segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

OUTRAS REFLEXÕES SOBRE ENTROPIA E ECONOMIA, por Luís Fernando Franco Martins Ferreira.

Entropia, superprodução e planificação: da dissipação capitalista ao transporte ótimo no comunismo

1. A segunda lei como princípio de irreversibilidade material

A segunda lei da termodinâmica estabelece que, em um sistema isolado, a entropia tende a aumentar. Isso significa, em termos materiais, que toda transformação energética envolve dissipação: a energia útil degrada-se em calor difuso, menos apto à realização de trabalho.

Esse princípio tem três consequências centrais:

  1. Nenhum processo real é totalmente eficiente.
  2. Toda transformação implica perda.
  3. A ordem material exige fluxo contínuo de energia.

A segunda lei, portanto, não é apenas um princípio físico, mas uma lei estrutural de processos materiais: toda transformação envolve custo e dissipação.

2. A economia capitalista como sistema entrópico

A economia capitalista, analisada pela crítica da economia política, revela uma estrutura formalmente análoga.

No capitalismo:

  • A produção não é orientada diretamente pelas necessidades.
  • Ela é mediada pela forma-valor.
  • A realização do valor depende da circulação mercantil.

Essa mediação implica:

  1. Produção sem garantia de consumo.
  2. Descompasso entre produção e demanda.
  3. Destruição periódica de riqueza.

Esse fenômeno é conhecido como crise de superprodução.

Do ponto de vista material:

trabalho social → mercadorias → destruição ou inutilização

Isso constitui uma dissipação econômica estrutural.

3. Superprodução como forma econômica da entropia

Termodinâmica Economia capitalista
Energia útil se degrada Trabalho social se desperdiça
Entropia aumenta Superprodução e crises aumentam
Processos irreversíveis Destruição de capital e mercadorias
Perda de eficiência Queda da taxa de lucro e crises

A superprodução capitalista pode ser entendida como:

uma forma socialmente determinada de dissipação entrópica do trabalho humano.

A diferença fundamental é que:

  • Na física, a dissipação é natural e inevitável.
  • No capitalismo, ela é socialmente produzida.

Ou seja, o sistema econômico introduz entropia social adicional, além da entropia física inevitável.

4. O comunismo como supressão da entropia social

No comunismo planificado:

  • Desaparece a produção para o mercado.
  • Desaparece a mediação pela forma-valor.
  • A produção é orientada diretamente pelas necessidades.

Consequentemente:

  • Não há superprodução generalizada.
  • Não há crises de realização.
  • Não há destruição periódica de mercadorias.

A dissipação econômica típica do capitalismo é suprimida.

Mas permanece:

  • A dissipação física.
  • A entropia termodinâmica.
  • O custo energético de toda transformação material.

O problema central deixa de ser:

“Como evitar a superprodução?”

e passa a ser:

“Como minimizar a dissipação material inevitável?”

5. O problema central do comunismo: eficiência material

Sem a superprodução capitalista, o desafio histórico do comunismo torna-se:

minimizar o custo material das transformações sociais

  • Reduzir desperdícios energéticos.
  • Otimizar fluxos de produção e distribuição.
  • Minimizar distâncias e custos de transporte.
  • Reduzir a energia incorporada nos bens.

6. Transporte ótimo como teoria da economia pós-capitalista

A teoria do transporte ótimo trata do seguinte problema:

Como transportar recursos de um conjunto de origens para destinos com o menor custo possível?

Formalmente, trata-se de minimizar:

$$ \int c(x,y)\, d\pi(x,y) $$

Onde:

  • $c(x,y)$ = custo de transporte entre origem $x$ e destino $y$
  • $\pi(x,y)$ = plano de transporte

No contexto econômico:

  • $x$ = centros de produção
  • $y$ = centros de consumo
  • $c(x,y)$ = custo energético ou material

O objetivo torna-se:

$$ \text{minimizar a energia total dissipada na circulação dos bens} $$

7. Planificação econômica descentralizada

Num sistema comunista tecnicamente avançado:

  1. Produtores e consumidores registram dados em tempo real.
  2. Um algoritmo global processa essas informações.
  3. A alocação de recursos é calculada por modelos de transporte ótimo.

O resultado:

  • Fluxos produtivos otimizados.
  • Redução de transporte desnecessário.
  • Minimização da energia dissipada.

A planificação deixa de ser um comando administrativo e torna-se um problema matemático de otimização global.

8. Do valor ao custo energético

No capitalismo:

$$ \text{produção orientada pelo valor} $$

No comunismo planificado:

$$ \text{produção orientada pelo custo energético mínimo} $$

A lógica do sistema passa a ser:

$$ \text{minimizar entropia social + física} $$

9. Síntese: duas formas históricas de lidar com a entropia

Sistema Forma de dissipação
Capitalismo Entropia física + superprodução social
Comunismo planificado Apenas entropia física inevitável

10. Conclusão

A segunda lei da termodinâmica revela um limite natural: toda produção envolve dissipação. O capitalismo, porém, acrescenta a esse limite uma forma social específica de desperdício: a superprodução.

O comunismo planificado não pode abolir a entropia física, mas pode eliminar a entropia social e transformar a economia em um sistema racional de alocação de energia e trabalho.

Nesse contexto, a teoria do transporte ótimo e a planificação econômica descentralizada constituem a forma matemática correspondente a uma economia emancipada da forma-valor e orientada pela minimização da dissipação material.

Nenhum comentário:

Postar um comentário