domingo, 8 de fevereiro de 2026

Planificação econômica descentralizada com valor unitário do produto tendente a zero

TRANSPORTE ÓTIMO, INSUMO-PRODUTO E PLANIFICAÇÃO DESCENTRALIZADA

Esboço de um modelo unificado sob a tendência ao valor nulo das mercadorias

Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira

1. Introdução

A planificação econômica, considerada em seu conteúdo material, consiste na distribuição racional do trabalho social entre as necessidades humanas. Sob o regime da produção mercantil, essa distribuição ocorre por meio da forma-valor, cuja expressão fenomênica são os preços. Contudo, o desenvolvimento das forças produtivas, especialmente sob a automação crescente e a revolução informacional, introduz uma tendência histórica à redução do tempo de trabalho incorporado a cada unidade de produto.

Essa tendência, já apontada por Marx nos Grundrisse, implica que o valor individual das mercadorias tende a aproximar-se de zero. O trabalho direto deixa de ser o elemento dominante da produção, sendo progressivamente substituído por sistemas automáticos, conhecimento objetivado e processos técnico-científicos.

Nesse contexto, a planificação econômica não pode mais ser pensada como simples cálculo de valores-trabalho. O núcleo do problema desloca-se:

  • do valor incorporado em cada unidade,
  • para a organização dos fluxos materiais e energéticos da sociedade.

O presente texto reformula o modelo anterior sob a hipótese de que o valor unitário das mercadorias tende a zero.

2. Estrutura produtiva sob valor unitário tendencialmente nulo

Considere uma economia com n setores produtivos.

Seja:

x = (x₁, x₂, …, xₙ)

o vetor de produção total.

A matriz técnica:

A = (aᵢⱼ)

representa as relações materiais entre os setores.

A condição de reprodução material permanece:

x = Ax + y

ou:

(I − A)x = y

onde y é o vetor de consumo final social.

Essa equação continua válida independentemente do valor monetário ou do tempo de trabalho incorporado às mercadorias, pois expressa apenas relações físicas de produção.

3. A tendência ao valor nulo

Suponha agora que o valor unitário de cada mercadoria tenda a zero:

vᵢ → 0

onde vᵢ representa o tempo de trabalho social incorporado na unidade do produto.

Isso significa:

  • o trabalho direto por unidade tende a zero;
  • o custo marginal de produção torna-se desprezível;
  • a produção aproxima-se de um regime de abundância técnica.

Nesse cenário, o problema econômico deixa de ser a economia de trabalho na produção e passa a ser a coordenação eficiente dos fluxos materiais e energéticos.

A economia deixa de ser governada pela lei do valor e passa a ser regida pela lei da coordenação técnica dos fluxos.

4. A dimensão espacial como núcleo da economia

Considere:

  • m regiões produtoras;
  • k regiões consumidoras.

Para cada bem i:

  • sᵢᵖ: produção na região p;
  • dᵢᵠ: demanda na região q.

Condição de equilíbrio material:

Σₚ sᵢᵖ = Σᵠ dᵢᵠ

Nesse quadro, a produção deixa de ser o problema central. O problema passa a ser a organização dos fluxos materiais entre regiões com o menor dispêndio social possível.

5. A circulação como problema fundamental

Define-se:

  • xᵢₚᵠ: quantidade do bem i enviada de p para q;
  • cᵢₚᵠ: custo social do transporte.

O problema de transporte para cada bem:

min Σₚ,ᵠ cᵢₚᵠ xᵢₚᵠ

sujeito a:

Σᵠ xᵢₚᵠ = sᵢᵖ

Σₚ xᵢₚᵠ = dᵢᵠ

6. O custo social sem valor incorporado

Como o valor unitário tende a zero, o custo social deixa de ser dominado pelo trabalho incorporado na produção.

O custo relevante passa a ser:

cᵢₚᵠ = τᵢₚᵠ

onde τᵢₚᵠ representa o tempo de trabalho, energia ou recursos necessários para transportar o bem.

O custo total da economia reduz-se essencialmente à circulação:

C = Σᵢ,ₚ,ᵠ τᵢₚᵠ xᵢₚᵠ

7. Problema global de planificação

Variáveis:

  • fluxos de transporte: xᵢₚᵠ

Função objetivo:

min Σᵢ,ₚ,ᵠ τᵢₚᵠ xᵢₚᵠ

Restrições:

Σᵠ xᵢₚᵠ = sᵢᵖ

Σₚ xᵢₚᵠ = dᵢᵠ

8. Interpretação econômica

Economia do valor Economia de valor nulo
Núcleo: produção de valor Núcleo: circulação de fluxos
Economia do trabalho Coordenação técnica
Preços como sinais Algoritmos como sinais
Lei do valor Lei do fluxo ótimo

9. O problema dual: potenciais técnicos

O problema dual gera potenciais associados às regiões produtoras e consumidoras. Esses potenciais não são preços mercantis, mas expressões de diferenças técnicas e logísticas.

São análogos a:

  • diferenças de pressão em fluidos;
  • diferenças de potencial elétrico;
  • gradientes termodinâmicos.

A economia aproxima-se, assim, de um sistema físico de fluxos.

10. Extensão dinâmica

Introduzindo a dimensão temporal:

xᵢₚᵠ(t)

representa os fluxos ao longo do tempo.

O problema global torna-se:

min Σₜ Σᵢ,ₚ,ᵠ τᵢₚᵠ xᵢₚᵠ(t)

11. Significado teórico

Sob a tendência ao valor unitário nulo:

  • a produção deixa de ser o núcleo do problema econômico;
  • a circulação torna-se a esfera dominante;
  • o transporte ótimo torna-se o núcleo matemático da planificação.

A economia aparece, então, como um sistema técnico de fluxos materiais e energéticos, coordenado por algoritmos de minimização de custos.

12. Conclusão

Quando o tempo de trabalho incorporado a cada unidade de produto tende a zero, a economia deixa de ser governada pela lei do valor. O problema econômico fundamental deixa de ser a produção de valor e passa a ser a coordenação eficiente dos fluxos materiais.

Nesse contexto, a teoria do transporte ótimo deixa de ser um problema auxiliar da circulação e passa a constituir o núcleo matemático da planificação econômica descentralizada.

A economia transforma-se, assim, de um sistema de equivalências monetárias em um sistema de fluxos técnicos coordenados, no qual o objetivo não é a valorização do valor, mas a minimização do dispêndio social na circulação dos bens necessários à vida humana.

2 comentários:

  1. O fluxo produção consumo como nucleo de um.modelo matemático de planificação socialista pode ser multidimensional, possuir variações tecnológicas e geográficas

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Inclino-me a concordar, camarada, mas explique melhor isso, por gentileza

      Excluir