitano D. Duarte Leopoldo e Silva, os diretores do Estado, Julio Mesquita, e da Liga Nacionalista, Frederico Steidel, tentou negociar com o governo, pedindo a “intervenção caridosa” do presidente Arthur Bernardes para cessar o bombardeio, sob risco de que a cidade fosse riscada do mapa. Não adiantou.
Enterrar os mortos era uma impossibilidade. Por absoluta falta de condições de se deslocar até os cemitérios do Araçá e da Consolação, os mais importantes da época, muita gente foi inumada em quintais e praças. A fuga desesperada da cidade foi uma opção só até as passagens serem fechadas. Os que puderam debandaram em automóveis, bicicletas, trens de carga, a pé e até em carros funerários. Somente Campinas abrigou 50 mil fugitivos da capital. 
Em 26 de julho, aviões governamentais jogaram panfletos que convidavam a população a abandonar a cidade, largando os rebeldes à própria sorte, já que seria executado um bombardeio ainda mais drástico. No mesmo dia, o general rebelde Isidoro Dias Lopes publicou nos jornais um texto em que assegurava que não seria “o coveiro de São Paulo.” No dia 28, os revoltosos embarcaram em 11 trens de carga com 3,5 mil homens, artilharia, comida, cavalos e gêneros alimentícios em direção a Bauru. Na mesma data, Carlos de Campos retomou o Palácio dos Campos Elísios. Estava encerrada a Revolução Tenentista de 1924.
Aos rebeldes coube ainda um lugar a mais na história. Refugiados no Paraná, juntaram-se a tropas vindas do Sul e formaram a famosa Coluna Prestes, que percorreria 25 mil quilômetros pelo Brasil enfrentando forças federais. À cidade, além dos vestígios na Luz e no Cambuci, restaram lembranças como a carta que Francisca Spinelli, moradora sitiada no Brás, enviou a sua amiga Leopoldina Ferreira, de Piracicaba: “Durante todo a noite e o dia de hoje têm se dado bombardeios horríveis! As balas passam sobre nossas cabeças, assobiando terrivelmente. Espera-se a todo momento ser-se vítimas dessas monstruosas granadas. O bairro atingido agora pelas forças do governo é esse. Já morreram diversas pessoas aqui na rua, e aqui ficam, sem o auxílio de ninguém. As granadas caem, impiedosas, por estas redondezas. Temos nos escondido no porão. Fugir não posso. Além das ruas estarem intransitáveis, eu não tenho para onde ir. Imagina que 10 mil homens do governo cercaram a cidade e despejam sobre ela tiros e mais tiros de canhão”. 
MOACIR ASSUNÇÃO É JORNALISTA, HISTORIADOR E PROFESSOR DA UNIVERSIDADE SÃO JUDAS TADEU. ESTE MÊS LANÇA SÃO PAULO DEVE SER DESTRUÍDA – A HISTÓRIA DO BOMBARDEIO À CAPITAL NA REVOLTA DE 1924 (RECORD)
Conjuntura:

Lições sobre o plebiscito grego


1) UM GOVERNO ELEITO COM UMA PLATAFORMA PROGRESSISTA NÃO DEVE ABANDONAR SEU FRONT. ELES SEMPRE FARÃO PRESSÃO






A estrondosa vitória do povo grego frente ao Capital Financeiro Internacional, representada na votação pelo NÃO à Troika no último Domingo (06/07), mostra que a conjugação das forças econômicas, suas vozes propagandistas (mídia corporativa) e um pseudo cientificismo - representado pelos institutos de pesquisa, não é de forma alguma uma hegemonia de controle social do Capital sobre o Trabalho. 

Três dias antes do plebiscito a impressa internacional mostrava ao mundo uma "Grécia dividida". Ideologia prontamente desmascarada pela votação. E o que se viu foi uma clara vitória da esperança contra o medo e o terror. Um terror que, mundo a fora, usa a máquina de propaganda da mídia corporativa, integrada e integrante, do seleto grupo do capital privado de grande montante. Tanto é assim que podíamos ler o seguinte, três dias antes da votação grega:

"a campanha pelo sim promovida pelos principais canais privados de televisão, peças de uma inextrincável(sic) rede de interesses econômicos e políticos. Esse comportamento da imprensa privada “pode fazer oscilar um resultado inicialmente favorável ao [partido governista] Syriza, que mantém intacta boa parte do apoio que lhe deu a vitória eleitoral em janeiro”, diz Sotiris Yassos, especialista em pesquisas de opinião." (http://brasil.elpais.com/brasil/2015/07/03/internacional/1435911091_629223.html).


Carlos Cesar Felix