segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

GAUDÍ E NIEMEYER, por Luís Fernando Franco Martins Ferreira.

A história das ciências mostra um descompasso profundo entre o grau de maturidade teórica das diferentes áreas do conhecimento. A matemática e a física, desde a revolução científica moderna, atingiram níveis de formalização e poder explicativo que as tornaram paradigmas de cientificidade. Já a biologia e a medicina, apesar de avanços extraordinários, lidam com sistemas de complexidade muito maior, repletos de interdependências, não linearidades e propriedades emergentes.

Esse desnível epistemológico não permanece restrito ao campo teórico. Ele se projeta sobre a técnica, a produção material e, em última instância, sobre a forma das cidades e das construções humanas. A arquitetura e o urbanismo refletem, em larga medida, o tipo de racionalidade científica dominante em cada época histórica.

A matemática clássica, fundada na geometria euclidiana, construiu sistemas baseados em linhas retas, ângulos, paralelismo e proporcionalidade. A física newtoniana, por sua vez, descreveu o mundo como um conjunto de corpos em movimento num espaço absoluto, homogêneo e tridimensional. Essa visão gerou uma arquitetura de linhas retas, volumes regulares e organização ortogonal das cidades.

Em contraste, alguns arquitetos buscaram inspiração nas formas da natureza. Antoni Gaudí produziu construções baseadas em superfícies curvas, ramificações e estruturas que lembram organismos vivos, antecipando uma arquitetura de inspiração biológica.

No início do século XX, a física sofreu uma transformação radical com a teoria da relatividade geral, formulada por Albert Einstein. Segundo essa teoria, o espaço não é plano nem absoluto, mas curvo e dinâmico, deformado pela matéria e pela energia.

No campo arquitetônico, poucos autores incorporaram essa nova sensibilidade espacial de modo tão evidente quanto Oscar Niemeyer. Sua obra rejeita a rigidez ortogonal e adota a curva como princípio formal central. Niemeyer afirmava sua preferência pelas curvas, associando-as às montanhas, aos rios e ao corpo humano.

Na Catedral de Brasília, colunas curvas se erguem como mãos voltadas ao céu. No Museu de Arte Contemporânea de Niterói, o edifício parece flutuar sobre o solo. No Congresso Nacional, cúpulas e superfícies curvas contrastam com o bloco retangular central.

A obra de Niemeyer pode ser interpretada como expressão arquitetônica da passagem do espaço rígido da física newtoniana para o espaço curvo da relatividade. Assim, a arquitetura acompanha a evolução das concepções científicas do espaço.

A arquitetura ortogonal da era industrial corresponde à física clássica e à geometria euclidiana. A arquitetura orgânica de Gaudí antecipa uma racionalidade biológica ainda em formação. Já a arquitetura curva de Niemeyer expressa o imaginário espacial da relatividade.

Se a biologia e as ciências da complexidade alcançarem níveis de formalização comparáveis aos da física, talvez as cidades do futuro deixem de ser máquinas geométricas ou esculturas relativísticas e passem a funcionar como verdadeiros organismos vivos.

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