TRANSPORTE ÓTIMO, INSUMO-PRODUTO E PLANIFICAÇÃO DESCENTRALIZADA
Esboço de um modelo unificado sob a tendência ao valor nulo das mercadorias
Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira
1. Introdução
A planificação econômica, considerada em seu conteúdo material, consiste na distribuição racional do trabalho social entre as necessidades humanas. Sob o regime da produção mercantil, essa distribuição ocorre por meio da forma-valor, cuja expressão fenomênica são os preços. Contudo, o desenvolvimento das forças produtivas, especialmente sob a automação crescente e a revolução informacional, introduz uma tendência histórica à redução do tempo de trabalho incorporado a cada unidade de produto.
Essa tendência, já apontada por Marx nos Grundrisse, implica que o valor individual das mercadorias tende a aproximar-se de zero. O trabalho direto deixa de ser o elemento dominante da produção, sendo progressivamente substituído por sistemas automáticos, conhecimento objetivado e processos técnico-científicos.
Nesse contexto, a planificação econômica não pode mais ser pensada como simples cálculo de valores-trabalho. O núcleo do problema desloca-se:
- do valor incorporado em cada unidade,
- para a organização dos fluxos materiais e energéticos da sociedade.
O presente texto reformula o modelo anterior sob a hipótese de que o valor unitário das mercadorias tende a zero.
2. Estrutura produtiva sob valor unitário tendencialmente nulo
Considere uma economia com n setores produtivos.
Seja:
x = (x₁, x₂, …, xₙ)
o vetor de produção total.
A matriz técnica:
A = (aᵢⱼ)
representa as relações materiais entre os setores.
A condição de reprodução material permanece:
x = Ax + y
ou:
(I − A)x = y
onde y é o vetor de consumo final social.
Essa equação continua válida independentemente do valor monetário ou do tempo de trabalho incorporado às mercadorias, pois expressa apenas relações físicas de produção.
3. A tendência ao valor nulo
Suponha agora que o valor unitário de cada mercadoria tenda a zero:
vᵢ → 0
onde vᵢ representa o tempo de trabalho social incorporado na unidade do produto.
Isso significa:
- o trabalho direto por unidade tende a zero;
- o custo marginal de produção torna-se desprezível;
- a produção aproxima-se de um regime de abundância técnica.
Nesse cenário, o problema econômico deixa de ser a economia de trabalho na produção e passa a ser a coordenação eficiente dos fluxos materiais e energéticos.
A economia deixa de ser governada pela lei do valor e passa a ser regida pela lei da coordenação técnica dos fluxos.
4. A dimensão espacial como núcleo da economia
Considere:
- m regiões produtoras;
- k regiões consumidoras.
Para cada bem i:
- sᵢᵖ: produção na região p;
- dᵢᵠ: demanda na região q.
Condição de equilíbrio material:
Σₚ sᵢᵖ = Σᵠ dᵢᵠ
Nesse quadro, a produção deixa de ser o problema central. O problema passa a ser a organização dos fluxos materiais entre regiões com o menor dispêndio social possível.
5. A circulação como problema fundamental
Define-se:
- xᵢₚᵠ: quantidade do bem i enviada de p para q;
- cᵢₚᵠ: custo social do transporte.
O problema de transporte para cada bem:
min Σₚ,ᵠ cᵢₚᵠ xᵢₚᵠ
sujeito a:
Σᵠ xᵢₚᵠ = sᵢᵖ
Σₚ xᵢₚᵠ = dᵢᵠ
6. O custo social sem valor incorporado
Como o valor unitário tende a zero, o custo social deixa de ser dominado pelo trabalho incorporado na produção.
O custo relevante passa a ser:
cᵢₚᵠ = τᵢₚᵠ
onde τᵢₚᵠ representa o tempo de trabalho, energia ou recursos necessários para transportar o bem.
O custo total da economia reduz-se essencialmente à circulação:
C = Σᵢ,ₚ,ᵠ τᵢₚᵠ xᵢₚᵠ
7. Problema global de planificação
Variáveis:
- fluxos de transporte: xᵢₚᵠ
Função objetivo:
min Σᵢ,ₚ,ᵠ τᵢₚᵠ xᵢₚᵠ
Restrições:
Σᵠ xᵢₚᵠ = sᵢᵖ
Σₚ xᵢₚᵠ = dᵢᵠ
8. Interpretação econômica
| Economia do valor | Economia de valor nulo |
|---|---|
| Núcleo: produção de valor | Núcleo: circulação de fluxos |
| Economia do trabalho | Coordenação técnica |
| Preços como sinais | Algoritmos como sinais |
| Lei do valor | Lei do fluxo ótimo |
9. O problema dual: potenciais técnicos
O problema dual gera potenciais associados às regiões produtoras e consumidoras. Esses potenciais não são preços mercantis, mas expressões de diferenças técnicas e logísticas.
São análogos a:
- diferenças de pressão em fluidos;
- diferenças de potencial elétrico;
- gradientes termodinâmicos.
A economia aproxima-se, assim, de um sistema físico de fluxos.
10. Extensão dinâmica
Introduzindo a dimensão temporal:
xᵢₚᵠ(t)
representa os fluxos ao longo do tempo.
O problema global torna-se:
min Σₜ Σᵢ,ₚ,ᵠ τᵢₚᵠ xᵢₚᵠ(t)
11. Significado teórico
Sob a tendência ao valor unitário nulo:
- a produção deixa de ser o núcleo do problema econômico;
- a circulação torna-se a esfera dominante;
- o transporte ótimo torna-se o núcleo matemático da planificação.
A economia aparece, então, como um sistema técnico de fluxos materiais e energéticos, coordenado por algoritmos de minimização de custos.
12. Conclusão
Quando o tempo de trabalho incorporado a cada unidade de produto tende a zero, a economia deixa de ser governada pela lei do valor. O problema econômico fundamental deixa de ser a produção de valor e passa a ser a coordenação eficiente dos fluxos materiais.
Nesse contexto, a teoria do transporte ótimo deixa de ser um problema auxiliar da circulação e passa a constituir o núcleo matemático da planificação econômica descentralizada.
A economia transforma-se, assim, de um sistema de equivalências monetárias em um sistema de fluxos técnicos coordenados, no qual o objetivo não é a valorização do valor, mas a minimização do dispêndio social na circulação dos bens necessários à vida humana.
O fluxo produção consumo como nucleo de um.modelo matemático de planificação socialista pode ser multidimensional, possuir variações tecnológicas e geográficas
ResponderExcluirInclino-me a concordar, camarada, mas explique melhor isso, por gentileza
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