sábado, 4 de abril de 2026

JAM SESSION

“All the things you are” é uma canção composta na década de 1930 por Jerome Kern e Oscar Hammerstein II, e foi interpretada no álbum Standards, volume 1, lançado no ano de 1983, em execução primorosa e antológica de Keith Jarrett ao piano, Gary Peacock ao contrabaixo e Jack DeJohnette na percussão, cabendo destacar que a terna melodia do tema central é devidamente apresentada no início de tal interpretação e depois desenvolvida de forma a desfigurá-la completamente, com gradativo e paulatino acréscimo de velocidade do ritmo de execução em variações melódicas cada vez mais rápidas, culminando, ao final, na reapresentação do tema central, de tal sorte que poderíamos aventar que se cuida de uma tradução mimética da vida de um indivíduo humano, em que a memória fornece a sensação de identidade, malgrado o natural envelhecimento com o curso do tempo e as decorrentes transformações materiais e anímicas do respectivo corpo, sendo certo, outrossim, que o tempo parece decorrer com cada vez maior velocidade, eis que os fragmentos de tempo passado ficam cada vez menores proporcionalmente ao tempo total vivido, parecendo lícito ventilar ainda que a retomada do tema central ao final da música mostra a própria morte do indivíduo, cuja existência, enfim, pode ser considerada como sucessão de variações do mesmo ser.

 

 

 

 

 

Por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

LUÍS E LUIZ

A impressão resultante da leitura detida daquele opúsculo era de pura vertigem, pois o tenente do Exército, de alcunha Luís, jamais imaginara que a história humana pudesse ser regida por uma lógica implacável, considerando a noção corrente, de matriz liberal, de que seria a liberdade individual de heróis notáveis a verdadeira mestra de tal disciplina, o que contrastava de forma antípoda com a exposição poderosamente sucinta e teoricamente bem encadeada de toda a trajetória da humanidade até o capitalismo, explanada por intermédio da acepção axial de lutas de classes, contida no singelo livro em seu poder naquele exato momento, intitulado Manifesto Comunista, uma obra quase tão famosa quanto as Sagradas Escrituras da tradição judaico-cristã, e que lhe pareceu liminarmente luminosa de forma resplandecente, eis que, desde o princípio do conflito bélico com o pequeno país fronteiriço, Luís percebera algo de ininteligível na conduta das tropas sob sua égide, mas agora o segredo de tal estranhamento fora revelado, já que se cuidava na verdade de condição que suplantava em muito o tão alardeado patriotismo, na medida em que se divisava e vislumbrava agora uma luta de classes no próprio âmago da corporação militar, em que os oficiais de alta patente patrocinavam os interesses materiais das elites econômicas da nação, enquanto os soldados aniquilados nas trincheiras representavam a classe trabalhadora que produzia, sem dela desfrutar, a riqueza daquele território nacional, cabendo destacar que tal compreensão cintilante da situação hodierna transfigurou por completo o estado de espírito de Luís, inoculando nas suas mais recônditas entranhas viscerais um sentimento de revolta contra a injustiça que lhe fora exibida por aquele opúsculo supracitado, e naquele instante ocorreu-lhe o subversivo pensamento de que poderia canalizar o descontentamento dos batalhões e insufla-lo contra aquele governo de títeres do imperialismo yankee, o qual conduzia a nação à tão arriscada quanto tresloucada empreitada de invadir o pobre país vizinho para destruir sua indústria nutrida pela pirataria da tecnologia norte-americana, parecendo lícito ventilar que Luís encetou tratativas efetivas com outros tenentes para colocar seu pensamento e suas ideias em prática, por mais ousado que isso pudesse se lhe antolhar.

A mil quilômetros dali, nesse mesmo território nacional e simultaneamente, mas longe das trincheiras fronteiriças com o país supostamente inimigo, Luiz, um operário fabril especializado no torno mecânico, quedava absolutamente deslumbrado e absorto nos estudos de outra obra comunista, intitulada O Capital, de cuja leitura tentaram dissuadi-lo em razão de suposta dificuldade quanto à respectiva inteligibilidade, mas o nosso proletário industrial não desistiu da prossecução de sua curiosidade extrema e levou adiante suas investigações na seara econômica, ou, mais apropriadamente falando, na orbe da crítica da economia política, consoante a denominação do autor daquele livro monumental, vindo a perceber que a indústria representava a medula espinhal da produção da riqueza de uma nação e, portanto, os trabalhadores fabris detinham em suas mãos um poder inaudito e despercebido, eis que a paralização generalizada dos expedientes operários encerraria teoricamente o condão de colapsar o país e derrubar o governo de celerados que impunham um desumano esforço de guerra à população sob seu pálio, e então Luiz passou a cogitar com afinco em maneiras de organizar aqueles proletários para encetar uma greve geral hábil a subverter o status quo amplamente desfavorável àqueles que carregavam a nação sobre os ombros.

Não se exibia trivial passar da cogitação à prática, mas o que unia, a princípio, as causas de Luís e Luiz consistia no anseio pela paz e contra toda a sangria de vidas humanas e de meios materiais provocada pela guerra, sendo certo, todavia, que os dois sujeitos sequer tinham ciência prévia da existência um do outro, mas suas práticas entrelaçaram-se de algum modo, pois a reação do governo contra a paralização geral, tanto de soldados quanto de operários, foi nada menos do que brutal, com adoção das atividades das polícias políticas em larga escala, o que, no entanto, surtiu efeito contrário, pois logrou reunir efetivamente os dois movimentos paredistas paralelos, inclusive com encontro pessoal e solene de Luís e Luiz, que estabeleceram um pacto de estratégia comum a ser adotada na derrubada dos títeres dos imperialistas do norte, cabendo destacar que, pouco tempo após o início das greves militar e civil, o governo veio realmente a entrar em colapso, pressuposta certa violência e mortes de ambos os lados da contenda, mas o fato é que os celerados no poder foram presos e substituídos por uma junta civil-militar, sob a arguta liderança de Luís e Luiz, que passou a administrar a nação e, após a celebração de acordo de paz com o país vizinho agredido, impôs nova ordem social no território sob seu comando, estatizando todas as terras aráveis e meios de produção industriais e adotando um sistema de planificação econômica computacional que se assemelhava com o projeto CYBERSYN tentado no Chile de Allende, mas com o auxílio de notáveis melhorias decorrentes da utilização da rede mundial de computadores, ou internet, parecendo lícito ventilar, no entanto, que os imperialistas yankees procuraram golpear de forma intensa a administração do tenente e do operário, e dispensaram muito dinheiro e espionagem no intuito de provocar uma guerra civil naquele novo país, mas a perfídia dos norte-americanos foi liminarmente naufragada pela densidade daquele pacto entre soldados e trabalhadores, que evitou a ingerência estrangeira na política interna com grande galhardia e mesmo airosamente.

Destarte, a vida material da população daquele país, no geral, melhorou, mas o mesmo não se pode afirmar categoricamente sobre a vida, digamos, anímica do povo, pois o homo sapiens é uma espécie biológica de extrema complexidade, e conflitos de outro jaez exsurgiram no socialismo que adquiria contornos cada vez mais bem definidos, mas aquela experiência pioneira trouxe também variegados percalços, a começar da planificação econômica por computadores, que atuava, por assim dizer, como um corpo estranho introduzido no novo tecido social e demandava um esforço concentrado gigantesco em termos de ciência e tecnologia, sem olvidar o dispêndio energético que impactava ainda o ambiente, nada obstante uma eficiência econômica geral superior quando comparada ao vetusto capitalismo.

Como diria um exímio pensador francês, cuidava-se, a rigor, de uma hipótese sendo experimentada, mas que experimento fascinante!





Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira.

terça-feira, 31 de março de 2026

ÍCARO

Os raios solares incidiam perpendicularmente sobre o templo católico de São Francisco de Assis, na cidade mineira de São João del-Rei, no sudeste brasileiro, enquanto abutres americanos, vulgarmente conhecidos naquelas plagas pela alcunha tupi de urubus, sobrevoavam aquele santuário barroco, antevisto e erigido por Aleijadinho, em circunvoluções coreografadas com seus vastos membros alados, recobertos por penagem de intensa coloração negra, simultaneamente à celebração do sacramento de batismo de uma criança masculina, mui bem nascida em berço aristocrático de linhagem que remontava genealogicamente à nobreza lusitana, a quem atribuíram o prenome de Ícaro, cujos olhos de intenso anil claro contrastavam em certa medida com os escassos cabelos cacheados de cor castanha escura, e que remanescia placidamente sereno enquanto o sacerdote lhe infligia um célere mergulho na pia batismal, na presença de pais que mal ocultavam a sensação de extremo júbilo e contentamento pela solene inserção do respectivo rebento na mais respeitável tradição religiosa romana de seu afamado clã local, dono de extensas e altamente produtivas propriedades fundiárias naquelas paragens do sul das Minas Gerais, mas o certo é que tal celebração espiritual teve continuidade mundana no charmoso e amplo solar setecentista da família, incrustado bem no centro histórico daquela tão singela quanto pitoresca aglomeração urbana, fundada sob o pálio da extração de minerais preciosos, nomeadamente num opulento coquetel festivo que foi oferecido pelos progenitores do imberbe, com o notável concurso da nata social da região, tanto eclesiástica quanto econômica e burocrática, para não deixar passar in albis o memorável evento de iniciação religiosa do legítimo herdeiro e vindouro legatário de todo aquele império de pastos e lavouras de sempre crescente lucratividade, cabendo inclusive destacar que tanto o caráter quanto o conhecimento de tal criança foram ulteriormente lapidados e moldados de forma doméstica pelos mais festejados mestres do logradouro, os quais se deslocavam até a elegante residência familiar para ensinar bons modos e também artes e ciências, com ênfase nos mistérios da matemática, eis que àquele formidável rebento tinha sido previamente destinado o ofício de engenheiro, profissão então em falta entre os membros do clã, mas o mais interessante talvez tenha sido a educação que lhe foi incutida pela frágil genitora, de relativamente delicada higidez física e moralmente hipocondríaca, a qual exagerava, de certo modo, nos ensinamentos de higiene ao garoto, que era obrigado a se banhar ao menos duas vezes por dia, bem assim lavar as respectivas mãos com frequência assombrosa, pois era mister evitar os germes microscópicos que exibiriam o condão até mesmo de devorar as dobras do cérebro humano, algo que provocava no menino o mais estruturado terror mórbido e que, por conseguinte, reforçava sua inclinação para a profilaxia sempre atuante e mesmo, digamos, ubíqua, tanto que lhe era liminarmente interditado jogar aquele desporto inglês com bola, juntamente com a animada criançada das cercanias, colimando preservar incondicionalmente a candura e a alvura do rapazote, parecendo lícito ventilar que talvez essa redoma de vidro profilática, por assim dizer, a que foi submetido desde tenra idade, não tenha exatamente surtido os efeitos aguardados, a teor, verbi gratia, da bronquite asmática de etiologia certamente histamínica que o acometeu desde a primeira infância e o acompanhou por muito tempo após essa época, para profundo desgosto e pavor maternos, sendo certo, todavia, que Ícaro desde logo demonstrou relevante apreço e interesse pela arte da observação ornitológica, e mostrou-se também desde cedo grande desenhista de aves das mais variegadas espécies, acumulando no curso do tempo uma quantidade bastante importante de cadernos ilustrados com quase todos os mais importantes pássaros regionais, com evidente destaque para os variados tipos de abutres e urubus que habitavam tanto a topografia local quanto o imaginário fértil de Ícaro.

Com seu pendor para os concentrados estudos e vocação para lidar com números e seres alados, Ícaro, aos quinze anos de idade, logrou a façanha de ser aprovado na famosa escola preparatória dos cadetes do ar, situada na cidade também mineira de Barbacena, nas adjacências de São João del-Rei, onde foi preparado para uma carreira militar de oficial aviador das forças armadas, mas, ao concluir o triênio do curso de cadetes, seu destacado intelecto matemático naturalmente conduziu-o a ser admitido com galhardia e airosamente no mundialmente prestigiado instituto tecnológico da aeronáutica, em São José dos Campos, no vale do rio Paraíba, interior do Estado de São Paulo, ocasião em que, aos dezoito anos de idade, foi acometido por severo surto psicótico de teor religioso, talvez por ser agora obrigado a substituir São João por São José, mas isto constitui somente uma arriscada pilhéria, pois a verdade é que tinha absoluta certeza de quedar sob domínio de alguma entidade demoníaca, considerando os estranhos pensamentos que lhe ocorriam, tais como confundir a imaculada Maria, mãe de Jesus, com a supostamente pervertida Maria Madalena bíblica, bem assim, pasme, acreditar piamente que a água benta, terna e carinhosamente oferecida como cura por sua própria mãe, seria na verdade veneno letal, mas tal episódio soturno de sua existência não obstou, no entanto, que encetasse o curso de engenharia aeronáutica no vale do Paraíba, com desinibir-se até mesmo com certo destaque acadêmico entre os colegas epígonos do instituto, dado o talento matemático que sempre acalentara e que lhe auxiliava sobremodo na elaboração de projetos de asas de aeronaves movidas a propulsão a jato, asas estas sempre inspiradas nos membros alados dos seus abutres favoritos da infância e adolescência, cabendo aventar que ao final de tal curso, os pais de Ícaro o enviaram, com os meios financeiros de que dispunham em razão dos lucros agropecuários, aos Estados Unidos da América do Norte, no intuito de aperfeiçoar seus conhecimentos sobre projetos de aviões em investigações de doutoramento em universidade de nomeada, talvez a melhor do mundo na especialidade eleita, o que lhe capacitou a ser empregado profissionalmente, logo após a conclusão do doutorado, em uma grande indústria yankee de aeronaves de jaez militar, localizada no noroeste daquele país de inclinação imperialista.

Ícaro envidou todos os esforços e sabedoria sobre asas para lograr sucesso profissional naquelas terras estrangeiras, pois encerrava, no âmago recôndito de suas pretensões, a veleidade um tanto ingênua de um dia retornar a seu país natal como herói nacional, e nessa dedicação hercúlea, e mesmo insana, ao êxito industrial logrou desenvolver um ousado e pioneiro projeto de aeronave militar capaz de remanescer incólume e oculta aos radares inimigos, apta portanto a penetrar qualquer território de maneira insuspeita e furtiva, projeto este que foi denominado no idioma anglo-saxão como stealth bomber, sendo certo que tal aeronave foi efetivamente produzida em larga escala pelo país do sonho americano e obteve enorme sucesso comercial e operacional.

Todavia, pouco tempo depois, Ícaro retornou ao seu amado país natal, mas não como herói nacional, e sim dentro de um féretro hermeticamente lacrado, pois atentara de forma bem sucedida, mas sob circunstâncias extremamente suspeitas, contra a própria vida, no noroeste dos Estados Unidos, após restar ciente de que hospitais e escolas civis, de uma distante e paupérrima nação oriental inimiga dos imperialistas, tinham sido atingidos letalmente por bombas lançadas pela aeronave bombardeira furtiva que idealizara.




Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira.

sexta-feira, 27 de março de 2026

O SANTEIRO

PARA GUIDO ROCHA, in memoriam

PARA RONALD ROCHA. 



As águas pluviais precipitavam-se torrencialmentelogo pela manhã, sobre as escarpas íngremes das montanhas naquela vila das Minas Gerais na colônia portuguesa das Américas, mas tal condição não obstou os trabalhos do sacerdote católico na capela incrustada no alto de um morro na periferia daquela relativamente singela aglomeração urbana, e o padre então prolatou locuções canônicas de exorcismo batismal diante de pais atônitos que seguravam no colo sua criança, a qualassombrada com a situação, emitia gritos inexoráveis do mais puro terrormas esse vigário não se detinha e, incontinenti, tomou a criança em seus braços e a mergulhou com celeridade na pia de batismoproferindo simultaneamente a seguinte fórmula sacramentalEu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém”

Àquela criança franzina, de delicada higidez física, foi atribuída a alcunha de Roque, mas sua fragilidade constitutiva não configurou entrave a uma infância bastante animada e feliz, nos limites um tanto estreitos de um filho de carpinteiro que, malgrado sua reconhecida habilidade profissional, não sabia muito bem como administrar onegócios e, na maioria das vezes, era logrado nas celebrações contratuais, mas, não obstante seu estilo de vida frugal, procurou transmitir seus conhecimentos Roque quando este completou doze anos de idade,tarefa esta que, no entanto, exibiu-se liminarmente infrutífera, pois o garoto não encerrava o menor talento para as artes manuais, conquanto quedasse absorto com as leituras bíblicas que encetava secretamente, noites adentro e sem conhecimento ou concurso dos pais, o que demonstrava sua religiosidade já entranhada e epidérmica, de tal sorte que seu genitor, colimando curar a inépcia e imperícia de Roque quanto ao ofício da carpintariaresolveu então conduzi-losob seus veementes protestos, a um ritual de despacho, de crença originalmente africana, em logradouro ermo nas cercanias da vila onde fincavam moradia, trabalho este que, todavia, não surtiu efeitos imediatos, para desgosto do pai.

Passados alguns meses, no entanto, Roque logrou sozinho e com muita presteza, para grande espanto e comoção de seu progenitor, entalhar em madeira, com exímia perfeição, um boneco articulado para uso em teatro de marionetes, pois acalentavajuntamente com alguns amigos do bairro, as artes cênicas com títeresmediante peças teatrais habitualmente desinibidas no sótão de um casarão onde residia um destes colegas de infância, em ocasiões lúdicas e de pronunciado júbilo coletivo, conquanto secretas e de participação exclusiva da agremiação de meninos das adjacências, que geralmente brincavam juntos nas vias públicas locais, cabendo destacar que, certa feita, no aludido sótão, Roque encontrou uma Bíblia ilustrada que continha uma vasta figura antropomórfica do Demônio e, ao deparar-se com tal desenho, foi acometido por grave surto de pânico, tamanho foi o assombro provocado por aquela imagem aterrorizante, a qual, na verdade, não se desligou de seus pensamentos durante meses a fio, com ensejar-lhe severa prostração que o cingiu a permanecer acamado por todo esse nebuloso período.

Tal estado letárgico, em verdade resultante de genuína crise religiosa, durou aproximadamente seis meses, ao final dos quais um evidente milagre ocorreu, eis que Roque, recobrando a vitalidade e o vigor juvenis, passou a dedicar-se com notável afinco à escultura em madeira e em pedra sabão, parecendo lícito ventilar queem pouco tempo, tornou-se um dos mais festejados e requisitados artistas de extração católica daquela vila, com produzir em escala quase industrial um sem número de imagens religiosas de crucifixos, de santos e de Nossas Senhoras imaculadas, cujos ligeiramente melancólicos semblantes eram amiúde banhados em ouro obtido naquela mesma região, e que adornavam tanto santuários quanto residências, sendo certo que a fama do rapaz logo encetou a exorbitar os quadrantes das Minas Gerais para chegar à metrópole lusitana, ensejando inclusive estudos acadêmicos de especialistas que vinham ter àquela singela vila colonial exclusivamente para averiguar, de perto, a verdadeira revolução na estética barroca em vias de construção pelo jovem Roque, que enfim amealhou, destarte, dinheiro suficiente para comprar o mencionado casarão, em cujo sótão surtara diante da imagem demoníaca, tornando-se, assim, um sujeito abastado e senhor de escravos, com importantes laços sociais na elite da vila e das paragens próximas, conquanto jamais tenha contraído núpcias, talvez em razão de uma existência quase monástica na extrema devoção ao labor de jaez artístico e religioso.

A figura plácida e quase esquálida de Roque contrastava, de certa forma, com sua animação e entusiasmo por ocasião das reuniões festivas que patrocinava em seu lar no intuito de consolidar e ampliar seus laços sociais, os quais, de maneira bem pragmática, ensejavam-lhe incremento dos negócios enquanto santeiro, e dentre os senhores que frequentavam tais animados encontros havia um dentista que invariavelmente introduzia temas políticos nos respectivos colóquios, sempre acalentando inflamado proselitismo a propósito das vantagens a serem hauridas por eventual independência das Minas Gerais em relação à metrópole lusitana, e parece lícito aventar que, na verdade, os discursos, digamos, subversivos de tal dentista no casarão de Roque, no curso do tempo, convolaram-se na principal atividade dessas festas que agremiavam cada vez mais assíduos frequentadores e apoiadores das premissas de uma ruptura política com Portugal, malgrado o absoluto desinteresse do dono da casa em relação a tais temas, os quais se lhe antolhavam bastante tresloucados e sem real importância, muito embora tolerasse de bom grado as conversas a propósito nas dependências de sua propriedade, até que, em certa noite fresca de lua cheia, um de tais encontros foi abruptamente interrompido por violenta invasão do casarão de Roque por forças públicas, as quais arrestaram liminarmente e sem grandes justificativas todos os presentes ao convívio, conduzindo-os incontinenti aos porões do presídio local, sendo certo que aqui se enceta um verdadeiro martírio do nosso prezado santeiro. 

Sem embargo, nos dois meses em que permaneceu sob custódia, Roque foi barbaramente torturado por um agente das forças públicas, portador de intensos olhos de coloração azul clara e de longos cabelos e barbas loiros, o qual invariavelmente se apresentava, vestindo sempre uma túnica alva como as nuvens do céu, sob o epíteto de “Jesus Cristo”, e infligia à figura pequena, esquálida e quebradiça do santeiro as mais cruéis atrocidades, como privação de sono, espancamento, chibatadas, afogamento em banheira, suspensão em pau-de-arara por dias a fio, enfim, coisas inomináveis que foram suportadas, todavia, com inacreditável galhardia, e mesmo airosamente, por aquele sujeito frágil e miúdo. 

Logo após sua soltura do presídio, Roque concedeu alforria a todos os seus escravos e passou a produzir, com sofreguidão evidente, crucifixos de avantajada dimensão que destoavam completamente das plácidas e serenas figuras de outrora, pois agora a imagem de Cristo assemelhava-se mais ao próprio Roque durante as sessões de tortura, sempre esquálido, com as pernas tensamente dobradas, o semblante quase monstruoso a lançar um grito lancinante pelos lábios escancaradamente abertos e olhos esbugalhados, cabelos desgrenhadamente eriçados e corpo absolutamente hirto.

Despiciendo dizer que Roque não convolou qualquer desses crucifixos agonizantes em dinheiro, mas alienou todas as suas posses para causas que hoje denominaríamos como humanitárias, vindo a falecer na mais completa miséria e obscuridade. 





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.  

terça-feira, 24 de março de 2026

ESCOLA E PARTIDO

Consoante já visto neste portal eletrônico, a escola na sociedade burguesa desincumbe-se da tarefa de produzir a força de trabalho para o capital, de modo que o conhecimento nela produzido encerra a chancela de veracidade no universo empírico, isto é, no real dado, atual e presente.


A escola do partido verdadeiramente revolucionário produz a classe trabalhadora contra o capital, e o conhecimento assim haurido encerra a respectiva chancela de veracidade na práxis revolucionária, que funda uma nova sociedade ou modo de produção ainda inexistente, portanto um conhecimento concreto que supera o meramente empírico.


Isto é consentâneo com a segunda tese contra Feuerbach, em que a prática revolucionária exibe-se como medida de validade do conhecimento científico.


O partido, pois, deveria ser o locus privilegiado de junção entre teoria e prática revolucionárias, em que a dicotomia platônica entre racionalismo e empirismo epistemológicos seria devidamente superada.







Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira.

domingo, 22 de março de 2026

AS ABERRAÇÕES DE FRANZ KAFKA E DAVID LYNCH

Em "A Metamorfose" de Franz Kafka, a aberração, consistente na transformação de Gregor Samsa em inseto monstruoso, insere-se no cotidiano ordinário de uma família normal e é narrada de forma cartorial e burocrática, enquanto em "O Processo", do mesmo autor, a aberração torna-se difusa na narrativa e nas relações entre as respectivas personagens, talvez para demonstrar o estranhamento das relações sociais decorrente do fenômeno designado como "alienação" pela tradição marxista.

Quer me parecer que a mesma  trajetória artística foi devidamente percorrida pelo cineasta David Lynch, pois, sem embargo, se em seu filme "Eraserhead" a aberração instala-se no cotidiano e, em "O Homem Elefante", ela já correponde a uma história, pasmem, verídica, suas películas ulteriores, desde "Blue Velvet" até "Mulholland Drive" e "Inland Empire", dissolvem a aberração na estrutura narrativa onírica e surreal, traço distintivo deste realizador. 

Hipóteses sub judice. 





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA. 

GÊNESIS

No livro de Gênesis, que inaugura as Sagradas Escrituras da tradição judaico-cristã, já está inscrito, de forma religiosa, o fundamento teórico do materialismo histórico, também denominado socialismo científico, representado pela produção e reprodução da vida material humana, a qual se bifurca em reprodução sexuada e trabalho.

Sem embargo, já na queda ou expulsão do Jardim do Éden, o ser humano perde a imortalidade e o alimento abundante, devendo trabalhar para sobreviver, bem assim reproduzir-se sexuadamente para se multiplicar e, destarte, evitar a extinção da espécie.

Todavia, o trabalho divide os seres humanos em classes sociais distintas e antagônicas, enquanto a reprodução sexuada une os seres humanos ao entrelaçar as famílias. 

Mas é mister ainda coadunar o tamanho da população com o volume de trabalho, algo a ser alcançado em um modo de produção vindouro, ou sociedade futura, despojado de divisão em classes sociais antagônicas, de tal sorte que, por ora, a repressão da libido ainda é o meio mais arcaico e difuso de controlar a explosão demográfica e o resultante descompasso entre tamanho da população e volume de trabalho, enquanto o controle estatal de natalidade, para fins de planificação econômica, ainda não pode ser plenamente aplicado e desenvolvido.

Por isso, a reprodução sexuada ou, mais especificamente, o desejo sexual é visto religiosamente, de certa forma, como pecado original e deve ser, em certa medida, reprimido. 

Hipóteses sub judice.






por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.    

quinta-feira, 19 de março de 2026

O COMUNISMO COMO MOVIMENTO E TENDÊNCIA HISTÓRICOS OBJETIVOS

Movimentos estéticos ou políticos parecem encerrar um jaez de liberdade subjetiva, como se fossem escolhas livres de um conjunto de pessoas em favor de determinado escopo que pode ou não ser alcançado.

Como já obtemperava Hegel, todavia, a liberdade é a consciência da necessidade. 

Nesse diapasão, o Manifesto Comunista inaugura, em grande medida, um movimento político manifesta e declaradamente objetivo, no exato sentido de que não se cuida de escolha subjetiva marcada pela liberdade dos indivíduos que integram o movimento, mas de uma necessidade histórica objetiva que suplanta o âmbito individual para adquirir teor de classe social, nomeadamente da classe do proletariado. 

Tal acepção é, de certa forma, aprofundada e radicalizada por Karl Marx em sua obra posterior intitulada O Capital, em que as classes sociais perdem qualquer resquício de subjetividade para encerrar o caráter de suportes ou  vetores de relações ou modos de produção, mas nota bene.

O Capital culmina com a lei da queda tendencial da taxa de lucro, vale dizer, uma lei econômica que reflete uma tendência histórica que pode ser obstada por contratendências, exatamente como o movimento comunista objetivo, que pode ou não realizar-se no vindouro modo comunista de produção, mas ainda encerrando o jaez de necessidade objetiva, na medida em que sua alternativa seria a pura e simples barbárie, e não um modo de produção sucedâneo do comunista.




por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.  

segunda-feira, 16 de março de 2026

ATARAXIA E HEDONISMO

ATARAXIA E HEDONISMO  

 

Por Luis Fernando Franco Martins Ferreira.

 

À toda evidência, a realidade exibe-se bem mais complexa e multifacetada do que pode supor nossa vã literatura, constatação esta que demonstra, em boa medida, minha ciência com relação aos riscos de rabiscar, nestas singelas folhas de papel, excertos da vida de duas personagens não tão fictícias assim, mas impende asseverar que muito provavelmente aquela doença insidiosa, nomeadamente o transtorno afetivo bipolar, a qual engendrou uma verdadeira endemia pestilenta naquela família brasileira, tenha sido importada da Alemanha para o estado de Minas Gerais, no Brasil, através da misteriosa figura de Bárbara Maria Eugênia, bisavó dos gêmeos, ainda no século XIX, cabendo destacar que a filha desta senhora germânica, de epíteto Margarida, veio a falecer abrupta e solitariamente, pasmem, no famoso manicômio do Juqueri no estado de São Paulo, por causa deste distúrbio anímico, mas o mais interessante desta história toda é que os próprios gêmeos acima aludidos parecem ter coexistido concretamente como polos opostos da mencionada afecção psíquica, dado o abismo que seus percursos vitais manifestaram, o que me conduz à conjectura de que não se cuidava de gêmeos univitelinos, malgrado a assombrosa semelhança física que os unia, ambos muito parecidos com o festejado escritor, também alemão, Günter Grass, mas sem qualquer parentesco conhecido com este nobre artista das letras teutônicas, de tal sorte que se faz mister agora, em prossecução do vertente relato, encetar a prova de minha hipótese de trabalho, o que faço na sequência desta narrativa.

Valtinho manifestara desde tenra idade um notável pendor para as artes e para as ciências exatas, tanto que na sua adolescência integrou, como membro destacado, um grupo de amigos de bairro que se autointitulavam Os Hienas, cujas reuniões, na década de 1960, eram dedicadas ao deleite do jazz e das artes plásticas, e cuja influência sobre sua personalidade introspectiva e circunspecta fez-se notável, tanto que Valtinho colecionou uma discoteca particular de dez mil discos de vinil, na sua esmagadora maioria versando sobre jazz, e esmerou-se também como pintor de quadros que retratavam, com meticuloso e fidedigno realismo figurativo, seus heróis daquela vertente musical de origem afro-americana, parecendo lícito aduzir ainda que sua figura grave e esguia de intelectual com vastos bigodes negros, mais inclinado às disciplinas clássicas do que às exatas, sempre acompanhada, na semipenumbra, por uma taça de vinho ou um copo de whisky, bem assim por cachimbo amiúde alimentado com fumo de odor de chocolate, tal figura contrastava manifestamente com o ofício que adotara por profissão, a saber, a de programador de computadores, conquanto jamais tenha haurido diploma universitário oficial em nenhuma disciplina, mas tenha logrado certo sucesso profissional na orbe da tecnologia da informação, como executivo de grandes empresas multinacionais, o que pode ser patenteado por seus serviços desenvolvidos, inclusive, no âmbito internacional, em países como Noruega, Suíça, Inglaterra e Venezuela.  

Tal panorama flagrantemente promissor da vida material e intelectual de Valtinho, todavia, não durou muito tempo, pois seu segundo filho nasceu afetado por severíssimo autismo que obstava inclusive a dicção, e tal padecimento efetivamente consumiu uma parcela muito significativa de seu élan vital, tanto que, logo ao restar ciente do diagnóstico deste segundo filho, Valtinho interrompeu incontinenti uma das atividades que mais apreciava, vale dizer, a correspondência epistolar com seus amigos europeus e norte-americanos acerca de jazz, sob o doloroso argumento de que, agora, porção de extrema importância de sua energia e suas posses materiais voltar-se-ia aos cuidados do rebento autista, parecendo imperioso relatar que também foram liminarmente canceladas as outrora animadas festas periódicas em sua casa, destinadas à audição musical e jogos correlatos, especificamente para adivinhar a identidade do artista que tocava determinada faixa de um disco, cuja performance e autoria não eram reveladas, sendo certo que, malgrado tais limitações lancinantes de suas atividades edificantes e jubilosas, nosso herói jamais perdeu certa ataraxia estoica no comportamento, a qual se coadunava com determinado modo perenemente atrabiliário de conduta.

Tal solenidade e percuciência ensimesmadas de Valtinho contrapunham-se, de maneira antípoda, à opulência e exuberância da pessoa de Franco, seu irmão gêmeo, um legítimo desbravador de mundos, tanto que a mais remota e persistente reminiscência desse meu amado tio quedou guardada como um singelo regalo com que ele me presenteou quando eu ainda era um meninote imberbe, isto é, um romance de autoria de Jules Verne intitulado “A volta ao mundo em oitenta dias”, fato que decididamente inaugurou minha famosa bibliofilia e que de certa forma evidencia o jaez aventureiro de sua natureza inquieta, natureza esta que o conduziu na adolescência a frequentar, colimando tornar-se aviador, o festejado curso da escola preparatória de cadetes do ar em Barbacena, no mesmo estado de Minas Gerais, onde certa vez chegou a ser momentaneamente preso por pular o muro do estabelecimento para namorar durante a madrugada, mas o fato é que aquele período, destinado aos estudos aeronáuticos, mostrou-se simultaneamente fértil e problemático, dada certa inadequação entre seu caráter turbulento e a rigorosa disciplina de caserna, oposição esta que demarcaria profundamente seu espírito, tanto que decidiu por deixar a aviação militar para aventurar-se profissionalmente, de início, como piloto de aeronaves civis da empresa incumbida do transporte aéreo regional na bacia amazônica, nos estados do Pará e do Amazonas, no norte equatorial brasileiro, onde por vezes pousava o respectivo avião em pistas sem pavimentação no meio da gigantesca floresta tropical e era obrigado a aguardar, por dias a fio, o combustível chegar por barco para finalmente retornar à assim denominada civilização, cabendo destacar ainda que esse meu tio Franco relatou-me ter desfrutado de várias noites de Natal absolutamente sozinho e solitário, seja na capital, seja no interior da floresta, experiências estas que moldaram uma certa carapaça inescrutável da sua tormentosa personalidade.  

Após tal profícua estadia profissional na região amazônica, Franco mudou-se para o Rio de Janeiro para servir como piloto de uma grande empresa aérea de voos internacionais, chegando a figurar como pioneiro de uma dada aeronave de grande porte e alcance intercontinental, a qual teve a honra de deslocar para o Brasil desde Seattle, nos Estados Unidos, cidade onde, naquela ocasião, veio a conhecer sua futura esposa, uma cidadã norte-americana de alcunha Diane, com espírito igualmente aventureiro, que vivera em terras brasileiras durante a adolescência e era fluente no idioma português, chegando a constituir com esta moça estrangeira uma família com mais dois filhos homens, mas o fato é que a natureza tumultuada de Franco conduziu-o a encetar graves altercações com um superior hierárquico, as quais lamentavelmente o fizeram desligar-se daquela notável empresa aérea, para então partir com Diane, que estava grávida, de volta para Seattle, onde estabeleceu-se como instrutor de aeronautas na formidável indústria de máquinas aladas da região, porém logo seu primogênito nasceu e meu tio, afortunadamente, hauriu uma oferta de emprego irrecusável para prestar serviços como aviador na distante Austrália, local em que seu segundo rebento veio à luz para completar a configuração de sua família, e onde prosperou como aeronauta e também como empresário do setor de alimentação e entretenimento, chegando a dirigir, enquanto proprietário, um restaurante bastante conhecido e bem frequentado no elegante litoral australiano, especializado em culinária brasileira e que patrocinava apresentações de dança e música da cultura do Brasil em suas dependências.

Tal quadro auspicioso, todavia, também começou a arruinar-se pela silenciosa e gradativa manifestação daquela traiçoeira enfermidade da alma, o transtorno afetivo bipolar, outrora designada como psicose maníaco-depressiva, que encetou a corroer insidiosamente o equilíbrio emocional, tão necessário ao exercício do ofício de comandante aeronáutico, de meu tio Franco, mas o fato é que, ironicamente, não foi exatamente tal afecção que o trouxe de volta à sua terra de origem, mas a ruína da própria empresa aérea australiana em que laborava como aviador, que veio a falir de inopino e conduziu a família deste meu parente para a cidade de Natal, no estado do Rio Grande do Norte, onde se estabeleceu, mediante as economias financeiras que amealhara na Oceania, como proprietário de imóveis nesta região nordeste do Brasil, vivendo de renda de tais propriedades, até que a degradação psíquica consumisse por completo sua vontade de existir, e então despediu-se deste mundo por complicações decorrentes de uma severa pneumonia, aos 58 anos de idade.

Meu outro e adorado tio, Valtinho, veio a óbito muito tempo depois, aos 81 anos de idade e em lamentável condição financeira, consumido pela enfermidade de seu segundo filho, que expirara um ano antes, fato que demonstra o carinho e a dedicação que devotara a este amado e problemático rebento assolado pelo autismo, pois Valtinho substituíra as potencialidades de seu brilhante intelecto pelos cuidados incondicionais direcionados a esse segundo filho, que se convolou em sua verdadeira razão de existir e erradicou qualquer traço de egoísmo de seu nobre caráter moral.

Despiciendo ventilar que muito aprendi com os exemplos perenes de Valtinho e Franco, meus adorados tios maternos, mas o equilíbrio entre ataraxia e hedonismo talvez seja um legado involuntário que os gêmeos antípodas me transmitiram, herança esta de que ainda não pude desfrutar em toda a sua plenitude.

sábado, 14 de março de 2026

PAULINHO DA VIOLA

Paulinho da Viola é provavelmente um dos maiores músicos da história brasileira, e certamente o maior sambista, mas sua obra, na minha humilde opinião, atinge a epítome com a canção intitulada "Pecado Capital". 

Vejamos.

Na produção e reprodução da vida material humana em sociedade, a reprodução sexuada une os seres humanos, entrelaçando as famílias, enquanto o trabalho, que culmina na categoria econômica do dinheiro, divide-os em classes sociais antagônicas, mas também os separa e isola como indivíduos portadores de mercadorias a serem vendidas através do mesmo dinheiro, que nada mais é do que o instrumento da circulação de mercadorias. 

Ora, na circulação de mercadorias, cada indivíduo procura levar o máximo de vantagem sobre o outro, de tal sorte que o portador de mercadoria a vender, inclusa a força de trabalho, considera o comprador como seu oponente, e não colaborador ou cooperador: o dinheiro produz e reproduz a propriedade privada que opõe os seres humanos como indivíduos e como membros de classes sociais antípodas. 

Por isso, como preconiza a letra da mencionada canção, dinheiro é solução e... solidão.

Um artista genial! 





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA. 

DA REPRESSÃO DA LIBIDO AO CONTROLE DE NATALIDADE.

Consoante já visto aqui ad nauseam, a produção e reprodução da vida material humana bifurca-se em reprodução sexuada e trabalho, sendo certo que, se no segundo caso faz-se mister adequar oferta e demanda econômicas, também urge coadunar a reprodução sexuada com o trabalho, de forma a limitar o número de filhos para aliviar o fardo do trabalho.

A repressão da libido ou da sexualidade consiste numa forma histórica inicial, tosca e grosseira, de limitar a prole no âmbito ainda da família, forma esta que se perpetua no curso da história, enquanto o controle de natalidade consiste já em forma estatal e científica de coadunar o tamanho das famílias com as possibilidades econômicas gerais da nação.

O predomínio da repressão da libido ou sexual em relação ao controle de natalidade exibe-se como questão de propriedade dos meios de produção, sendo certo que a propriedade privada destes meios ainda confere sobrevida à repressão da libido, enquanto a vindoura propriedade coletiva dos meios de produção no comunismo mundial estimulará o controle de natalidade em razão e com o objetivo de planificação econômica.   

Hipóteses sub judice. 





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA. 

sexta-feira, 13 de março de 2026

UM ENCONTRO ENTRE A TEORIA E A PRÁTICA

O socialismo científico ensina que a veracidade de um pensamento reside na prática, e, nesse sentido, o gigantesco estadista Lula pode ser considerado como um dos grandes socialistas de nossa época. 

Suspeito que Lula jamais se encontrou pessoalmente com outro gigante, o filósofo marxista francês Louis Althusser, o qual preconizava o determinismo econômico, isto é, o pejorativamente denominado "economicismo",  de maneira bastante enfática. 

Mas Lula provou que Althusser estava correto em seu postulado economicista, especialmente ao levar uma das mais importantes ditaduras militares capitalistas do mundo ao colapso, mediante um movimento paredista que castigou o supedâneo industrial de tal regime autoritário até o seu completo sufocamento, demonstrando na prática que a guerrilha urbana, conduzida por parte da esquerda política da época, exibia-se pouco efetiva se comparada às greves cirurgicamente direcionadas contra o pólo econômico de sustentação ditatorial, no assim designado ABC paulista. 

Dirão, talvez, que o economicismo de Lula conduziu-o a certo reformismo político: será?

O que seria do capitalismo mundial se uma greve geral, no melhor estilo teórico de Rosa Luxemburgo, atingisse o hodierno pólo industrial chinês, por exemplo?

Ainda não podemos saber, mas o poder econômico que os trabalhadores encerram em suas mãos faz tremer os tiranos imperialistas, ora em situação de ataque quase suicida.





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA. 

quarta-feira, 11 de março de 2026

PROUST E KAFKA

Já postulamos aqui, ad nauseam, que a produção e reprodução da vida material humana em sociedade bifurca-se em:

1. Universo da reprodução sexuada, em que os seres humanos contraem entre si relações subjetivas e afetivas, vinculadas às emoções e aos sentimentos, parecendo lícito ventilar que a obra de Marcel Proust situa-se mais próxima de tal universo, eis que sua narrativa não colima ou divisa a verossimilhança objetiva em relação ao tempo linear e absoluto, mas resulta fragmentária, introspectiva e dispersa como a mente e a memória humanas;

2. O universo do trabalho, mediante o qual os seres humanos contraem entre si relações de produção ou de propriedade objetivas, mais vinculadas à razão do que às emoções, cabendo destacar que a obra de Franz Kafka subsume-se melhor neste universo, eis que sua narrativa divisa e colima precisamente uma verossimilhança realista e objetiva em relação ao tempo linear e absoluto, exibindo até mesmo um jaez burocrático e cartorial do tipo weberiano.

O resultado disso, todavia, é que a obra de Proust exibe-se muito mais realista, objetiva e verossímil do que a prosa absurda e fantástica de Kafka.

Hipóteses sub judice.





por LUÍS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA. 

SINGELA NOTA SOBRE O FANTÁSTICO E O ABSURDO

Permitam-me exercer um pouco da faculdade de elucubração para tecer um singelo comentário:  


Os obras fantásticas de Edgar Allan Poe e Robert W. Chambers exerceram uma influência indireta sobre a literatura de Franz Kafka, máxime em A Metamorfose!


Sim, se Poe e Chambers inserem as fantasias e bizarrices no âmbito sobrenatural, Kafka as transpõe para o mundo natural e cotidiano com naturalidade burocrática, numa linguagem cartorial que remove todo o assombro daquilo que nos parece absurdo!


Kafka, portanto, é herdeiro de Poe e Chambers, de certa forma, e precursor do teatro 🎭 do absurdo de Samuel Beckett e Eugene Ionesco!





Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira