sábado, 7 de fevereiro de 2026

BIRD (para meu tio Valter Franco de Souza e Silva, grande entusiasta do jazz, in memoriam)

Charlie "Bird" Parker, um dos maiores músicos de todos os tempos, inventou o jazz moderno ao inaugurar o estilo denominado "bebop", juntamente com Dizzie Gillespie. 

Cuida-se, grosso modo, de tomar um tema melódico inicial e, através de variações e digressões improvisadas, no contexto do esqueleto harmônico de tal tema, contorcê-lo até que fique irreconhecível, sempre com assombroso virtuosismo instrumental.

Tal improviso confere ao bebop certa "aura", na acepção veiculada por Walter Benjamin, na medida em que, de certa forma, se não for fonograficamente registrado, ele não se exibe reprodutível, remanescendo como peça artística de jaez antediluviano e artesanal. 

Ademais, o desenvolvimento harmônico e melódico do bebop reproduz, em linhas gerais, a liberdade do proletariado na história, isto é, uma liberdade "vigiada", eis que as digressões e improvisos confinam-se, até certo ponto, no esquema harmônico inicial, da mesma forma como o proletário pode vender "livremente", ou não, sua força de trabalho, mas se não trabalhar, pode morrer de fome. 

Cuida-se de um caso típico em que a cultura musical popular, de origem escrava ou proletária, resta ulteriormente, por assim dizer, subsumida na cultura erudita das elites. 





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.

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